terça-feira, 5 de novembro de 2013

A esperança em debate, num documentário sobre viver com o HIV

Agenda – debate


(foto SIC, reproduzida daqui)

Uma história de esperança, para um debate sobre a esperança. Um documentário comovente e de grande qualidade cinematográfica é o pretexto para um debate esta quarta-feira, na Capela do Rato, em Lisboa (Cç. Bento da Rocha Cabral, 1-B, ao Rato): o documentário, dos jornalistas Cândida Pinto e João Nuno Assunção, e com imagem de Jorge Pelicano, intitula-se “Alexandra – Viver com HIV” e fala da luta contra o preconceito, dos sonhos que permanecem apesar disso e da amizade e do amor.
“Eu sou a Alexandra, não sou o HIV", diz a protagonista, a dada altura. “Hoje faço uma vida igual à das jovens da minha idade. Tenho um pequeno acréscimo que é o VIH, mas tomo a indispensável medicação diária e vou às consultas regulares. De resto não sou diferente. Faço uma vida exactamente igual a todas as outras raparigas de 19 anos. E agora estou num momento decisivo da minha vida: quero realizar o meu sonho, quero muito ir para a faculdade, estudar psicologia, porque é uma coisa que me fascina e que eu não consigo explicar. Faço-me entender?”
O debate, a partir das 21h30, conta com a participação de Cândida Pinto, da documentarista Joana Pontes, do colunista Daniel Oliveira e de Henrique Joaquim, responsável da Comunidade Vida e Paz.
Pode ver-se o documentário aqui, como aperitivo para o debate, mas nada como vê-lo em ecrã maior e, sobre ele, conversar a seguir.


Músicas que falam com Deus (22) - A música de Hildegarda, doutora da Igreja


Hildegarda de Bingen, a monja medieval, é uma descoberta recente. Além de abadessa do mosteiro de Rupertsberg, ela foi escritora, compositora, terapeuta, botânica, pintora e poetisa, entre vários outros atributos. Uma das mais importantes místicas da história da Igreja, Hildegarda foi proclamada doutora da Igreja, há um ano, em Outubro de 2012, pelo Papa Bento XVI, tendo em conta também o seu pensamento filosófico e teológico, bem como os caminhos imensos que ela rasgou num tempo em que, às mulheres, estava destinada uma vida de segunda categoria.
Um dos “génios universais da história ocidental”, como se diz na apresentação deste disco, que se confrontou mesmo com bispos e o próprio Papa. Também na música, o legado de Hildegarda de Bingen é uma das descobertas das últimas duas ou três décadas. Reconhecidas como de grande qualidade, as suas quase oitenta composições – entre as quais o Ordo Virtutum – têm sido gravadas por dezenas de grupos e intérpretes a partir dos manuscritos conhecidos.
Neste disco, a voz transparente e límpida de Catheryne Braslavsky, os instrumentos tocados por Joseph Rowe e os arranjos musicais de ambos dão neste disco, à música de Hildegarda, um toque original – por exemplo, em peças como O Ignis Spiritus, Ave generosa ou O Jerusalem, entre outras –  onde não faltam cordas e percussões tibetanas e africanas, que ajudam a sublinhar as melodias desenhadas e moduladas pela voz.

Título: Hildegard von Bingen – Le mariage du ciel et de la terre
Intérpretes: Catherine Braslavsky e Joseph Rowe
Edição: Jade


(texto publicado n'O Mensageiro de Santo António, de Novembro 2013)

Entre a vida e a morte, aprender a cuidar

Crónicas

Nas crónicas do último fim-de-semana, a morte, o feriado de Todos os Santos e o cuidado com a vida e a fragilidade da existência foram o tema comum a alguns dos textos. No Expresso/Revista de sábado, José Tolentino Mendonça escrevia sob o título Aprender a morrer:

Temos de aprender a estar com os outros quando chegar o seu momento, desenvolvendo capacidades até então negligenciadas. Temos de aprender a cuidar da dor e a minorá-la, mas não só com comprimidos: também com o coração, com a presença, com os gestos silenciosos, o respeito, com uma expectativa de coragem. Os doentes não estão à procura de indulgência. Temos de aprender a embalar a fragilidade, a dos outros e a nossa própria, ajudar cada um a reencontrar-se com as coisas e com as memórias certas, a não desesperar, a encontrar um fio de sentido no que está a viver, por ínfimo e trémulo que seja. Temos de aprender a ser suporte, temos de querer eficiência técnica mas também compaixão, temos de reconhecer o valor de um sorriso, ainda que imperfeito, em certas horas extremas. À beira do fim há sempre tanta coisa que começa.

O texto completo pode ser lido aqui

Também no sábado, no DN, Anselmo Borges dedicava a sua crónica a’Os dias da memória e da interrogação, que a suspensão do feriado de dia 1 de Novembro colocou em questão:

Mas até a Igreja Católica, na negociação dos feriados, preferiu a Senhora da Assunção aos dias de Todos-os-Santos e dos Finados. Um erro. De facto, estes são os dias da memória (lembrar todos os que partiram) e da interrogação essencial: o que é o homem?, viver para quê?, qual o sentido da existência? Nestas perguntas, transcende-se a morte como facto biológico e abre-se outra dimensão.

