segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Nem só de pão vive o homem

A crise financeira, as excomunhões e o sentido dos presentes e do Natal passam pela última crónica de frei Bento Domingues no Público de domingo.

1.Nem só de pão vive o homem, mas sem pão é difícil. O Diabo sabia disso quando pôs Jesus à prova no deserto. Hoje, diante dos efeitos económicos da especulação financeira, a nível global e local, a oração pelo “pão nosso de cada dia” – que não dispensa o trabalho – continua a fazer todo o sentido.
Quanto à crise, consultei o site da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE). Estava com pouca luz. O filósofo André Comte-Sponville – um ateu meio cristão – realça o primado evangélico do amor, alma de uma ética superior, mas não perde o sentido do realismo mais chão: “A ética vale mais do que a moral. A moral vale mais do que o direito. Mas a moral é mais necessária do que o amor, o direito é mais realista do que a moral. Se não formos capazes de viver à altura do Novo Testamento, respeitemos, ao menos, o Antigo”.
São afirmações lapidares e insuficientes. Encontrei alguns fervorosos católicos lamentando que o Papa – embora com alguns recados à Banca – não tenha excomungado os maiores responsáveis por uma crise que continua mais misteriosa do que a Santíssima Trindade.
A receita das excomunhões não me entusiasma e as determinações papais só contam para quem as deseja acolher. Por outro lado, os textos do Novo Testamento colocaram na boca de Jesus de Nazaré e de sua Mãe textos assustadores sobre os ricos. Na escola de S. Paulo, sustentava-se que “a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6, 10). Os cristãos que alinham com sistemas de exploração e com práticas de corrupção sabem muito bem o que fazem e sabem que estão, pelo efeito da sua actuação perversa, a excomungar-se da comunidade humana.
2. Estamos no Advento, mas a necessidade de vigilância não é exclusiva desta quadra litúrgica. Hoje, mesmo fora dos espaços eclesiais, é frequente ouvir: não se pode permitir aos mercados que façam o que lhes apetece sem qualquer controle. Não basta, no entanto, aproveitar a crise para ter mais cuidado com a gestão da vida económica. Quem ficar por aí, vai sonhar com o fim deste pesadelo para voltar a pautar a vida pessoal, profissional e social pela mesma escala de preocupações. Ora, o que está em causa é o sentido que cada um dá à sua vida, a responsabilidade que assume em relação ao bem comum e o espírito de compaixão pelos que vivem sós e abandonados: justiça e gratuidade.
A alteração de critérios deve começar já pela preparação deste Natal. É evidente que ainda há muito sentimento humano para que os sem abrigo e os velhos e novos pobres não sejam totalmente esquecidos. Os meios de comunicação podem fazer imenso para avivar o sentido da solidariedade e nem são precisas “300 ideias” para os atender. Mas, se ficarmos por aí, é porque pensamos que as pessoas “só vivem de pão”. Além da satisfação das necessidades materiais básicas – e estamos muito longe destas serem atendidas, apesar de todos os programas de combate à pobreza – as pessoas vivem, sobretudo, de afectos e beleza. Quando os presentes de Natal não são investimentos, valem na medida em que forem concretizações de presença pessoal, de reconhecimento, isto é, de que os outros contam para nós. É normal que o marketing se esforce por encontrar modelos de gastos de Natal para tempos de crise, porque presentes de luxo para gente de luxo são negócios, válidos apenas como negócios, mais ou menos honestos, investimentos talvez mais seguros do que a oscilação dos jogos da Bolsa. A ética desses investimentos e jogos é anti-solidária: a riqueza de uns implica a pobreza de outros.
3. Na perspectiva de revisão de vida, neste tempo de Advento, talvez possamos mudar de registo sem muitos gastos. É um momento privilegiado para descobrir a aliança entre a pobreza voluntária e a beleza. A pobreza, quando imposta, é feia e destruidora. Quando voluntária, pode ser azeda por moralismo, como a de João Baptista, ou bela como a de Jesus e Francisco de Assis. Os Evangelhos encheram de música o curral do nascimento do filho de Maria e o “Poverello” foi o grande poeta do presépio e da natureza. Fra Angélico só gastou alguma tinta para encher de beleza o convento de S. Marcos de Florença.
Somos europeus. G. Ravasi, presente do Conselho Pontifício para a Cultura, numa conferência na Universidade de Salamanca – no começo do próximo ano estará em Portugal – insistiu na redescoberta da nossa herança cultural multifacetada. Na apologia da vertente cristã, lembrou algumas afirmações de grandes figuras da cultura europeia: para Goethe, a língua materna da Europa é o cristianismo; segundo I. Kant, a fonte da qual brotou a nossa civilização é o Evangelho; T.S. Eliot, foi mais explicito: “Um cidadão europeu pode não pensar que o cristianismo seja verdadeiro e, contudo, o que diz e faz brota da cultura cristã da qual é herdeiro. Sem o cristianismo não teria havido nem sequer um Voltaire ou um Nietzsche. Se o cristianismo desaparece, desaparece também o nosso rosto”.
Encontrar-se, hoje, com o nosso património artístico, expressão da fé cristã, é fácil e barato. Para refazer a nossa alma na beleza e na pobreza, basta acolher a graça do Presépio.

A Imaculada Conceição

No seu texto deste sábado, no DN, Anselmo Borges fala do feriado que hoje, dia 8, se assinalou, e do seu significado teológico e pastoral.

Não sei se a maioria dos portugueses conhece o motivo do feriado no dia 8 de Dezembro. Os católicos praticantes saberão que se trata de uma festa ligada a Nossa Senhora. Se interrogados, talvez respondessem, na quase totalidade, que tem a ver com a virgindade de Maria.
Aí está, pois, uma festa infestada com equívocos. Logo à partida, que pode significar Imaculada Conceição? De facto, não se refere directamente à virgindade, mas não lhe é completamente alheia. Do que se trata, na realidade, é da afirmação de que Maria, a Mãe de Jesus, foi concebida sem pecado.
Mas, aqui, sem hermenêutica, isto é, sem interpretação, pode albergar-se uma série de confusões, profundamente ofensivas sobretudo para as mulheres, minando, desgraçadamente, a mensagem do Evangelho enquanto notícia boa e felicitante.
Foi concretamente Santo Agostinho que elaborou a doutrina do pecado original, no sentido de um pecado cometido pelos primeiros pais (Adão e Eva) e transmitido a todos por herança, no acto sexual. Houve uma excepção: Maria foi concebida sem a mancha do pecado original.
Deste modo, porém, a sexualidade ficou manchada e as mulheres acabavam por sentir-se discriminadas, tanto mais quanto, associando a concepção de Jesus a uma geração virginal, se lhes propunha o ideal impossível de virgem e mãe.
Sub-repticiamente, esta doutrina causou imensos danos ao cristianismo, concretamente à mulher, à visão do sexo e do casamento.
Assim, um cristão atento e reflexivo sabe que é necessário e urgente rever o dogma, mostrando o seu verdadeiro sentido. O próprio Papa João Paulo II deu a chave, ao escrever que "o Natal de Jesus revela o sentido profundo de todo o nascimento humano". Afinal, quando percebe que o ser humano não é redutível à biologia, o crente verá em toda a nova geração a presença do Espírito, como aconteceu com Jesus. Por outro lado, nascer é vir à luz e, portanto, dar à luz não constitui uma mancha para a mãe, como supõe a doutrina da virgindade de Maria, antes, no e depois do parto.
Um dia, numa entrevista, um jornalista atirou-me: "Não acha que Nossa Senhora é a mulher mais poderosa de Portugal?" Nunca tinha pensado nisso, mas é bem possível. Basta pensar em Fátima e no que Fátima representa para os portugueses. Aliás, Nossa Senhora "concede" dois feriados nacionais: Imaculada Conceição (8 de Dezembro) e Assunção (15 de Agosto).
Mas, se se pensar bem, estas festas são metáforas de esperança e salvação: todo o ser humano é concebido sem pecado, mas, entrado no mundo, terá de lutar contra a maldade e o pecado, na esperança de um mundo melhor, e também na morte pode contar com o Deus amor e a sua graça de vida eterna.
Podemos então compreender, como dizia o teólogo Karl Rahner, que, nestes domínios, por exemplo, da virgindade de Maria, não se trata de biologia. Referindo-se à narrativa do Evangelho de São Mateus sobre a geração de Jesus por obra do Espírito Santo, escreveu o exegeta Jean Radermakers: "Tomando imagens das mitologias pagãs, depuradas pela reflexão judaica, Mateus não se situa num plano de fisiologia, medicina, ginecologia ou sexologia, mas no de uma realidade mais profunda. Deveríamos reler a nossa experiência do dar à luz e da responsabilidade parental a partir do nascimento de Jesus. Toda a criatura recém-nascida vem de Deus. Assumir uma maternidade e paternidade humanas é deixar que Deus se revele na criatura nascida. A missão de todo o varão e toda a mulher que se unem é dar lugar a que apareça no mundo a realidade do Emanuel, Deus connosco."
Criticando os mal-entendidos da leitura do Evangelho a partir de pressupostos negativos em relação à sexualidade, o teólogo Juan Masiá põe na boca do anjo estas palavras dirigidas a São José: "Não deixes de levar Maria contigo. Não penses que pelo facto da intervenção do Espírito o teu papel como varão está a mais. Não tens que afastar-te para permitir que Deus faça algo grande com a tua família. Com a tua relação com Maria, não vais entrar em concorrência com o Espírito. O teu papel é compatível com a acção de Deus e com que Jesus seja o Cristo."

