sábado, 16 de abril de 2011

À Procura da Palavra - COMO TU QUERES!


(Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)

“Meu Pai, se é possível passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres.”
(Evangelho segundo S. Mateus 26, 39 - Domingo de Ramos)

Ilustração: O Regresso do Filho Pródigo, de Rembrandt

É nos quadros de Rembrandt e Turner e dos paisagistas holandeses que melhor vejo os tons destes dias da Semana Santa. Os vários matizes do escuro, das tempestades e das trevas que carregam de densidade as pinturas albergam também uma luz que brilha em algum lugar. Uma luz, por mais pequena que seja, a impedir o aparente triunfo das trevas. Assim são os relatos da paixão de Jesus, e mesmo a luminosa e festiva entrada em Jerusalém não afasta do coração dos discípulos as nuvens negras do sofrimento predito pelo Mestre. É o claro-escuro dessa noite maior da agonia de Jesus que é, tantas vezes, também a nossa!

Imaginar que o Pai queria a morte sofredora do Filho só é possível alimentando uma imagem muito distorcida de Deus. É o amor até ao fim, o amor totalmente entregue como só Deus pode fazer, na fidelidade a si mesmo, que vemos na paixão de Jesus. A fidelidade que se faz luminosa nas palavras do “Diário” de Etty Hillesum, a jovem judia morta no campo de concentração de Auschwitz a 30 de Novembro de 1943: “Ser fiel a tudo o que uma pessoa iniciou num momento espontâneo, demasiado espontâneo, por vezes. / Ser fiel a cada sentimento, cada pensamento que começou a germinar. / Fiel no sentido mais lato da palavra. / Fiel a si mesmo, a Deus, fiel aos seus próprios melhores momentos. / E onde uma pessoa está, ser totalmente, cem por cento ser. / O meu “fazer” consistirá em “ser”. Assim, o grito humano do “passe de Mim este cálice” está unido em Jesus ao “como Tu queres”. As duas palavras num único sim, o escuro com o ponto de luz que impulsiona para a vida oferecida de Jesus: “Ninguém Me tira a vida; Eu dou-a livremente” (Jo 10, 18).

Há muito de paixão nesta crise que atravessamos. Uma crise que, mais do que económica, é também de confiança: em instituições e em pessoas concretas, nas políticas seguidas e nos valores que as fundamentaram, nas palavras e na justiça. Desejam-se medidas salvadoras, pedem-se sacrifícios, mas estarão elas ao serviço de uma transformação mais profunda da sociedade? A verdadeira mudança é “por dentro” que se faz; é no “ser” e não no “parecer”; é com todos e não prolonga privilégios; passa pela morte para poder ressuscitar. E quando a confiança é ferida são precisos gestos corajosos para a restaurar!

Acredito que Deus tem um “querer” para mim e para todos. Que não significa nenhum “plano especial de crescimento” mas o “plano de salvação” já realizado na Páscoa de Cristo. Realizado e a ser feito real pelo encontro do meu “querer” com o d’Ele. Que é “amar até ao fim”. Em tudo o que é profundamente humano. No coração da crise e do seu “escuro-claro”. Na política, na economia e na justiça. No trabalho e nos centros de decisão. Mas eu e vocês, que acreditamos e dizemos viver com Jesus, queremos mesmo o que o Pai quer? Quando isso implica paixão e morte?

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Inquérito Nova Evangelização (9) - Maria da Conceição Coutinho

Aceitar o desafio do tempo que vivemos

Maria da Conceição Coutinho, 52 anos, administrativa, animadora do blog Jardim de Luz

1. Essas transformações foram portadoras de autonomia para o homem. Que é chamado a viver a experiência religiosa, não como uma necessidade ou de forma condicionada pelas estruturas religiosas, mas em liberdade criativa.
Mas a complexidade é própria do viver humano. "Assim o que realizo, não o entendo: pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é que faço." (Rm 7, 15). Todos os actos e realizações humanas vivem a tensão da luz e das sombras. Só Deus é criação pura. Ter consciência disso, ajuda-nos a olhar para nós próprios, para o nosso grupo religioso e para a sociedade, não através de um modelo ideal que se persegue (e nunca se conseguirá alcançar), mas sabendo que é a actividade do nosso caminhar que nos humaniza.
É, ainda, desavisado e imprudente utilizar um único modelo religioso e social (e é isto que, quanto a mim, o documento do Papa reflecte) para avaliar a espiritualidade e religiosidade contemporâneas.

2. As leituras são sempre múltiplas. Mas temos como base deste inquérito o documento papal, que reflecte o olhar de uma hierarquia que vive à margem da sociedade e até das comunidades católicas e vive apoiada numa estrutura centralizadora.
A secularização é o sinal de que já não é possível viver mais esse modelo. Perante ela temos vários caminhos. Ou se teima em alimentar e fomentar o mesmo esquema doutrinal e institucional (com as consequências que se vão verificando: comunidades reduzidas a idosos e a práticas ritualistas que já não dizem nada do que pretendem ser:"sal da terra", "fermento na massa", "ressurreição"). Ou aceitamos o desafio do tempo que vivemos que, a par de desenvolvimentos técnicos, científicos e humanos, configura uma grave "injustiça globalizada". E o cristianismo tem um largo espaço de acção neste campo.
O espanto dos evangelhos é apresentarem-nos um Jesus próximo, companheiro, interpelador. Quantos são os bispos efectivamente presentes nas suas comunidades? E no meio social que é todo o espaço da diocese?

3. A expressão é dúbia. Têm-se em conta as diferentes realidades? Parece-me que não. Uma evangelização que não tenha em conta a pluralidade do paradigma actual - económico, multirracial, multi -religioso, feminista, espaço privado da consciência - não pode ser considerada nova.
E muito menos será nova, apenas, por utilizar os meios informáticos e tecnológicos de que dispomos. Utilizar novos meios e manter a estrutura é desperdiçar oportunidades.

