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sábado, 31 de março de 2018

As vozes e os silêncios das mulheres em Sábado de Páscoa


Sojourner Truth (ilustração reproduzida daqui

Na história da Páscoa cristã, o Sábado é o dia das mulheres: Maria de Nazaré guarda, no silêncio, a história de um Filho que a surpreendeu desde o primeiro momento; Maria Madalena e as outras mulheres aguardam, no silêncio, o cumprimento da promessa daquele que elas seguiam, como discípulas, “desde a Galileia”, segundo o relato dos evangelhos – o que faz delas parte integrante do grupo de companheiros de Jesus.
Este texto traz, por isso, as vozes e os silêncios de várias mulheres. No passado dia 21 de Março, o movimento Nós Somos Igreja organizou, na Capela do Rato, uma sessão sobre o tema Celebrar a Mulher: Poesia e Prosa a Várias Vozes
Com o contributo de diferentes pessoas, ouviram-se textos, poemas e canções de mulheres ou que falam sobre mulheres, propostos, lidos ou cantados por António Carlos Cortez (poeta), Camané (fadista), Carlos Alberto Moniz (músico e cantautor), Carminho (fadista), Filipa Vicente (historiadora), Gilda Oswaldo Cruz (pianista e escritora), Jorge Wemans (jornalista), José Manuel Pureza (professor universitário e deputado), Luísa Beltrão (escritora), Luísa Ribeiro Ferreira (professora universitária de filosofia), Margarida Pinto Correia directora na Fundação EDP), Maria Antónia Palla (jornalista), Nelida Piñon (escritora), Simonetta Luz Afonso (museóloga) e Vitorino (músico e cantautor).
A gravação sonora da sessão pode ser escutada aqui.
O percurso de Sojourner Truth, nascida escrava negra como Isabella Baumfree, foi evocado por Filipa Vicente; pouco depois, José Manuel Pureza leu o discurso que a antiga escrava fez na Convenção das Mulheres do Ohio, em Akron (Estados Unidos), em 1851, com o título Não sou eu uma mulher? Um discurso que recusa o silenciamento e convida  à intervenção e ao compromisso, perante as perguntas fundamentais. Fica a seguir a reprodução integral desse texto:

Bem, meus filhos, onde há fumo há certamente fogo. Eu acho que se os negros do Sul e as mulheres fossem para o Norte, todos a falar sobre direitos, os homens brancos ficariam certamente em maus lençóis. Mas afinal de que é que estão todos a falar?
Ali, aquele homem diz que as mulheres precisam de ajuda para subir às carruagens, para passar as sarjetas e para ter sempre, em qualquer lado, os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir às carruagens, a passar por cima dos buracos lamacentos, ou me dá o melhor lugar. E não sou eu uma mulher?
Olhem para mim! Olhem para os meus braços!

sexta-feira, 9 de março de 2018

Mulheres no cristianismo: um ponto de viragem


A irmã Teresa Kotturan (à esquerda), da Federação das Irmãs da Caridade nas Nações Unidas, 
com Shanti Choudhary. Através do apoio de cooperativas fundadas com a ajuda das Irmãs no Nepal, Shanti Choudhary expandiu uma plantação de vegetais, 
o que lhe permitiu encontrar possibilidades de viver dignamente. 
(Foto de Malini Manjoly/Irmãs da Caridade de Nazaré, reproduzida daqui)

Foram muitos os textos publicados a propósito do Dia Internacional da Mulher, que ontem, dia 8 de Março, se assinalou, incluindo sobre a questão do papel das mulheres no interior das religiões – e, em especial, do catolicismo.
Na página da Unisinos, pode ler-se já, em português, a reportagem de Marie-Lucile Kubacki, publicada na revista mensal Donne Chiesa Mondo (Mulheres Igreja Mundo), do jornal L’Osservatore Romano. A reportagem fala dos casso em que muitas religiosas são reduzidas à condição de funcionárias não remuneradas em instituições eclesiásticas ou casas de clérigos. Como a irmã Marie pergunta, na reportagem: “Um eclesiástico pensa que a irmã deva lhe servir a refeição e ficar comendo sozinha na cozinha depois de servi-lo? É normal que uma pessoa consagrada seja servida dessa forma por outra consagrada? E sabendo que as pessoas consagradas destinadas aos serviços domésticos são quase sempre mulheres, religiosas? A nossa consagração não é igual à deles?". (O texto pode ser lido aqui)
Como se assinalava em texto anterior deste blogueestá a crescer o debate sobre o papel das mulheres no interior das comunidades cristãs. No Crux, Claire Giangravè escreve que há sinais de “um ponto de viragem” mesmo no interior do catolicismo, sugeridos pela realização de conferências, debates, reuniões e tratamento do tema em meios de comunicação da própria Igreja.
O texto refere a conferência Vozes da Fé, que esta semana decorre em Roma, onde se ouviu que a Igreja Católica está numa “encruzilhada muito importante” ou, mesmo, a atravessar uma “revolução cultural interna”. “Hoje, a Igreja enfrenta cada vez mais o zelo feminista recém-descoberto no movimento #metoo em todo o mundo, mas também mudanças profundas de dentro”, acrescenta a articulista, num texto que pode ser lido aqui em inglês.
Num outro texto do mesmo jornal digital, John Allen analisa vários contributos na conferência Vozes da Fé, para afirmar que muitas participantes tentam reorientar as estratégias do debate para lá da questão do acesso ao ministério ordenado. “Talvez seja necessário concentrar-se menos no que a Igreja diz ‘não’ e mais sobre aquilo que ele está preparada para dizer ‘sim’, resume o articulista. Na conferência, relata, seis mulheres de diferentes partes do mundo passaram cerca de uma hora sem nunca pronunciar a palavra "sacerdote" – e sem fazer uma alusão indirecta ao debate sobre o sacerdócio. Apesar de, na sua maioria, apoiarem essa reivindicação, consideram que a estratégia deve ser outra, como se pode conferir aqui, no texto em inglês.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Músicas que falam com Deus (40): Uma geografia poética feminina