sábado, 6 de dezembro de 2008

Morreu Alexis II, o patriarca da Igreja Ortodoxa russa

A notícia é desta sexta-feira: morreu o líder de 140 millhões de cristãos ortodoxos, o patriarca Alexis II, do patriarcado de Moscovo. O texto que a seguir se reproduz é extraído do site do Público, que este sábado traz mais elementos sobre o processo de sucessão. No La Croix há também um excelente dossiê sobre o tema. No Público há também um vídeo e no la Croix um interessante conjunto de 13 imagens.

Alexis II, o patriarca de Moscovo e o homem que restaurou a influência da Igreja Ortodoxa russa após a queda do regime comunista, morreu hoje, aos 79 anos."O santo patriarca faleceu na sua residência de Peredelkino (perto de Moscovo), durante a manhã", precisou o chefe do serviço de imprensa, Vladimir Viguilianski, citado pelas agências russas.Os sinos de 600 igrejas de Moscovo começaram imediatamente a repicar, anunciando a morte do patriarca, e as televisões russas começaram imediatamente a transmitir documentários consagrados ao patriarca. O Santo Sínodo foi convocado para uma reunião de emergência, que terá lugar amanhã, durante a qual se irá nomear o sucessor interino de Alexis II. Em conformidade com o estatuto da Igreja russa, um novo patriarca deverá ser eleito num prazo de seis meses por um concílio composto por vários tipos de religiosos e simples fiéis. O novo líder espiritual de 135 milhões de fiéis ortodoxos poderá ser, de acordo com a imprensa russa, o metropolita Kiril, de Smolensk y Kaliningrado, responsável pelo departamento do Exterior Eclesiástico da Igreja Ortodoxa Russa. Kyril tinha, aliás, prevista uma visita a Lisboa na próxima semana – a primeira de um responsável de alto nível do Patriarcado de Moscovo. Neste momento, a Embaixada da Rússia em Lisboa, envolvida na preparação da visita, ainda não sabe se o metropolita mantém ou não a sua deslocação. O patriarca Alexis, próximo do primeiro-ministro e ex-Presidente Vladimir Putin, contribuiu para a reunificação histórica da sua Igreja com a ortodoxia russa no estrangeiro em Maio de 2007, pondo fim a 80 anos de um cisma que datava desde a revolução bolchevique de 1917.Durante o seu patriarcado, Alexis II teve uma influência preponderante na sociedade russa, ainda que a Constituição nacional estipule que a Rússia é um Estado composto por várias confissões religiosas, integrado por ortodoxos, muçulmanos, judeus e budistas.Alexis II, nascido em Tartu, na Estónia, a 23 de Fevereiro de 1929, era o patriarca da Igreja Ortodoxa russa há 18 anos. Descendia de uma antiga família de nobres da zona báltica que abraçou a ortodoxia por volta do século XVIII. Eleito em 1990 para o cargo, pediu desde o início ao Governo que reintroduzisse o ensino da religião nas escolas. Durante o golpe de estado contra o último Presidente soviético, Mikhail Gorbatchov, colocou-se do lado do homem da “perestroika” e contra os golpistas, pedindo ao Exército para manter a calma, de modo a evitar um banho de sangue. Hoje, Gorbatchov manifestou-se “comovido” com a notícia da morte e afirmou “respeitar profundamente” a memória do patriarca. Alexis II tinha fama de ser uma pessoa conciliadora e disciplinada, tendo reabilitado vários santos e mártires perseguidos pelo regime comunista. Em 2000 acabou por reabilitar religiosamente a figura do último czar russo, Nicolau II, e da sua família.Durante a recta final do seu patriarcado deu impulso a um aproximar da sua ortodoxia à Igreja Católica – embora durante muito tempo tenha acusado os católicos de proselitismo –, apesar de se ter oposto no passado a uma viagem do falecido Papa João Paulo II à Rússia, argumentando que o Vaticano estaria a tentar promover a fé católica no país. Sucessivos encontros entre Alexis e João Paulo II foram sendo previstos, em território neutro, mas foram sempre adiados, por oposição do patriarca russo. Só com a eleição do alemão Joseph Ratzinger para Papa – Bento XVI – Alexis começou a mostrar sinais de abertura a uma aproximação mais efectiva ao Vaticano. Numa primeira reacção à morte do religioso russo, a Santa Sé exprimiu a sua "surpresa" e a sua "dor" perante o anúncio da morte do patriarca.No campo da ortodoxia, Alexis disputou ao patriarca de Constantinopla (actual Istambul), a primazia de honra. A Igreja Ortodoxa não tem um líder semelhante ao Papa (em rigor, deve falar-se de diferentes Igrejas Ortodoxas, consoante o país), mas o patriarca de Constantinopla sempre foi visto como um primus inter pares, por ter sido em Constantinopla que se deu a ruptura, em 1054, entre cristãos do Ocidente e do Oriente. Depois da queda do comunismo, em 1989, o patriarcado russo – que lidera a maior Igreja Ortodoxa, em número de fiéis – apareceu sempre a querer afirmar-se como o mais importante dentro da ortodoxia.

Adiada visita a Portugal do provável sucessor do patriarca da Igreja Ortodoxa russa

A visita a Portugal do metropolita Kirill, número “dois” da Igreja Ortodoxa Russa até à morte do patriarca Alexis II, que estava prevista para a próxima semana, foi adiada e não tem ainda nova data marcada, soube o PÚBLICO junto de fonte oficial da embaixada russa em Lisboa.Responsável pela secção de relações exteriores do Patriarcado de Moscovo, o metropolita Kirill é apontado como um dos nomes mais prováveis à sucessão de Alexis, de acordo com a imprensa russa de hoje, citada pelas agências internacionais. A concretizar-se a visita, Kirill, metropolita das cidades de Smolensk e Kalininegrado, seria o primeiro alto responsável da ortodoxia russa a estar em Portugal.A partir de segunda-feira, o roteiro da visita previa deslocações ao Porto, Faro e Lisboa. Várias celebrações litúrgicas e encontros com as comunidades ortodoxas (na maioria, compostas por imigrantes a trabalhar em Portugal) estavam marcados, a par de audiências com autoridades do Estado e com responsáveis da Igreja Católica. No dia 14, a visita terminaria com a celebração da divina liturgia (nome dado pelos ortodoxos à eucaristia), na capela ortodoxa da Boa Nova, em Lisboa. A nova data não está ainda prevista.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A religião não se foi embora, só mudou de face e de lugar

Na edição de hoje do Público/P2, publico um texto a partir das entrevistas a dois dos nomes de topo da sociologia religiosa contemporânea. Deus, afinal, não morreu na sociedade, dizem Thomas Luckmann e José Casanova.