4. E quando é que se dá esse "início"? Eu diria que é um início que está sempre acontecendo. Um cristão (ou um grupo) "corre para a meta" não é a "meta".
"Eu sou a ressurreição e a vida! (Jo 11,25) Jesus pôde afirmá-lo
com propriedade e verdade. Nós, crentes cristãos, descobriremos com humildade que a nossa vida está marcada pela finitude e pela morte. Quanto maior for a nossa consciência de peregrinos, mais percebemos que a nossa adesão a Jesus não nos faz diferentes de ninguém. Todos fazemos parte do Todo. Então, individualmente e como grupo religioso, aprenderemos a dialogar e a descobrir o que é a vida.

5. Por tudo o que disse acima facilmente se conclui que concordo com o Papa: não implica “uma única fórmula igual para todas as circunstâncias”.
Desconhecia o debate sobre "estratégias e métodos." Não quero ser muito negativista, mas como não sê-lo com uma Conferência Episcopal tão discreta, tão alinhada à estrutura eclesial dominante? Sem alterar a estrutura não há linguagem, nem métodos que não passem de episódios voluntaristas.
Não posso ignorar, porém, que um pouco (ou muito) à margem da "estrutura" existem já grupos e indivíduos que vivem um modo diferente de ser Igreja e ser cristão.
O Espírito continua a soprar e a vivificar no mistério.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Inquérito Nova Evangelização (8) - Leonor Xavier

Secularização, feliz sinal dos tempos

Leonor Xavier, jornalista e escritora, membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja


I – A expressão leva-me a pensar em algo que tem que ser revisto na atitude de cada homem e de cada mulher em relação ao entendimento da vida e da morte, na experiência religiosa. Leva-me a regredir na história do mundo, quando a Palavra de Jesus abalou a realidade assente na expressão do poder, que era a do seu tempo e lugar, e fez do amor uma revolução verdadeira. Leva-me a pensar na dimensão misteriosa e infinita da fé, como iluminação de vida. A Nova Evangelização é uma maneira de dizer esse infinito de descobertas possíveis quando a prática de todos os dias deixou de ser o cumprimento formal do culto ou o ritual sempre repetido sem mudanças, porque a toda a hora e nas mais variadas circunstâncias deste mundo nos exige uma interior profissão de fé. Não só na consciência de Jesus em nós, mas na certeza de que a Palavra é universal, que é para todos e todas, além das diferenças sociais, culturais, ideológicas, religiosas. A Nova Evangelização faz-me pensar num compasso de pausa e de silêncio, na tumultuação dos dias.

II - A secularização é, sim, um feliz sinal dos tempos, em que a vivência religiosa deixou de ser um constrangimento de normas acordadas e de regras impostas para se tornar uma experiência de testemunho e liberdade.

III - A Igreja poderá ter papel principal na sociedade do nosso tempo, quando o nome de Jesus for presença constante no seu ministério. Quando, em vez de condenar e excluir, chame e envolva e inclua. Quando reconsiderar o celibato dos padres ou a não ordenação das mulheres, a condição dos divorciados e dos homossexuais. Que pena a atitude radical da Igreja nestes pontos, em contraste com a sua intervenção no plano da educação e da assistência.

IV - Para Portugal, a Nova Evangelização pode passar pelo diálogo inter-religioso, em públicas ocasiões, auditórios abertos, em que opiniões e vivências opostas ou diferentes se possam exprimir sobre temas diversos. Pode passar pela intervenção na cultura, através das várias disciplinas de criação e autoria, de atuação e arte.

sábado, 9 de abril de 2011

À Procura da Palavra - TIRAR AS PEDRAS


(Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)


"Disse Jesus: ‘Tirai a pedra'.”

(Evangelho segundo São João 11, 39 - Domingo V da Quaresma)

(Foto copiada
daqui)

Depois de um incêndio numa floresta a morte ganha uma expressão visual tremenda. A aflição do fogo devorador dá lugar ao silêncio e ao coração apertado. Lembro-me de ter andado, há anos, pelo meio de cinzas e arbustos carbonizados depois de um incêndio na serra da Arrábida. O céu azul e o sol pareciam envergonhados perante aquela desolação. Mas, de repente, por entre o negro e a cinza, junto a um tronco queimado, um rebento verde ousava desafiar aquele espectáculo de morte. Frágil, aparentemente impotente, era um grito de vida espantoso. Como me lembro tanto do poema do Sebastião da Gama que começa assim: “Que a Morte, quando vier,/ não venha matar um morto”!

Há mortes e mortes, e cada uma é única, e todas nos incomodam. Não temos palavras para esses momentos. O abraço, as lágrimas, as mãos apertadas trocam-se em silêncio. Não é a presença a melhor palavra de amor e comunhão? Verdadeiramente não nos habituaremos à morte (e ainda bem, porque ela não é o nosso fim) mas como abraçamos a vida? Como juntamos forças para retirar as pedras que fazem sepulcros antes de tempo? O que fazemos para vencer o desânimo que deixa cair os braços ou fecha cada um no seu casulo? Que ressurreições estão ao nosso alcance?