Seria forçado dizer que há uma especificidade feminina de fazer música. Mas, a pretexto da Música no Feminino, iniciativa da ECM, e do Dia Internacional da Mulher, que [hoje] se assinala, trazem-se aqui algumas vozes e compositoras que nos cantam “horizontes humanos transcendendo as fronteiras, idiomas mediterrânicos líricos abertos sobre o universo e a inteligência de ser, de comunicação mútua”, como escreve a cantora marroquina Amina Alaoui apresentando o seu Arco Iris.
Um disco que, como a cantora diz, é uma “geografia poética acariciando o sonho do impossível”, que tende a “transcrever uma Península Ibérica levada às capacidades do possível”. Apenas dois exemplos deste espantoso Arco Iris de muitas cores: a deliciosa versão do Fado Menor, de António de Sousa Freitas (1921-2004), e uma espantosa criação da própria Amina com o poema de Santa Teresa d’Ávila: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, só Deus basta.”


Sim, estas mulheres trazem, por vezes, outras mulheres: Medeia, por exemplo, na obra da grega Eleni Karaindrou baseada na peça de Eurípides. Celebrando o mito da mulher que transporta, ao mesmo tempo, o amor e o desejo de vingança que a leva a querer matar os próprios filhos, a tragédia grega e a obra de Karaindrou revelam também a mulher estrangeira acossada e a esposa e mãe que se revolta contra a rejeição de que se considera vítima. E a música leva-nos pelas viagens, exílios, lamentos, amores, mortes e sonhos, “obsessões” da compositora grega, que atravessam a história de Medeia. Através dos coros, sonoridades misteriosas e mediterrânicas, sublinhados e diálogos instrumentais, e continuidades melódicas, sempre presentes e tão bem resumidos noutra obra incontornável de Karaindrou, o Concert in Athens.

Numa mulher que perdeu o filho – Maria de Nazaré – centra-se o disco da norueguesa Sinikka Langeland. O órgão, o kantele (ou harpa finlandesa, espécie de cítara), o violoncelo e a voz levam-nos por “um dos elementos mais distintivos da música folclórica norueguesa”, quase banido com a Reforma. Um património aqui recuperado, através de canções tradicionais e peças da autoria de Langeland ou de Bach, todas dedicadas à Virgem, num percurso onde o exotismo atinge o máximo com o belíssimo hino A sua misericórdia estende-se àqueles que o temem, em que Langeland recria um andamento do Concerto em D Menor, de Bach, ou o Ave Maria final, uma recriação da BWV 1004.


Ao Oriente e ao compositor e místico arménio Georgiǐ Ivanovič Gǐurdžiev (1866-1949) foram a alemã Anja Lechner (violoncelo) e o grego Vassilis Tsabropoulos (piano) buscar orações, lutos, cantos de livros sagrados e hinos bizantinos. Gǐurdžiev dizia ter estudado mais de 200 sistemas religiosos. Toda a força espiritual e mística da música arménia, mas também do próprio compositor, estão condensadas nestas peças, pela primeira vez arranjadas para piano e violoncelo. Uma música infinita, no despojamento e essencialidade permitidos pelo piano e pelo violoncelo.

Títulos, autoras e intérpretes:
Arco Iris, Amina Alaoui; Medea e Concert in Athens, Eleni Karaindrou; Maria’s Song, Sinikka Langeland; Chants, Hymns and Dances, Anja Lechner e Vassilis Tsabropoulos
Edição: ECM (vendaspt@distrijazz)

(Texto reproduzido da revista Além-Mar, Março 2018)


domingo, 15 de fevereiro de 2015

E se Deus fosse mãe? – um debate em Lisboa

Agenda

Um debate sobre o tema E se Deus fosse Mãe? terá lugar em Lisboa, no próximo dia 24, a propósito da publicação do livro Deus Ainda Tem Futuro? 
O debate conta com a participação da escritora Lídia Jorge, da deputada Maria de Belém Roseira, do presidente do Centro Nacional de Cultura (CNC) e Tribunal de Contas, Guilherme d’Oliveira Martins, e de Anselmo Borges, organizador do livro que serve de pretexto para o debate.

