quinta-feira, 29 de abril de 2010

Conferências de Maio: "Renovar a Igreja, Animar a Sociedade"

As Conferências de Maio deste ano, organizadas pelo Centro de Reflexão Cristã, têm por tema "Renovar a Igreja, Animar a Sociedade". Sâo constituídas por quatro mesas redondas, cada qual sobre um sub-tema, sempre à terça-feira, com excepção da última, que será à segunda e têm lugar no Centro de Estudos da Ordem do Carmo (Rua de Santa Isabel, 128-130, Lisboa, Metro: Rato).

1 – A Ousadia da Esperança
Dia 4 de Maio, 3ª feira, 18h30m
  • Eugénio Fonseca
  • João Wengorovius Menezes
  • Lourenço de Almeida
2 – Conversão Contemporânea e Criação Cultural
Dia 18 de Maio, 3ª feira, 18h30m
  • Fr. Bento Domingues
  • Emília Nadal
  • Jacinto Lucas Pires
3 – A Coragem de Agir
Dia 25 de Maio, 3ª feira, 18h30m
  • Francisco Sarsfield Cabral
  • José Leitão
  • P. Peter Stilwell
4 – A Demanda no Mundo da Incerteza
Dia 31 de Maio, 2ª feira, 18h30m
  • Eduardo Lourenço
  • P. José Tolentino de Mendonça
  • Maria de Sousa

domingo, 25 de abril de 2010

Bento, Anselmo e Küng

Texto de Bento Domingues sobre a Comissão de Socorro aos Presos Políticos, "Público" de hoje.

No DN de ontem, Anselmo Borges escrevia sobre a diferença/continuidade entre animal e homem. "(...) a pergunta é inevitável: qual é a constituição do ser humano para poder fazer o que faz e ser como é, no contexto da evolução?" Ter tudo aqui.

Já no P2 de ontem, a Carta de Hans Küng aos bispos do mundo inteiro a sugerir que peçam ao Papa um concílio. Aqui.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Islão e o Cristianismo na África Sub-Sahariana


O retrato que se colhe, de um ponto de vista histórico, é o de uma transformação completa do panorama do peso relativo das religiões, na África sub-sahariana, segundo um trabalho há dias publicado nos Estados Unidos da América pelo Pew Research Center, sob o título Islam and Christianity in Sub-Saharan Africa.
Vale a pena ler o texto: AQUI.

sábado, 17 de abril de 2010

"Nós e os outros" - texto de Anselmo Borges no DN

(...) No processo de nos fazermos, o outro aparece inevitavelmente. O outro não é adjacente, mas constitutivo. Só sou eu, porque há tu, em reciprocidade. O outro pertence-me, pois é pela sua mediação que venho a mim e me identifico: a minha identidade passa pelo outro, num encontro mutuamente constituinte. Ler tudo aqui.

sábado, 10 de abril de 2010

Anselmo Borges: A lei do celibato obrigatório

Anselmo Borges escreve no DN sobre a lei do celibato obrigatório.

"Dizia-me há dias um colega historiador que a lei do celibato obrigatório para os padres fez mais mal à Igreja e aos homens e mulheres do que bem. E eu estou com ele. Ler tudo aqui.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Aprender na Europa com os Estados Unidos

Sob o título "Taking Responsibility - What can Europe learn from the U.S. sexual abuse crisis?", a mais recente edição do semanário "America - the National Catholic Weekly" traz um texto do teólogo jesuíta Thomas J. Reese, do Woodstock Theological Center, Georgetown University, cuja consideração na Europa pode ser útil, no actual quadro de crise, relacionado com os abusos sexuais de crianças por parte de alguns membros do clero. Traduzimos apenas uma parte, recomendando a leitura do artigo na sua integralidade:

" (...) Desde o início que os bispos americanos subestimaram a dimensão e gravidade do problema. Antes de 1993, apenas um terço das vítimas se apresentaram para relatar o abuso às respectivas dioceses, de modo que nem mesmo a Igreja sabia o quão grave a crise se desenhava. A maioria das vítimas não quer que outros saibam que eles foram vítimas de abusos, especialmente os seus pais, cônjuges, filhos e amigos. A cobertura mediática dos abusos do clero incentivou e capacitou as vítimas a manifestrar-se e a descobrirem que não estávamos sozinhas.