Por entre a burocracia em que se transformou, por exemplo, muito do esforço de educar, há testemunhos de quem não se acomoda à exigência dos números ou dos papéis. Procuram “tirar as pedras” que encerram capacidades, energias, confiança, sonhos, valor próprio, de tantas crianças e jovens. Um de cada vez, à maneira de madre Teresa de Calcutá e de Jesus (que ligava pouco a números, excepto na compaixão por todos), aproximando-se com a delicadeza que a “raposa” ensinou ao “Principezinho”, talvez até sentando-se no chão em companhia inesperada, agem para evitar a ”morte anunciada” de meninos e meninas pouco amados. Não pedem nada em troca, dói-lhes apenas a “funcionalização” do educar, como se fosse mais uma pequena “morte”. Ressuscitar é acção de Deus, mas reanimar, restaurar a confiança, levantar quem caiu, promover quem é excluído, recriar a dignidade e o valor que cada pessoa tem, procurar em comum razões de esperança e de vida, tudo isto é tarefa nossa!

Gosto deste pedido de Jesus: “Tirai a pedra”! Ainda que “já cheire mal” (quando tudo já parece perdido), é preciso “ser vivo” até ao fim. Pedras de indiferença e exclusão, de egoísmo e auto-suficiência. Pedras de dentro e de fora. Ressuscitar não é uma tarefa solitária: precisamos de Deus e também Ele precisa de nós!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Bíblia democratiza-se, no "Público" de hoje

IVG e reprodução medicamente assistida: debate no Porto

O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV)realizará no próximo dia 17 de Maio de 2011, no Centro de Cultura e Congressos da Ordem dos Médicos no Porto, uma conferência subordinada ao tema “As Leis da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) e da Procriação Medicamente Assistida (PMA): uma apreciação bioética”.
Esta sessão temática, que abre o ciclo de conferências do CNECV para 2011, tem o objectivo principal de, ouvindo diversas vozes e orientações, promover o debate esclarecido e plural sobre dois temas da maior importância e actualidade, decorridos quatro e cinco anos, respectivamente, sobre a entrada em vigor da respectiva legislação.
Ver o programa: AQUI
O evento é de entrada livre.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Edgar Morin, 90 anos: "Sou um eterno apaixonado"

A revista francesa La Vie iniciou a publicação de uma colecção intitulada "Questões de Vida" e o primeiro número é dedicado ao amor, abordado de diversificados ângulos. A este propósito, entrevistou o sociólogo Edgar Morin, actualmente com 90 anos, e tendo como motivo próximo a publicação de um livro dedicado à mulher que foi a sua companheira de vida durante 30 anos, intitulado Edwige, l’inséparable. Ler a entrevista AQUI.
(Crédito da foto: © Martin Bureau / AFP)

Inquérito Nova Evangelização (7) - Jorge Mendonça

Falta uma reflexão metódica sobre as grandes figuras da cultura contemporânea

José Jorge Teixeira Mendonça, 60 anos, professor

1. As transformações sociais das últimas décadas e as suas causas complexas tiveram uma multiplicidade de consequências correspondentes aos diferentes contextos em que se deram e à atitude dos sujeitos colectivos e individuais no seu modo específico de sentir e agir. Correndo o risco de simplificar, que pode ser redutor, entendo que o que está em questão é sobretudo o modo como cada um se vive a si próprio vivendo o seu contexto: na “neutralidade” anónima da terceira pessoa [on, it, es]ou na afirmação criticamente lúcida da primeira pessoa. Sejam quais forem as circunstâncias, o modo de os grupos e os indivíduos viverem pode ser estéril ou fecundo. E neste domínio não há “fecundação artificial” que possa disfarçar a esterilidade onde a houver.

2. A Igreja, enquanto Povo de Deus, pode fazer uma leitura dos sinais dos tempos alicerçando-se na oração [comunhão com Deus; felizmente - na relação com Deus - Ele não permite que se confunda comunhão com fusão] que, usando uma feliz expressão de Spinoza, proporciona uma visão do real sub specie aeternitatis. Nesta leitura dos sinais dos tempos, o Povo de Deus deve levar a sério as diferentes culturas (nas suas tão diversificadas expressões) para, num diálogo mutuamente interpelante, honrar a obra da criação que cabe a toda a humanidade continuar até à sua conclusão no fim da História. Assim sendo, a secularização é um sinal dos tempos que traduz o respeito pela autonomia das realidades terrestres. A secularização também constitui hoje o horizonte no qual a questão de Deus não é uma resposta “natural” mas antes uma questão existencial inerente à pergunta sobre o sentido da vida. Cada ser humano vive a sua própria vida como pergunta sobre este sentido que, para cada um, não está previamente constituído.

3. No número 5 do segundo capítulo dos Lineamenta, há uma expressão que bem pode exprimir o sentido da expressão “nova evangelização”: «A nova evangelização (…) é a coragem de ousar novos caminhos, face às novas condições no seio das quais a Igreja é chamada a viver hoje o anúncio do Evangelho.» Há aqui um corredor de liberdade que não pode ser asfixiado por atitudes “defensivas”. Que haja crises é um sinal positivo de que os equilíbrios não são estáticos mas dinâmicos [desde o século XIX que se conquistou, na cultura ocidental, a compreensão de que o movimento não é exterior ao ser, mas que o devir é o próprio conteúdo do ser]. A «nova evangelização» nega-se a si própria se o Povo de Deus não traduzir na sua própria vida os frutos e as interpelações do Evangelho.

4. Sempre que um cristão ou o Povo de Deus colocar em segundo lugar a pessoa de Jesus Cristo subordinando-a a outras “coisas”, é esse cristão e/ou o Povo de Deus que acabam por ser “evangelizados” até pela consciência crítica dos que não podem acreditar (aqueles a que habitualmente se chama não-crentes ou ateus).