A iniciativa decorre a partir das 18h30, na sede do CNC (R. António Maria Cardoso, 68). A entrada é livre.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Mulheres: exaltadas mas marginalizadas

Enzo Bianchi*
O que significa repetir fórmulas vazias como "Maria é mais importante do que Pedro", sem acompanhá-las com um compromisso adequado com uma pesquisa bíblica e teológica sobre a presença das mulheres na Igreja?
        Há realidades que não estão na bolsa do mendicante, mas ele não pode abandoná-las em qualquer lugar: são os sofrimentos que habitam o seu coração. Uma delas, sempre viva e nunca adormecida, diz respeito ao meu cotidiano: eu vivo como monge, com irmãos e irmãs, homens e mulheres na mesma comunidade.

        Ora, justamente as mulheres conhecem na Igreja uma condição paradoxal. Presentes em todas as partes, ao lado dos homens em todas as formas da vida cristã, tão comprometidas na transmissão do Evangelho e testemunhas de Cristo quanto os homens, na realidade, elas se encontram excluídas dos âmbitos decisionais e podem ser apenas simples fiéis, christifideles, pertencentes ao laicato ou à vida religiosa, embora sem autoridade deliberativa por serem mulheres.

        Há décadas, a Igreja Católica se interroga sobre o papel das mulheres na Igreja, mas sem que nasçam respostas adequadas e convincentes. Exalta-se a feminilidade com expressões curiosas ("o génio feminino"...), destaca-se a sua eminente dignidade de esposas, mães e irmãs, mas, depois, não lhes é reconhecida qualquer possibilidade de exercer responsabilidades e funções diretivas na Igreja.

        Assim, todo o corpo eclesial fica deficitário: um corpo em que a metade dos membros deve ouvir apenas os homens intervirem na liturgia, em que as decisões que dizem respeito a todos são tomadas apenas pelos homens, em que o que as mulheres são e devem ser é estabelecido por homens, sem nem mesmo ouvi-las...


   Lendo os Evangelhos e o Novo Testamento, encontramos as mulheres presentes tanto quanto os homens, e Jesus as inclui ao seu grupo de seguidores junto com os homens em uma comunidade itinerante; Maria de Magdala é destinatária, juntamente com outras mulheres, do primeiro anúncio pascal por parte de Cristo ressuscitado; na fundação das primeiras comunidades cristãs, as mulheres desempenham tarefas apostólicas.

        Não por acaso, São Paulo ousa proclamar que, na comunidade cristã, já não existem mais pertenças discriminadas, "não há mais judeu nem grego, nem homem nem mulher", embora, depois, paradoxalmente, ele seja incapaz de tirar todas as consequências disso na vida da comunidade cristã.

        Inicialmente, de fato, ele autoriza as mulheres a tomar a palavra na Igreja de Corinto (1Cor 11, 5), pensa e prega que os dons do Espírito Santo são dados a todos os batizados, sem preferência entre homens e mulheres. E não nos esqueçamos de que, na sociedade da época, a mulher era privada do direito de tomar a palavra na ágora.

     Em seguida, porém, perto do fim da era apostólica, quando se imporia o bispo presbítero como sucessor dos apóstolos, será tirado das mulheres o direito de falar na assembleia cristã (1Cor 14, 34). Assim, uma práxis patriarcal irá prevalecer novamente na Igreja, e aquele sopro de liberdade trazido pelo Evangelho será institucionalmente contradito até hoje.

        Desde então, à mulher é confiada a diaconia, o serviço à Igreja, enquanto aos homens é reservada a autoridade e, consequentemente, o poder. Só no monaquismo, fenômeno originalmente não clerical, a mulher tem os mesmos direitos e deveres do homem: pode se tornar abadessa, guia espiritual e autoridade para uma comunidade, com o poder de ensinar, de tomar a palavra na assembleia, de deliberar sobre a vida da comunidade. Nisso, o monaquismo tem um autêntico valor profético, embora geralmente não seja consciente disso e não saiba viver todas as potencialidades dessa forma de seguimento cristão.

        Eis, então, as perguntas que atormentam o mendicante, sem que, na sua bolsa, haja respostas: o que significa repetir fórmulas vazias como "Maria é mais importante do que Pedro", sem acompanhá-las com um compromisso adequado com uma pesquisa bíblica e teológica sobre a presença das mulheres na Igreja? Por que não se ouvem mulheres que elaboram teologia ou são comprometidas na vida pastoral, na missão, na evangelização, na catequese?

        Encontrar respostas significa abrir novos caminhos para a corrida do Evangelho.


