quinta-feira, 19 de maio de 2011

A fraternidade é o tema da Jornada da Pastoral da Cultura

"Elogio da fraternidade" é o tema da 7.ª Jornada da Pastoral da Cultura, que se realiza em Fátima, em 17 de Junho próximo. As inscrições encontram-se abertas até ao dia do evento e podem ser feitas por via digital ou por correio.
Entre os comunicantes convidados contam-se José Mattoso (historiador), Lídia Jorge (escritora), Mário Gajo de Carvalho (realizador), António Jorge Cerejeira Fontes e André Cerejeira Fontes (arquitetos) e Joaquim Félix de Carvalho (teólogo). A parte da tarde será ocupada com uma mesa-redonda sobre o tema da jornada, intervindo D. Manuel Clemente (presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais), Manuel Braga da Cruz (reitor da Universidade Católica Portuguesa) e Manuel Carvalho da Silva (secretário-geral da CGTP). A moderação será da jornalista Rebecca Abecassis.
Mais informações: AQUI.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Conferência de Joseph Weiler, o defensor dos crucifixos, na Católica

Hoje, às 17h, na UCP - Lisboa.


Sugiro que se veja aqui o vídeo da defesa que Weiler fez da manutenção dos crucifixos, no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. E o texto em que, como judeu, quer manter a responsabilidade colectiva dos judeus pela morte de Jesus.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Nos bastidores da Humanae Vitae

A agência Zenit publicou ontem um texto intitulado "Pe. Ford, Paulo VI e o controle de natalidade" que faz luz sobre os debates e as polémicas que antecederam e sucederam a publicação da controversa encíclica Humanae Vitae, de 25 de Julho de 1968.
Sabia-se que a Comissão Pontifícia sobre a População, Família e Natalidade, constituída pelo Papa João XXIII em 27 de abril de 1963, seis meses depois do começo do Concílio Vaticano II, se tinha pronunciado por clara maioria, já no tempo de Paulo VI, no sentido da revisão da doutrina tradicional da Igreja Católica sobre as questões da contracepção, mas que o Papa não aceitou esse parecer. Os documentos recentemente revelados dão conta dos bastidores dos trabalhos dessa Comissão e das posições que então se contrapuseram.
O assunto está longe de ter perdido actualidade e, ainda que alguns dos documentos dados a conhecer (outros já tinham sido objecto de 'fuga de informação' na altura dos trabalhos) se encontrem em italiano e mesmo em latim e sublinhem sobretudo a posição vencida, vale a pena disponibilizá-los, para quem os possa ler e interpretar.
A sua contextualização e apresentação pode ser encontrada no site "The Way of the Lord Jesus" e consta dos seguintes documentos:
Outros documentos relacionados:

domingo, 15 de maio de 2011

À procura da Palavra - COM QUE VOZ!

(Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)

“…as ovelhas seguem-no porque conhecem a sua voz.” (Evangelho de São João 10, 4 - Domingo IV da Páscoa)


(Ilustração: Michelangelo, A Criação de Adão, na Capela Sistina)

Dizem os pediatras que é na barriga das mães que começamos a reconhecer as vozes da mãe e do pai, e de outros que nos falem habitualmente. Parece que tudo o que é vivo gosta que se lhe fale, e até as plantas e os animais reagem às palavras e a expressões da comunicação humana, como a música, por exemplo. Não sei quem me disse que as plantas que tinha em casa andavam mais viçosas e vivazes desde que começara a falar com elas (é claro que não podia dizer isso às vizinhas senão chamar-lhe-iam “maluquinha”!). E também que as vacas davam melhor leite quando ouviam música clássica! Quantas vezes não experimentámos o acelerar do coração ao ouvir a voz de alguém que amamos? E não é pela voz, mais até pelo modo como dizemos, que revelamos o que vai por dentro de cada um?

