terça-feira, 15 de novembro de 2011

Comissão Justiça e Paz de Setúbal pondera participar na greve geral

Vários elementos da Comissão Diocesana Justiça e Paz de Setúbal admitem participar na greve geral do próximo dia 24, noticia hoje o jornal digital da renascença Página 1.
“Ponderamos a hipótese de participar de forma organizada e, até, de apelar aos cristãos que participem
na manifestação, demonstrando algum desagrado pelas coisas que estão a acontecer por aí”, disse o responsável da comissão setubalense, António Soares.
Os cristãos têm de saber dizer ‘não’, sublinha a Comissão Diocesana Justiça e Paz de Setúbal, que lança duras criticas às medidas de austeridade do Governo.
“Dizer ‘não’ em voz alta, mesmo de forma ruidosa, é um direito [que assiste] a todos aqueles que se sentem ofendidos na sua dignidade e aqueles a quem são retiradas possibilidades de vida digna. Os cristãos não se podem limitara praticar actos de culto, têm de estar na rua, têm de dizer não quando sentem que há que dizer ‘não’”, considerou António Soares.
Sobre o Orçamento do Estado para 2012, António Soares considera a proposta do Governo desequilibrada, já que pede mais sacrifícios aos mais pobres: “Achávamos que era possível construir um orçamento que tivesse em conta os mais desprotegidos e fosse buscar recursos a quem tem mais meios”.
Mais importante, considera Soares, seria procurar fazer crescer a economia: “É um orçamento que em relação
aos sacrifícios é um bocadinho desequilibrado, por outro lado, tentar que a economia crescesse um pouco, porque isso é condição sine qua non para um melhor futuro para todos”.

Documentário sobre Junqueiro estreia no Porto

Estreia hoje à noite, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), no Porto, um documentário de 90 minutos sobre o escritor, político e jornalista Guerra Junqueiro (1850-1923), realizado por Henrique Manuel Pereira, de 43 anos.
O professor da Escola das Artes da UCP disse à agência Lusa que o trabalho orçado em 10 mil euros conta com a «grande generosidade» dos participantes, como os atores Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho, o realizador Manoel de Oliveira, o cantor Pedro Abrunhosa e o jornalista Fernando Alves, que deu voz à personagem de Guerra Junqueiro.
O documentário sobre as «questiúnculas religiosas e poéticas» do poeta demorou dois anos a concretizar, depois de 100 horas de filmagens e mais de 30 de entrevistas a cerca de 50 pessoas entre as quais familiares, estudiosos, admiradores e contemporâneos de Guerra Junqueiro.
Henrique Manuel Pereira, autor da tese de doutoramento “Guerra Junqueiro -- Da Contradição à Unidade Polifónica”, traça um «retrato inteiro» do «poeta», «político», «colecionador de arte», «homem de ciência» e «pensador», recorrendo a uma recolha «exaustiva» de material de arquivo fílmico, fotográfico e iconográfico.
O trabalho é exibido às 21h30 no pólo da Foz da UCP (auditório Ilídio Pinho), seguindo para o circuito de festivais nacionais e internacionais, estando previsto que passe num dos canais da televisão pública e seja editado em DVD, com legendas em inglês e espanhol.
O filme, que conta com uma banda sonora constituída por composições baseadas em poemas do autor interpretadas por nomes do panorama musical nacional e estrangeiro, é um dos mais importantes momentos da iniciativa “Revisitar/Descobrir Guerra Junqueiro", da Universidade Católica no Porto.
Abílio Guerra Junqueiro, que nasceu em 1850 em Freixo de Espada a Cinta (Trás-os-Montes), iniciou a sua carreira literária em Coimbra no jornal "Folha", onde criou relações de amizade com alguns dos escritores e poetas mais consagrados da sua época.
(Fonte: SNPCultura)

domingo, 13 de novembro de 2011

“O pior não é estar triste”

P. Vítor Gonçalves


“Tive medo e escondi o teu talento na terra.
Aqui tens o que te pertence.”
Mt 25, 25