* Monge e teólogo italiano, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado na revista Jesus, de abril de 2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto e foi feita para a Newsletter do Instituto Humanitas Unisinos.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Uma entrevista inovadora


Análise

A entrevista do Papa às revistas jesuítas tem sido muito comentada, desde a sua divulgação, quinta-feira passada. Nos media, destacaram-se sobretudo os temas de sempre – aborto, homossexualidade, contracepção... Mas a entrevista é verdadeiramente inovadora (e vale a pena ser lida na íntegra, o que é possível fazer já em linha aqui, no sítio da Brotéria e, dentro de poucos dias, na edição da revista em papel; a foto, do Papa com o jesuíta Antonio Spadaro, que o entrevistou, foi também reproduzida do sítio da Brotéria).
Este documento é inovador não tanto pelo tom utilizado pelo Papa, e que já começamos a reconhecer, mas pela leitura e pelas propostas concretas que ele faz para a acção da Igreja. Por exemplo, em relação ao papel das mulheres na Igreja (onde o Papa diz muito mais do que parece à primeira vista) ou sobre o processo ecuménico e o diálogo com protestantes e ortodoxos acerca do ministério do bispo de Roma.
Nesse sentido, é uma entrevista que procura retomar a plenitude do espírito conciliar, precisamente na forma e nas questões em que o Concílio Vaticano II (1962-65) ficara bloqueado: a colegialidade, a missão da Igreja no serviço ao mundo, a essência do cristianismo.

Uma grande novidade: o papel da mulher

Antes disso, importa reter aquilo que me parece uma profunda novidade, quando o Papa se refere ao lugar da mulher (das mulheres) na Igreja. Diz ele na entrevista (fica a citação completa, que vale a pena): 

terça-feira, 7 de maio de 2013

A Igreja: como um animal a sair da hibernação


A revista católica inglesa The Tablet utilizava há dias a metáfora da hibernação para ilustrar a esperança suscitada pela eleição e primeiros passos do Papa Francisco.
Numa nota editorial a revista observa que "sob o novo Papa, a Igreja Católica começa a sentir-se como um animal que acorda da hibernação, a piscar os olhos à luz do sol e à procura de novas pastagens".
E elenca alguns dos "sinais deste despertar" que começam, segundo ela, a ver-se "um pouco por todo o mundo":

  • "Alguns bispos alemães estão interessados ​​na possibilidade de as mulheres serem admitidas a um diaconato especial, como um passo para diluir o perfil fortemente masculino do ministério católico. A ideia precisa de ser aprofundada, sem pôr de lado a possibilidade suscitada recentemente pelo cardeal Timothy Dolan, de New York, de as mulheres poderem vir a ser nomeadas cardeais, visto o barrete vermelho não ter de ser necessariamente atribuído a membros do clero. Como as Epístolas de São Paulo mostram claramente, as posições de liderança na Igreja podem, em princípio, ser tão abertas para as mulheres como para os homens. Parecia exagero dizer tal coisa nos últimos dias de pontificado do Papa Bento XVI. Mas um papa que lava os pés de mulheres na Quinta-feira Santa e é, em muitos aspectos, tão diferente dos seus dois antecessores imediatos, parece capaz de fazer o que antes era quase impensável. E nem é apenas o que ele próprio faz que vai mudar a Igreja, mas o modo como as pessoas reagem a ele e às oportunidades que definem esta nova era franciscana."
  • " (...) Os líderes da igreja anglicana, que tinham chegado com tristeza à conclusão de que nenhum progresso rumo à unidade visível com a Igreja Católica era provável, fizeram já notar que a mudança no estilo em Roma poderia recolocar a união orgânica de novo na agenda. O diálogo teológico internacional anglicano-católico  está prestes a ser retomado, e a questão do modo como as duas Igrejas tomam decisões em assuntos controversos é central. No anglicanismo a voz dos leigos tem um direito efetivo a ser ouvida; no sistema católico este direito é puramente teórico. Para seu próprio bem, e também por causa do processo ecuménico, a Igreja Católica precisa de fazer crescer estruturas de diálogo com o seu próprio laicado - no sentido de uma escuta genuína, e uma genuína perspectiva de responder."

Ler o texto integral: AQUI

terça-feira, 30 de abril de 2013

Presidente da Conferência dos bispos alemães:
Mulheres ordenadas diáconos não é assunto tabú