Dois dos nomes de topo da sociologia religiosa contemporânea falaram em Lisboa das mudanças na religião na Europa secular e pós-moderna. Confessaram qual é o seu inimigo e referiram que a Europa repete hoje o discurso americano do século XIX

Morte de Deus? Retorno do religioso? Menos gente nas missas? O século XXI será religioso ou não? Esqueçam-se os chavões. A religião nunca deixou de estar presente na vida das pessoas e das sociedades. Thomas Luckmann, um dos mais importantes nomes da sociologia religiosa contemporânea, que esteve em Lisboa na semana passada, corta rente: "O religioso nunca se foi embora, só mudou a sua face."Autor de The Invisible Religion - The Problem of Religion in Modern Society (A Religião Invisível - O Problema da Religião na Sociedade Moderna), Luckmann abalou a análise sociológica da religião quando publicou a obra, em 1967. No livro, cunhava a expressão "religião invisível" e verificava que o fenómeno religioso mudara de lugar: da esfera pública para a individual.
Para Luckmann, a religião continuava a ter um lugar importante na vida das pessoas. Mas as suas manifestações principais tinham deixado de ser a frequência de uma igreja ou templo, passando a uma expressão cada vez mais pessoal e individualizada.
Menos de três décadas depois, em 1994, o espanhol José Casanova (radicado nos Estados Unidos desde 1973), publicou Public Religions in the Modern World (Religiões Públicas no Mundo Moderno). Para baralhar de novo, concluía que, na década de 80 do século XX, manifestações como o islão fundamentalista ou a teologia católica da libertação tinham devolvido a religião ao espaço público. Era a desprivatização do fenómeno.
Casanova esteve também em Lisboa onde, com Luckmann, falou sobre Sociedades seculares pós-modernas - mudanças religiosas na Europa, a convite do Instituto de Ciências Sociais. E, apesar de terem analisado diferentes realidades do fenómeno, Luckmann afirmou, ainda no debate, que partilha, com Casanova, "um inimigo intelectual comum: a teoria da secularização".
O espanhol decifra, em entrevista ao P2: "A teoria da secularização, que explicava este processo como a diminuição das crenças e das práticas religiosas, é uma visão muito pobre do que é o dinamismo moderno da religião."
Também em conversa com o P2, Thomas Luckmann acrescenta: "Para alguns, a sociedade tinha-se secularizado e agora dizem que há um retorno ao religioso. Não se trata disso."
É verdade: a prática religiosa diminui desde há décadas, na Europa, em todas as igrejas cristãs - e não apenas no catolicismo. "Ainda que aceitemos a diminuição enorme das práticas religiosas e das crenças oficiais nas sociedades europeias, isso não se explica por as sociedades serem mais modernas", diz Casanova.
Para o sociólogo espanhol, "o que a teoria da secularização dizia é que mais modernização leva necessariamente" a menos religião. "Esse é um modelo teórico muito pobre, não explica nada. Veja-se a sociedade americana: é a mais secular e também a mais religiosa."
Outro exemplo, aponta: na Dinamarca, a esmagadora maioria (96 por cento) das pessoas declara-se luterana; mas a frequência dos cultos dominicais da Igreja Luterana é residual. A realidade portuguesa não anda muito longe desta, com cerca de 20 por cento de pessoas que vão à missa ao domingo, apesar dos 90 por cento que se dizem católicos.

Rede e bricolage
Ambos, Luckmann e Casanova, têm centrado a sua análise no que se passa na Europa e Américas. Thomas Luckmann, de origem eslovena, leccionou na Áustria, Alemanha e Estados Unidos, vivendo hoje na Suíça. Verifica que, nos continentes europeu e americano, "privatização e dimensão pública da religião vão a par". Estruturalmente, afirma, "a religião mudou o seu lugar na sociedade e a sua relação com outras instituições e com a conduta da vida individual".
Para a socióloga francesa Danièle Hervieu-Léger, conceitos como liberdade pessoal e autonomia são também importantes. Em O Peregrino e o Convertido - A Religião em Movimento (ed. Gradiva), a socióloga utiliza expressões como "rede" ou "bricolage", para caracterizar a religiosidade sem compromissos hierárquicos ou comunitários muito fortes.
Na modernidade, explica Casanova, "as igrejas perdem o monopólio que tinham" - o da salvação num território concreto, como definia Max Weber. As chamadas seitas - que Hervieu-Léger define como a religião "incontrolável" - assumem-se como grupos de adesão voluntária e não-territorial. Mais ainda, a rede permite a construção de cumplicidades a partir do universo de cada pessoa. E a bricolage, acrescenta o sociólogo espanhol, permite que cada indivíduo "construa o mundo desde si, tomando daqui e dali e elaborando a sua própria religião".
O processo individual relaciona-se com dinamismos colectivos. Na Europa, houve igrejas oficiais em todos os Estados. "Nos EUA, nunca houve uma Igreja estatal ao nível federal", observa Luckmann. Ao contrário do que acontecia na Europa - "se se nasce num país católico ou luterano, fica-se católico ou luterano, a não ser que haja um processo de desvinculação" -, nos Estados Unidos a religião foi sempre objecto de uma escolha individual.
Na Europa, Luckmann apenas identifica modelos diferentes de relação entre Igreja e Estado se se entrar em detalhes: nesse caso, "haveria 50 modelos diferentes". Mas, observa, há pequenas diferenças entre a ortodoxia a Leste (Grécia, Sérvia, Bulgária, Rússia e Leste da Ucrânia), o anglicanismo como religião oficial no Reino Unido, o "recente des-estabelecimento" das igrejas na Europa do Sul e o des-estabelecimento comunista nos países de Leste.
Nos Estados Unidos, acrescenta Casanova, apesar de ter sido ali que se concretizou "o primeiro modelo de separação Igreja-Estado", a religião "esteve sempre presente na vida pública, com um papel político muito forte, à esquerda e à direita". "Nos movimentos de direitos civis dos negros todo o discurso é religioso, na direita conservadora o discurso é religioso", afirma. Exemplos recentes? A oração de um pastor baptista no momento da consagração da vitória eleitoral de Barack Obama ou o modo como o Presidente cessante justificou com uma espécie de nova cruzada a invasão do Iraque.
A realidade dos EUA, que na Europa seria encarada como promiscuidade entre religião e Estado, faz com que "nenhuma Igreja tenha privilégios na esfera pública, mas que haja liberdade total da religião na sociedade", nota José Casanova. O Estado nem sequer "tem direito a perguntar quantas religiões existem nem ninguém tem que ter qualquer autorização para criar uma igreja". Mais trabalho para os investigadores, portanto.
O sociólogo espanhol observa ainda que esse discurso religioso se fez muito no campo do Partido Democrata. Foi depois tomado pelos republicanos, com Ronald Reagan. "A crise do Partido Democrata coincidiu com o abandono desse discurso, que foi agora recuperado", processo que ajudou também na vitória de Obama. O processo de individualização da religião é uma "componente estrutural da religião nas sociedades americana e europeia, mas com histórias diferentes", observa Thomas Luckmann. Essa é a semelhança do fenómeno nos dois lados do Atlântico. Tal individualização - os sociólogos preferem este termo a privatização, "expressão mais negativa", diz Casanova - é positiva: "Os indivíduos fazem-se mais livres, porque assumem a sua autonomia também perante as instituições religiosas."
O processo de privatização das últimas três décadas teve outra consequência paradoxal: foi ele "a condição para que igrejas e religiões voltassem à esfera pública, já não como interlocutores privilegiados" do Estado, mas como "uma voz na esfera pública das sociedades, com direito a apresentar os seus valores e ideias, mas em que a sua voz é contrastada por outras vozes".
Do lado católico, Casanova situa a mudança no Concílio Vaticano II, quando a Igreja assumiu o seu "des-estabelecimento", perdendo a confessionalidade estatal. "Mas a Igreja Católica não aceitou nem aceitará nunca ser uma coisa privada, porque a moral é intersubjectiva. Aceitou perder a posição de confissão de Estado, aceitou não mobilizar partidos, mas nunca aceitaria perder o direito a ter uma voz pública."
O que se passa agora na Europa é que a entrada da Polónia e a possível integração da Turquia na União Europeia trazem, além dos imigrantes, novas realidades. Casanova comenta: "A Polónia, e sobretudo os imigrantes muçulmanos, trazem um discurso novo à esfera pública europeia. De repente, os países europeus, seculares e cristãos, confrontam-se com imigrantes que não são nem seculares nem cristãos."
A Turquia é um caso exemplar: "Antes era secular e menos democrática e agora é mais muçulmana e mais democrática. Foi a incorporação da massa turca, que era muçulmana, na política que levou o islão à esfera pública e que está a criar as condições reais para que a Turquia possa ser membro da UE."
Um processo em tudo semelhante ao dos partidos democratas-cristãos na Europa, nota Casanova: "Foram esses partidos que democratizaram as sociedades europeias depois da II Guerra Mundial. Através do partido religioso, deu-se a democratização do sistema."
Tal como a origem da construção europeia: "A UE foi um projecto democrata-cristão com a bênção do Vaticano, mesmo em França, onde os democratas-cristãos eram minoritários. O processo da UE está baseado em dois princípios: a reconciliação entre França e Alemanha e entre católicos e protestantes."