Hoje, os europeus estão chocados com as centenas de casos que vêm sendo relatados. Devem preparar-se para milhares. Nos Estados Unidos, mais de 5.000 sacerdotes, ou 4 por cento do clero, foram responsáveis por 13.000 denúncias ao longo de um período de 50 anos. Não há nenhuma razão para pensar que a Europa seja diferente. Espere-se o melhor, mas façam-se as contas e esteja-se preparado.
O maior erro de cálculo dos bispos americanos foi feito a pensar que a crise iria passar em poucos meses.

Aninhar-se e esperar que a tempestade passe é uma estratégia errada. A não ser que se queira ir para uma crise muito prolongada, como nos Estados Unidos, os bispos europeus têm de ser transparentes e encorajar as vítimas a apresentar queixa agora. É melhor pôr cá fora todas as más notícias o mais rapidamente possível do que dar a aparência de uma tentativa de encobrimento.

Uma escola dos jesuítas, em Berlim, fez a coisa certa. Teve conhecimento de sete casos de abuso. Tornou-os públicos, contratou uma advogada para passar a pente fino os seus arquivos e lidar com as vítimas, e depois escreveu aos antigos alunos pedindo às vítimas que se manifestassem. Quando, pelo menos, 120 vítimas se manifestaram dizendo que tinham sido abusados naquela escola jesuíta da Alemanha, os insensatos acharam uma loucura a escola ter-se antecipado com aquelas medidas. Mas não se tratou apenas da atitude mais cristã a ter; foi igualmente uma inteligente acção de relações públicas. Agora ninguém acusa a actual administração da escola de esconder o assunto. Além disso, em lugar de três a cinco anos de má publicidade com uma vítima atrás da outra a aparecer, eles vão ter alguns meses de publicidade negativa até que os media se virem para outro assunto.

Os bispos americanos também cometeram o erro de culpar os media. Em contrapartida, acusaram a cultura permissiva e procuraram reduzir o alcance dos abusos clericais, apontando que há 90.000 a 150.000 casos de abusos sexuais por ano, nos Estados Unidos. Embora isso seja verdade, é contraproducente para os bispos apostar nestes argumentos, que são entendidos como desculpas. Pelo contrário, os bispos devem condenar o abuso, pedir desculpas e pôr em prática políticas para se certificarem de que as crianças estão seguras. Pedir uma vez desculpas não basta. Como um marido que foi infiel à sua esposa, eles devem pedir desculpas, desculpas, desculpas.

Finalmente, os bispos americanos desculparam-se, dizendo que cometeram erros, mas não foram culpados, dada a sua ignorância. Isso não pega. Os católicos norte-americanos queriam que alguns bispos se levantassem e dissessem: "Eu cometi um erro, mudei o padre para outra paróquia, achei que ele não iria abusar novamente, fui mal aconselhado, mas assumo plena responsabilidade. Lamento e demito-me. "

Se 30 bispos dos Estados Unidos tivessem feito isso, a crise não teria ido tão longe como foi. As pessoas teriam dito: "Bom, é isso que os líderes devem fazer. Eles entenderam. Com um novo bispo, podemos arrepiar caminho e seguir em frente.(...) "

Para ler o texto na íntegra: AQUI
Ver ainda no mesmo número da revista:
- The Millstone
- Vatican Goes on Defense in Response to Media Reports.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cantalamessa e como 'cantam' os media