5. Como baptizado que faz parte desta parcela do Povo de Deus que vive em Portugal, entendo ser necessário:
- cuidar da vida de oração
- na liturgia eucarística, os sacerdotes falam de mais; uma certa sobriedade, que não exclui a beleza da expressão litúrgica, educa para a dimensão transcendente do mistério de Deus; quando o sacerdote que preside à celebração eucarística não teve tempo para preparar cuidadosamente a homilia, então cale-se e proponha algum tempo de silêncio meditativo.
- é importante que no espaço eclesial haja uma reflexão metódica sobre as grandes figuras da cultura contemporânea nos seus diferentes domínios. A fé também se alimenta da contemplação das criaturas e as “criaturas” culturais não são menos criaturas que as naturais. Saber ver cura-nos das nossas “cegueiras” involuntárias.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Bento e Anselmo: Quaresma para sarar a irrazão


Bento Domingues no "Público" de domingo (em cima) e Anselmo Borges no "Diário de Notícias" de sábado (em baixo):

O que São Basílio Magno (séc. IV) escreveu sobre a usura é temível: "Os cães, quando recebem algo, ficam mansos; mas o usurário, quando embolsa o seu dinheiro, irrita-se tremendamente. Não cessa de ladrar, pedindo sempre mais... Mal recebeu o dinheiro e já está a pedir o dinheiro do mês em curso. E este dinheiro emprestado gera mal atrás de mal, e assim até ao infinito." Por isso, o Concílio de Latrão, em 1179, proibiu aceitar esmolas dos usurários, admiti-los à comunhão e dar--lhes sepultura cristã.
Hoje a isto chama-se os mercados financeiros, com a sua lógica devoradoramente insaciável. Portugal sabe-o por experiência. Quem não viu veja e quem viu reveja Inside Job. Ler tudo aqui.

sábado, 2 de abril de 2011

Inquérito Nova Evangelização (6) - Joana Rigato

A Igreja deve ouvir mais o mundo de hoje

Joana Rigato, 31 anos, professora

1 – Creio que a experiência religiosa se tornou simultaneamente mais individual e mais livre, o que traz grandes vantagens e também grandes riscos.

Nas sociedades ocidentais, talvez pela primeira vez na História, as pessoas passaram a não ser “obrigadas” a professar uma determinada fé nem a ter de pertencer a uma determinada religião. Isto provoca um certo desnorteamento, na medida em que há muita gente que não é educada na fé e não desenvolve a sua espiritualidade, embarcando muitas vezes em preconceitos superficiais acerca da religião dominante e vivendo a sua vida sem explorar todas as suas dimensões (o que conduz ao “deserto espiritual”). Simultaneamente, quando sentem a falta de uma dimensão transcendente na sua vida, muitas pessoas procuram-na sem grande critério, explorando propostas frequentemente incoerentes e até contraditórias entre si, misturando formas de terapia fácil com pseudo-religiões orientais, superstições camufladas de descobertas new age, etc. Isto é sinal de uma busca que não deixa de ter lugar nas sociedades modernas (e que, na minha opinião, deve ser empreendida com toda a liberdade) mas que nem sempre conduz a uma verdadeira profundidade.

Estes riscos são o “preço” a pagar pela fundamental conquista da liberdade religiosa. As igrejas estão mais vazias hoje – mas quem as frequenta fá-lo com muito mais verdade. Há muita confusão entre os vários caminhos possíveis, podendo perder-se de vista o património sapiencial de séculos de vida religiosa colectiva – mas a procura de Deus deixa de ser vivida exterior e passivamente, por fiéis que pouco se questionam e consideram que a Verdade não é descoberta mas aprendida, passando a ser assumida como um caminho e um compromisso. Tudo isto, a meu ver, torna o balanço francamente positivo. A busca é mais sincera e, multiplicada por milhões de pessoas, também muito mais rica.

2 – Sem dúvida que a secularização pode e deve ser vista como um sinal dos tempos. Tudo o é. Para que a Igreja possa ler esses sinais, deverá olhar o mundo sem pré-conceitos e sem superioridade. Não creio que a Igreja seja o “local” onde Deus habita e que a sociedade seja a realidade profana que recusa Deus e onde o espírito de Deus deixou de soprar. Deus atravessa toda a realidade, mesmo de formas inicialmente pouco compreensíveis. A Igreja deve perguntar-se: como é que Deus se manifesta nos jovens de hoje? Nos desempregados? Nos ateus? Naqueles que criticam a Igreja? Nas pessoas que fazem ioga?

A Igreja deve procurar perceber o que é que os caminhos que afastam as pessoas de si lhe revelam sobre a forma como ela própria fala de Deus. O que é que as pessoas procuram noutros sítios, que aqui não estão a encontrar? Como é que podemos revelar Deus de forma mais clara?

E assim, procurar compreender: aonde nos quer conduzir Deus actualmente? Como quer Deus que conduzamos a nossa acção?

3 – Penso que a última destas perguntas está a procurar orientar a resposta e a “forçar” a expressão em causa. Não creio que a “nova evangelização” deva ser vista nem como “uma forma de a Igreja sair das suas crises” nem como “desafio a repensar-se a estrutura eclesial”.

“Evangelizar” refere-se a levar a boa nova aos outros, ao mundo. O mundo precisa de Deus, a Igreja considera-se caminho privilegiado de descoberta de Deus e por isso assume como missão evangelizar. A meu ver, a “nova evangelização” é a evangelização do “novo mundo”, do mundo que mudou. A Igreja considera que deve repensar o modo de levar a boa nova ao mundo actual, ou seja, deve actualizar a sua forma de comunicar a mensagem. Eu concordo. Penso que, de facto, é necessário renovar a forma de evangelizar e que é fundamental pensar sobre isto.

Infelizmente, porém (e retomando o que respondi à pergunta anterior) o “re-pensamento” que a Igreja faz é frequentemente superficial. Como o “mundo” é visto como algo de exterior e oposto à Igreja (como se estivessem em duas frentes opostas de batalha: nós e os outros), a atitude é quase sempre de superioridade e não de escuta. Por isso, torna-se difícil “evangelizar” aquilo que não se percebe e com que não se “empatiza”. É uma espécie de atitude “colonizadora” e que já não funciona, nem voltará a funcionar (porque o “povo” emancipou-se e exige mais autonomia e mais respeito).