Observar os rostos matinais na nossa azáfama de formigueiro é uma experiência curiosa. Fechados, ansiosos e apressados, aparentemente zangados com tudo (e das greves ao trânsito, da crise aos imprevistos há sempre tantos motivos para essa zanga, não é?), parece que trazemos um aviso escrito nas testas: “Proibido sorrir”! Contrastando com o cinzento dos rostos desarma-me o sorriso e boa disposição daquele distribuidor de jornais gratuitos (e não é o único), que faça sol ou faça chuva, numa esquina do Marquês de Pombal, entrega o jornal com um sorridente “tenha um muito bom dia”, e à sexta-feira gosta de dizer “tenha um muito bom fim-de-semana”. Não é de invejar o seu trabalho, e deve ganhar uma miséria, mas há uma nobreza e uma humanidade nas palavras e no sorriso que fazem a diferença.
Mais do que talento=dinheiro Jesus aponta-nos o talento da vida, a responsabilidade em desenvolver o que somos e temos. E aí parece que o medo é o grande obstáculo, o acomodamento e a preguiça são escolhas que levam ao “choro e ranger de dentes”. Já sabem que gosto das canções do Jorge Palma e do último disco estas letras são bem actuais:

“Vejo tanto olhar encafuado
em automóveis bestiais
Casos graves de bem estar,
por mais que tenham,
nunca têm a mais.

Aleijados do conforto
refugiados na T.V.
O pior não é estar triste
o pior é não saber porquê”.

A mais insignificante das tarefas pode ser feita com grandeza e o mais alto cargo pode ser desempenhado com tanta desumanidade. O que marca a diferença é sempre a qualidade interior de cada um, a verdade que coloca naquilo que faz, a coragem de não ceder ao “menor esforço”, a libertação da ânsia de ter, a ousadia de sorrir para rostos sisudos. Nenhuma crise é desculpa para desistir de viver. Não é possível desenterrar o “talento-vida” de cada um e arriscar investi-lo de maneiras mais felizes?
Há muitas formas de realizar um trabalho. E os primeiros beneficiários ou prejudicados somos nós. O livro dos Provérbios diz que a mulher “põe mãos ao trabalho alegremente”, e essa qualidade traz luz a tudo aquilo que faz. Bem conheceis a história dos trabalhadores da catedral em que apenas um experimentava, para além do suor e do salário, a alegria de estar a construir uma catedral. Quando o trabalho é apenas um meio de troca para receber “umas massas” a qualquer preço, ou a oportunidade para “encher os bolsos” à custa de negociatas e manigâncias, e não a colaboração na construção do mundo, a ramificação de energia e de vida que beneficia outros, ainda não merecemos o nome de pessoas.
Se o “talento-vida eterna” nos foi entregue o que andamos a fazer dele? Que vitalidade e alegria, ousadia e simplicidade, esperança e criatividade enterrámos debaixo de rotinas e medos, intrigas e desconfianças? É sempre possível fazer a diferença!

À Procura da Palavra
in VOZ DA VERDADE 13.11.2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Violentos ataques ao documento do Vaticano sobre as finanças internacionais

O jornal semanário católico norte-americano Our Sunday Visitor publica hoje, com data de amanhã, 11, um texto da autoria de Greg Erlandson, relativo às reacções provocadas pelo recente documento do Conselho Pontifício Justiça e Paz, a que aqui fizemos referência, num dos últimos posts.
Deixamos, abaixo, a parte inicial e o link para o texto original:
«A verdade é que a Igreja é contracultural de muitas maneiras diferentes, sacudindo a esquerda e a direita.

Antigamente, se um documento do Vaticano fosse recebido com críticas contundentes ou  pura e simplesmente recusado, poder-se-ia concluir que o documento tinha seguramente algo a ver com sexo e que o coro dos reprovadores estava cheio de católicos progressistas que zombavam dos celibatários  imbecis que o tinham elaborarado.
Já não é assim.
Tomemos, por exemplo, a bílis recente vertida por algumas criaturas dogmáticas ligadas à direita católica, quando o Conselho Pontifício Justiça e Paz lançou um documento de 18 páginas, antes da Cimeira do G-20, sugerindo caminhos para a reforma das finanças internacionais.
(...)
Cada um destes plumitivos se deve considerar tantoconservador e ortodoxos; contudo existe um desprezo alimentado pela ideologia perpassando quase todos esses comentários, com o objectivo de difundir em letras garrafais que os católicos não devem perder tempo a ler esse documento, porque está marcado pelo erro.»
Exemplos fornecidos pelo autor:

Para ler o texto original em inglês:

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

«Não façais da Casa de meu Pai uma feira»

Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 
Encontrou no templo os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nos seus postos. 
Então, fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas; 
e aos que vendiam pombas, disse-lhes: «Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai uma feira.» 



Evangelho de João, 22, 13-16 (da leitura de hoje)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Papa entre os 10 mais poderosos do mundo

A lista que a revista Forbes anualmente divulga, sobre o ranking das pessoas mais poderosas do mundo, inclui o Papa Bento XVI na sétima posição. Como reagir a este destaque? Satisfação? Tristeza? Perplexidade? Indiferença?
Que leitura fazer?
Aceitam-se comentários.




quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Quem foi, quem é Jesus Cristo?