O pregador da Cúria Pontifícia, Raniero Cantalamessa, (pregador com é e não com e fechado, como ouvi nas notícias da Antena 1 da RDP, neste sábado de manhã cedo) fez uma homilia na sexta-feira em que, como é sabido, desencadeou a reacção de alguns sectores judaicos, por causa de uma curta passagem em que citou parte de uma carta que havia recebido de um amigo judeu.
O teólogo e pregador já pediu desculpas pelo ruído que originou e, para futuro, do episódio pocuo mais restará.
Mas o que a maioria dos consumidores dos media - que não pode ou não se dá ao trabalho de ir às fontes - ficou sem saber foi que Cantalamessa fez, na mesma homilia, e de forma muito mais funda e veemente do que relativamente à citada carta de apoio de um judeu ao papa, uma reflexão sobre a violência com uma concretização como raramente se faz em instâncias como aquela em que interveio.
Referindo-se ao sacrifício de Cristo, considerou que ele "contém uma mensagem formidável para o mundo de hoje". "Grita para o mundo - explicou - que a violência é um resíduo arcaico, uma regressão a estágios primitivos e superados da história humana e, em se tratando de crentes, um retardamento censurável e escandaloso frente à tomada de consciência do salto de qualidade operado por Cristo".
O P. Cantalamessa faz, depois, notar que a nossa cultura, que se mostra contrária à violência, é, por outro lado, e paradoxalmente, a primeira a promovê-la "nas páginas dos jornais ou nos programas de televisão". Exemplos do mecanismo da violência, temo-los, conforme explicitou, "nos estádios de futebol, no bullying nas escolas e em certas manifestações públicas que deixam um rastro de destruição por onde passam. Uma geração de jovens que teve o raríssimo privilégio de não ter conhecido uma verdadeira guerra e de não terem sido jamais convocados às armas, diverte-se (por que se trata de uma brincadeira, ainda que estúpida e eventualmente trágica) inventando pequenas guerras, impelidos pelos mesmos instintos que moviam as hordas primordiais".
A reflexão do teólogo vai mais longe quando se debruça sobre o problema da violência contra a mulher e da violência doméstica:
"Trata-se de uma violência - explicou ele - que se torna ainda mais grave quando cometida no abrigo e na intimidade do lar, frequentemente justificada com base em preconceitos pseudo-religiosos e culturais. As vítimas encontram-se desesperadamente sós e indefesas. Somente hoje, graças ao apoio das muitas associações e instituições, é que algumas mulheres encontram forças para denunciar seus agressores. Muito dessa violência tem um fundo sexual. É o macho que acredita demonstrar sua virilidade ao submeter a mulher, sem se dar conta de que, desse modo, evidencia tão simplesmente sua insegurança e sua covardia".
E o P. Raniero Cantalamessa termina, ainda sobre este assunto, deste modo:
"João Paulo II inaugurou a prática de pedir perdão por erros colectivos. Um desses pedidos de perdão, talvez entre os mais justos e necessários, é o perdão que uma metade da humanidade deveria pedir à outra metade, os homens às mulheres. Esse pedido não deve permanecer genérico ou abstracto. Deve levar a gestos concretos de conversão, a palavras de desculpas e de reconciliação no seio da família e da sociedade."
(Para conhecer o texto integral da homilia, clicar AQUI)

sábado, 3 de abril de 2010

Anselmo Borges: A cruz do mundo

Anselmo Borges escreve sobre "a cruz do mundo", a de Jesus, no DN deste sábado.

"Um número incontável de homens e mulheres, nos 2000 anos de cristianismo, olharam para aquele crucificado e, no meio do seu sofrimento e angústia, nos becos sem saída da vida, perante os horrores brutos do mundo e da existência, receberam luz, esperança, alívio, inspiração". Ler tudo aqui.

Jesus Cristo nas capas da "Time"

No Tribo de Jacob, sequência das capas da "Time" em que Jesus Cristo foi a figura principal. Na imagem, a capa de 15 de Agosto de 1988.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Ex-director do "Público" escreve sobre Bento XVI, a imprensa e a pedofilia

Texto de José Manuel Fernandes no "Público" de hoje, com uma imprecisão na distinção entre "eros" e "agape" (amor fundado sobre a fé, amor descendente, oblativo - para usar expressões do próprio Bento XVI) . Mas vale pelo resto.