Gosto de lembrar o primeiro relato da criação e o modo como Deus cria com a sua palavra: “Haja luz… e águas… e terra… e plantas e animais… e o homem e a mulher.” E também como se foi revelando pela voz com que chamou, escolheu e fez aliança. Chamou os profetas para falarem em seu nome. Enviou o Filho como Verbo feito carne, a Voz feita choro de criança e palavra salvadora: “Levanta-te… vai em paz… os teus pecados estão perdoados… Lázaro, sai para fora... amai-vos como Eu vos amei.” Com que agitação interior escutavam as suas palavras todos os que O ouviam! E como se sentiam reconhecidos e amados mesmo com as suas vidas enredadas e enganadas por mil outras vozes! Aquela voz que dava vista aos cegos, energia aos paralíticos, vida aos mortos prolonga-se na voz dos seus discípulos: “Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda”, disse Pedro ao paralítico da porta do Templo chamada Formosa!

No meio de tantas vozes, que a instabilidade económica e política propicia, temos sede de confiança. Não bastam vozes esperançosas ou denunciadoras; é preciso que quem fala seja merecedor de confiança. Não se pede que seja perfeito, mas que seja humilde, que seja coerente, que não ceda à corrupção ou ao oportunismo. Que arrisque a vida por aquilo que diz, restaurando a dignidade das palavras, e levando quem escuta a comprometer-se na mudança. Se muitas vozes servem mais para dividir e buscar glórias pessoais, ou para adormecer e fazer crescer a desconfiança, estamos a matar as palavras! Como é a nossa voz de cristãos por entre o imenso ruído de fundo deste tempo? É voz que acolhe, que liberta, que promove, que não julga mas procura salvar? Acreditamos mesmo que a voz de Cristo passa pelos nossos lábios? E como Igreja a palavra precisa encarnar primeiro em nós?

Quando conhecemos a voz de quem nos quer bem e nos estimula a ser mais; voz que suscita diálogo e não adormecimento; voz que lança pontes e abre portas à beleza; voz que é encontro com Deus e nos convoca para mudar o que está mal; também queremos seguir o pastor que nos cativou! Mas o inverso também é verdade!


(Por indisponibilidade, as duas anteriores crónicas À Procura da Palavra não foram publicadas no blogue; podem ser lidas aqui.)

Bento e Anselmo: Deus, a morte e o mal

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje, 15 de Maio. No DN de ontem, Anselmo Borges reflectiu sobre Deus e o mal a partir do pensamento do teólogo Queiruga.

Penso que Andrés Torres Queiruga, da Universidade de Santiago de Compostela, é um dos mais vigorosos e penetrantes teólogos católicos vivos, numa ousadia única de colocar a fé cristã em confronto radical com a modernidade e vice-versa. Acaba de publicar em castelhano uma obra seriamente original sobre o tema em epígrafe: Repensar el mal, que obriga a pensar.
Lá está o famoso dilema de Epicuro: Ou Deus pôde evitar o mal e não quis; então, não é bom. Ou quis e não pôde; então, não é omnipotente. Ou quis e pôde; então, donde vem o mal?
São precisamente os pressupostos do dilema que o autor começa por desmontar, a partir de uma ponerologia (de ponerós, mau): tratar do mal, antes de qualquer referência a Deus. De facto, o mal atinge a todos, crentes e não crentes, os próprios animais também sofrem. Todos passam por crises e doenças e todos morrem. E perguntamos: donde vem o mal? Ler mais aqui.

domingo, 8 de maio de 2011

Textos de Bento Domingues e Anselmo Borges

Bento Domingues no "Público" deste domingo, 8 de Maio.


Ontem, no DN, Anselmo Borges escreveu sobre o manifesto dos teólogos alemães:

Na Alemanha, a Teologia está nas universidades públicas e o estatuto das faculdades de Teologia é o mesmo das outras faculdades. Inevitavelmente, impõe-se o rigor científico e crítico, e o diálogo com os outros saberes é uma exigência natural.Recentemente, um terço dos 400 teólogos de fala alemã, residentes na Alemanha, na Suíça e na Áustria (144 professores de Teologia católica), a que se foram juntando muitos outros, subscreveram um "Memorandum", no qual pedem reformas profundas na Igreja. O texto do documento, "Kirche 2011. Ein notwendiger Aufbruch" (Igreja 2011. Necessidade de um novo começo) é ao mesmo tempo exigente e sereno, apelando a um diálogo aberto. Ler tudo aqui.

Bento e o Pentecostes; e Anselmo e João Paulo II

Texto de Bento Domingos no "Público" de 1 de Maio de 2011.