(Texto integral para ler aqui)

Na véspera, no Correio da Manhã, Fernando Calado Rodrigues escrevia especificamente sobre a suspensão do feriado, para defender que ela pode até trazer possibilidades de uma acção renovada:

Duvida-se, valha a verdade, dos benefícios que possam advir para a economia do país da supressão de um feriado. Mas, pelo menos, a Igreja Católica ganhou com a purificação do dia de Todos os Santos do contágio dos sentimentos próprios do dia de Fiéis Defuntos.

(texto para ler aqui)


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Manuela Silva: Reduzir os horários para acomodar jovens desempregados


Já saiu no domingo, no Público, mas não perdeu atualidade: trata-se de uma entrevista com a economista e professora Manuela Silva, coordenadora do grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica. Os seus pontos de vista e o seu pensamento  podem ser lidos AQUI.
Fica aqui a sua posição sobre o que poderia e deveria ser feito quanto ao desemprego juvenil:
"Não se justifica que nas nossas sociedades, que atingiram níveis de produtividade elevados, que asseguram lucros de capital elevados em grande parte dos sectores, se continuem a praticar horários como os que vigoraram na civilização industrial. Defendo uma redução drástica de horários de trabalho, para acomodar a situação dos jovens desempregados. Evidentemente isto supõe que se aceite na empresa uma repartição mais equitativa dos salários e que o total das remunerações seja atribuído aos trabalhadores numa proporção que relacione o salário mínimo com o salário do topo. Hoje temos remunerações de quadros superiores que são manifestamente desproporcionadas. Sem alterar os custos de pessoal da empresa seria possível, e a meu ver desejável, não só por ser mais equitativo, mas por ser um elemento dinamizador da própria economia, que se introduzissem regras de proporcionalidade nos salários. Depois haveria todo um conjunto de medidas que se podem tomar, como o trabalho a meio tempo, a dois terços do tempo... Acho fundamental dar lugar aos mais novos".

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O amor, a ternura e o cuidado, um texto de Leonardo Boff


“O segredo maior para cuidar do amor reside no singelo cuidado da ternura.  A ternura vive de gentileza, de pequenos gestos que revelam o carinho, de sacramentos tangíveis, como recolher uma concha na praia e levá-la à pessoa amada e dizer-lhe que, naquele momento, pensou carinhosamente nela”.
É o que sustenta no seu blog o teólogo Leonardo Boff, autor de  O Cuidado Necessário (Vozes 2012). Ele prossegue:
Tais “banalidades” tem um peso maior que a mais preciosa jóia. Assim como uma estrela não brilha sem uma atmosfera ao seu redor, da mesma forma, o amor não vive  sem um aura de enternecimento, de afeto e de cuidado.
Amor e cuidado formam um casal inseparável. Se houver um divórcio entre eles, ou um ou outro morre de solidão. O amor e o  cuidado constituem uma arte. Tudo o que cuidamos também amamos. E tudo o que amamos também cuidamos.
Tudo o que vive tem que ser alimentado e sustentado. O mesmo  vale para o amor e para o cuidado. O amor e  o cuidado se alimentam da afetuosa preocupação de um para com o outro. A dor e a alegria de um é a alegria e a dor do outro.
Para fortalecer a fragilidade natural do amor precisamos de Alguém maior, suave e amoroso, a quem sempre podemos invocar. Daí a importância dos que se amam, de reservarem algum tempo de abertura e de comunhão com esse Maior, cuja natureza é de amor, aquele amor, que segundo Dante Alignieri da Divina Comédia “move o céu e as outras estrelas”  e nós acrescentamos: que comove os nossos corações.

domingo, 27 de outubro de 2013

Os muito ricos e os muito pobres

A coluna "Os Dias da semana" que dominicalmente Eduardo Jorge Madureira tem do Diário do Minho intitula-se hoje "Os muito ricos e os muito pobres".

Uma das histórias que se contavam repetidamente a seguir ao 25 de Abril de 1974 era sempre apresentada como verídica. Pouco importava, no entanto. O que contava era a clareza com que servia para expor dois projectos políticos distintos, um, social-democrata; outro, muito mais à esquerda. Os protagonistas eram Olof Palme, na altura primeiro-ministro da Suécia e líder do Partido Social Democrata e Otelo Saraiva de Carvalho. O enredo praticamente não existe e a versão mais curta pode resumir-se a uma brevíssima troca de palavras.
O essencial é isto: Otelo vai à Suécia explicar o que pretendem os militares portugueses que derrubaram o fascismo. Quando encontra Olof Palme, depois das iniciais palavras de circunstância, diz-lhe que o objectivo da revolução portuguesa é acabar com os ricos. O primeiro-ministro sueco testemunha-lhe um programa diferente: “Nós, os sociais-democratas suecos, queremos acabar com os pobres. O que mais nos incomoda é a pobreza”.
Olhando, hoje, para grande parte dos dirigentes políticos europeus, é difícil não julgar que o que desejam com a sua acção é, sobretudo ou apenas, manter-se no poder, permanecendo nas graças dos muito ricos que, zelosamente, servem e de quem, de facto, dependem. O que promovem é o empobrecimento cada vez mais generalizado, designadamente das pessoas mais ou menos remediadas, o reverso, afinal, do projecto social-democrata, que tinha em Olof Palme um generoso inspirador.
Ao mesmo tempo que se empreendem políticas para empobrecer a maioria dos cidadãos, é fabricado e difundido um imaginário ideológico que apresenta os pobres como um grupo parasitário, absolutamente avesso ao que prescreve a doxa vitoriosa dos doutrinários do empreendedorismo. Estranha gente, que fabrica pobres e lhes destrói a reputação.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Da evangelização da África à África evangelizadora