Na TSF, Manuel Vilas Boas ouviu os teólogos e pensadores que intervieram no colóquio Igreja em Diálogo, que decorreu em Valadares (Gaia). O colóquio, realizado a 8 e 9 de Outubro, teve como tema "Quem foi, quem é Jesus Cristo?". Entre as vozes que aqui se expressam, estão as dos teólogos Andrés Torres Queiruga, Xabier Pikaza, José Ignacio Gonzaléz Faus, Juan Antonio Estrada ou Juan Jose Tamayo. Participam também o especialista em gnosticismo Antonio Piñero, o eurodeputado Paulo Rangel, e a professora de literatura Isabel Allegro de Magalhães. O programa pode ser ouvido aqui.


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A paz sem vencedor e sem vencidos

Encontro de Assis, 27.10.2011

 













Dai-nos, Senhor, a paz que Vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos destes seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça 
Dai-nos, Senhor, a paz que Vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos Vosso mandamento
Para que venha a nós o Vosso reino 
Dai-nos, Senhor, a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos 
Fazei, Senhor, que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade 
Dai-nos, Senhor, a paz que Vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos 
 SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Crise Financeira: documento do Vaticano recebido com frieza

As reflexões e propostas do Conselho Pontifício para a Justiça e Paz, a que aqui fizemos ontem referência, deixaram aparentemente muita gente incomodada.
O extenso documento, que o próprio Vaticano aparentemente não procurou divulgar muito (a tradução que se conhece, em inglês, nem sequer é oficial), foi recebido com frieza e em alguns sectores com grandes reservas. Basta fazer um circuito pela Internet, com base numa simples pesquisa do Google. Boa parte dos media, nomeadamente em Portugal, pura e simplesmente não deu destaque ao texto (sendo verdade que não era nem é fácil ter acesso a ele).
Por outro lado, houve aqueles que vieram logo, pressurosos, esclarecer que a Nota não tinha por detrás a autoridade do Papa, como se passasse pela cabeça de alguém que uma tomada de posição deste alcance pudesse ser lançada na opinião pública à revelia de Bento XVI.
Claro que os sectores liberais ficaram profundamente incomodados com a crítica ao mercado e ao utilitarismo e, sobretudo, com a proposta de uma autoridade reguladora mundial, que rompa com a lógica de funcionamento do Fundo Monetário Internacional. Uns entendem que a Igreja se mete onde não deve; outros procuraram - logo na sessão de apresentação, na Santa Sé - colá-lo ao movimento dos "indignados" e em particular aos 'okupas' de Wall Street". Os devotos do mercado e das capacidades deste para resolver as crises desqualificam as denúncias e sugestões como "utopia sinistra".
A verdade é que se o Vaticano pretendia com o documento do Conselho Pontífício não apenas influenciar a agenda dos debates do G-20 da próxima semana mas também dar um sinal aos que, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, se vêem cada vez mais apanhados no turbilhão da crise financeira, a estratégia seguida pareceu pobre e desgarrada. Faltou-lhe o elan que leva a Prof. Manuela Silva e membro da Comissão Nacional Justiça e Paz a referir-se-lhe como um documento de leitura obrigatória.
(Foto: Card. Peter Turkson, Presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz)


ACT.:
O site do jornal católico francês La Vie considera que "La presse internationale salue ce matin le document du Vatican demandant la création d'une autorité unique de régulation des marchés." (ainda que não fornecendo indicações que não sejam de meios ligados à Igreja, em Itália e nos Estados Unidos da América). Considera o documento "Un texte d'une importance capitale, qui en France ne semble guère susciter beaucoup de réactions. Sur Internet, en revanche, beaucoup saluent ce texte en soulignant sa proximité idéologique avec la gauche".
Fornece o link para a versão francesa de Pour une réforme du système financier et monétaire international dans la perspective d’une autorité publique à compétence universelle". Por sua vez, o National Catholic Reporter, num trabalho de John C. Allen, alude à "tendency in Catholic circles to become obsessed with how much ecclesiastical authority the gesture or text in question carries". Por outro lado: "Focusing on how much papal muscle the note can flex, however, risks ignoring what is at least an equally revealing question: Whatever you make of it, does the note seem to reflect important currents in Catholic social and political thought anywhere in the world? The answer is yes, and it happens to be where two-thirds of the Catholics on the planet today live: the southern hemisphere, also known as the developing world".