No DN de 30 de Abril, Anselmo Borges escreveu sobre João Paulo II:
Se admirei João Paulo II? Admirei e admiro. Era um homem de convicções, corajoso, crente no Deus de Jesus; afirmou e reafirmou os Direitos Humanos; contribuiu para a queda do Muro de Berlim; escreveu uma grande encíclica sobre os direitos dos trabalhadores (Laborem exercens); perdoou àquele que quis assassiná-lo; reuniu em Assis os representantes das religiões mundiais para a oração; fez o possível para evitar a invasão do Iraque; foi um lutador incansável pelo que considerava ser a sua missão; viajou pelo mundo como mensageiro da Paz.Foi dos homens mais populares do seu tempo. O mundo agradeceu-lhe, despedindo-se dele com milhões de pessoas no funeral. E o povo gritou que queria vê-lo rapidamente canonizado: "Santo subito."Mas João Paulo II era apenas um homem, um homem do seu tempo, que vinha do leste e tinha uma certa visão da Igreja. Ler tudo aqui.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Memorando da troika: ficaram esquecidas as desigualdades

Na linha da defesa que vem fazendo o blog "A Areia dos Dias" e, especialmente, uma das suas animadoras, a Prof. Manuela Silva, no sentido de inscrever a questão das desigualdades no nosso país no debate e nas políticas públicas, escreve ela, naquele blog:
O texto do memorando de entendimento ente o Governo português e a troika responsável pelo empréstimo a Portugal, agora divulgado, surpreende pelo detalhe das medidas propostas e também pelas áreas abrangidas neste tipo de instrumentos (a saúde, a educação, a justiça …), indo ao ponto de impor orientações de natureza política para estes sectores que, manifestamente, extravasam o estrito domínio dos equilíbrios financeiros.

Não obstante esta preocupação pela exaustividade, ficou esquecido que a erradicação da pobreza e a correcção das desigualdades na repartição do rendimento e da riqueza, não só deveriam ser considerados objectivos de justiça social básicos, como não deveriam ser ignorados enquanto factores bloqueadores do próprio crescimento da economia, com consequente impacto nos visados equilíbrios financeiros.
Ver o post completo: AQUI.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

José Augusto Mourão. in memoriam

SALMO

Cantai a seiva que sobe das raízes,
O arado do tempo cortando o nevoeiro;
Cantai a vida que sangra e incendeia,
Vós todos que lavrais a terra, tecelões e pedreiros

Entrai na força escondida do desejo,
Domadores de cavalos, aguadeiros,
Pois vossas mãos acenderam candeias
E vossos olhos alumiaram a noite

Trazei à taça da vida nova que se anuncia
Os trapos velhos das dores enterradas;
Joalheiros de dedos magoados,
Vós todos que esperais o parto das sementes

Assinalai a pedra onde caístes
E a madeira em que vos crucificaram:
Porque há música nos ritos da tortura
Que canta o dia novo que não tarda

Enquanto não sabemos o caminho,
Cantemos já o dom de caminhar;
Se estamos juntos não teremos medo:
Alguém no invisível nos espera

Plantemos flores à beira do abismo
Há-de haver no deserto um lugar de água
Alguém que nos chame pelo nome
E nos acolhe ao termo da viagem.

José Augusto Mourão
in O Nome e a Forma

Outras fontes:
Visão: José Augusto Mourão - Ignoto Deo
Pàgina 1: O Vazio Verde.

"Tu, que me fizeste ver as trevas..."

O Papa Bento XVI iniciou ontem, no quadro das audiências gerais das quartas-feiras, no Vaticano, uma nova série de 'catequeses' que procura responder ao pedido dos apóstolos, referido em Lucas, 11, 1: "Senhor, ensina-nos a orar".
E começou, a jeito de introdução, por propor "alguns exemplos de oração presentes nas culturas antigas, para revelar como, praticamente sempre e em todos os lugares, os homens se dirigiram a Deus". Assim:
No Antigo Egito, por exemplo, um homem cego, pedindo à divindade que lhe restituísse a vista,
demonstra algo universalmente humano, como a pura e simples oração de petição de quem se encontra no sofrimento. Este homem reza: "Meu coração deseja ver-te... Tu, que me fizeste ver as trevas, cria a luz para mim. Que eu te veja! Inclina a mim teu rosto amado" (A. Barucq - F. Daumas, Hymnes et prières de l'Egypte ancienne, Paris 1980, trad. it. en Preghiere dell'umanità, Brescia 1993, p. 30).