Photo:DPA

O arcebispo de Friburgo, D. Robert Zollitsch, presidente da Conferência Episcopal alemã, defendeu a possibilidade de ordenação de mulheres como diáconos, podendo assim presidir a alguns sacramentos como batismos ou casamentos, além de outros serviços nas comunidades cristãs.
A ideia foi formulada no passado domingo, no final de uma reunião de quatro dias, destinada a discutir possíveis reformas na Igreja.
A conferência, a primeiro da género, contou com a participação de 300 especialistas católicos que foram convidados a propor reformas. Os comentários de Zollitsch ecoaram apelos que ao longo de mais de um ano foram feitos pelo Comité Central dos Católicos alemães no sentido de que seja permitido que as mulheres sejam ordenadas diáconos. Zollitsch afirmou que este assunto já não era um 'tabu', acrescentando que a Igreja Católica só poderia recuperar credibilidade e força comprometendo-se com reformas.
Outra proposta que saiu da conferência vai no sentido de alargar aos divorciados que voltaram a casar o direito de participarem nos conselhos paroquiais, assim como de poderem comungar. "É importante para mim que, sem pôr em causa a santidade do casamento, os homens e as mulheres sejam levados a sério dentro da igreja, se sintam respeitados e em casa", disse Zollitsch.
Actualmente, as reformas não passam de ideias ou propostas. Mas ainda que a sua eventual implementação venha a ter um longo caminho pela frente, elas são um sinal para muitos de que a mudança está a caminho. "Eu nunca experimentei um processo de desenvolvimento da estratégia tão transparente quanto este", disse Thomas Berg, da Leadership Academy Baden-Württemberg, que participou da conferência.
Referindo-se a esta mesma notícia, o jornal francês La Vie recorda que, ao mesmo tempo que decorria a conferência na Alemanha, o Vaticano divulgou uma nota em que desmente um abrandamento da posição oficial acerca dos divorciados recasados.
[Fonte: DPA/The Local . Germany's News in English/kkf]

ACT.:

Sobre esta matéria, o boletim do Instituto Humanitas da Unisinos traduz do Katholische Nachrichten Agentur, sob o título "Um diaconato específico para as mulheres":
"O arcebispo de Friburgo e presidente da Conferência Episcopal Alemã, Robert Zollitsch, explicou nesse domingo, na conclusão da Assembleia Diocesana de Friburgo, que quer se comprometer "pelos novos serviços e cargos eclesiais", "para que sejam abertos também às mulheres, como por exemplo um diaconato específico para as mulheres". E que fará isso "com base na doutrina da Igreja Católica".
E contextualiza assim.
"Na assembleia geral da primavera da Conferência Episcopal Alemã, em fevereiro, em Trier, o cardeal da Cúria Walter Kasper havia proposto que se refletisse sobre uma função diaconal feminina específica, uma espécie de "diaconisa de comunidade". Até o presidente da Comissão de Pastoral da Conferência Episcopal, Dom Franz-Josef Bode, havia acolhido favoravelmente essa proposta.
Nesse sentido, segundo Kasper, é possível conectar-se com a tradição particular das diaconisas na Igreja primitiva, que ainda hoje continua em algumas Igrejas ortodoxas orientais. De acordo com Kasper, uma participação das mulheres na função presbiteral e no diaconato específico correspondente dos homens não é possível por motivos dogmáticos.
O bispo de Regensburg, Rudolf Voderholzer, também não vê possibilidade para a consagração de mulheres como diaconisas. Como a função de padre e bispo, o diaconato também pertence, em sua opinião, inseparavelmente ao sacramento da Ordem, e este é, de acordo com a tradição da Igreja fundada sobre as Escrituras, reservado a homens, explicou Voderholzer nesse domingo no site da diocese."
Ver ainda, sobre este assunto, no mesmo local, o artigo "Bispos alemães estão divididos sobre o diaconato feminino", no qual surge esta informação complementar:
"O Comitê Central dos Católicos (ZdK) e a Rede Diaconato Feminino (Netzwerk Diakonat der Frau) não pretendem aceitar a situação atual e, por isso, celebram juntos no dia 29 de abril o "Dia da Diaconisa" pela primeira vez. "Trata-se de fazer com que esse tema esteja no centro das atenções e que lhe seja conferida uma importância pública", disse a presidente da Rede, Irmentraud Kobusch, ao site oficial da Igreja Católica na Alemanha, www.katholisch.de (Bonn ): "Simplesmente, chegou a hora. Há muito tempo se delineia uma situação em que as gerações mais jovens não resistirão por muito tempo". Por muito tempo, a pergunta ficou sem resposta.
Segundo a intenção dos organizadores, o "Dia da Diaconisa" é acima de tudo em favor da Igreja, explicou Kobusch.Cerca de 80% do serviço ao povo da Igreja é fornecido por mulheres.
Isso significa que a Igreja ganharia muito em credibilidade se as mulheres estivessem presentes na função do diaconato. Naturalmente, as mulheres podem cuidar dos doentes ou cuidar dos sem-teto, sem por isso receber a ordenação. Mas algumas dessas mulheres se sentem "chamadas para a função de diaconisa".
A Rede ofereceu a essas mulheres, há alguns anos, a possibilidade de seguir essa vocação e de se qualificar para um serviço de direção em uma Igreja diaconal. Portanto, tratou-se de algo mais do que uma preparação para um caso puramente teórico, declarou Kobusch: "As 23 mulheres que nós formamos até agora dão ao diaconato feminino um rosto e uma história da sua vocação para a sua esperança. Ele também contribuem para testar concretamente na vida o que poderia realmente significar um diaconato feminino".

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Páscoa, correrias e mulheres

Última Ceia, de Bohdan Piasecki, 1988
De madrugada, ao raiar do Sol, foram mulheres as que se aventuraram a ir ao sepulcro de Jesus para perfumar o corpo morto. Ninguém sabe o que aconteceu nessa manhã inaugural. Sabe-se apenas que foi um acontecimento de tal modo forte e intenso que mudou a vida de um punhado de mulheres e homens. E que, por causa disso, eles e elas mudaram a seguir a face da vida do mundo.