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Vaticano denuncia "idolatria do mercado" e faz propostas para a crise financeira

“Para a reforma do sistema monetário e financeiro internacional, no quadro de uma autoridade pública com jurisdição internacional" é o título de um documento hoje apresentado no Vaticano, produzido pelo Conselho Pontifício Justiça e Paz (CPJP).
O documento surge tendo como motivo imediato a próxima reunião dos países do G-20, na próxima semana em Itália e constitui uma denúncia contundente da "idolatria do mercado" e da ideologia neo-liberal, propondo, ao mesmo tempo, a criação de uma “autoridade pública" com competência universal, uma espécie de “Banco central mundial”.
A crise "obriga-nos a refazer o plano da nossa viagem, a dotarmo-nos de novas regras e a descobrir novas formas de compromisso, de modo a construir com base nas experiências positivas e a rejeitar as negativas", nota o texto.
O organismo da Santa Sé aponta para a “exigência de um organismo que desenvolva as funções de uma espécie de ‘Banco central mundial’ que regule o fluxo e o sistema das trocas monetárias, da mesma forma que os Bancos centrais nacionais”.
Em causa estão “os sistemas de câmbio existentes, para encontrar um modo eficaz de coordenação e supervisão” num processo que, para a Santa Sé, deve “envolver também os países emergentes e em via de desenvolvimento”.
O documento cita a encíclica ‘Caritas in veritate’, de Bento XVI, para apelar a uma “autoridade pública mundial” que seja capaz de favorecer a criação de “mercados livres e estáveis, disciplinados por um quadro jurídico adequado”.
O mercado financeiro global, “que cresceu muito mais rapidamente do que a economia geral”, deve ser colocado sob o controlo de um “número mínimo de regras partilhadas”, entende o CPJP, que lamenta a falta de controlo sobre movimentos de capitais e a “desregulamentação das atividades bancárias e financeiras”.
Entre as possíveis medidas a tomar apresentam-se “medidas de taxação das transações financeiras” destinadas também a “contribuir para a constituições de uma reserva mundial, destinada a apoiar as economias dos países atingidos pela crise, bem como para o resaneamento do seu sistema financeiro e monetário”.
Uma eventual recapitalização dos bancos, com recurso a fundos públicos, deve ser condicionada pela promoção de “comportamentos ‘virtuosos’ e destinados a desenvolver a economia real”.
Lembrando que mais de mil milhões de pessoas vivem hoje com pouco mais de um dólar por dia, o Vaticano afirma que “as desigualdades aumentaram enormemente” no mundo de hoje.
Caso não se encontre “um remédio” para as injustiças que afligem o mundo, o CPJP teme que “os efeitos negativos” que daí derivariam para o plano social, político e económico possam “gerar um clima de crescente hostilidade e, no final, de violência”, chegando mesmo a “minar as próprias bases das instituições democráticas, mesmo das que se consideram mais sólidas”.
Entre as causas da atual crise, o Vaticano aponta o “liberalismo económico sem regras e sem controlo”, situação já enunciada em 1967, pelo Papa Paulo VI, com a sua encíclica ‘Populorum progressio’.
No documento referem-se ainda “três ideologias devastadoras” com responsabilidades na crise - “utilitarismo, individualismo e tecnocracia” – e assinala-se que a situação económica e financeira se deve a “comportamentos de egoísmo, avareza coletiva e açambarcamento de bens em larga escala”.
A nota oficial foi apresentada em conferência de imprensa, no Vaticano, pelo presidente do CPJP, cardeal Peter Turkson, que a considerou como um “contributo” para a próxima reunião do G-20, entre 3 e 4 de novembro em Cannes (França), a respeito da necessidade de uma “ação de conjunto”.
Fonte: Ecclesia/OC Para a leitura de uma versão não oficial do documento em inglês, clicar AQUI.

domingo, 23 de outubro de 2011

Se bem pergunto...


Respondendo ao desafio do PÚBLICO, o professor de Economia da Universidade de Coimbra Elísio Estanque dirigiu uma pergunta ao presidente da República, que poderia muito bem ser igualmente dirigida ao Governo, à Assembleia da República e, já agora, à Igreja Católica que deveria ter uma voz particularmente relevante nesta matéria:
"O Presidente da República, preocupado que está com a 'equidade fiscal', concorda com uma taxação progressiva que  incida mais sobre os rendimentos mais elevados e que os mais  ricos devem contribuir mais para superar crise? Não acha que as grandes fortunas têm sido poupadas? E os nossos jovens? Acha bem que emigrem ou é preferível que protestem?"
O reverso é-nos dado pelo editorial também da edição de hoje do mesmo diário:

"10% dos trabalhadores portugueses recebem o salário mínimo nacional ou menos. Nos sectores têxtil, do vestuário e do calçado, a maior parte das pessoas ganha apenas três, quatro ou dez euros acima do salário mínimo. Os working poor são mais de 12% dos 1,8 milhões de pessoas em risco de pobreza.
A estes é possível antecipar que um novo grupo se junte em 2012. São os portugueses que nas estatísticas oficiais são considerados de classe média: os 2,5 milhões de trabalhadores que hoje ganham entre 700 e 800 euros por mês. Alguns — ou muitos — vão tornar-se working poor".