Nas religiões da Mesopotâmia, dominava um sentimento de culpa arcano e paralisador, não carente de esperança da redenção e libertação por parte de Deus.

Podemos apreciar assim esta súplica por parte de um crente daqueles antigos cultos: "Ó Deus, que és indulgente inclusive com as culpas mais graves, absolve o meu pecado... Olha, Senhor, teu servo esgotado e sopra a tua brisa sobre ele: perdoa-o sem demora. Levanta teu severo castigo. Dissolvidos estes laços, permite que eu volte a respirar; rompe as minhas correntes, liberta-me das minhas ataduras" (M.-J. Seux, Hymnes et prières aux Dieux de Babylone et d'Assyrie, Paris 1976, trad. it. in Preghiere dell'umanità, op. cit., p. 37). São expressões que demonstram como o homem, em sua busca de Deus, intuiu, ainda que confusamente, por um lado a sua culpa, mas também aspectos de misericórdia e de bondade divinas.

Dentro da religião pagã da Grécia Antiga, assiste-se a uma evolução muito significava: as orações, ainda que continuem invocando ajuda divina para obter o favor celestial em todas as circunstâncias da vida cotidiana e para conseguir benefícios materiais, dirigem-se progressivamente a petições mais desinteressadas, que permitem ao homem crente aprofundar em sua relação com Deus e melhorar. Por exemplo, o grande filósofo Platão relata uma oração do seu mestre Sócrates, considerado justamente um dos fundadores do pensamento ocidental. Sócrates orava assim: "Fazei que eu seja belo por dentro. Que eu considere rico quem é sábio e que possua de dinheiro somente aquilo que o sábio possa tomar e levar. Não peço mais" (Obras I. Fedro 279c, trad. it. P. Pucci, Bari 1966). Ele queria ser sobretudo belo por dentro e sábio, não rico em dinheiro.

Naquelas obras-primas da literatura de todos os tempos, as tragédias gregas, ainda hoje, depois de vinte e cinco séculos, lidas, meditadas e representadas, há orações que expressam o desejo de conhecer a Deus e de adorar sua majestade. Uma delas diz assim: "Sustento da terra, que sobre a terra tens a tua sede, sejas quem for, é difícil de saber, Zeus, seja a tua lei por natureza ou por pensamento dos mortais, a ti me dirijo: já que tu, procedendo por caminhos silenciosos, guias as vicissitudes humanas segundo a justiça" (Eurípides, Troiane, 884-886, trad. it. G. Mancini, en Preghiere dell'umanità, op. Cit., p. 54). Deus continua sendo um pouco nebuloso e, no entanto, o homem conhece esse Deus desconhecido e reza Àquele que guia os caminhos da terra.

Também para os romanos, que constituíram aquele grande império no qual nasceu e se difundiu, em grande parte, o cristianismo das origens, a oração, ainda que se associasse a uma concepção utilitarista e fundamentalmente ligada à petição da proteção divina sobre a comunidade civil, abre-se, às vezes, a invocações admiráveis pelo fervor da piedade pessoal que se transforma em louvor e agradecimento. Disso é testemunha um autor da África romana do século II d.C., Apuleio. Em seus escritos, ele manifesta a insatisfação dos seus contemporâneos com relação à religião tradicional e o desejo de uma relação mais autêntica com Deus. Em sua obra-prima, intitulada "As metamorfoses", um crente se dirige a uma divindade feminina com estas palavras: "Tu és santa, tu és em todo tempo salvadora da espécie humana; tu, em tua generosidade, ofereces sempre auxílio aos mortais; tu ofereces aos miseráveis em aperto, o doce afeto de uma mãe. Nem dia nem noite, nem momento algum, por mais breve que seja, passa sem que tu o cumules dos teus benefícios" (Apuleio de Madaura, Metamorfosis IX, 25, trad. it. C. Annaratone, en Preghiere dell'umanità, op. cit., p. 79).