Foram mulheres as que se aventuraram inicialmente a correr, para anunciar a ressurreição de Jesus. Esse é o mote da crónica À Procura da Palavra, do padre Vítor Gonçalves, publicada neste Domingo de Páscoa no jornal Voz da Verdade: “Na noite silenciosa e calma Maria caminha devagar. Quantas lágrimas vai semeando pelo caminho? Vai ao sepulcro fazer o quê? Ungir o corpo de Jesus porque a urgência da sepultura não permitiu fazer os ritos devidos a um defunto? Quer e não quer aproximar-se. Não quer mesmo pensar que tudo foi verdade, que viu morrer Jesus. Mas eis que tudo muda. No alvor do amanhecer vê o sepulcro vazio. E instala-se a correria pascal.”

(Para continuar a ler, clicar aqui).

O papel d’As Mulheres da Páscoa é também o tema da crónica de frei Bento Domingues no Público deste domingo. “Seria necessário estudar o lugar da mulher na cultura religiosa do tempo de Jesus, para perceber o alcance da revolução que ele desencadeou”. Diz assim o texto integral da crónica:

1. As mulheres entraram muito cedo e de vários modos na vida de Jesus de Nazaré. Hoje, é quase impossível imaginar a importância desse fenómeno. Seria necessário estudar o lugar da mulher na cultura religiosa do tempo de Jesus, para perceber o alcance da revolução que ele desencadeou. Vivemos numa época na qual a mulher tem um papel cada vez mais activo na vida e na liderança das sociedades, mas a sua situação na Igreja é um anacronismo que, esperamos, os anos se encarregarão de vencer.

A exegese feminista conquistou, no âmbito das abordagens contextuais, um lugar, ainda não ao sol, mas à sombra, no documento da Comissão Pontifícia Bíblica, de 1993 (A interpretação da Bíblia na Igreja).

O que espanta é a lentidão em reconhecer o que parece claro no Novo Testamento e que, ainda hoje, muitos não querem ver o que estão a ver, devido à resistência de uma cultura secular anti-feminista que os torna cegos, mas vamos por partes.

2. No Evangelho de S. Lucas, depois da cena escandalosa da mulher que surpreendeu, tocou e beijou Jesus, na casa de um fariseu, onde ele estava a jantar – e para onde ela não tinha sido convidada - (Lc. 7, 36-50), são as mulheres que surgem em grupo, de uma forma estranha e ambígua. Vale a pena transcrever o texto: “depois disso, ele andava por cidades e aldeias, pregando e anunciando a boa nova do reino de Deus. Os Doze acompanhavam-no, assim como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demónios, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Suzana e várias outras, que os serviam com os seus bens.” Iremos encontra-las depois da Ressurreição dedicadas a converter, muito a custo, os Apóstolos que lhes não davam crédito (Lc. 24, 9-11). São elas as mulheres da Páscoa cristã.

O grande historiador judeu, Flávio Josefo (37 ou 38 – c. 100 d.C), nas Antiguidades Judaicas, afirma, por duas vezes, que ”o testemunho das mulheres não deve ser aceite por causa da fragilidade e presunção do seu sexo”. Noutra passagem, com outras palavras, repete a mesma ideia: “das mulheres não se pode aceitar nada como certo, por causa da ligeireza e temeridade do seu sexo”.

Um outro judeu, Jesus de Nazaré, parece que estava apostado em atirar pelos ares, costumes e ideias, que perpetuavam a marginalização do testemunho das mulheres. A opção deste Nazareno era de um atrevimento escandaloso, ao fazer delas testemunhas da sua Vida, da sua Paixão, da Ressurreição e do Pentecostes.

É certo que começam a aparecer, no Evangelho de S. Lucas, em grupo, mas de uma forma sorrateira e como que, apenas, financiadoras do novo projecto. Dá a ideia que foram conquistando terreno até ao momento extremo de tornarem o futuro do movimento cristão dependente delas. Não me parece nada que tenha sido assim, embora não tenha espaço para o demonstrar.

As narrativas do Novo Testamento, aquilo a que chamamos os Evangelhos, são fruto de várias tradições, de várias comunidades, de tempos e culturas diferentes. O que espanta é que sendo textos escritos por homens, também eles marcados pela mentalidade reflectida por Flávio Josefo – basta ver o que pensavam os apóstolos quando elas os procuravam evangelizar (Lc. 24, 9-11) – como é que os seus escritos testemunham uma presença impressionante de mulheres em torno de Jesus e nas Igrejas nascentes. Aqueles que desejam abafar o papel que as mulheres devem desempenhar actualmente na Igreja, imaginam Jesus, de Mitra e Báculo, a ordenar, numa Missa solene, os doze apóstolos, mostrando assim que Jesus, de Mitra e Báculo, não ordenou nenhuma mulher. E homens?