Mudar de vida, segundo Edgar Morin

O filósofo Edgar Morin, actualmente quase com 90 anos, acaba de publicar na editora Fayard, um novo livro intitulado "La Voie. Pour l'avenir de l'humanité".
No contexto de um dossiê intitulado "À quoi pensent les philosophes", deu uma entrevista à publicação Sciences Humaines, na qual enfatiza a necessidade e urgência de uma mudança de vida e a procura de uma "nova arte de viver". Essa mudança assentaria em princípios como o primado da qualidade sobre a quantidade e do ser sobre o ter, a associação da necessidade de autonomia e de comunidade e a busca da poesia da vida em torno do amor que "é o nosso valor, mas também a nossa verdade suprema".
Tais princípios gerais passam, segundo Morin, por afrontar a tirania do tempo, uma maior conjugação da razão com a paixão, o conhecimento e auto-crítica de si, a desintoxicação face a todas a formas de dependência do consumo.
"A reforma de vida - acrescenta - deve comportar simultaneamente duas profundas aspirações complementares: a afirmação do 'eu' em liberdade e responsabilidade, e a integração do 'nós' que estabelece a ligação ao outro em simpatia, amizade, amor".

O texto da entrevista pode ser lido AQUI.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Solidariedade sim, mas com justiça social

Perante a situação dramática em que se encontra a economia do país, temos vindo a assistir, na sociedade e na Igreja, a um discurso que, sob a capa da "inevitabilidade" de algumas medidas, pretende que não há alternativas e que quem é vítima delas deve "comer e calar", em nome do "bem comum". Para atenuar casos extremos, lá estariam as obras de caridade e as instituições de solidariedade, nomeadamente as católicas, confiantes no apoio de um governo "mais favorável à Igreja".
Esta "doutrina", velha e relha, como todos sabemos, esquece um princípio a que as democracias modernas aderiram e que a doutrina social da Igreja defende e que é o da justiça social.
As políticas brutais que estão a ser aplicadas e que se vão agravar nos próximos anos não nos podem atirar para uma posição de aceitação resignada. Não podem impedir-nos de pensar, de analisar os valores e critérios em que assentam. Não vale tudo, em nome do saneamento necessário das finanças públicas, porque, a coberto de um objectivo aparentemente louvável, podem estar a cometer-se as maiores injustiças sociais. Daí que importa saber:
- O que se está a exigir sobretudo aos segmentos economica e socialmente mais débeis da população exige-se proporcionalmente aos grupos e sectores mais abastados?
- Está-se a considerar devidamente o alcance e a eficácia das medidas propostas? Tem-se em conta outros modos de analisar e de propor soluções para a presente crise?
- Existem razoáveis garantias de que o caminho que está a ser seguido não vai agravar as desigualdades sociais e deixar um ainda maior desequilíbrio entre o capital (nomeadamente financeiro) e o trabalho?

As notícias abaixo poderão ajudar a ver modos distintos de nos posicionarmos nestas matérias:

OE 2012: Geração de sacrifícios
Lusa Lisboa, 18 out 2011 (Ecclesia) – João César das Neves considera que a forma como Portugal encarar os sacrifícios pedidos, no atual período de crise, será “decisiva” para a sustentabilidade financeira do país. 
“Se mergulhar em contestação como os gregos, não haverá solução senão falir. Se suportar os sacrifícios e procurar novas soluções vencerá a crise. Este é o grande desafio desta geração”, defende o economista, na edição desta terça-feira do Semanário Agência ECCLESIA. 
Para o atual professor da Universidade Católica Portuguesa, a perda de “credibilidade externa”, nos últimos três anos, conduziu a nação a um cenário de “medidas dolorosas”, prefiguradas num Orçamento de Estado para 2012 que “parece mau demais para ser verdade”.
Além de promover a subida do IVA em “muitos bens de taxa reduzida”, o Governo apostou na redução de despesas relacionadas com o aparelho de Estado, cortando os “subsídios de férias e de Natal de funcionários públicos e pensionistas acima de certo nível de receita”. 