No mesmo período, o imperador Marco Aurélio - que também era um filósofo que pensava na condição humana - afirma a necessidade de rezar para estabelecer uma cooperação frutífera entre ação divina e ação humana. Ele escreve em suas "Lembranças": "Quem te disse que os deuses não nos ajudam também no que depende de nós? Começa a rezar-lhes e verás" (Dictionnaire de Spiritualitè XII/2, col. 2213). Este conselho do imperador filósofo foi, efetivamente, colocado em prática por inúmeras gerações de homens antes de Cristo, demonstrando que a vida humana sem a oração, que abre nossa existência ao mistério de Deus, fica sem sentido e privada de referências. Em toda oração, de fato, expressa-se sempre a verdade da criatura humana, que experimenta, por um lado, fraqueza e indigência e, por isso, pede ajuda ao céu; e por outro, está dotada de uma dignidade extraordinária, porque se prepara para acolher a revelação divina, descobre-se capaz de entrar em comunhão com Deus.

Fonte: Agência Zenit. Texto completo AQUI. Ilustração: Angelus, de Miller.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Jornalismos

Está a decorrer no Vaticano um encontro de 150 bloggers, no quadro das iniciativas várias que a Igreja Católica vem fazendo no sentido de estar presente e tirar partido das novas plataformas digitais e redes sociais.
A Agência Lusa achou interesse na iniciativa e ouviu pelo menos duas pessoas para um trabalho que difundiu pelos seus clientes: o P. Calado Rodrigues, de Bragança, e o autor destas linhas. Quanto ao sacerdote e jornalista brigantino, sugere um caminho que não deixa de merecer consideração: se a Internet é um (ciber)espaço, não mereceria que existissem párocos a trabalhar assumidamente nesse âmbito? Mas as coisas, considera ele, avançam, a este nível "devagar, devagarinho".
Na parte que me toca, sustentei que não basta a adopção das novas ferramentas da web; é necessária uma nova atitude, uma comunicação menos unidireccional e mais interactiva, mais voltada para a escuta do mundo.
A jornalista captou mais ou menos o que fomos conversando, ainda que o registo das perguntas me tenha parecido o de quem estava a tratar um assunto com o seu quê de exótico - uma instituição milenar a organizar - no Vaticano - um encontro de bloggers, por exemplo.
Onde ela não entrou foi na definição que procurei dar-lhe deste blog: que não se tratava de um bog católico e. menos ainda, porta-voz da Igreja, mas um espaço de abertura ao multiforme fenómeno do religioso na nossa cultura, do qual o catolicismo é certamente uma expressão fundamental. Conclusão dela: "Manuel Pinto, bloguista religioso 'e não católico' (...)".
Tão interessante e sintomático como esta conclusão: vários media, alguns dos quais conhecedores de como me posiciono nesta matéria, lá transcrevem, fiel e caninamente, a agência Lusa, sem pestanejar nem corrigir. Enfim, jornalismos.

domingo, 1 de maio de 2011

Ciclo do CRC abre com Eduardo Lourenço e Tolentino Mendonça


Dia 2 - O mundo mudado depois do Vaticano II
Eduardo Lourenço
P. José Tolentino Mendonça

Dia 9 - Como organizar a Igreja? Com que estruturas e ministérios?
Fr. Bento Domingues, o.p.
Emília Nadal

Dia 16 - As questões não resolvidas
Pedro Mexia
Teresa Toldy

Dia 23 - Como continuar o Vaticano II?
Manuela Silva
P. Peter Stilwell

terça-feira, 26 de abril de 2011

"O altar do deus desconhecido"

Tem já uns dias esta coluna do escritor Rafael Argullol, no diário El País. Intitula-se "El altar del dios desconocido".
Principia o autor pela dúvida "que sempre surge no desconcerto dos nossos dias": "estamos perante um novo Renascimento ou às portas de uma Idade Obscura?". E comenta de seguida:
"Bajo la advocación de un dios -fuera este de la religión o de la ideología-, el hombre se atreve al pronóstico porque la doctrina que abraza necesariamente le reclama un futuro mejor, cuando menos a largo plazo (el cristianismo ofrecía la salvación; el comunismo dibujaba la igualdad; la Ilustración se consolaba de las penurias del presente con promesas de libertad y progreso). El problema surge cuando el dios está ausente, y el altar vacío. Cuando los templos, también laicos, están deshabitados, como sucede en nuestros días, el pronóstico se hace imposible. ¿A qué juego vamos a apostar si ni siquiera sabemos las reglas del juego? Cuando el altar está vacío podemos, como máximo, adorar a los ídolos del presente -en los estadios, por ejemplo, o en los festejos lúdicos-, pero nos representa una gran temeridad, o nos produce una insoportable pereza, ir más allá de esto".
Ler o texto completo: AQUI [dica de CatalunyaReligió.cat]

domingo, 24 de abril de 2011

À Procura da Palavra - CORRERIA PASCAL



(Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)

“Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava.”(Evangelho de S. João, 20, 2)

(Foto: Cristo Ressuscitado, Igreja Paroquial de Sâo Pedro de Valongo do Vouga, Águeda)

Há uma enorme correria no dia de Páscoa! Não me refiro às tradições à volta do Compasso ou da visita pascal que, em muitos lugares do nosso país, são uma feliz expressão da alegria em anunciar, de casa em casa, a ressurreição de Jesus. Nem a alguma azáfama do encontro de famílias ou do regresso de mais uns dias de férias. São os evangelhos que nos falam de Maria Madalena, de Pedro e de João, dos discípulos de Emaús numa agitação entre o assombro e o deslumbramento, a dúvida e a fé.

Maria Madalena corre para ir dizer a Pedro e a João que o sepulcro está vazio. Vai de coração apertado. Não bastava todo o sofrimento da paixão para agora até o corpo de Jesus, o sinal da sua existência ter sido roubado? Não é um anúncio de fé ainda: pouco depois perguntará àquele que julga ser o jardineiro (e é Jesus) onde pôs o corpo do seu Senhor. Pedro e João correm ao sepulcro e se o primeiro fica no espanto daquilo do vazio que vê, o segundo vê e acredita. Vê o vazio e acredita que a vida ressuscitada de Jesus nenhum sepulcro a pode prender, nenhumas faixas a podem embalsamar. Correram então a contar aos outros? S. João diz-nos que será Maria Madalena a primeira a anunciar: “Eu vi o Senhor”. Uma mulher, cujo testemunho pouco valor legal teria naquele tempo, leva a feliz notícia que ecoará pela história: a vida e o amor venceram a morte!

Correram certamente os guardas quando viram que não tinham guardado bem o sepulcro. Temendo o castigo mas deslumbrados com o que tinham visto foram contar aos sumos sacerdotes. E estes subornaram-nos para fazerem correr a mentira que desacreditaria a ressurreição: teriam sido os discípulos a roubar e esconder o corpo de Jesus. Quantos romances e “best-sellers” surgiram à volta dessa ideia! E de onde vinha a força que transformou nos discípulos o medo em confiança, a tristeza em alegria, a solidão em comunhão? A vida transformada e transformadora dos discípulos é um testemunho luminoso da ressurreição do Senhor. Ontem, hoje e sempre!

Da corrida matinal de coração apertado à viagem de regresso a Jerusalém dos discípulos de Emaús, já noite fechada, de coração a arder, decorre aquele primeiro dia. Nenhuma noite podia apagar a luz e o fogo que Jesus acendera no caminho e à mesa. O dia da ressurreição tinha começado e nenhum ocaso seria mais forte. Nem o ocaso da dor e da morte. Por isso aquele encontro tinha de ser comunicado. Estava revelada a missão da Igreja: comunicar o encontro com Jesus vivo, levar a todos esse incêndio que não destrói mas transforma e ressuscita.

Correr para anunciar, para ir ao encontro de outros, para descobrir com todos os sinais do Espírito de Jesus Ressuscitado na vida de cada dia, para celebrar a alegria da sua presença, não é agitação repetitiva nem esforço de contabilidade. É partilha de corações a arder, é acolher o céu que abraça a terra!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

"Jesus, uma abordagem histórica", de José Antonio Pagola

O padre Anselmo Borges terminou a sua crónica do sábado passado afirmando que Bento XVI deu liberdade para “debater e divergir da sua obra”, “Jesus de Nazaré”. E coloca depois uma questão: “Porque abriu então a Congregação para a Doutrina da Fé um processo à obra igualmente admirável sobre Jesus, de J. A. Pagola, "Jesus. Aproximação histórica", que vendeu 80.000 exemplares e está traduzida para várias línguas? Mas saberá Bento XVI o que se passa?"