É uma imaginação a funcionar ao contrário. O que podemos e devemos imaginar é o que deve ter sido a presença activa das mulheres, em todo o percurso de Jesus, para ter resistido ao aperto cultural e religiosos do seu tempo.

3. Pertence aos exegetas continuar a analisar, com todos os métodos de que dispõem, as narrativas sobre o túmulo vazio e as aparições do Ressuscitado. Essas narrativas coincidem em algo essencial: A morte não teve sorte com Jesus: Ele está vivo e para sempre; é o mesmo, embora já não da mesma maneira. Aos discípulos pede que sejam testemunhas dessa esperança, essa memória de futuro.

Não se trata de nada que se possa provar por qualquer das ciências que existem. É de outra ordem. A fé, como diz o filósofo Wittengstein, é fé naquilo de que necessita o meu coração, a minha alma e não a minha inteligência especulativa. Pois é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer, com a sua carne e sangue, que tem de ser salva e não a minha razão abstrata. Só o amor pode acreditar na Ressurreição.

O espantoso capítulo 20 do Evangelho de S. João conta que uma mulher, Madalena, liberta e apaixonada, não largou Jesus nem na vida, nem no vazio da morte, nem no túmulo. Continuou a procurá-lo. Não o encontrou, mas foi encontrada por aquele que sabia o seu nome. A sua recompensa foram novos trabalhos, uma encomenda directa do Ressuscitado: “vai, a meus irmãos e diz-lhes: Subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus”. Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: vi o Senhor e as coisas que ele lhe disse.

Porque impedir as mulheres da Páscoa de realizarem a sua missão apostólica na vida da Igreja ao serviço da transformação do mundo?

Para aprofundar o papel de algumas mulheres que foram decisivas na vida de Jesus, publiquei também hoje, na revista Público/2 um trabalho com o título “Elas estavam lá desde o início”. O texto pode ser lido aqui.

quarta-feira, 20 de julho de 2011


Texto de Bento Domingues no "Público" do domingo passado. No sábado, no DN, Anselmo Borges reflectiu sobre a ordenação de mulheres."A questão tem, pois, de ser revista. Para não ferir este princípio fundamental do Concílio Vaticano II: "Toda a forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa por razão de sexo deve ser vencida e eliminada, por ser contrária ao plano divino". Texto na íntegra aqui.

domingo, 10 de julho de 2011

Bento Domingues: A culpa será de Deus?


Texto de Bento Domingues no "Público" deste domingo, 10 de Julho de 2011.
* "Sacerdócio feminino: entrevista de D. Policarpo suscita sururu internacional, aqui.
* Notícia "Patriarca contraria o Papa sobre as mulheres", aqui.
* Entrevista na revista da Ordem dos Advogados, aqui.
* Esclarecimento posterior de D. José Policarpo, aqui.
* Notícia do "Público" sobre o esclarecimento, aqui.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Eppur si muove

O patriarca de Lisboa corrigiu o que tinha dito.
Sabemos aquilo que pensa sobre a ordenação de mulheres, uma vez que o exprimiu em diferentes momentos, distanciados no tempo. Não se tratou, pois, de uma 'escorregadela', no contexto de uma entrevista, aquilo que disse, em Maio último, à revista da Ordem dos Advogados.
Este esclarecimento é, de facto, uma mudança de posição. D. José Policarpo afirmou não ver fundamento de ordem teológica para a posição do magistério da Igreja. João Paulo II, contudo, tinha frisado que o assunto não é meramente do foro disciplinar, antes "pertence à própria constituição divina da Igreja" e Bento XVI aludiu, já este ano, a este ensino colocando-o sob a alçada da 'infalibilidade' (o que não deixou de suscitar perplexidade em vários comentadores e teólogos).
D. José manifestava uma atitude de pragmatismo sobre a matéria: sendo uma construção histórica, em algum momento, poderia ser reapreciada. A mudança nesta matéria ocorrerá “se Deus quiser que aconteça e se estiver nos planos Dele acontecerá”, observava, na referida entrevista. Mas a posição de fundo não era, de todo, de questionamento, mas de seguimento, ainda que um seguimento interrogante.
Reacções negativas e mesmo indignação de fiéis quanto ao teor de declarações suas certamente não as teve só agora e, no entanto, isso não justifcaria que viesse, de cada vez, fazer esclarecimentos. O problema, neste caso, está, acima de tudo, em se apresentar este caso num 'framing' segundo o qual um cardeal estaria a questionar a posição e a autoridade do próprio Papa. O que me parece de uma grande injustiça para D. José.
O problema, no meu modo de analisar a situação, está em que hoje, está mais difícil do que nunca a liberdade de pensar no interior da Igreja, nomeadamente por parte de padres, religiosos e bispos. E os polícias da ortodoxia não perdoam. Não hesitam em pressionar, denunciar e, se preciso for, cilindrar, calar e derrubar quem exprima ideias próprias, em matérias que não são sequer do núcleo duro da fé. Esses polícias da ortodoxia não querem saber da valorização conciliar da opinião pública esclarecida no seio da Igreja; olham a sociedade como uma ameaça; preferem um ateu ou agnóstico a um cristão fiel mas crítico; olham mais à moral sexual do que à justiça e à fraternidade; preferem a fidelidade canina à fé esclarecida. Em suma, esses polícias da ortodoxia mostram ser mais papistas do que o Papa, e até ficam perturbados quando ouvem certas coisas de um Papa como o actual. Esses polícias e essa mentalidade de polícia ganhou peso na estrutura da Igreja e era muito importante reflectir e debater sobre as causas e consequências dessa tomada de poder que tão deletéria é para a Igreja e para o seu papel de acolhimento, inquietação e esperança na sociedade.
D. José bem pode, pois, apelar aos católicos a que acatem a disciplina sobre o papel da mulher na Igreja, no relativo ao sacerdócio; a verdade é que "o Espírito sopra onde quer" e a História não pode ser travada.  Aquilo que a estrutura de poder (masculino) fixou e não quer que seja nem questionado nem questionável assim se manteria eternamente se os hierarcas tivessem algum poder monopolista sobre o Espírito Santo. Haja, pois, esperança. Há mais vida (cristã) para além da hierarquia.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