Sequência de Páscoa: uma das mais belas histórias do mundo

Por Marguerite Yourcenar

Deixo por momentos ao menos as cerimónias e os ritos da mais santa das semanas cristãs e tento extrair dos textos sagrados que se lêem mas nem sempre se ouvem, na igreja, as partes que nos impressionariam se as encontrássemos em Dostoievski ou Tolstoi, ou em qualquer biografia ou reportagem sobre a vida de um grande homem ou de uma grande vítima. Em suma, o desenrolar de uma das mais belas histórias do mundo.
Um prólogo quase irónico: uma pobre gente chega à capital com o seu mestre bem-amado, aclamado pela mesma multidão que em breve o repudiará. Uma refeição de festa frugal: um traidor adivinhado entre os doze convivas; um ingénuo que proclama alto a sua fidelidade e será o primeiro a fraquejar; o mais jovem e mais amado apoiado com indolência ao ombro do mestre, talvez envolto naquele casulo dourado que sempre protege a juventude; o mestre, isolado, pela sabedoria e pela visão, no meio dos ignorantes e dos fracos que são o que ele encontrou de melhor para o seguirem e continuarem a sua obra.
Caída a noite, o mestre, ainda mais só no canto de um pomar que domina a cidade onde todos, excepto os seus inimigos, o esqueceram: as longas horas negras onde a presciência se convola em angústia; a vítima a rezar para que a prova esperada lhe seja poupada, mas sabendo que o não pode ser e também que, «se tivesse de o refazer», faria o mesmo caminho; «a alma eterna» que observa o seu voto «apesar da solidão da noite». (Que Aragon e Rimbaud nos ajudem a compreender Marcos ou João). Enquanto ele sofre, os seus amigos dormem, incapazes de compreender a urgência do momento. «Não podeis vigiar um momento comigo»? Não: eles não podem; eles têm sono; e aquele que os chama não ignora que virá o tempo em que estes infelizes terão também de sofrer e vigiar.
A chegada do bando, para prender o acusado. O ardente defensor que se arrisca a piorar as coisas e se desdirá logo a seguir. Os dois aparelhos, o eclesiástico e o laico, incomodados, passando-se mutuamente o acusado; o eterno diálogo da fé e do cepticismo completando-se um ao outro: «Quem ama a verdade escuta-me.» - «O que é a verdade?» O alto funcionário ultrapassado que gostaria bem de lavar as mãos deste caso e entrega à multidão a escolha do preso a libertar para a festa próxima, e o que ela escolhe é evidentemente a vedeta do crime, e não o justo inocente. O condenado, insultado, flagelado, atormentado, por brutamontes que são provavelmente bons pais de família, bons vizinhos, boas pessoas, obrigado a arrastar a trave do seu martírio como, nos campos, por vezes os prisioneiros arrastavam uma pá para cavar a sepultura. O pequeno grupo de amigos que ficou com o supliciado, aceitando a humilhação e o perigo que decorrem da fidelidade. A algazarra dos guardas que disputam entre si a túnica esvaziada, como em tempo de guerra os camaradas de um morto lutam às vezes por um cinturão ou por umas botas.
A ternura revelando-se nas recomendações aos seus, por parte de alguém até então demasiado absorvido pela sua missão para ter tempo de pensar neles: o moribundo dando como filho à sua mãe o seu melhor amigo. (Assim hoje por toda a parte as últimas cartas de condenados ou soldados partindo em missão de que não voltarão, cheias de conselhos sobre o casamento da irmã ou a pensão da velha mãe.) A troca de palavras com um condenado de delito comum em quem se encontrou um homem de coração; a longa agonia ao sol, ao vento agreste, à vista da multidão que, pouco a pouco, se vai porque aquilo nunca mais acaba. A exclamação parece indicar que, para que tudo se cumpra, o desespero é um estado por que se tem de passar. «Porque me abandonaste?» E, horas depois, a esta pobre gente será dada como esmola uma sepultura para o seu corpo, e as sentinelas (há que desconfiar dos ajuntamentos) dormirão ao pé do muro como antes dormiram junto do amigo vivo e angustiado os seus humildes companheiros fatigados.
E que mais? As horas, os dias, as semanas que escorrem entre o luto e a confiança, entre fantasmas e Deus, nessa atmosfera crepuscular onde nada é totalmente confirmado, verificado, concludente, mas onde passa a corrente de ar do inexplicável, como alguns desses pobres relatórios de sociedades para o avanço das ciências psíquicas, tanto mais perturbantes quanto são inconclusivos. A antiga meretriz vinda ao cemitério rezar e chorar e julgando reconhecer aquele que perdeu no jardineiro. (Que melhor nome poderia dar-se àquele que faz crescer tantas sementes na alma humana?) E mais tarde, quando a emoção, como dizem os relatórios de polícia, acalmou, os dois fiéis pela rua fora, a quem se junta um simpático viajante que aceita sentar-se com eles à mesa da hospedaria, e desaparece no momento em que eles julgam reconhecê-lo. Uma das mais belas histórias do mundo termina com os reflexos de uma Presença, bastante semelhantes a nuvens que o Sol já posto ainda ilumina.
«Eu sentir-me-ia mais perto de Jesus se ele tivesse sido fuzilado em vez de crucificado», dizia-me um dia um jovem oficial vindo da Guerra da Coreia. Foi para ele e para todos aqueles a quem é difícil encontrar o essencial por baixo dos acessórios do passado que aceitei o risco de escrever o que precede. (1977)