Turquia, caso exemplar
O caso turco e os imigrantes muçulmanos levaram mesmo o cardeal francês Jean-Louis Tauran, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso, do Vaticano, a declarar que Deus regressou às sociedades europeias "graças aos muçulmanos". Foi esta "importante minoria" que pediu "espaço para Deus na sociedade", disse Tauran na faculdade de Teologia de Nápoles (Sul de Itália), citado na semana passada pela AFP.
Certo é que muitos europeus convivem mal com este Deus recolocado na praça pública pelos muçulmanos - ou, pelo menos, com uma certa imagem desse Deus. Mas José Casanova não vê nada de muito novo neste fenómeno: no século XIX, os Estados Unidos definiam-se como "um país cristão, mas com a esfera pública dominada pelos protestantes".
Os católicos, que começavam então a chegar da Irlanda, eram considerados antimodernos, anti-seculares e seguidistas do Papa de Roma. "Foi de tal modo que a Igreja Católica adoptou um discurso antimoderno e anti-secular. Mas, hoje, o discurso em relação aos católicos do século XIX está a repetir-se na Europa... em relação aos muçulmanos."

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Perdão, o contrário do esquecimento

O padre jesuíta Juan Masiá Clavel escreve, na sua coluna do Religion Digital, sobre o perdão. Este é contrário do esquecimento:

Un desafortunado refrán japonés dice: “Lo pasado, tirarlo al agua”. Es como “borrón y cuenta nueva”. Pero el auténtico perdón no es borrón y cuenta nueva, sino cuenta renovada, a pesar de que no se pueda hacer borrón de lo pasado.
El olvido del mal pasado conlleva dos males: 1) creer que lo pasado, pasado está y... aquí no ha pasado nada. 2) permitir o fomentar su repetición en el futuro.
“Hay abusos del olvido...Bajo formas institucionales de olvido se cruza demasiado fácilmente la frontera con la amnesia... La amnistía se convierte en caricatura del perdón,.. Imponer como deber el olvido sería fomentar la amnesia... Conservar la frontera entre amnistía y amnesia favorece la integración de la memoria, el duelo y el perdón”.
Así hablaba el filósofo Paul Ricoeur en su magistral obra La memoria, la historia y el olvido (2000). Habría que recomendar su lectura a quienes hablan superficialmente, para recomendar a la ligera e irresponsablemente el consejo del olvido; se corre el riesgo de manipular la memoria y fomentar, con la amnesia, la repetición de los errores pasados.
Los humanos compartimos la doble experiencia de ser autores y víctimas del mal. En el primer caso, a la imputación y acusación sigue la exigencia de pena y castigo. En el segundo, el sufrimiento de las víctimas sube en forma de clamor pidiendo que hagamos algo para remediarlo, evitarlo y que no se vuelva a repetir.
Al reconciliarnos con el pasado, a pesar de lo que ocurrió, y al apostar creativamente por el futuro, a pesar de la incertidumbre, nos humanizamos.
El ensañamiento vindicativo y la renuncia a volver a empezar nos deshumanizan. La justicia rehabilitadora de la memoria histórica recuerda el mal para que no se repita. La imaginación creativa capacita para prometer no repetirlo.
Nadie puede perdonar en lugar de la víctima, dice el filósofo francés, ni podemos obligar desde fuera a las víctimas a que perdonen. Pero tampoco puede nadie sustituir al agresor para pedir perdón en su lugar, así como de poco servirá imponerle forzadamente un arrepentimiento que no le brote de dentro.
Pero oramos para que cada persona reconozca que “otro yo es posible”, que hay, dentro de quien fue capaz de lo peor, la capacidad de lo mejor. Que despierte en el criminal la capacidad latente de prometer no repetir la agresión. Que despierte en la víctima la capacidad de renunciar a la venganza. Que despierte en la sociedad entera la capacidad de hacer justicia rehabilitadora y reconciliadora (no vindicativa), pero sin olvidar, manteniendo viva la memoria histórica del mal para no repetirlo y de imaginar creativamente caminos para volver a empezar siempre de nuevo.
Quienes compartan la fe evangélica comprenderán que perdonar no es olvidar, sino orar y confiar en que es posible volver a empezar, aunque “lo hecho, hecho esté” (la persona asesinada no resucita) y lo recordemos, no para reabrir heridas, sino para que no se reproduzcan las agresiones.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Centenário de Messiaen na Sé de Lisboa

O centenário do compositor Olivier Messiaen está a ser assinalado na Sé de Lisboa, desde sábado, com a execução da integral de concertos para órgão, numa organização do pároco da Sé, Luís Manuel Pereira da Silva. Aqui fica o programa dos concertos que ainda nos esperam. Os textos são de António Esteireiro, do Instituto Gregoriano de Lisboa:


Nascido a 10 de Dezembro de 1908, Olivier Messiaen tornou-se mundialmente conhecido não só como compositor mas também como executante, fundamentalmente das suas próprias composições. A sua música caracteriza-se por um profundo sentimento religioso aliado a uma grande componente mística, continuando ainda hoje, dezasseis anos após a sua morte a servir de inspiração a várias gerações de intérpretes e compositores. A apresentação da sua obra integral para órgão na Sé Patriarcal de Lisboa surge no contexto da comemoração do centésimo aniversário deste compositor profundamente católico. Como introdução aos seus textos musicais o compositor propõe textos bíblicos e patrísticos para reflexão que serão comentados no contexto do concerto pelo Cónego Luís Manuel Pereira da Silva. Através da apresentação destes concertos pretende a Sé Patriarcal de Lisboa, com a colaboração do Instituto Gregoriano de Lisboa, dar a conhecer uma parte fundamental do património musical do século XX.


Terça, 2 de Dezembro de 2008, 21h30
Livre d’Orgue (1951-52)
Giampaolo Di Rosa/Roma-Porto
O terceiro concerto desta integral para órgão apresenta o ciclo mais complexo e abstracto que Messiaen dedicou ao seu instrumento de eleição durante mais de 60 anos. De carácter claramente especulativo e fazendo uso de várias técnicas combinatórias é resultado da influências dos cursos de Darmstadt, onde Messiaen também leccionou em 1951 e das paisagens montanhosas dos Alpes e Delfinato, local de criação deste ciclo. Este concerto traz mais uma vez até Lisboa Giampaolo Di Rosa, professor de Órgão da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa – Centro Regional do Porto. Detentor de uma carreira de reconhecido mérito internacional, Giampaolo Di Rosa divide o seu tempo entre a uma intensa actividade artística e a investigação científica na área da música. O concerto será comentado pelo próprio intérprete que nos tentará ajudar a compreender um pouco melhor a complexidade desta proposta musical de Messiaen.


Sábado, 6 de Dezembro de 2008, 21h30
Meditations sur le Mystère de la Sainte Trinité (1969)
Edite Rocha e Classe de órgão da Universidade de Aveiro
No seguimento da celebração do centenário do nascimento de Olivier Messiaen, associa-se a esta integral outra das principais instituições de ensino superior de música em Portugal. O quarto concerto desta Integral das Obras para Órgão de Olivier Messiaen resulta de um projecto concretizado pela classe de órgão da Universidade de Aveiro sob a orientação da professora Edite Rocha. O ciclo de nove meditações sobre o Mistério da Santíssima Trindade foi à data da sua composição a maior obra para órgão escrita pelo compositor. Inspirado pela reinauguração do seu instrumento de eleição na Igreja da Santíssima Trindade em Paris, e pelas improvisações realizadas nesse concerto inaugural, Messiaen funde neste ciclo elementos fundamentais na sua escrita para órgão. Ao combinar o canto dos pássaros com citações de temas do repertório de canto gregoriano e com técnicas típicas da sua linguagem musical, consegue criar uma das mais importantes obras para órgão do século XX.