A obra está publicada em português pela Gráfica de Coimbra 2 (que parece pouco preocupada em publicitar os seus livros), com o título “Jesus, uma abordagem histórica”.

Com a obra já impressa, surgiram complicações em Espanha (ainda antes da abertura do processo vaticano), pelo que a editora portuguesa distribuiu a obra com um suplemento de 64 páginas intitulado “Uma explicação ao meu livro «Jesus, uma abordagem histórica»”, que inclui um capítulo 15 (o último) totalmente rescrito e algumas novas notas relativas a outras passagens. Numa delas, na primeira versão, Pagola dizia que a expressão “irmãos de Jesus”, como hoje é globalmente afirmado pelos exegetas, refere-se mesmo a irmãos de sangue de Jesus. No suplemento, acrescenta que na cultura bíblica, quando se diz que são irmãos, “a única coisa que se afirma é que têm o mesmo pai”, para salvaguardar a virgindade de Maria.

As principais objecções ao Jesus Cristo de Pagola prendem-se com questões metodológicas e a afirmação de que algumas das instituições e práticas e dogmas da Igreja Católica não remontam a Jesus Cristo.

Em Espanha o livro foi retirado das livrarias, mas encontra-se on-line, na íntegra, em formado PDF, aqui. A nota da Conferência Episcopal Espanhola pode ser lida na Zenit.

domingo, 17 de abril de 2011

Bento e Anselmo: Os discípulos e o Papa, que também é discípulo

Texto de Bento Domingues no "Público" de 17 de Abril e de Anselmo Borges (em baixo) no DN de 16 de Abril.
J. Ratzinger escreveu em 1968: "Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se fosse necessário, até contra o que disser a autoridade eclesiástica. O que faz falta na Igreja não são panegiristas da ordem estabelecida, mas homens cuja humildade e obediência não sejam menores do que a sua paixão pela verdade, e que amem a Igreja mais do que a comodidade da sua própria carreira." Continuou a pensar assim enquanto Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé? O que pensará hoje?
Ler tudo aqui.

"Contra as agências de notação de risco"



O "Diário do Minho" publica hoje um texto de Eduardo Jorge Madureira, na sua coluna dominical "Os dias da semana", intitulado "Contra as agências de notação de risco". Pela sua importância e pertinência neste espaço, transcrevemo-lo com a devida vénia:


"Podia ser apenas mais uma série televisiva com grande audiência, como Anatomia de Grey, CSI, Dexter, House, Lost ou Prison Break. Mas não. É regularmente exibida à hora de jantar nos principais canais generalistas portugueses, oferecendo ao imaginário nacional novos protagonistas e, é verdade, um enredo de difícil entendimento, mas, para mal de quase todos, não é de ficção que se trata, embora a muitos tal possa parecer. Se fosse uma série, que apresentasse as aventuras dessas entidades míticas, chamadas Fitch Ratings, Moody’s e Standard & Poor’s, recentemente conhecidas pelos portugueses, poder-se-ia, sem esforço imaginativo, intitular The Credit Rating Agencies.


Se os programadores televisivos quisessem traduzir o título e consultassem, por exemplo, a Wikipédia, teriam de resolver uma primeira dificuldade. É que as traduções possíveis são abundantes. Mais de uma dezena. Antes de explicar o que fazem essas criações do capitalismo, a Wikipédia apresenta uma lista com as formas como podem ser designadas: “Uma agência de notas de crédito (do inglês credit rating agency de sigla CRA), chamada agência de rating, empresa de rating, agência de classificação de risco, agência de classificadora de risco (denominação usada pelo Banco Central do Brasil), agência classificadora de risco de crédito, agência de análise de risco, agência de avaliação de risco, agência de avaliação de risco de crédito, agência avaliadora de risco, agência de notação financeira, agência de notação de risco, ou agência de risco é uma entidade que avalia, atribui notas e classifica países ou empresas, segundo uma nota de risco, a qual expressa o grau de risco de que essas empresas ou países não paguem as suas dívidas no prazo fixado”.