4 – Sem dúvida. Uma das grandes lacunas da Igreja enquanto testemunha de Cristo é, a meu ver, a sua tendência a apegar-se a questões acessórias, perdendo a credibilidade quando, depois, pretende pregar o essencial. O caminho de cada pessoa no seu encontro com Cristo tem de ser respeitado, e a Igreja deveria ser luz nesse caminho, uma ajuda no estabelecimento do diálogo e da intimidade entre cada pessoa e a pessoa de Jesus. Pelo contrário, ao longo da História e, infelizmente, ainda hoje, a Igreja actua como uma espécie da “mestre de cerimónias”, que pretende dizer a cada pessoa “como” percorrer o tal caminho.

Lembro-me, a esse propósito, das palavras de John Locke (protestante e muito anti-católico, é certo) referindo-se ao absurdo da falta de liberdade de religiosa que se vivia em Inglaterra na sua época (séc. XVII): «Se estou marchando com máximo vigor pelo caminho que, segundo a geografia sagrada, leva diretamente para Jerusalém, por que sou espancado? Será, talvez, pelo facto de não usar sandálias; porque não me deram o banho baptismal de maneira correcta ou meu cabelo não foi cortado como deveria; porque como carne na estrada ou qualquer outro alimento mais favorável para o meu estômago; porque evito certos atalhos que parecem conduzir-me a precipícios; porque, entre as várias sendas da mesma estrada e que levam para a mesma direção, escolho aquela que me pareceu ter menos vento ou barro; porque evito a companhia de certos viajantes menos graves e de outros mais impertinentes do que deveriam ser; ou, enfim porque sigo um guia que está ou não está coroado de mitra e vestido de branco? Certa¬mente, se ponderarmos devidamente, verificaremos que, na maior parte, são assuntos tri¬viais como estes que criam inimizades implacáveis entre confrades cristãos, apesar de todos concordarem com os aspectos essenciais da religião. Tais ninharias, porém, se não acompanhadas de superstição ou hipocrisia, podem ser observadas ou omitidas, sem qualquer prejuízo à religião e à salvação das almas.» (Carta sobre a Tolerância)

Creio que a Igreja é guardiã de uma Verdade revelada, mas que não pode ter a pretensão de ser a única nem de não se enganar ao procurar decifrar essa Verdade. Deus revela-se de muitas formas e, acredito, a toda a gente. A Igreja, através da sua sabedoria milenar, tem a missão de ajudar o povo a procurar, descobrir e aproximar-se de Deus em Jesus Cristo. Mas deve fazê-lo com humildade e no respeito da relação que se estabelece entre cada um e essa Verdade que se revela repetidamente. Deus deu a Razão e a luz da Fé a todos e a cada um, por isso seria até ofensivo que os fiéis se abstivessem de usar essas suas capacidades para se tornarem somente ovelhas.

5 – Antes de mais, há que pôr em prática algo fundamental e que remonta ao Concílio: o pleno envolvimento dos leigos na pastoral. Os padres são poucos e nem sempre têm uma formação mais profunda do que os próprios leigos. Por isso, os leigos devem ser vistos como um auxílio imprescindível na evangelização, no trabalho paroquial, na tomada de decisões.

Outro aspecto muito importante é a linguagem – frequentemente envelhecida, conotada, não só nas palavras como nas imagens, no estilo. Dou um exemplo que me é familiar: no âmbito da acção dos jesuítas, há imensas vocações, imensos jovens, um dinamismo que não se encontra noutros lados. Acredito que muito do mérito desta frescura está na linguagem. Veja-se o site da pastoral juvenil dos jesuítas: www.essejota.net

Penso que a Igreja em Portugal deve ouvir mais o mundo de hoje. Os seminaristas deveriam “misturar-se” mais com os jovens da sua idade para lhes conhecerem os gostos, as preocupações e haver mais afinidade entre uns e outros. A minha experiência como professora testemunha isto mesmo: muitas vezes aquilo que procurei transmitir aos meus alunos era exactamente aquilo que outros professores procuravam transmitir mas com menos sucesso. E porquê? Não porque eu fosse melhor em nada! Mas só porque era mais jovem, usava uma linguagem mais apelativa, menos datada, transmitia a imagem de alguém “normal”, que partilha gostos com os alunos em termos de música, ou roupa, enfim. Essa minha “normalidade” deu-me credibilidade para poder aconselhar, sugerir, ser levada a sério. Ora, se um padre acabado de sair do seminário hoje se veste da mesma forma que um padre saído do seminário há 50 anos, só ouve música religiosa, usa a segunda pessoa do plural nas homilias, etc… certamente que não será levado a sério pelos jovens da sua paróquia. Que fique claro: não estou a dizer que devemos mitigar a mensagem, torná-la mais light, de forma alguma! O que acho é que, compreensivelmente, as pessoas se deixam tocar e desinstalar por aqueles com quem se identificam, porque lhes “dão crédito”.

Também em termos de conteúdo há muito a mudar. Raramente ouço homilias que sejam realmente desafiadoras em termos sociais, onde a leitura do jovem rico não seja imediatamente acompanhada de uma palavra apaziguadora: “Claro que Jesus não estava a falar a sério quando disse que mais depressa entra um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico no reino dos céus! Não se assustem nem se ponham em causa, era uma metáfora! Estava só a falar do apego que temos às coisas, não se referia às posses que realmente temos!”