Terça, 9 de Dezembro de 2008, 21h30
Livre du Saint Sacrement (I) (1984)
Filipe Veríssimo/Porto e João Santos/Leiria
Escrito em 1984 depois de uma encomenda da cidade de Detroit, o Livro do Santíssimo Sacramento é não só a maior obra para órgão de Olivier Messiaen, mas também a última escrita pelo compositor. Criado depois da ópera São Francisco de Assis (1975-83) que ocupou o compositor ao longo de oito anos é um regresso do autor à escrita para órgão em contexto litúrgico. Devido à sua duração total, superior a duas horas, este ciclo será apresentado em dois concertos distintos mas complementares. No primeiro desses concertos ouviremos dois organistas formados na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, Centro Regional do Porto. Primeiramente ouviremos Filipe Veríssimo, mestre-de-capela e organista titular do órgão Jann da Igreja da Lapa no Porto, um dos instrumentos mais emblemáticos do nosso país. As intervenções musicais de Filipe Veríssimo serão intercaladas pelas de João Santos, professor de órgão em Leiria e organista titular de outro dos melhores instrumentos portugueses, o órgão Heintz da Catedral de Leiria. Trata-se de uma ocasião única de poder ouvir estes dois intérpretes em Lisboa no melhor instrumento da capital.


Quarta, 10 de Dezembro de 2008, 21h30
Missa em homenagem a Olivier Messiaen
António Esteireiro/Lisboa e Coro de Câmara e Coro Gregoriano do IGL
No dia 10 de Dezembro de 2008 celebraria Olivier Messiaen o seu centenário. Esta missa em homenagem a Olivier Messiaen repete o programa apresentado pelos mesmos intérpretes no último Festival Internacional de Órgão de Lisboa 2008, na Igreja de Nossa Senhora do Cabo em Linda-a-velha. A escolha do repertório para este recital tenta fazer uma síntese entre as várias práticas vividas por Olivier Messiaen na Igreja da Santíssima Trindade em Paris. Ao juntar no mesmo concerto obras do repertório solístico, com o Proprium gregoriano do dia e incluindo o motete O sacrum convivium, temos um pequeno vislumbre do contexto em que estas obras foram executadas originalmente. O repertório escolhido incide no período de composição que antecede a Segunda Guerra Mundial, em que foram compostos os primeiros três grandes ciclos para órgão. Os ciclos L’Ascension, La nativité du seigneur e Les corps glorieux fazem parte do repertório mais divulgado e executado de Messiaen. O Instituto Gregoriano de Lisboa é provavelmente a instituição portuguesa com maior tradição no ensino do órgão e da defesa e divulgação do repertório de canto gregoriano e associa-se a esta comemoração do centenário do nascimento de Messiaen através da realização deste concerto.


Sábado, 13 de Dezembro de 2008, 21h30
Livre du Saint Sacrement (II) (1984)
Markus Rupprecht/Regensburg
A segunda parte do Livre du Saint Sacrement, cuja primeira parte foi apresentada no dia 9 de Dezembro, é apresentada em Lisboa por um dos mais promissores talentos da nova geração de organistas alemães. Oriundo da Baviera, Markus Rupprecht dividiu o seu tempo de estudos entre Regensburg, Piteå na Suécia e Viena, trabalhando com alguns dos mais reputados pedagogos do nosso tempo, como são os casos de Hans-Ola Ericsson, Michael Radulescu e Franz Josef Stoiber. Um dos focos principais do seu repertório reside no domínio integral das obras para órgão de Messiaen, que durante este ano de 2008 o levou a apresentar-se em várias cidades europeias da Alemanha, Suécia e Áustria. Neste ciclo Messiaen faz uma síntese de todos os recursos musicais utilizados ao longo da sua carreira enquanto compositor. A utilização de vários tipos de modos, do canto de alguns pássaros da Palestina, aspectos relacionados com simbolismos, linguagem comunicável ou mesmo a métrica grega, fazem desta obra um monumento incomparável no repertório para órgão do século XX. A última parte deste ciclo traz-nos as meditações cuja temática se refere a episódios relacionados com a Eucaristia.


Domingo, 14 de Dezembro de 2008, 21h30
La Nativité du Seigneur (1935)

Classe de Órgão da Universidade de Évora
No penúltimo concerto desta celebração do centenário do nascimento de Olivier Messiaen, associa-se a esta integral outra das principais instituições de ensino superior de música em Portugal. Este concerto resulta de um projecto concretizado pela classe de órgão da Universidade de Évora sob a orientação do professor João Vaz. O ciclo de nove meditações dedicado à Natividade do Senhor foi escrito em Grenoble no ano de 1935. Sendo um dos ciclos mais apreciados pelo próprio compositor, foi uma das obras que mais reconhecimento internacional lhe trouxe, devido à forma inovadora como abordou a escrita para órgão. A utilização sistemática dos modos de transposição limitada, de um componente rítmica muito inspirada pelos ritmos hindus e de temas do repertório gregoriano modificados, tornaram este ciclo um dos mais importantes marcos da escrita para órgão na primeira metade do século XX.


Olivier Messiaen em Braga

Ouvir música de Olivier Messiaen, afirma o professor catedrático de Composição e Música Electrónica na Universidade de Aveiro, João Pedro Oliveira, “é ouvir música sobre os anjos, o Paraíso, Deus, a Ressurreição dos mortos, a Transfiguração, o Apocalipse, e muitos outros dogmas e mistérios da fé cristã. Talvez em toda a História da Música não tenha havido outro compositor que tenha comunicado de forma tão enfática as suas convicções espirituais”.
Em Dezembro, no mês em que Olivier Messiaen nasceu há cem anos, no Auditório Vita, em Braga, presta-se uma homenagem ao singular compositor do séc. XX, que realizou em Portugal a estreia mundial de uma das suas obras, A Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Concertos
Integral das obras para Música de Câmara para instrumentos acústicos

Primeiro concerto
Dia 10, às 21.30 horas.
I Parte
Merle noir, para flauta e piano (1951) (c. 6’)
Fantasie, para violino e piano (1933) (c. 15’)
II Parte
Visions de l’Amén, para dois pianos (1943) (45’-50’)
I. Amen de la Création
II. Amen des étoiles, de la planète à l’anneau
III. Amen de l’Agonie de Jesús
IV. Amen du Désir
V. Amen des Anges, des Saints, du chant des oiseaux
VI. Amen du Jugement
VII Amen de la Consommation


Segundo concerto
Dia 13, às 21.30 horas.
I Parte
Theme et variations, para violino e piano (1932) (c. 10’)
Pièce pour piano et quatuor à cordes (c 4’)

II Parte
Quatuor pour la fin du temps, para violino, clarinete em si bemol, violoncelo e piano (45’-50’)

António Saiote, clarinete
Gerardo Ribeiro, violino
Marta Zabaleta, piano
Miguel Borges Coelho, piano
Nuno Inácio, flauta
Paulo Gaio Lima, violoncelo

Quarteto de Cordas de Matosinhos:
Vitor Vieira, I violino
Juan Maggiorani, II violino
Jorge Alves, viola
Marco Pereira, violoncelo



Colóquio
“Vivemos tempos sombrios”
Dia 11, às 21.30 horas.

Colóquio“Vivemos tempos sombrios”Dia 11, às 21.30 horas. “Vivemos tempos sombrios”, diz um verso de Bertolt Brecht. Foi em tempos sombrios que Olivier Messiaen viveu uma parte da sua vida, nos anos em que, prisioneiro num campo de concentração nazi, compôs o Quarteto para o Fim dos Tempos. Sobre esses “tempos sombrios” e sobre as mulheres e os homens que os testemunharam, realizar-se-á um colóquio com: João Pedro Oliveira, compositor e professor catedrático de Composição e Música Electrónica na Universidade de Aveiro; Teresa Martinho Toldy, teóloga; José Tolentino de Mendonça, director da colecção Teofanias, no âmbito da qual se publicaram obras de Simone Weil, Dietrich Bonhoeffer e Etty Hillesum, que testemunharam esses “tempos sombrios”; e João Duque, teólogo [moderador]



Filme
Le Charme des impossibilités [O Charme das impossibilidades]
Dia 12, às 21.30 horas.