João César das Neves reconhece que este tipo de “medidas extraordinárias” representa um “violentíssimo esforço de ajustamento” das contas.
No entanto, sair deste caminho seria “admitir à partida a inevitabilidade da derrocada financeira”, o que só conduziria a “cortes imediatos ainda mais drásticos”, acrescenta. 

Recordando a “repetida” incapacidade do Governo em escapar à recessão económica, “simbolizada” na ineficácia de quatro Programas de Estabilidade e Crescimento, o economista espera que o atual Orçamento seja “justificado” através da desejada descida do défice, exigida pela troika.
Agora, “na ausência de mais truques, será dos reais 7,7 % que temos de descer em 2012 para chegar aos pretendidos 4,5% da meta desse ano”, conclui. 
JCP  

Pobreza: Organizações sociais reclamam políticas que puxem Portugal «para a frente» 
Lisboa, 18 out 2011 (Ecclesia) – Algumas das principais organizações portuguesas de solidariedade social aproveitaram esta segunda-feira a celebração do 18º Dia Mundial de Erradicação da Pobreza para pedir ao poder político uma maior intervenção a favor dos mais desfavorecidos. Em entrevista ao programa ECCLESIA, o diretor executivo da CAIS colocou o dedo na ferida, afirmando que a questão da pobreza “não está na agenda de quem tem poder para resolver, tomar decisões e puxar para a frente”. “Temos de ir pelas políticas, os direitos têm de ser salvaguardados, os deveres também, não podemos deixar a cada um fazer o que pode, porque isso não resolverá nunca”, apontou Henrique Pinto. 
Para aquele responsável, Estado e “instituições sociais no terreno” têm cometido o erro de combater a crise, a pobreza e a exclusão social através de soluções temporárias, em vez de garantirem medidas mais definitivas.
“Vamos remendando buracos, pondo pensos ali e além, dando sopas, roupa, encaminhando pessoas para os serviços de saúde, mas não estamos a ir à causa dos problemas”, reforçou.
No entender da EAPN Portugal – Rede Europeia Anti-Pobreza, descobrir as causas da pobreza tem de passar, antes de mais, por “dar maior visibilidade” a este fenómeno, recorrendo ao trabalho voluntário e às “novas tecnologias de informação”.Uma conclusão saída do III Fórum Nacional de Pessoas em Situação de Pobreza e/ou Exclusão Social, que aquela associação de solidariedade organizou esta segunda-feira, no Porto.
Cerca de um centena de pessoas em situação mais desfavorecida foram convidadas a refletir sobre a crise, os seus principais desafios e soluções a aplicar.
Depois desta fase preparatória, o debate centrou-se em quatro áreas principais: emprego/desemprego, prestações sociais, habitação e o papel do voluntário na luta contra a pobreza.
Outra das soluções propostas pelo Fórum foi a promoção de uma “interlocução dos cidadãos desfavorecidos e das organizações sociais junto do Governo e/ou das instâncias europeias, no sentido de criar mecanismos que contribuam para a diminuição das desigualdades sociais”.
Segundo o diretor da CAIS, para além da definição de novas políticas, falta também “reconstruir” todo um sentimento de comunidade, que hoje se perdeu no meio de um autêntico “apartheid social”.
“Estamos cada vez mais a viver num pais onde criamos serviços para quem é pobre, a custo social, e temos preços para quem é rico. Isto divide o país, coloca pessoas numa situação de segunda, terceira classe, e outras em primeira classe”, lamentou.(...) 
D.R.  

Mãos ao ar! 
No país que já era o mais desigual da Europa Ocidental, o que o Governo de Passos Coelho faz, com o OE para 2012, é um verdadeiro assalto fiscal às classes médias ("suicídio assistido" lhe chama o economista e professor do ISCTE Sandro Mendonça) e aos mais pobres, enquanto poupa aos sacrifícios "para todos" bens de luxo como jóias, casas sumptuosas ou carros de alta cilindrada; as próprias subvenções vitalícias aos políticos escapariam se alguns media, JN incluído, não tivessem denunciado ontem o caso. A consultora PwC [PricewaterhouseCoopers] fez as contas e concluiu que, se os contribuintes de baixos rendimentos verão em 2012 a carga fiscal agravada em relação a 2011, os de maiores rendimentos vê-la-ão, em contrapartida, amplamente reduzida. Citada pela edição online do "Expresso", a consultora apurou que contribuintes solteiros com rendimentos inferiores a 1500 euros irão pagar em 2012 mais 8% de IRS do que em 2011 enquanto os que auferem 3 000 ou mais pagarão... menos 8,9%. E o mesmo com os contribuintes casados: rendimentos até 2 500 euros (casais onde só um ganha) vêm agravado o IRS, ao passo que rendimentos de, por exemplo, 6 000 euros pagarão... menos 5,2%; e, do mesmo modo, casais com dois titulares a ganhar até 2 000 euros pagarão mais e os que ganharem acima disso pagarão menos.  Já toda a gente tinha percebido mas é sempre instrutivo verificar que os especialistas (e os números) corroboram o sentimento geral. [Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 19.10.2011]
ACTUALIZAÇÃO:

