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terça-feira, 21 de agosto de 2018

Os riscos de dois artistas a desenhar igrejas modernas

In Memoriam
António Freitas Leal (1927-2018) e António Flores Ribeiro (1934-2018)



Texto de João Alves da Cunha

Nos últimos tempos vimos partir dois importantes nomes da arquitetura religiosa em Portugal, António de Freitas Leal e António Flores Ribeiro. Dois colegas, dois amigos, que dedicaram a maior parte da sua vida à construção de igrejas modernas fiéis ao espírito do Concílio Vaticano II. Pela sua dedicação e trabalho no MRAR – Movimento de Renovação de Arte Religiosa e no SNIP – Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado, o património arquitetónico religioso em Portugal dos últimos 60 anos muito deve à sua reflexão e ao risco de suas mãos.

António Aires de Freitas Leal

Nasceu no Funchal em 1927. Em 1950 frequentou o curso de Sociologia e Ordenamento de Território da “Économie et Humanisme”, em L’Arbresle, Lyon. Participou no 1º Congresso dos Universitários Católicos, realizado em Lisboa em 1953, onde apresentou, juntamente com José Pedro Martins Barata, uma comunicação intitulada “Natureza e espiritualidade da profissão de arquiteto” (1). No ano letivo de 1953-45 organizou para os estudantes de Arquitetura um curso de Habitação e Urbanismo, e no ano seguinte lecionou a cadeira de Higiene e Urbanismo no Instituto de Serviço Social de Lisboa. Entre 1954 e 1957 foi professor contratado da Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa.
(O texto pode continuar a ser lido aqui)

Foto: Igreja de Santo António de Moscavide (reproduzida daqui)



sábado, 14 de março de 2015

In Memoriam. Madalena Cabral (Porto, 1922-2015) – a arte da paramentaria

Texto de João Alves da Cunha*


Madalena Cabral, Autoretrato

Madalena Cabral nasceu no Porto em 1922, mas foi na Escola António Arroio em Lisboa que realizou o curso de Artes Decorativas. Começou por dedicar-se à pintura, com maior destaque para a aguarela, que a levou a realizar algumas exposições no Porto e em Lisboa. Em 1948 recebeu o Prémio Henrique Pousão e, quatro anos depois, o Prémio José Tagarro. A sua aguarela Leitura foi adquirida para o acervo do então Museu de Arte Contemporânea de Lisboa. Ensaiou também alguns cartões para tapeçarias para a Manufactura de Portalegre. Em 1952 começou a trabalhar no Museu Nacional de Arte Antiga, onde lançou no ano seguinte as bases do pioneiro Serviço de Educação, orientado para a formação artística e cultural das crianças.
Em 1964, a sua experiência no trabalho com crianças associada à sua participação ativa na vida católica – Madalena Cabral pertenceu à União Noelista Portuguesa, cuja revista Étoile Noeliste foi presença constante em sua casa durante a infância – levou-a a desenvolver uma iniciativa com numerosas crianças que resultou numa exposição, em Lisboa, de desenhos infantis que se destinaram a ilustrar um Evangelho oferecido ao Papa Paulo VI.
Entretanto, os seus conhecimentos sobre têxteis levaram-na a envolver-se na fundação do MRAR (Movimento de Renovação da Arte Religiosa) em 1953, por intermédio de Maria José de Mendonça (1905-1984), também noelista e responsável pela organização da 1ª Exposição de Arte Sacra Moderna que se apresentou, em 1945, no Palácio Galveias, em Lisboa.
Enquanto sócia fundadora do MRAR, Madalena Cabral manteve ao longo dos anos uma participação intensa na vida do Movimento, apresentando conferências, escrevendo artigos e organizando exposições, de que se destaca a intitulada Paramentaria Moderna, realizada em 1964 na Sé de Lisboa.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Os anos de ouro da arquitectura religiosa portuguesa

Foram os anos de ouro da arquitectura religiosa portuguesa, assim o define o título da tese de doutoramento que, no passado dia 28 de Outubro, foi defendida pelo arquitecto João Alves da Cunha na Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa. A definição do título é esclarecedora acerca da importância da tese e do Movimento de Renovação de Arte Religiosa (MRAR), que ela pretende retratar. Tendo em conta essa importância, RELIGIONLINE publica a seguir, por deferência do seu autor, excertos das conclusões e da introdução, por esta ordem, deixando para o final a explicação dos aspectos metodológicos e das razões que levaram João Alves da Cunha a interessar-se pelo tema.
O autor da tese é também membro do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica. Os subtítulos são da responsabilidade do RELIGIONLINE. Foram aqui omitidas as notas de rodapé.


Luiz Cunha, Igreja Nossa Senhora de Fátima (1968), 
Póvoa do Valado (Aveiro)

Texto de João Alves da Cunha

A História vale na medida em que pode resolver os problemas do presente e na medida em que se torna um auxiliar e não uma obsessão.” (Fernando Távora, 1947)