Ao contrário daquilo que encontrei na América Latina e em Itália (numa certa facção da Igreja italiana, que é tudo menos homogénea), raramente ouço palavras corajosas de crítica social na Igreja em Portugal ou padres que procurem envolver os seus paroquianos em movimentos cívicos, tomadas de posição concretas, denúncias, etc. Na sua maioria, a Igreja tem medo de tomar posição, de ser conotada politicamente com alguma ideologia, e então abstém-se e limita-se à assistência. A meu ver, isto tem-na feito perder terreno na sociedade. E para além de a prejudicar em termos de “marketing”, creio sobretudo que é lamentável que a Igreja “saia à rua”, em bloco, para questões como o aborto (questão relativamente à qual a posição oficial da Igreja tem a minha total concordância, não é isso que eu ponho em causa), não o fazendo da mesma forma quando há escândalos sociais dramáticos em Portugal e no mundo. Claro que, oficialmente, as posições da Igreja a nível de doutrina social são radicais e coerentes, mas não lhes é dado o devido eco na comunidade cristã, pelo que não têm visibilidade. Ou seja, ao contrário daquelas que eram as prioridades de Jesus, a catequese e a formação dos cristãos assenta ainda muito mais na moral dos costumes e na prática de ritos e regras, do que na ética social.

Por último, creio que a liturgia também deve sofrer uma grande revisão. Numa sociedade cheia de pressas, de ruído, de solicitações, deveria haver mais espaço para o silêncio e a introspecção nos momentos de encontro com Deus propostos pela Igreja. Depois de uma semana tão cheia de palavras gastas, de fórmulas automáticas, de exterioridade, seria muito importante que a oração comunitária de domingo fosse uma ocasião para parar realmente e deixar entrar o nosso coração em repouso, para podermos criar nele espaço para a palavra de Deus e o Seu sussurrar.

O Concílio Vaticano II - onde está?

Com o título "O Concílio Vaticano II - onde está?" decorre esta tarde de sábado, no Convento de São Domingos, em Lisboa, um encontro para avaliar memórias, experiências e perspectivas futuras a partir da herança conciliar. A iniciativa, promovida pelo movimento Nós Somos Igreja - Portugal, tem início às 14.15 e estende-se depois pela tarde com o seguinte programa:

14.30 Introdução - Frei Bento Domingues, O.P. (teólogo)

15.00-16.30 - O Concílio Vaticano II: Memórias e Vivências (Joana Lopes, autora do livro "Entre as Brumas da Memória, sobre os católicos na década de 60; frei Mateus Peres, O.P., teólogo; Maria da Conceição Moita, educadora de infância; e Cesário Borga, jornalista)
Debate, moderado pela investigadora Ana Vicente

16.30-17.00 - intervalo

17.00-18.30 - O Concílio Vaticano II: A Igreja e o Futuro (Emília Nadal, pintora; Joaquim Franco, jornalista; Teresa Toldy, teóloga; Pedro J. Freitas, professor universitário e actual coordenador do Movimento Internacional Nós Somos Igreja)
Debate moderado pelo jornalista Manuel Vilas Boas

18.30 - Encerramento (Alfreda Fonseca, professora do ensino secundário)

19.00 - Celebração da eucaristia, presidida por frei Bento Domigues

quinta-feira, 31 de março de 2011

À Procura da Palavra - CARTA AO CEGO DE NASCENÇA QUE PASSOU A VER

A partir de hoje, retomamos a publicação da crónica (em princípio semanal) À Procura da Palavra, do padre Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica do domingo seguinte.

“Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença.”

(Evangelho segundo S. João 9, 32) – Domingo IV da Quaresma

Amigo dos olhos abertos! Não sei como te chamar porque não nos chegou o teu nome mas o evangelista João deixou-nos um retrato teu que impressiona sempre que o escuto e ficou-me uma vontade de te escrever. Ao contrário de outros cegos dos evangelhos parece que não pediste nenhum milagre a Jesus. Não gritaste nem se ouviu a tua voz. Talvez nem tivesses ouvido falar dele. De facto foi Jesus que te encontrou no caminho e depois de tentar libertar as mentes dos discípulos do preconceito de que a doença e o sofrimento eram castigo dos pecados, pôs-te “na berlinda”. Deves ter ficado surpreendido com aquele lodo feito de saliva e terra que Ele te pôs nos olhos e com a ordem para te ires lavar à piscina de Siloé. E foste, e ainda bem que foste!

Gostava tanto de te ouvir contar como foi o teu abrir de olhos e começares a ver! Sabes, às vezes, andamos com os olhos desfocados ou cheios de escamas que já nem nos maravilhamos com o dom de ver. Como se andássemos doentes dos olhos e só vemos o que é feio, o mal dos outros e do mundo, a escuridão. Imagino o teu olhar como o das crianças, encantado com tudo, maravilhado com o insignificante e com o grandioso, espantado quando viste o teu rosto pela primeira vez e o daqueles que só conhecias pela voz, pelas mãos. Estavas a nascer de novo!

E como isso te transformou. Já não fazia sentido pedir esmola mas era preciso dizer que eras o mesmo e também outro. No meio de acesa polémica foste questionado, levado aos fariseus, quiseram manipular-te, insultaram-te, mas foi crescendo em ti uma voz, uma coragem para até ironizar com os que te julgavam. Não aceitavam que tivesses nascido “inteiramente em pecado” e estivesses a ensiná-los! Continuamos a ter dificuldade em acolher as surpresas de Deus. É tão fácil espalhar o preconceito e viver em condomínios fechados do pensamento. Julgamos ver melhor e talvez estejamos cegos para o essencial. Mas também há modos refinados de prolongar “cegueiras”, de esconder verdades, de manipular pessoas e multidões. Na política, na economia e até na fé há “sábados” intocáveis de inércia e acomodamento, de poderes apetecíveis, de tradições vazias, de injustiças prolongadas. Continua a ser verdade: “o pior cego é aquele que não quer ver”.