domingo, 16 de outubro de 2011

À procura da Palavra - TAMBÉM O AZUL É DE DEUS


"Dai a César o que é de César,
e a Deus o que é de Deus".

Evangelho de São Mateus 22, 21
Domingo XXIX do Tempo Comum


Eis a palavra de Jesus mais utilizada, ao longo da história, pelos políticos e senhores do mundo: o que é de César não é de Deus! Nasce assim dupla tentação de confinar a fé à sacristia e remetê-la à esfera privada ou de estabelecer a supremacia do altar sobre o trono. Interpretam-se as palavras ao jeito do freguês: César manda e dispõe no mundo, Deus pode mandar no céu e naquilo que é espiritual! Faz lembrar a anedota do homem que prometeu a Deus, para os pobres, uma grande quantidade de dinheiro se lhe saísse a lotaria; quando foi premiado, diante da montanha de notas, disse: “Olha, Senhor, agora vou atirar todo este dinheiro ao ar; as notas que tu apanhares podes dá-las aos pobres, as que caírem no chão são para mim!”A armadilha que os fariseus estendem a Jesus vira-se contra eles: a imagem gravada na moeda é do imperador, mas a imagem gravada no íntimo de cada pessoa é não é a do próprio Deus?


Jesus não vem trazer um projecto político nem impor um modelo de organização da sociedade. Como sempre, Deus gosta da nossa aprendizagem e da liberdade das nossas escolhas. Vem, sim, revelar a grandeza e dignidade de cada pessoa que tem de ser a base do viver em comum. E promove a unidade entre a fé e a vida quotidiana. Porque havemos sempre de fazer compartimentos? “Esta gaveta é a do trabalho, esta a da família, esta do lazer, e esta dos amigos de sexta à noite, esta do partido político, e esta da missa de domingo”! A vida é um todo e precisamos de estar nela com a totalidade de nós mesmos. Então, os discípulos de Jesus Cristo não podemos passar ao lado da intervenção política e social, não podemos deixar-nos alienar por espiritualismos que pedem a Deus o que está nas nossas mãos mudar, não podemos desistir de promover a paz e a justiça. Dar a Deus o que é d’Ele é dar o amor que compromete e constrói, a verdade que liberta e impulsiona, a beleza que maravilha e salva, a todos os seus filhos!


Ofereceram-me há dias os “fados & canções do Alvim” e não me canso de os ouvir. O guitarrista Fernando Alvim, que durante 25 anos acompanhou Carlos Paredes, oferece nestes discos a magia de uma música que
enche a alma de graça. Convocando amigos para escreverem e cantarem as suas músicas, em “alguns brindes à vida”, faz-nos este desafio: “Vamos sempre a tempo de concretizar sonhos e realizar projectos”! Do azul dos seus olhos e da magia das suas mãos nascem melodias que, para mim, também são “dar a Deus o que é de Deus”. Porque não se trata de devolver o que se recebeu, mas de dar o que se criou e recriou, os laços e a história cheia de beleza de cada um, as possibilidades realizadas e sempre o azul que habita em nós. E ainda que alguns teimem em pintar tudo de negro, acredito que trazemos tanto azul!

(Comentário aos textos da liturgia católica, publicado na edição da Voz da Verdade de 16.10.2011 . imagem tirada daqui )