O Movimento de Renovação da Arte Religiosa foi um acontecimento único, verdadeiramente “filho do seu tempo”, consequência de episódios que o antecederam e das circunstâncias que se viveram durante a sua existência. (...) António Freitas Leal, P. António dos Reis Rodrigues, Flórido de Vasconcelos, Henrique Albino, João Braula Reis, João Correia Rebelo, João de Almeida, José Maya Santos, Madalena Cabral, Maria José de Mendonça e Nuno Teotónio Pereira ficam para a história como tendo sido os sócios fundadores do MRAR, cuja organização inicial foi profundamente influenciada pela estrutura de duas organizações que lhes eram próximas –a suíça Sociedade de São Lucas que conheciam através de João de Almeida e a Acção Católica Portuguesa.
O grupo sempre afirmou explicitamente a sua formação católica, mas ao longo de toda a sua existência fez questão de se manter como um movimento independente da orgânica oficial da Igreja, como forma de poder relacionar-se e atrair pessoas de outros meios. No entanto, o núcleo do MRAR nunca perdeu o carácter “familiar” ou de pequeno grupo de amigos.
(...) quando fundaram o MRAR propuseram um programa ambicioso: realizar atividades internas para sua valorização doutrinal e técnica, efetuar reuniões de caráter espiritual para desenvolvimento da sua vida cristã, organizar exposições, cursos e conferências, editar publicações, estampas e gravuras, dar pareceres sobre todos os assuntos relacionados com arte e arquitetura religiosa, defender a execução de obras de arte sacra por artistas competentes e promover a realização de concursos. O objetivo a alcançar era tão vasto que é natural que na avaliação que faziam da sua ação considerassem que muito tinha ficado por fazer. No entanto, a realidade é que muito fizeram ao longo da existência do Movimento. Fazendo uso do pouco tempo e dos reduzidos meios que tinham disponíveis, os membros do MRAR conseguiram mudar mentalidades e contribuir para a renovação cultural da Igreja, num processo que afirmou e consolidou a construção da arquitetura religiosa moderna em Portugal. Para isso foi fundamental o estudo e reflexão que eles próprios realizaram, que passou pela consulta e leitura de livros e revistas internacionais, pelas visitas a igrejas no estrangeiro e pela relação próxima com padres e seminaristas, o que lhes conferiu um profundo conhecimento da temática, bem como uma capacidade particular para abordar o programa e projetar igrejas.

Um pensamento construído


Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, 
Igreja do Sagrado Coração de Jesus (1970), Lisboa

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Renovação da arte religiosa, um desafio que permanece


O programa Encontros Com o Património de hoje, na TSF, debateu a história e o papel do Movimento de Renovação de Arte Religiosa (MRAR), que marcou a arquitectura e as artes feitas em Portugal nas décadas de 1950-1970 no campo religioso do catolicismo.
O MRAR, que reuniu nomes como Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, João de Almeida, Erich Corsepius, Luís Cunha e muitos outros, rompeu com o anacronismo existente entre a arte e a expressão artística religiosa e levou a arquitectura ao campo da intervenção social – tanto mais difícil quanto Portugal vivia então sob domínio do regime ditatorial do Estado Novo.
As opções do MRAR seriam confirmadas pela renovação litúrgica assumida pelo Concílio Vaticano II. O movimento deixou também uma herança importantíssima que ainda hoje faz escola no campo da linguagem arquitectónica. Alguns revivalismos que hoje se verificam, e que confirmam que a renovação da arte religiosa permanece um desafio, são também debatidos pelos intervenientes no programa: os arquitectos Diogo Lino Pimentel, José Manuel Fernandes e João Alves da Cunha. O programa pode ser ouvido aqui. (A foto é da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, uma das principais concretizações das intuições do MRAR; esta e várias outras fotos da mesma igreja podem também ser vistas aqui, numa ligação que permite aceder a vários outros textos acerca deste movimento.)
  



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Um percurso e um desafio


Exposição

João de Almeida foi padre e é um artista multifacetado, além de ter sido um dos expoentes do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR), a par de outros como Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, José Escada, Manuel Cargaleiro ou Eduardo Nery. Autor das igrejas de Moscavide (com António Freitas Leal) e de Paço d’Arcos, a sua carreira incluiu também remodelações de espaços (Museu Nacional de Arte Antiga, Convento das Bernardas, Convento das Chagas em Vila Viçosa e Paços do Concelho de Lisboa, após o incêndio de 1996), projectos de residências e edifícios de escritórios (como o da Expo 98), desenho de objectos (arte sacra, como a custódia aqui reproduzida, e mobiliário) e, mais recentemente, pintura.
Na criação do MRAR, foi decisiva a colaboração de João de Almeida, durante dois anos, no ateliê de Hermann Baur, um dos grandes renovadores da arquitectura religiosa de meados do século XX. Baur concebeu mais de 25 igrejas na Suíça, Alemanha e França, como conta João Alves da Cunha num dos textos do catálogo desta exposição. O arquitecto português trouxe desse “estágio”, além da colaboração com grandes artistas e teólogos europeus (por exemplo, Vieira da Silva ou Hans-Urs von Balthasar), a vontade de, com outros, renovar a arte sacra. Além da revisitação de um percurso importante, esta mostra é uma forma de recolocar desafios também ao nível da arquitectura religiosa e da arte sacra.

(Texto publicado na revista Mensageiro de Santo António, Janeiro de 2013; aqui pode ler-se uma notícia sobre um encontro que, em Dezembro, reuniu antigos membros do MRAR; no final, estão indicadas várias ligações para outros textos relacionados com o mesmo movimento; na imagem: Custódia em prata dourada, do Colégio do Ramalhão, reproduzida a partir do catálogo "João de Almeida - Arquitectura, Design, Pintura)

João de Almeida – Arquitectura, Design, Pintura
Casa-Museu Medeiros e Almeida
R. Rosa Araújo, 41 - Lisboa
Segunda a Sexta: 13h-17h30; Sábado 10-17h30
Até 19 de Janeiro