Mas foi o olhar de Jesus que mais te impressionou, não foi? Há uma canção brasileira que diz assim “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem-se encontrar…”. Ver e acreditar foi um enorme passo. Como se transformou o teu caminho? Como se transformam os nossos que também acreditamos em Jesus? Pode ver-se nos nossos olhos a luz que passou a habitar os teus? Obrigado pela tua paciência em me leres.

Um abraço a Jesus e vemo-nos por aí!

(ilustração: El Greco, Jesus curando o cego)

quarta-feira, 30 de março de 2011

Dez motivos para lembrar o Concílio Vaticano II


Um leitor do “Corriere della Sera” pediu ao cardeal e arcebispo emérito de Milão, Carlo Maria Martini, “uma lista de dez motivos” pelos quais devemos estar agradecidos ao último concílio.
Martini não respondeu propriamente com uma lista, mas apontou alguns motivos. O Concílio foi óptimo e recomenda-se, defende o cardeal, contra o que constitui uma corrente não tão pequena quanto se pode supor que anda por aí a dizer que os males actuais da Igreja (incluindo a pedofilia) são consequência das alterações introduzidas por esta reunião magna dos bispos católicos.
No decorrer do Vaticano II, “sentia-se como a Igreja havia reencontrado uma linguagem simples e convincente, que falava ao coração do homem contemporâneo”, afirma Martini, que estava então na comunidade do Pontifício Instituto Bíblico (tinha 35 anos em 1962, início do Concílio; seria ordenado bispo em 1980).
Em síntese, segundo o cardeal, são estes os motivos para lembrar e continuar o Concílio:
- confiança no método histórico-crítico (de que Bento XVI desconfia nos seus livros sobre Jesus);
- melhor compreensão dos textos da liturgia
- uso das línguas vernáculas na liturgia
- encorajamento do diálogo com os cristãos não católicos e com as religiões não cristãs;
- impulso à reforma das ordens religiosas
- aprofundamento da identidade da Igreja
- reconhecimento da liberdade religiosa
- novo entendimento da presença da Igreja no mundo
São oito os motivos apontados. Concordando com todos, eu apontaria mais dois para fazer os dez: reconhecimento da identidade laical (pode estar subentendido na questão da identidade da Igreja); valorização dos meios de comunicação social (foi escrito um documento sobre o assunto, ainda que menor, o “Inter mirifica”, provocando a exclamação em Tiago Alberione, fundador da família paulina: “Agora já não podeis duvidar. A Igreja falou”).

A pergunta do leitor e a resposta do cardeal podem ser lidas em italiano no sítio que criou para promover o Concílio ou em português aqui.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Bento e Anselmo: Homem - animal que fala à beira de um poço


Bento Domingues no "Público" de 27 de Março.


Anselmo Borges no DN de 26 de Março:

Entre as características ou "notas" que distinguem o ser humano dos outros animais, uma é determinante: a capacidade simbolizante, de tal modo que antropólogos, como E. Cassirer ou P. Laín Entralgo, o definiram, respectivamente, como animal simbólico e animal simbolizante.O animal vive dentro do esquema estímulo-resposta. Com o homem, dá-se uma mudança qualitativa, já que, entre o estímulo e a resposta, se introduz o sistema simbólico. Ler mais aqui.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Começa hoje o Pátio dos Gentios. A Igreja só dialoga com ateus que são "patos mancos"?

Começa hoje, em Paris, a primeira edição do Pátio dos Gentios, “dois dias de trocas e diálogos entre crentes e não crentes”.

O cardeal Gianfranco Ravasi justificou em entrevista ao jornal italiano “Il Fatto Quotidiano” a escolha da cidade de Paris por ser um “estandarte de laicidade”, uma cidade onde encontrou “um mundo laico interessado num confronto verdadeiro sobre grandes temas”.

O diálogo é necessário porque, afirma o cardeal que coordena a iniciativa, “o crente e o ateu são, cada um, portadores de uma mensagem, que é «performativa», já que envolve a existência”. E acrescenta: “Estou contente por ter como interlocutores em Paris personalidades como Julia Kristeva, semióloga e psicanalista agnóstica, ou o geneticista Axel Kahn”.

Os assuntos a discutir hoje e amanhã são, segundo o cardeal, na Unesco, “o papel da cultura”, mas também “as mulheres na sociedade moderna”, o “empenho pela paz e a busca de sentido num mundo que é ao mesmo tempo secularizado e religioso”, na Sorbonne, “Iluminismo, religiões, razão comum”, no Institut de France, “economia, direito, arte”.

Esta vontade de diálogo a partir da Igreja obteve um curioso contraponto crítico num artigo de Paolo Flores d’Arcais (que em português, em co-autoria com Joseph Ratzinger, tem publicado “Existe Deus? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo”, ed. Pedra Angular).

O filósofo ateu realça que por vezes a Igreja escolhe interlocutores que são “patos mancos”, segundo expressão do entrevistador de Ravasi, isto é, aqueles ateus que parecem sofrer a condição da falta de fé como uma amputação ontológica. (A observação é perfeitamente aplicável à Igreja portuguesa, que também tem os seus "patos mancos".) E provoca o cardeal:
Espero, por isso, sinceramente, que às suas palavras sigam-se os fatos. Não só em Paris, também na Itália. Nos últimos anos, a atitude foi, porém, de sinal oposto. O diálogo com o ateísmo foi sistematicamente rejeitado pela Igreja hierárquica e até pelo senhor, pessoalmente. Trata-se de uma verdade indiscutível, da qual, infelizmente, eu posso dar testemunho direto. (…)
Convido-lhe, portanto, às"Jornadas da Laicidade", que ocorrerão em Reggio Emilia entre os dias 15 e 17 de abril, às quais se recusaram a participar os 15 cardeais que convidamos e nas quais o senhor poderá discutir com ateus não "patos mancos" como come Savater, Hack, Odifreddi, Giorello, Pievani, Luzzatto e, bom último, o subscrito.
Se, depois, a sua agenda não lhe permitir acolher este convite, proponho-lhe organizar juntos, o senhor e eu, uma série de confrontos nos tempos e lugares que o senhor julgar oportunos. Devo, porém, dizer-lhe, com toda a franqueza, que não consigo libertar-me da sensação – nos últimos anos empiricamente consolidada – de que o "diálogo" que o senhor teoriza quer, ao contrário, evitar o próprio confronto com o ateísmo italiano mais consequente.
Sítio francês do Pátio dos Gentios.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Inquérito Nova Evangelização (5) - José Manuel Pureza