sábado, 15 de outubro de 2011

De Jesus a Jesus Cristo

Da coluna de Anselmo Borges, no Diário de Notícias de hoje:
"(...) Para os crentes, se Jesus não fosse o Cristo, não passava de mais um combatente bom pela Humanidade e um revolucionário crucificado. Há, porém, um outro perigo, mais subtil: o de se ficar apenas com o Cristo Senhor glorificado, esquecendo o Jesus histórico de Nazaré, e o que ele queria, e o que ele fez, numa mensagem e comportamento que o levaram à cruz.
(...)
Este é que pode ser e tem sido o grande esquecimento [o que se passou entre o nascimento e a morte na cruz]. Tudo começou em São Paulo, que não tinha conhecido o Jesus histórico e, assim, só contactou com o Jesus glorificado, o Senhor, o Kyrios. Foi este Jesus Kyrios (Senhor) que ocupou o centro no quadro de interesses imperiais, como é sabido desde Constantino, e que acabou por legitimar poderes, domínios, guerras, uma Igreja senhorial.
Pensou-se então que bastava prestar-lhe culto -missas, procissões, adorações ao Santíssimo... -, sem a exigência de segui-lo no seu Evangelho do Reino de Deus, no que ele quis e fez com os pecadores, as mulheres, os estrangeiros, na relação com o dinheiro, com a política, os pobres, Deus e a religião. O cristão não precisaria de converterse.
Há um texto terrível do filósofo agnóstico Max Horkheimer, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt: "Jesus morreu pelos homens, não podia guardar-se para si próprio avaramente e pertencia a tudo o que sofre. Os Padres da Igreja fizeram disso uma religião, isto é, fizeram uma religião, que também para o mal (moral) era uma consolação. Desde então isso teve um êxito tal no mundo que pensar em Jesus nada tem a ver com a acção e ainda menos com os que sofrem. Quem lê o Evangelho e não vê que Jesus morreu contra os seus actuais representantes não sabe ler."
Para ler o texto integral: AQUI. 

Sobre o roubo da democracia e a (in)utilidade dos políticos

Há dois séculos, as sociedades não tinham direito a escolher os seus governantes. Foram conquistando esse direito progressivamente. Há 100 anos, em Portugal, a República ainda recusava o direito de voto a mais de metade da população - as mulheres. A sociedade foi conquistando progressivamente esse direito. Que lhe permitiu ganhar o direito a dar cada vez mais voz às pessoas, naquilo que à vida das pessoas diz respeito.

Hoje, a democracia está a ser usurpada aos cidadãos pelo poder financeiro. Os políticos, eleitos pelas populações para, supostamente, gerir os diferentes interesses sociais em conflito, demitiram-se do seu papel de árbitros e representantes de todos, para assumir a defesa de um único segmento das sociedades - o do sistema financeiro, dos "mercados" considerados como entidade abstracta, alheia a quaisquer interesses ideológicos, materiais ou económicos.

Perante este quadro, os cidadãos têm que exigir a devolução do que lhes está a ser roubado. Têm que exigir a restituição da democracia, do direito a fazer escolhas, do direito a eleger políticos que os representem e não os desprezem sobramceiramente. Porque, se assim não for, políticos e governantes não terão, então, qualquer utilidade para os cidadãos - poderíamos, até, dispensá-los, com isso contribuindo para mais uma poupança nos orçamentos dos estados...

Perante este quadro, hoje, cidadãos de todo o mundo estão já a fazer ouvir a sua voz. Desde o centro financeiro de Wall Street às ruas de várias cidades portuguesas, os cidadãos do mundo estão a dizer que querem que as suas vidas sejam decididas por quem é escolhido e não pelos poderes que querem permanecer na sombra. Mesmo sabendo que, nas manifestações de hoje haverá muitas ideias diferentes, diversas estratégias e motivações plurais, elas serão a voz dos cidadãos que querem ver-lhes devolvida a dignidade.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Pluralismo Religioso numa Europa Secularizada

O Pluralismo Religioso numa Europa Secularizada é o tema de um seminário a ter lugar na próxima terça-feira, no Centro de Estudos Sociais (CES), em Coimbra, no qual intervém Vinoth Ramachandra, Secretary for Dialogue & Social Engagement for the International Fellowship of Evangelical Students. A intervenção contará com comentários de Anselmo Borges (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) e José Manuel Pureza (CES da Faculdade de Economia da mesma instituição). O evento decorrerá a partir das 17h00, na Sala 1 do Centro de Estudos Sociais.Informações sobre quem é Vinoth Ramachandra: AQUI.

Novo bispo de Bragança na "Grande Entrevista"


Hoje, às 21h00, o novo bispo de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, vai ser o convidado do programa “Grande entrevista”.
Posteriormente, o vídeo deste momento televisivo poderá ser visto aqui.
A propósito: o mesmo canal exibe também hoje, mas pelas 23h36, o segundo episódio do documentário “Fátima e o mundo”, realizado por Manuel Arouca. Mais informações aqui.

ACT.: Devido à comunicação do primeiro ministro e às repercussões ds medidas de choque anunciadas, a entrevista foi adiada "para data oportuna".