O filme, que é exibido pela primeira vez em Portugal, conta a história da génese de uma obra musical, o Quarteto para o Fim dos Tempos, que foi composta e interpretada pela primeira vez, durante a Segunda Guerra Mundial, num campo de prisioneiros de guerra. Um compositor, três intérpretes com instrumentos em muito mau estado vão desafiar a detenção, a guerra, o frio, a fome, o tempo e tentar o impossível.
Nicolás Buenaventura Vidal é o realizador deste filme de 2006 em que participam o pianista François-René Duchâble, o clarinetista Paul Meyer, o violinista Régis Pasquier e o violoncelista Roland Pidoux.
[O filme tem 80 minutos e é exibido na versão original, com legendas em inglês]

sábado, 29 de novembro de 2008

Igreja, sexualidade e bioética

Na crónica deste sábado no DN, Anselmo Borges regressa ao tema da relação da Igreja com a questão da sexualidade, nos 40 anos da publicação da Humanae Vitae, e a propósito da publicação de um livro sobre o assunto.

No lançamento do livro A Sexualidade, a Igreja e a Bioética. 40 anos de Humanae Vitae, de Miguel Oliveira da Silva, procurei reflectir sobre o paradoxo de, sendo o cristianismo uma religião do corpo – não diz a Bíblia que Deus criou os seres humanos em corpo e viu que era muito bom e não confessa a fé cristã que Deus assumiu em Jesus a corporeidade humana e que ela está presente, pela ressurreição, no seio da Trindade? –, em boa parte a má vontade contra a Igreja radicar na sua relação com o sexo. Como admitir, por exemplo, mesmo quando a saúde e a própria vida ficam ameaçadas, a proibição do preservativo?
O que envenenou a relação da Igreja com a sexualidade foi o choque entre o poder e o prazer, porque o prazer pode abalar o poder.
Concretamente, há a doutrina do pecado original, entendido não como o primeiro de todos os pecados – todos pecam –, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.
Depois, com a reforma gregoriana, século XI, foram-se erguendo as três colunas sobre as quais assenta, segundo Hans Küng, o paradigma católico-romano: papismo (poder centrado no Papa), celibatismo (celibato obrigatório por lei para os padres), marianismo (devoção a Nossa Senhora como compensação).
Como se determinou que tudo o que se refere ao sexo é por princípio matéria grave e como, por outro lado, não há ninguém que não tenha pelo menos pensamentos relacionados com o sexo e só o sacerdote ou o bispo podem perdoar os pecados, a confissão acabou por tornar-se não um espaço de reconciliação e paz, mas tantas vezes de opressão, e raramente uma instituição acabou por deter tanto poder sobre as consciências, criando infindos complexos de culpabilização. Quando se lê os manuais dos confessores e todos aqueles interrogatórios inquisitoriais, quase reduzidos ao campo sexual, percebe-se que muitos tenham começado a abandonar a Igreja por causa da confissão, considerada ofensiva dos direitos humanos.
No universo sexual, que, como escreve Miguel Oliveira da Silva, continua a ser "um imenso, incómodo e multifacetado mistério", é evidente que não vale tudo. Ele reconhece que "a sociedade ocidental vive um profundo e grave vazio ético em matéria de sexualidade".
De qualquer modo, a Igreja precisa de reconciliar-se com o mundo e a ciência, o corpo e a sexualidade. Mas enquanto se mantiver a lei do celibato obrigatório não estará todo o discurso eclesiástico sobre o tema debaixo do fogo da suspeita?
Nos seus Jerusalemer Nachtgespräche [Conversas Nocturnas em Jerusalém], o Cardeal Carlo Martini interroga precisamente esta lei e, depois de considerar os estragos da encíclica Humanae Vitae, reconhece que muitos esperam do Magistério uma palavra de orientação sobre o corpo, a sexualidade, o casamento e a família. "Procuramos um caminho para, de modo fiável, falar sobre o casamento, o controlo da natalidade, a procriação medicamente assistida, a contracepção."
Neste domínio da contracepção, o equívoco fundamental da encíclica Humanae Vitae encontra-se numa concepção de lei natural fixa, estática e centrada na biologia. Ora, por natureza, o ser humano é cultural e histórico e a própria realidade é processual. A sexualidade humana não pode ser vista apenas na sua vertente biológica. Como pode o Magistério fixar-se na biologia, esquecendo que, para ser verdadeiramente humana, a sexualidade envolve o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual?
Por outro lado, na perspectiva bíblica, não criou Deus o Homem como criatura co-criadora? Não é o Homem, por natureza, interventivo, aperfeiçoador e transformador da natureza? Então, no juízo moral, o critério não pode ser o natural identificado com o bem e o artificial identificado com o mal, mas a responsabilidade digna e a dignidade responsável. Aliás, quem defende os métodos contraceptivos naturais como os únicos legítimos deverá ser confrontado com a objecção: para lá da sua falibilidade, ainda serão naturais os métodos que têm a ver com uma descoberta e aproveitamento humanos dos períodos inférteis da mulher?

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

10 Milhões de estrelas pela paz

Cáritas apoia educação, saúde e pigmeus

A Operação 10 Milhões de estrelas – Um gesto pela paz 2008, promovida desde há poucos anos pela Cáritas, pretende, tal como nas edições anteriores, sensibilizar as pessoas para os valores da paz e do apoio aos mais desfavorecidos, a partir da compra de velas que serão acesas na noite de Natal e de iniciativas diversas nas capitais de distrito. As verbas recolhidas este ano destinam-se a projectos de apoio ao desenvolvimento nas áreas da educação e da saúde, em Portugal, e de ajuda à integração dos povos pigmeus de Mongoumba, população minoritária da República Centro-Africana.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Mudanças

Este blogue, com as características que teve até hoje, termina aqui. De espaço individual passará a ser um espaço colectivo, mantendo o mesmo nome, mas numa outra plataforma. E de um espaço de anotações ocasionais, passará a constituir, assim se espera, uma fonte regular de informação sobre o universo do religioso, nas suas múltiplas dimensões e expressões.
Queiram visitar o novo espaço em http://religionline.blogsome.com. Nestes tempos de arrranque, estamos ainda à procura do estilo e do ritmo. Lá chegaremos. Com as achegas e a participação dos leitores.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Religião e Media: equívocos e possibilidades

"1) O jornalismo português revela muita ignorância e preconceito em relação ao fenómeno religioso; 2) as instituições religiosas continuam a encarar os media com desconfiança e a não entender o fundamental da linguagem jornalística nem os desafios colocados pelos últimos avanços tecnológicos". Foram estas as duas premissas enunciadas e desenvolvidas pelo jornalista do Público António Marujo, na conferência que proferiu na passada segunda-feira, no Grémio Literário, em Lisboa, intitulada "Religião e Media: equívocos e possibilidades".
O jornalista, que falou na qualidade de galardoado com o Prémio John Templeton para o Jornalista Europeu de Assuntos Religiosos do ano 2005 (administrado pelo Departamento de Comunicações da Confêrencia das Igrejas Europeas e atribuído a este profissional pela segunda vez), apresentou um largo conjunto de casos e de experiências que lhe permitiram mostrar os preconceitos recíprocos que continuam a existir entre as Igrejas, designadamente a Católica, e os jornalistas.
A intervenção foi, na altura, comentada por Adelino Gomes, igualmente jornalista do Público, o qual recordou uma série de casos e de experiências ilustrativos do que era a relação entre a religião e os media até à altura do 25 de Abril de 1974.
O texto integral da conferência de António Marujo pode ser consultado no site da Conferência das Igrejas Europeias. A ele haveremos de voltar, pelas questões que coloca em debate.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

"De Deus ao nada"

"É ingénuo pensar que as religiões possam desaparecer" - considera o filósofo espanhol Javier Sádaba, numa entrevista ao jornal Comunidad Escolar, a propósito do seu mais recente livro, "De Dios a la nada - Las Creencias religiosas".
"Resulta difícil entender la historia de nuestra cultura sin saber qué ha sido y cómo ha sido la religión en sus muchas variantes, y, lo que resulta más significativo, la religión constituye el mejor salvoconducto para conocer las fantasías e imágenes de las que nos hemos dotado" - nota ainda Sádaba.
Javier Sábada é Catedrático de Ética e Filosofía da Religião da Universidade Autónoma de Madrid.
O texto completo do artigo: aqui.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Diálogos sobre Jesus no CRC

O Centro de Reflexão Cristã promove até Janeiro, em Lisboa, um ciclo de colóquios intitulado "Diálogos sobre Jesus", participados por pessoas de várias religiões para quem a figura de Jesus constitui referência. O Ciclo decorrerá, com entrada livre, no Centro Nacional de Cultura (Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa), às terças -feiras, às 18.30, com o seguinte programa:

Jesus judeu da Palestina
24 de Outubro 2006
Isaac Assor
Pe. José Tolentino de Mendonça

Jesus profeta do Islão
28 de Novembro 2006
António Dias Farinha
Faranaz Keshavjee

Jesus nos Evangelhos apócrifos
19 de Dezembro 2006
Pe. João Lourenço
Pe. Joaquim Carreira das Neves
José Augusto Ramos

Jesus Cristo História e Fé
23 de Janeiro 2007
Maria Julieta, rscm
D. Manuel Clemente

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Onde está o teu irmão?