D. Policarpo vê-se obrigado a rever posição

O cardeal patriarca de Lisboa difundiu ontem um esclarecimento sobre o teor das suas declarações à Revista “Ordem dos Advogados”, acerca da ordenação de mulheres. Começa por notar que a expressão do seu pensamento provocou "reacções várias e mesmo indignação", atribuídas ao facto de não ter olhado para o tema "com mais cuidado", "sobretudo por não ter tido na devida conta as últimas declarações do Magistério sobre o tema".
D. José Policarpo apresenta diversos factores que fizeram vir ao de cima, nas últimas décadas, a questão da ordenação de mulheres para o ministério do sacerdócio, "sobretudo nos países ocidentais" e cita a posição intransigente do Papa João Paulo II, em que declara que "a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”.
"Somos, assim, convidados a acatar o Magistério do Santo Padre, na humildade da nossa fé", salienta o Patriarca. E conclui deste modo: "Seria para mim doloroso que as minhas palavras pudessem gerar confusão na nossa adesão à Igreja e à palavra do Santo Padre".

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Sacerdócio feminino: entrevista de D. Policarpo suscita sururu internacional

A entrevista de D. José Policarpo à revista OA, da Ordem dos Advogados, de Maio passado, está a despertar a atenção de alguns órgãos de informação internacionais, que a vêem como susceptível de provocar reacções.
O novo órgão de informação - Vatican Insider - que acaba de ser lançado pelo diário italiano La Stampa em inglês, espanhol e, naturalmente, em italiano, fez-se eco da notícia divulgada no passado dia 22 pela agência Ecclesia, citando algumas das principais declarações do cardeal-patriarca de Lisboa relativamente à matéria referida (de facto, a entrevista trata maioritariamente de vários assuntos, com especial destaque para a posição da Igreja face á crise económica e social).
Sobre a ordenação de mulheres, D. Policarpo entende que "teologicamente não há nenhum obstáculo fundamental”; a questão é, sobretudo, de tradição e o próprio Papa se veria condicionado por este factor. O que leva o patriarca a defender que, “no momento que estamos a viver, é um daqueles problemas que é melhor nem levantar… suscita uma série de reações”. A mudança nesta matéria ocorrerá “se Deus quiser que aconteça e se estiver nos planos Dele acontecerá”, acrescenta.
«O Santo Padre João Paulo II - continua D. José Policarpo - a certa altura, pareceu dirimir a questão. Penso que a questão não se dirie assim; teologicamente, não há nenhum obstáculo fundamental; há esta tradição, digamos assim... nunca foi de outra maneira"
A entrevistadora insiste: "do ponto de vista teológico, não há nenhum obstáculo...
". E a resposta do cardeal clarifica a posição:
"Penso que não há nenhum obstáculo fundmental. É uma igualdade fundamental de todos os membros da Igreja. O problema põe-se noutra óptica, numa forte tradição que vem de Jesus, e na facilidade com que as igrejas reformadas foram para aí (...)".
Contextualizando o momento em que surgem estas palavras e vindas de quem vêm, o articulista do Vatican Insider (cf. The Patriarch of Lisbon: "There are no theological reasons for excluding women from the priesthood") sustenta que elas irão provocar debate, se se tiver em conta as posições do actual Papa a propósito (e na sequência) da Ordinatio Sacerdotalis, de João Paulo II, de 1994.
Por sua vez, o vaticanista John L. Allen Jr., escrevendo hoje no site da revista National Catholic Reporter (cf.: Cardinal sees 'no theological obstacle' to women priests), lembra que Bento XVI há menos de dois meses considerava como "infalível" o magistério sobre esta matéria, numa carta endereçada a um bispo australiano que tinha suscitado a necessidade de se recolocar a questão.

Ler a entrevista de D. José Policarpo à  revista da ordem dos Advogados: AQUI
[Crédito da foto: Paulo Castanheira]