De O tempo esse grande escultor. Lisboa: Difel, 1984.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

"Pedofilia e anticlericalismo"

Do texto de Helena Matos, no Publico de hoje, intitulado Pedofilia e anticlericalismo destaco:
"Tenho para mim que as violações, abusos e os crimes mais hediondos podem acontecer em qualquer meio seja ele laico ou religioso e não vejo portanto que o clero católico ou doutra fé goze duma qualquer superioridade que o torne imune a estes actos. Do que já faço alguma ideia é de que a reacção perante a pedofilia e os abusos sexuais varia em função do perfil de quem a ela é ou foi associado como responsável: se for cineasta terá abaixos-assinados de apoio; se for político os seus pares podem levar a protecção institucional até à alteração de leis de modo a que os casos sejam arquivados; se for um cidadão comum será provavelmente recebido por multidões em fúria à porta do tribunal e caso seja agredido na cadeia toda a gente achará que isso faz parte do código de honra dos presos (donde se presume que quem administra as cadeias não tem um código de honra que lhe imponha impedir que os detidos se agridam uns aos outros). Se for padre é imediatamente dado como culpado. Não menos importante, segundo este raciocínio, o actual Papa foi e é responsável por esses crimes."

quarta-feira, 31 de março de 2010

A maior crise da Igreja Católica dos últimos 100 anos

(Ilustração: Marc Chagall, A Crucifixão Branca, 1938)

O texto a que o anterior post faz referência está no site do Público; como corresponde a uma sintese de vários debates sobre a questão dos abusos sexuais por parte de membros do clero fica agora aqui também à disposiçao dos leitores do Religionline. Mas devo chamar a atenção também para o post anterior e para as várias questões que ali se levantam. Não há mais margem para continuar a ignorar os debates necessários e a importância da participação dos crentes (e que não sejam os mesmos de sempre). Fica aqui então o texto, que saiu também (numa versão um pouco mais curta) na edição de domingo passado do jornal:

A Igreja Católica atravessa a mais profunda crise do último século. Para encontrar algo de dimensão semelhante, devemos recuar até ao início do século XX, com o anti-modernismo do Papa Pio X. Ou antes, a 1870 e ao Concílio Vaticano I, com o dogma da infalibilidade papal, o cisma dos velho-católicos e o fim dos Estados Pontifícios. Há uma diferença: esta crise atinge um catolicismo universal, ao contrário do de há um século, quando ainda era uma realidade pouco mais que europeia.
Há várias questões à volta deste tema que, de repente, coloca um Papa académico perante um dos mais graves problemas pastorais da Igreja. Será ele capaz de afrontar o problema com a coragem necessária?
Ratzinger é um teólogo notável no diálogo cultural, mesmo com filósofos não-crentes como Jürgen Habermas ou Paolo Flores d’Arcais (como se pode perceber em Existe Deus?, editado na Pedra Angular). Eleito para um pontificado de transição, cuja marca seria afirmar a importância do facto cristão no diálogo multicultural contemporâneo, Bento XVI tem o desafio de “limpar a Igreja” da sua sujidade, como ele próprio afirmou na Via-Sacra de Sexta-Feira Santa de 2005, poucos dias antes da morte de João Paulo II.

1. Esta crise, como diz o étimo da palavra, pode ser uma oportunidade de mudança. A começar pela relação entre catolicismo e sexualidade – que o teólogo Hans Küng definiu como uma “relação crispada”. Não para dizer que o celibato é a causa da pedofilia. O celibato como opção voluntária pode ser dedicação extraordinária a uma comunidade. Como disciplina obrigatória (com excepções nas Igrejas Católicas orientais ligadas a Roma e, agora, com os anglicanos que decidiram aderir ao catolicismo), poderá ser revisto.
É certo que a esmagadora maioria de casos de abusos acontece com pais e familiares próximos das crianças. Como escrevia o Papa na carta aos católicos irlandeses, a pedofilia não é um problema que se restringe aquele país nem à Igreja Católica. Bem pelo contrário. Mas encarar a questão da sexualidade significa afrontar, desde logo, a formação nos seminários, tantas vezes castradora de afectos. E que é uma das causas profundas da pedofilia entre membros do clero.
A Igreja tem, na sua base bíblica e evangélica, uma fonte harmónica e integral que séculos de moralismo esconderam. Ao contrário do que diz Saramago, a Bíblia não é um manual de maus costumes. Mas, ao contrário do que pensam e dizem muitos católicos, ela tão pouco é um manual de bons costumes. A Bíblia é sobretudo uma proposta de relação – do ser humano com Deus e entre os seres humanos como imagem de Deus.
Aqui reside uma primeira dificuldade no exercício que a Igreja terá de fazer: muitos responsáveis católicos insistem numa abordagem dualista, legalista e pecaminosa (numa perspectiva greco-romana) da sexualidade. E que tem sido geradora de hipocrisias.

2. A crispada relação com a sexualidade reflecte-se também no modo como a doutrina católica olha a contracepção – e o preservativo, nomeadamente. Há quatro décadas, a encíclica Humanae Vitae interditou os métodos “artificiais” de planeamento familiar, apenas porque alguns cardeais da Cúria Romana não aceitavam a mudança doutrinal proposta por uma vasta comissão de médicos, teólogos e casais.
Se o Papa Paulo VI (que encarava a possibilidade de mudar a posição oficial) não tivesse cedido à pressão da Cúria, o preservativo não seria hoje um tabu doutrinal (mesmo se distribuído aos milhares por freiras e padres comprometidos na luta contra a sida, por exemplo). E o catolicismo das últimas décadas teria sido bem diferente.
Esta relação difícil do catolicismo oficial com a sexualidade tem manifestações visíveis como os abusos sexuais cometidos por padres sobre religiosas, em África, conhecidos há uma década; ou o padre mexicano Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, de quem se sabe que teve filhos de várias mulheres às quais ocultava a sua identidade, foi pedófilo, incestuoso e toxicodependente.
A instituição por ele fundada é exemplo dos grupos católicos que hoje, na Igreja, insistem na perspectiva moralista e para os quais a vida só importa quando se fala de aborto, preservativo ou homossexualidade.
Não é de estranhar que mais se condene quem mais moralismo apregoa e acaba por ter tantos pecados (ou crimes) no seu interior. Com uma agravante: as pessoas que confiavam os seus filhos a responsáveis da Igreja eram, em grande parte, membros da própria comunidade cristã. Para elas, o sentimento de terem sido traídas por aqueles em quem confiavam é esmagador.