"El Kremlin desencadena una campaña de acoso y expulsión de georgianos. La diversidad étnica del Reino Unido es mayor que en 2001. Corea del Norte está lista para probar su primera bomba nuclear. Los enfrentamientos entre dos grupos de mineros bolivianos causan 16 muertos. China sigue en el podio de la represión. Interior ha expulsado en menos de un mes a 2.178 senegaleses. Un juez censura al Gobierno por repatriar a un menor marroquí sin garantías legales. Siete imputados por la muerte de cinco obreros en Barcelona. 180 niños han sido desalojados de un colegio ante el riesgo de derrumbe. Despedida por ser madre. Un barco gemelo al que contaminó en África lleva meses operando en el Estrecho. El estigma social del VIH. El Papa cierra las puertas del limbo; el niño que muera sin bautizar queda en manos de 'la misericordia de Dios', dice el Vaticano... sin comentarios".
(in Eclesalia, a partir de títulos de El País, de 7.10.2006)

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Sobre a polémica suscitada por palavras de Bento XVI

Todo o discurso de Bento XVI feito na Universidade de Regensburg, na Alemanha, centrado nas "Três etapas do programa de des-helenização", merece ser lido com atenção.
É curioso observar como uma referência histórica que nem sequer é central ao argumento das palavras do papa pode suscitar tanto ruído. Mas isto é precisamente um sinal dos tempos que vivemos. Qualquer facto secundário pode converter-se em fósforo que ateia um incêndio. E, a esta hora, o papa já deve ter-se arrependido da referência que fez.
De resto, há uma ponto que não ficava mal na sem dúvida brilhante argumentação de Ratzinger: a referência ao facto de que também em nome da Cristandade - e porventura no preciso e polémico escrito referenciado no discurso - se quis recorrer à espada para fazer fieis, esquecendo que "to convince a reasonable soul, one does not need a strong arm, or weapons of any kind, or any other means of threatening a person with death...."

Aqui fica a transcrição da parte que está a levantar poeira em alguns sectores do islamismo:

"(...)
In this lecture I would like to discuss only one point -- itself
rather marginal to the dialogue itself -- which, in the context of the issue of
"faith and reason," I found interesting and which can serve as the starting
point for my reflections on this issue. In the seventh conversation ("diálesis"
-- controversy) edited by professor Khoury, the emperor touches on the theme of
the jihad (holy war). The emperor must have known that sura 2:256 reads: "There
is no compulsion in religion." It is one of the suras of the early period, when
Mohammed was still powerless and under [threat]. But naturally the emperor also
knew the instructions, developed later and recorded in the Koran, concerning
holy war. Without descending to details, such as the difference in treatment
accorded to those who have the "Book" and the "infidels," he turns to his
interlocutor somewhat brusquely with the central question on the relationship
between religion and violence in general, in these words: "Show me just what
Mohammed brought that was new, and there you will find things only evil and
inhuman, such as his command to spread by the sword the faith he preached." The
emperor goes on to explain in detail the reasons why spreading the faith through
violence is something unreasonable. Violence is incompatible with the nature of
God and the nature of the soul. "God is not pleased by blood, and not acting
reasonably ("syn logo") is contrary to God's nature. Faith is born of the soul,
not the body. Whoever would lead someone to faith needs the ability to speak
well and to reason properly, without violence and threats.... To convince a
reasonable soul, one does not need a strong arm, or weapons of any kind, or any
other means of threatening a person with death...."

Actualizações e complementos:

- Texto do discurso em espanhol

- Do editorial de El País, de 16.9:

"(...) Benedicto XVI es tan gran intelectual como su antecesor, Juan Pablo II,
era un gran político. Pero hay ocasiones en las que a un intelectual, en su afán
por exponer sus ideas, especialmente en un terreno tan complejo y tan
susceptible a malentendidos y manipulaciones como es la manifestación teológica
en la comparación entre dos religiones, le falla el instinto del político y
genera un conflicto allí donde no debiera haberlo ni le interesa a él mismo que
lo haya. Y no sólo lo hay, sino que es probablemente, desde el 11 de septiembre
de 2001, origen de inmensas tensiones entre concepciones de vida identificadas
con Occidente y el mundo musulmán. Es evidente así que, al ignorar el efecto que
sus palabras podían tener sobre una sociedad islámica, recelosa y por principio
hoy hiperrreactiva, ha sembrado una discordia que probablemente no
pretendía.(...)"

- Do editorial de hoje do DN, assinado por António José Teixeira:

"(...) A citação histórica presta-se a interpretações ambíguas. Desde logo
porque identifica islão com violência, o que não é desajustado de alguns
capítulos da História, mas não é exclusivo de nenhuma religião. O catolicismo
deu os seus contributos para a infâmia e nem por isso terá de ser identificado
como uma instituição delinquente.(...)".

Actualização: Palavras de desculpa de Bento XVI, na oração do Angelus, hoje, dia 17:

"Dear Brothers and Sisters,
(...)

At this time, I wish also to add that I am deeply sorry for the reactions in some countries to a few passages of my address at the University of Regensburg, which were considered offensive to the sensibility of Muslims.
These in fact were a quotation from a Medieval text, which do not in any way express my personal thought.
Yesterday, the Cardinal Secretary of State published a statement in this regard in which he explained the true meaning of my words. I hope that this serves to appease hearts and to clarify the true meaning of my address, which in its totality was and is an invitation to frank and sincere dialogue, with great mutual respect. "

domingo, 3 de setembro de 2006

Questões ao catolicismo espanhol
(uma entrevista do abade de Monserrate)

Josep Maria Soler, abade do mosteiro de Monserrate, na Catalunha, deu há dias uma desassombrada entrevista ao diário El País. Vale a pena ler, mesmo discordando. Porque o que mais sobressai, nas palavras do monge, é precisamente a capacidade de, com serenidade, colocar questões centrais da relação entre a Igreja (espanhola) e a sociedade [as perguntas da jornalista é que denotam um enviesamento e um primarismo verdadeiramente notáveis!].

Dois extractos, com a sugestão de uma leitura do texto integral:

"Pienso que es fácil percibir que un sector de la jerarquía católica tiene nostalgia del nacionalcatolicismo, sobre todo en ciertos círculos de la Conferencia Episcopal y, sin duda, en muchos de sus documentos y en muchas homilías. Y lo cierto es que ese nacionalcatolicismo añorado por ese sector de la jerarquía es algo del pasado. La Iglesia debe aprender a situarse en otro contexto social, y ese contexto, según la Constitución y desde la separación entre la Iglesia y el Estado, se define como un verdadero Estado laico que supone eso: una separación real entre lo que es el Estado y su lógico derecho a promulgar leyes, y lo que es la Iglesia y la misión de la Iglesia, que no tiene esa capacidad legislativa. Eso no quiere decir que la Iglesia deje de decir lo que crea que debe decir en relación con la dimensión trascendente de la persona, porque eso es enriquecedor para sociedad, pero teniendo siempre presente que en un Estado aconfesional o laico, la voz de la Iglesia es una voz que no puede imponer sus criterios a los legisladores".

" [...] hay un proceso que a ellos, a la jerarquía católica más conservadora, les preocupa muchísimo, yo diría que les desborda realmente, que es el proceso de secularización de la sociedad española. La cuestión sobre la que se debe interrogar la Iglesia no debe estar en relación con lo que ellos identifican como crisis de fe, sino en responder con honestidad a la pregunta de por qué no hemos sabido conectar el mensaje del Evangelio con las inquietudes de la gente. Eso es lo que debería preocuparles, lo que debería preocuparnos a todos. Desde mi punto de vista, ha fracasado el lenguaje, el planteamiento demasiado intransigente de ciertos temas que angustian al mundo moderno, y, sin duda, el no aceptar que, al final, el hombre decide libremente sobre su vida, diga lo que diga la Iglesia. Hoy, la Iglesia no está presente en la sociedad y, lo que es peor, cuando está presente, lo está de modo inadecuado, cuando no ridículo".

