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terça-feira, 9 de outubro de 2018

O voto dos “evangélicos” e o Evangelho propriamente dito

Opinião

Texto de Silas Oliveira

A três dias da primeira volta das eleições presidenciais, a chamada bancada “evangélica” do Congresso brasileiro declarou formalmente o seu apoio ao candidato Jair Bolsonaro, em “defesa dos valores da família cristã”. É fácil dizer agora que “os Evangélicos” e “as Igrejas Evangélicas” são responsáveis por este equívoco, e são representadas por este homem. Mas não é exacto. 
As palavras têm significado, têm sentido – que pode, infelizmente, degradar-se, ser desviado, ser traído. Também as palavras são violadas. Importa, em defesa do rigor e da justiça, avaliar o sentido histórico do qualificativo de Evangélico, e as nuances que foi adquirindo ao longo do tempo. 
Quando os Reformadores da Igreja alemã, no séc. XVI, sentiram a necessidade de dizer o seu novo nome, chamaram-lhe Evangelisch. A Igreja não tem de ser Romana – pode sê-lo, como de muitas outras fontes de origem – mas tem sempre de ser Evangélica. 
Esta intuição original é correcta e mantém-se até hoje entre as Igrejas de língua alemã, no espaço da tradição luterana. Estas Igrejas, nos vários territórios (LandesKirchen) da Alemanha, têm a designação oficial de Evangelische Kirche (Igrejas Evangélicas) e, em alguns deles (não todos) completam o título acrescentando-lhe Lutherische (Luteranas). Mas o qualificativo principal é o primeiro, em que se assumem como seguidoras e testemunhas do Evangelho. 
O termo Evangelical, na língua inglesa, passa a designar uma sensibilidade ou uma tendência no seio do protestantismo, a partir do Reavivamento (Revival) Evangélico, que se desenvolve na Igreja Anglicana e, depois, nas várias Igrejas não-oficiais (Free Churches) – estando, aliás, na origem da Igreja Metodista, no séc. XVIII. 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Os cristãos britânicos e alemães que fizeram tudo para impedir o deflagrar da I Grande Guerra

Livro – Texto de Silas de Oliveira



Meia dúzia de anos antes de 1914, duas delegações de mais de uma centena de representantes das principais Igrejas cristãs, tanto das Ilhas Britânicas como da Alemanha, trocaram entre si duas visitas organizadas ao mais alto nível, com o objectivo expresso de promoverem o entendimento recíproco e a defesa da paz. Não se limitaram a gestos de cortesia diplomática ou sentimental. Deixaram comissões de continuidade, publicaram um primeiro volume bilingue, Der Friede und die Kirche – Peace and the Churches, com textos e fotografias dos participantes e locais visitados, e o movimento, entretanto alargado a outras Igrejas europeias e norte-americanas, começou a preparar uma conferência mundial, uma verdadeira Conferência Ecuménica com representantes de todas as Igrejas e nações. Foi escolhida a cidade suíça de Constança e marcada a data de 1 de Agosto de 1914 – que acabaria por ser precisamente o dia das primeiras declarações de guerra… Os delegados que conseguiram chegar (menos de metade dos 153 inscritos) mal tiveram tempo de redigir um apelo a todos os governantes antes de regressarem aos seus países. Os que vieram por Londres deixaram de pé um comité intitulado, ironicamente, World Alliance for Promoting International Friendship Through the Churches (Aliança mundial para promover a amizade internacional através das igrejas).
Dois homens revelaram-se, nesta história, os mais empenhados protagonistas: pelo lado britânico, Joseph Allen Baker, um pacifista quaker, empresário de origem canadiana radicado em Londres, onde chegou a membro do Parlamento; pelo lado alemão, o barão Eduard de Neufville, de Frankfurt, um aristocrata protestante envolvido na defesa da paz e que já tinha promovido visitas recíprocas entre editores de jornais britânicos e alemães. Era muito claro para eles o papel nocivo daquilo que um historiador chamou “a cheap popular press” (imprensa barata e popular) de ambos os lados, no final do séc. XIX, na instigação do antagonismo e na promoção da corrida às armas.
Na preparação da primeira visita, Allen Baker tornou claro que deveriam tomar parte nela dirigentes de todas as áreas das Igrejas de ambos os países, tanto protestantes como católicos; que os dois Governos deviam reconhecer este movimento e se possível dar-lhe activa cooperação, e do mesmo modo o rei de Inglaterra e o imperador alemão; e que os visitantes germânicos seriam convidados pessoais em casa dos seus amigos britânicos, desde o início até ao fim da viagem, e convidados a pregar nos púlpitos das Igrejas de Londres no domingo incluído nos dias da sua estadia. O mesmo procedimento foi seguido em ambas as visitas.

A nossa franca cooperação...

A primeira decorreu de 26 de Maio a 3 de Junho de 1908 e levou a Londres uma delegação de 131 dirigentes eclesiásticos e leigos das várias Igrejas alemãs, na sua grande maioria provenientes das Igrejas Evangélicas Luteranas históricas dos diversos territórios (Landeskirchen). Entre eles estavam o Capelão da Corte, Ernst von Dryander, o Probst (Superintendente Geral) Faber, de Berlim, pelo menos 13 professores de teologia e alguns leigos notáveis, como o Barão de Neufville. Entre os 15 católicos avultava o Probst da Catedral de Santa Hedwig em Berlin, C. Kleineidam, em representação do arcebispo de Colónia. Os representantes das Igrejas independentes (Associação Evangélica, Baptistas, Metodistas e Congregacionais) somavam duas dezenas.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Natureza e velocidades do movimento ecuménico

Há um ecumenismo a duas ou mais velocidades? Um diálogo mais rápido entre católicos e ortodoxos e mais lento entre católicos e protestantes e entre ortodoxos e protestantes?
Apesar dos avanços das últimas décadas – a assinatura da declaração de reconhecimento mútuo do baptismo, sábado passado, em Lisboa, é disso exemplo –, o diálogo ecuménico sofre, pelo menos a nível institucional, ainda vários escolhos e ambiguidades.
São essas ambiguidades que o jornalista Silas Oliveira estuda no trabalho final do Curso de Formação Avançada em Jornalismo e Religiões, que frequentou na Universidade Católica entre Novembro de 12006 e Fevereiro de 2007. O artigo, a cujo texto inicial foram acrescentados alguns parágrafos de actualização no final de 2012, foi publicado na Revista Lusófona de Ciência das Religiões.
No texto, o autor faz um percurso pelos textos doutrinais e por algumas das posições oficiais católicas sobre o ecumenismo. “A Igreja Católica Romana combateu consistentemente (e coerentemente) o movimento ecuménico desde o início, defendendo o ‘primado de Pedro’ com documentos como as Encíclicas Ubi Arcano Dei (1922), Ecclesiam Dei (1923), Mortalium Animos (1928), mais tarde Mystici Corporis Christi (1943)”, escreve. E acrescenta: “Em Junho de 1948, outro documento, um Monitum disciplinar, impediu qualquer católico desejoso (e havia muitos) de participar na assembleia fundadora do Conselho Mundial de Igrejas, em Amsterdão. A doutrina básica de Roma, nesta matéria, é a de que “é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes às reuniões de acatólicos, porquanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela.” (in Mortalium Animos)