Todo o apoio às pequenas comunidades de referência e de testemunho

José Manuel Pureza, 52 anos, professor universitário

1 – Creio que seria importante distinguir dois níveis de “experiência religiosa” (e referir-me-ei apenas ao cristianismo) para efeitos desta resposta. O primeiro é o da experiência pessoal. Aí, as grandes transformações sociais das últimas décadas terão provocado a evidência de fragilidades na cultura teológica e no relacionamento entre fé, ciência e sociedade. A condição crente tem vindo a ser desafiada a sacudir de si a carga de filiação num colectivo de verdades apodícticas e a assumir-se cada vez mais como imitação da vida de Jesus. O segundo nível de avaliação refere-se à experiência comunitária. E aí creio que se regista uma polarização entre uma reacção conservadora, que ensaia um regresso a uma visão “forte” da linguagem religiosa contra um suposto "deserto interior"- e daí o discurso d'"A verdade contra o relativismo" - e uma reacção de abertura aos diálogos difíceis no pressuposto de que a laicidade é um pilar de emancipação inultrapassável.

2 – Só pode fazer essa leitura através de uma observação participante plural e nunca a partir de uma posição de exterioridade ou de superioridade catedrática. Quem joga à defesa dificilmente vê marcas de Deus porque está mais preocupado/a em identificar contra-sinais. Há na Igreja uma nostalgia incompreensível dos "gloriosos tempos" da Acção Católica e de outros movimentos de massas como se este tempo de pós-cristandade estivesse despido de canais de detecção do fluir da realidade e da sua mutação permanente.

3 – A expressão “nova evangelização” é pastoralmente datada e tributária de um espírito de “reconquista” de uma hegemonia cultural perdida. Nesse sentido, acho que é uma lógica carregada de equívocos. As dinâmicas de secularização convocam, em termos definitivos, a um espírito de despojamento dos cristãos relativamente ao mundo e de estima pelo pluralismo a todos os níveis. Evangelizar no sentido de marcar as realidades a acontecer com o espírito libertador de Jesus é uma tarefa que dispensa bem todo o saudosismo de uma Igreja a marcar institucionalmente (e ideologicamente) a agenda do debate público.

4 – Em boa parte do seu discurso público, tem. A redução do espaço da decisão ética pessoal e colectiva é, aliás, uma das marcas de desajustamento da Igreja relativamente aos nossos tempos plurais. Isto dito, não pode deixar de se sublinhar a importância (positiva) que dou ao pronunciamento público de vozes da Igreja a respeito de questões como a guerra e a paz ou a assimetria de oportunidades em escala planetária ou o universo do trabalho e dos direitos sociais - aí, o questionamento ético de orientações sociais e políticas dominantes tem tido um papel muito relevante.

5 – Toda a prioridade à “desadministrativização” da organização das comunidades. Todo o apoio às pequenas comunidades de referência e de testemunho. E todo o investimento no serviço desinteressado aos mais pobres. Com a linguagem do mundo, para que o mundo a possa entender.
(Foto copiada daqui)

domingo, 20 de março de 2011

Bento aborda o humor na Quaresma; Anselmo fala dos "bispos cristãos"

Texto de Bento Domingues no "Público" de 20 de Março.



Texto de Anselmo Borges no DN de 19 de Março de 2011.
Causou alguma admiração tanto interesse dos media, aquando do 75.º aniversário do patriarca de Lisboa, José Policarpo, e do seu pedido de resignação, sendo seguro que o Papa lhe concederá mais dois anos. Mas, afinal, o móbil dos media pareceu ser, mais do que fazer um balanço, por todos considerado positivo, a curiosidade quanto ao sucessor.
Ler mais aqui.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Crucifixo nas salas de aula não viola liberdade religiosa

Ontem escrevia-se neste blogue que Joseph Weiler foi o advogado das nações lideradas pela Itália no recurso para poderem continuar a ter crucifixos nas salas de aula das escolas públicas (aqui). Hoje foi divulgado o resultado do recurso.

Em 2009 o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) condenou o Estado italiano por entender que os crucifixos constituem “uma violação ao direito dos pais em educar os filhos segundo as próprias convicções" e uma "violação à liberdade religiosa dos alunos" ("caso Lautsi"). Agora o TEDH anulou a condenação, considerando que esta é uma decisão da responsabilidade de cada Estado. Pode não corresponder à argumentação do judeu Joseph Weiler, pelo menos segundo a entrevista que deu, mas era esse o resultado pretendido. Notícia da Agência Ecclesia e acórdão do TEDH aqui.


O mesmo Weiler participou na quarta-feira num seminário acolhido pelo Parlamento Europeu sobre intolerância e discriminação contra cristãos. À Rádio Vaticano afirmou o seguinte: “Aquilo que eu acho mais chocante não é o facto de haver discriminação, ódio, cristianofobia, mas que estas coisas sejam aceites, que não haja protestos, que este seminário seja um dos primeiros eventos deste género”. Li aqui.