Às dúvidas sobre o nome que melhor lhes calha, corresponde uma certeza quanto à fiabilidade muito reduzida do trabalho que fazem. No diário Le Monde (“A quoi jouent les agences de notation ?” 10.5.2010), recordavam-se, a esse propósito, alguns factos mais ou menos recentes, assaz elucidativos. Há cerca de uma década, quatro dias depois de a Standard & Poor’s e a Moody’s recomendarem o investimento na Enron, uma importante companhia de energia dos Estados Unidos da América, a empresa ia à falência. Mais recentemente, em 2008, a Lehman Brothers recebia a nota máxima (os famosos AAA) no exacto momento da sua bancarrota. Há outras falhas não menos eloquentes (quem viu o documentário Inside Job não as esquecerá), mas estas duas são suficientes para se perceber a qualidade do que fazem estas empresas.

O modo como elas estavam, há cerca de um ano, a proceder em relação à dívida grega, justificava, no artigo citado, assinado por Patrick Jolivet, um comentário útil. Não é muito recente, mas não perdeu pertinência. Dando-se o caso de as agências de notação de risco, que não foram particularmente brilhantes pela perspicácia nos tempos recentes, poderem desestabilizar um Estado e, portanto, o conjunto da zona euro, deve levar-nos a interrogar se o desenvolvimento (durável) das nossas economias depende realmente dos ratings mais ou menos independentes emitidos por actores que são pagos pelos mercados financeiros. O texto reclama uma intervenção dos políticos europeus tendo em conta que a avaliação do domínio dos riscos a longo prazo é coisa demasiado complexa para depender das opiniões emitidas pelas agências de notação.

Os políticos europeus têm feito muito pouco ou nada, mas um grupo de economistas portugueses promoveu uma acção de enorme relevância, entregando, na passada segunda-feira, na Procuradoria-Geral da República, uma denúncia contra as três maiores agências de notação pelo comportamento adoptado relativamente ao Estado português e aos bancos sediados em território nacional.

A economista Manuela Silva, que, com José Reis, José Manuel Pureza e Manuel Brandão Alves, dinamizou a iniciativa, escrevia na terça-feira, no blogue A Areia dos Dias, do Grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz, que nem a crise política, nem a evolução da capacidade produtiva do País (“que não se altera em 24 ou 48 horas”) justificam os cortes drásticos nas recentes notações de risco. Há, pois, que procurar outras causas e ver o que está por detrás destes comportamentos.

Para Manuela Silva, há três razões objectivas que justificam dúvidas em relação ao procedimento da Fitch Ratings, da Moody’s e da Standard & Poor’s: “o elevado grau de concentração das três maiores agências de rating, todas americanas e que, no conjunto, detêm mais de 90% do seu respectivo mercado; a possível conflitualidade de interesses, devida à presença de empresas de gestão de fundos na estrutura do capital accionista em duas dessas empresas de rating (num caso, em posição de accionista maioritário) e a falta de transparência por ocultação de critérios em que se baseiam as notações”.

“A quem aproveita a severidade nos ratings da dívida da República e dos bancos portugueses?”, pergunta Manuela Silva, considerando simples a resposta: “em primeiro lugar, serve os interesses dos especuladores que vêem as suas possibilidades de lucro aumentadas pelo simples facto da subida dos juros; serve também a uma estratégia de enfraquecimento do euro face ao dólar ou mesmo ao propósito de ressuscitar a moeda americana como único meio de pagamento internacional, conveniente, entre outras razões, para fazer face à elevada dívida pública americana contraída no exterior”.

Sucede, todavia, que, e isso, como sublinha a economista, é o mais grave, estas notações de risco “têm efeitos devastadores sobre o acesso ao crédito por parte das pessoas, do Estado e das empresas do nosso País e constituem também uma rampa de lançamento para justificar políticas de austeridade que impedem um desenvolvimento humano sustentável”.

Como nas séries com um final aberto, que será escrito em função da preferência das audiências, nada está previamente definido quanto ao que se passará nesta narrativa protagonizada pelas agências de notação de risco. São os cidadãos que têm de ditar os próximos capítulos. Contrariando a complacência dos governos e dos organismos internacionais perante a nocividade da actuação da Fitch Ratings, da Moody’s e da Standard & Poor’s, muitos cidadãos portugueses associaram-se à denúncia judicial contra o modo com elas têm procedido em relação a Portugal, subscrevendo a petição que se encontra em http://www.peticaopublica.com/?pi=denuncia. Mas muito haverá ainda para fazer para que esta história não prossiga da pior maneira.