3. A acusação de encobrimento atinge agora o próprio Papa. Na carta que escreveu aos irlandeses, há oito dias, Bento XVI acusa vários bispos de terem falhado “por vezes gravemente”. Seria estranho que o Papa tivesse escrito o que escreveu, se tivesse telhados de vidro. De outra forma, estaria agora sob escrutínio e sem autoridade perante os seus “irmãos bispos”.
Pode haver aqui duas coisas diferentes. Como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), Joseph Ratzinger conhecia, obviamente, vários casos. Mas pode ser forçado dizer que os encobriu. O mais emblemático, noticiado pelo “New York Times” esta semana, revela que nem os poderes públicos agiram sobre o padre que abusou de 200 crianças – tal como aconteceu na Irlanda. E que Ratzinger só conheceu duas décadas depois dos factos.
O célebre documento de 1962 (que Ratzinger, então um padre com 35 anos, não escreveu, ao contrário do que muita ignorância afirma por aí), que defendia o secretismo, foi depois substituído em 2001, não para prosseguir a mesma orientação, mas para dar um passo em frente: o de obrigar os bispos a comunicar os casos de pedofilia ao Vaticano. Só nessa ocasião Ratzinger e a CDF passam a tomar conta destes casos, quando a questão já era um escândalo nos Estados Unidos (dois anos depois, João Paulo II chamaria vários bispos dos EUA para enfrentar a crise, pela primeira vez, de forma dramática). Só o total esclarecimento do papel do Papa em cada caso poderá aclarar de vez a sua quota-parte de responsabilidade – isso mesmo já foi pedido há dias pelo “National Catholic Repórter”.

4. O encobrimento e a tolerância social da pedofilia era a atitude normal até há três ou quatro décadas – o caso Polanski reapareceu a recordá-lo.
Durante séculos, a Igreja Católica entendeu-se como sociedade perfeita, sem necessidade de instâncias civis: tinha os seus tribunais, as suas penas, chegou a ter as suas prisões.
Também sabemos que a comunicação social é mais severa com a Igreja Católica do que com outros. E desproporcional: dá-se sempre mais dimensão aos escândalos do que aos caminhos de solução ou aos resultados, omite-se que o fenómeno atinge uma pequeníssima minoria do clero (embora bastasse um caso para que fosse grave). Sabe-se que os números aparecidos na Alemanha nas últimas semanas são resultado do trabalho iniciado pela Conferência Episcopal quando surgiram os casos nos Estados Unidos – mas isto também quase não é dito.
Mas desde 1990 há uma avalanche de casos. O que se passou na Irlanda, que durou até há poucos anos, mostra que não se atalhou o problema logo que ele começou. Em 1993, os bispos do Canadá publicaram um extenso documento com uma reflexão profunda sobre o tema e propostas de solução – que tiveram sucesso. O caminho deveria ter sido seguido em outros países.
Por isso não se entende a lamentável e infeliz declaração do cardeal Saraiva Martins: a Igreja é pela “tolerância zero”, mas não lava a “roupa suja” em público. Há mais de 60 anos, o Papa Pio XII dizia que a opinião pública é “vital” para a Igreja. Entenda-se, portanto, que a lavagem de “roupa suja” em público mais não é que uma desafortunada expressão para referir o debate interno, que está na matriz genética do cristianismo. E foi pela falta de tolerância zero que se chegou aqui.