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

A vida normal
Carla Machado
PUBLICO, 24.8.2006

Todos passamos a vida a desejar a vida que não temos. Queixamo-nos do emprego, dos colegas que são chatos, do chefe que não nos dá valor, do muito que trabalhamos e do ordenado que é fraco.Reclamamos do tempo, que chove e não se pode ir à praia, que não chove e faz mal à agricultura, do sol que é pouco ou demasiado, do suor, do frio e do vento, do calor que nunca mais se vai embora e do Verão que nunca mais chega.A família cansa-nos, mas odiamos quando esta nos ignora; dizemos mal do amigos sem os quais não sabemos passar; suspiramos pelo fim do serão em que as visitas se vão embora, mas despedimo-nos combinando um novo jantar.Estamos fartos dos filhos, mas passamos o tempo a falar deles e a mostrar as suas fotografias aos amigos. O barulho que fazem enlouquece-nos, mas o silêncio da sua ausência é insuportável.Queixamo-nos do marido ou da mulher, que não são como dantes, que nos irritam, que não nos surpreendem, mas suspiramos quando nos faltam e reclamamos quando fazem alguma coisa com a qual não contávamos.Estamos no Algarve a suspirar pela frescura do Minho, no Minho damos por nós desejosos da brisa costeira, na cidade irrita-nos o artificialismo e em Trás-os-Montes formigamos com a ânsia de fugir à ruralidade.E do país, todos nos queixamos do país até ao momento em que "lá fora" concluímos com um orgulho disfarçado que realmente "comer, comer bem, só mesmo em Portugal".De queixume em queixume, passamos pela vida muitas vezes sem deixar verdadeiramente que a vida nos atravesse. E só quando somos roubados ao quotidiano que tanto maldissemos damos conta do tempo que perdemos nos lamentos sobre o tempo que os outros nos fazem perder.Há pouco mais de um mês, numa consulta que era suposto ser de rotina, foi-me diagnosticado um tumor. Felizmente benigno, como soube após 24 horas de espera. E, tal como seria de prever, naquele momento inicial em que o espectro de algo mais grave ainda não tinha sido afastado, o meu pensamento imediato foi: "Mas afinal porque é que eu estou aqui, afundada em Braga a trabalhar, em vez de ter já há muito tempo fugido para Bora-Bora?" Passado contudo tal instante, e nas 23 horas que se seguiram, foi da vida normal que tive saudades antecipadas. A vida normal: trabalhar, ir ao cinema, abraçar quem amo, rir-me das pequenas parvoíces do quotidiano, ver a minha filha a dormir e sentir o seu cheiro.A vida normal está aqui mesmo ao lado. E aposto que Bora-Bora tem imensos mosquitos.

terça-feira, 4 de julho de 2006

Constituído Fórum Abraâmico de Portugal

O Fórum Abraâmico de Portugal, organização que congrega judeus, cristãos e muçulmanos com o objectivo de "quebrar preconceitos" e promover iniciativas no campo inter-religioso, é hoje apresentada ao fim da tarde em Lisboa.
A notícia vem hoje no Público, que acrescenta:
"Embora a ideia e a adesão à nova associação seja feita a título individual, ela será constituída por quatro responsáveis das diferentes comunidades: Abdool Vakil, da Comunidade Islâmica de Lisboa; José Oulman Carp e Esther Mucznik, presidente e vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa; e Peter Stilwell, padre católico e director da Faculdade de Teologia da UCP. A este núcleo inicial junta-se um outro grupo de fundadores, entre os quais o pastor protestante Dimas Almeida, o padre ortodoxo Alexandre Bonito e o professor universitário Luís Filipe Thomaz. "O objectivo é estimular o conhecimento das três religiões e respectivas comunidades, de modo a quebrar preconceitos", diz Peter Stilwell. "Trata-se de institucionalizar o que já existe", justifica ao PÚBLICO Abdool Vakil, a quem pertenceu a iniciativa de lançar a ideia. Envolvido há muito tempo no diálogo inter-religioso, Vakil considerou importante organizar uma associação que mostrasse que "na família abraâmica há muitas pontes". (...)
António Marujo recebe prémio
de jornalismo sobre temáticas religiosas

O jornalista do Público António Marujo recebe depois de amanhã, quinta-feira, em Lisboa, o prémio da Conferência das Igrejas Europeias para jornalistas da imprensa não-confessional que tratam informação religiosa.
Na cerimónia, que decorrerá às 18h30, na catedral da Igreja Lusitana (anglicana) de Lisboa, em Santos-o-Velho, conta com a participação do bispo D. Fernando Soares, Presidente do COPIC, Pamela Thompson, Vice-Presidente da Fundação John Templeton, Luca Negro, Secretário para as Comunicações da CEC, José Manuel Fernandes, Director do Público, e, claro, do jornalista premiado.
Na altura em que divulgou a notícia, o Público divulgou informações complementares que vale a pena relembrar:
"António Marujo venceu este prémio na edição de 1995, tornando-se agora no primeiro jornalista europeu a ser distinguido por duas vezes, refere o comunicado do gabinete de comunicação da CEC.
Entre os trabalhos que lhe valeram o prémio, com um valor monetário de cinco mil francos suíços (3227 euros), está uma entrevista ao padre, teólogo e poeta Tolentino Mendonça, intitulada "Jesus é um mistério fascinante, ainda em aberto" (26/02/05) e uma reportagem sobre o Congresso da Nova Evangelização, com o título "Bono Vox, bebedor de vinho e leitor da Bíblia" (11/09/2005)."Esta é a autêntica escrita sobre religião, mais do que a escrita ligada à Igreja, e é da melhor qualidade", afirmou um dos juízes do prémio, para quem o jornalista do PÚBLICO "não é fascinado pela Igreja, mas por algo mais profundo, que é o mistério da religião em si".

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Visita de Bento XVI a Auschwitz: ideias para debate

O diário El País traz hoje um texto de opinião de Daniel Jonah Goldhagen, intitulado El histórico fracaso de Benedicto XVI en Auschwitz, no qual defende as seguintes posições:
  • Lo que tuvo de bueno [la visita del papa] a Auschwitz quedó anulado por el discurso que pronunció, que no mostró nada parecido ni a la sincera emoción de Brandt ni a la humildad de Juan Pablo, y que se apartó escandalosamente de lo que el propio Benedicto XVI ha llamado su obligación de decir la verdad. Por el contrario, el Papa emborronó la interpretación histórica, eludió la responsabilidad moral y rehuyó el deber político.
  • Benedicto exoneró injustamente a los alemanes de su responsabilidad en el Holocausto y atribuyó la culpa exclusivamente a "una banda de criminales" que "usaron y abusaron" del pueblo alemán, engañado y presionado, como "instrumento" de destrucción. Lo cierto es que los alemanes, en general, apoyaron la persecución de los judíos, y muchos de los cientos de miles que la llevaron a cabo eran ciudadanos corrientes que actuaban de buen grado. No se puede atribuir la culpa del Holocausto, por completo o incluso principalmente, a una "banda criminal". Ningún especialista alemán, ningún político alemán, se atrevería hoy a proponer el relato mitológico que hace Benedicto XVI del pasado.
  • Benedicto exoneró injustamente a los alemanes de su responsabilidad en el Holocausto y atribuyó la culpa exclusivamente a "una banda de criminales" que "usaron y abusaron" del pueblo alemán, engañado y presionado, como "instrumento" de destrucción. Lo cierto es que los alemanes, en general, apoyaron la persecución de los judíos, y muchos de los cientos de miles que la llevaron a cabo eran ciudadanos corrientes que actuaban de buen grado. No se puede atribuir la culpa del Holocausto, por completo o incluso principalmente, a una "banda criminal". Ningún especialista alemán, ningún político alemán, se atrevería hoy a proponer el relato mitológico que hace Benedicto XVI del pasado.

Está aberto o debate.

Complementos:

- Texto integral do discurso de Bento XVI em Auschwitz (em inglês)

- Leitura de John L. Allen Jr, jornalista do National Catholic Reporter. correspondente em Roma: Attempting to slay God was Auschwitz's greatest evil, pope says Benedict prayed that love would prevail over 'a spurious and godless reason' .