Agenda

O Colóquio Internacional Da evangelização da África à África evangelizadora, que se iniciou esta manhã no Porto, tem amanhã um dos seus momentos altos, com a intervenção de Paul Freston. O investigador norte-americano é autor de várias obras, entre as quais Evangelicals and Politics in Asia, Africa and Latin America, sobre a presença dos grupos evangélicos no sul do mundo.




sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A casa onde agora mora D. António Marcelino

In Memoriam. D. António Marcelino (1930-2013)



É difícil distinguir, num momento destes, entre as memórias pessoais e as profissionais. Na última conversa que tivemos, aproveitámos para pôr a escrita em dia em ambos os âmbitos. Mas o tom principal foi o seu grande entusiasmo com o Papa Francisco: o Concílio Vaticano II está a ser retomado em vários aspectos em que tinha ficado parado ou bloqueado – tal era a sua convicção profunda.
O homem de quem falo, entusiasmado sempre, hiperactivo por feitio, desmesuradamente preocupado com tudo o que o rodeava, é D. António Marcelino, bispo emérito de Aveiro, depois de ter sido coadjutor (1983-1988) e titular (1988-2006) da diocese. D. António morreu esta quarta-feira no Hospital Infante Dom Pedro, naquela cidade, poucos dias depois de completar 83 anos. O seu funeral será esta sexta-feira na Sé de Aveiro, às 15h.
Há meses, impressionara-me uma alusão, na sua crónica semanal no Correio do Vouga, ao seu retiro na “cela de monge”. Foi apenas, confidenciou-me há um mês, quando falámos, a maneira que encontrou de chamar a atenção para a forma como, na Igreja como na sociedade, muitas vezes se atiram as pessoas para um canto, só porque deixam se servir para determinadas tarefas.
Não era o seu caso, mesmo se ele sentia que podia dar mais, muito mais, ainda. Assim houvesse quem o convidasse, que ele estava disponível para animar debates, fazer celebrações ou presidir até às liturgias dos dias de finados. Mas, por mais que o convidassem, nunca estava satisfeito, porque essa era a sua têmpera.
Tendo apanhado o Concílio enquanto jovem padre, António Marcelino contava, na sua última crónica no Correio do Vouga (que pode ser lida no sítio da diocese de Aveiro na net, de onde também se reproduz a foto), que emoções lhe sobrevieram com o acontecimento e os documentos conciliares: “Senti ao vivo a urgência de uma Igreja outra e do Povo de Deus como o grande obreiro do Reino; descobri o significado do Colégio Apostólico e da hierarquia como serviço; acordei mais para o dever de reconhecer e promover os leigos cristãos na sua dignidade e missão própria, na Igreja e no mundo; tomei consciência de que a santidade é vocação universal e dever de todos; vi com clareza a condição normal da Igreja peregrina,  evangelizadora e missionária por sua natureza e sempre em caminho de conversão:; agradeci a visão nova da liturgia, a descoberta da Palavra de Deus para os cristãos e as comunidades; vivi a novidade das novas relações da Igreja – Mundo; rejubilei com a abertura ecuménica e com a declaração sobre a Liberdade Religiosa; agradeci a Deus os Papas João XXIII pelo seu gesto corajoso, e Paulo VI pela sua lucidez e coragem…”
Não é de estranhar que, nas suas crónicas do Correio do Vouga o Concílio Vaticano II, a urgência de renovação na Igreja e a preocupação com os mais pobres e desprotegidos da sociedade fossem marcas de água constante. Vários textos sobre o Concílio foram, depois, reunidos no livro Vaticano II ao Alcance de Todos (ed. Paulinas).
A sua última crónica, lida por muitas pessoas como um testamento espiritual, é uma afirmação de como ele sempre sentira “a necessidade de ler melhor a realidade e a [sua própria] vida”. Insatisfeito permanente, exigente consigo e com os outros, não queria uma Igreja acomodada em adquiridos de teias de aranha. Por isso rasgou horizontes no âmbito social, desafiando permanentemente a novos campos de acção e à intervenção dos cristãos, como a Cáritas Portuguesa recordou em comunicado.