5. A mês e meio da viagem de Bento XVI a Portugal, percebe-se que a crise continuará a revelar mais casos. Como em todas as histórias, percebe-se que também há interessados em atingir a credibilidade da Igreja. Mas esta tem que ser a primeira a reflectir o porquê dessa aversão e a procurar razões no seu interior – uma atitude própria desta Semana Santa que os cristãos hoje começam a viver. O cerco à volta de Ratzinger também continuará. Será, por isso, um Papa ferido aquele que virá a Portugal. Talvez rodeado por grupos interessados prioritariamente em defender a instituição dos “ataques” – já correm textos nesse sentido na Internet, em blogues, em mails…
Convém não esquecer que foi a preocupação pela defesa da honra da instituição que levou ao actual estado de coisas. Só uma atitude purificadora e aberta à mudança permitirá à Igreja recuperar a credibilidade perdida nesta crise. Os cristãos chamam a esse acontecimento ressurreição. E celebram-na no próximo domingo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

"Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar"

O escândalo dos abusos sexuais por parte do clero e do modo como alguma hierarquia tem lidado com este tipo de casos já foi considerado o pior dos últimos cem anos. Será preciso mais recuo temporal para fazer tal avaliação, mas não parece haver dúvidas que há aqui algo de muito sério e grave e que muita coisa vai depender do modo como a Igreja lhe responde.
Não restam para mim dúvidas de que, em casos desta natureza, há quem se delicie em ver a Igreja a sangrar. E tomara a esses que não recuperasse dos golpes. A realidade talvez não lhes faça a vontade, porque o bom senso aconselha a distinguir o que não pode ser confundido. Também neste caso, não se pode tomar a nuvem por Juno.
Mas que a Igreja se põe a jeito, lá isso põe. Desde logo por pretender que estes são casos individuais, de "pecadores" que traíram a sua fé e esqueceram a doutrina. O número de casos e a extensão do fenómeno aí estão para mostrar que não é assim.
Mal iríamos se a resposta se limitasse a uma espécie de agravamento do regime disciplinar. Tenho para mim que se torna fundamental reflectir, ao menos sobre estes quatro pontos:
  • - Os direitos e a dignidade das vítimas, nomeadamente quando crianças pequenas e, maxime, quando portadoras de deficiência;
  • - a política do segredo e do encobrimento, confundida com serviço à Igreja, e que mais não é,neste tipo de casos, do que protecção da ilegalidade e do crime;
  • - o lugar e a dignidade da sexualidade e o papel do seu exercício saudável e responsável numa vida equilibrada, por parte de todos os cristãos, sejam clérigos ou não;
  • - a promoção e participação num debate mais largo, envolvendo diferentes instituições sociais que se confrontam com o problema dos abusos sexuais.
Da reflexão e do debate abertos é necessário tirar ilações. Que envolvem toda a Igreja, desde o mais humilde dos seus membros até ao papa. Não adianta sacudir a água do capote, esperar que a tempestade passe, contrapor que estão a atacar a Igreja e o papa. Tudo isso é, no fundo, desculpa de mau pagador.
Não é coisa pouca o que está em jogo. É "apenas" a credibilidade.
Em linguagem evangélica: se o sal perder a força, é melhor ser deitado fora e ser pisado pelos homens (Mt 5.13b).

sábado, 27 de março de 2010

Anselmo Borges escreve sobre "a pedofilia na Igreja Católica"

Na semana passada, fui abordado por vários jornalistas sobre a calamidade dos padres pedófilos. Que achava? A resposta saía espontânea: "Uma vergonha." Aliás, no sábado, apareceu, finalmente, a Carta do Papa, na qual manifestava isso mesmo: "vergonha", "remorso", partilha no "pavor e sensação de traição".

O pior, no meio deste imenso escândalo, foi a muralha de silêncio, erguida por quem tinha a obrigação primeira de defender as vítimas. Afinal, apenas deslocavam os abusadores, que, noutros lugares, continuavam a tragédia. Ler mais aqui.

"Circunstâncias extraordinárias requerem respostas extraordinárias"

A revista norte-americana National Catholic Reporter, em editorial publicado ontem no seu site, considera que o papa Bento XVI deveria explicar-se e esclarecer todas as dúvidas relativamente ao seu papel no lidar, enquanto responsável da Igreja, com casos de pedofilia de membros do clero.
"O Santo Padre deve responder directamente, num forum credível, a questões acerca do papel que desempenhou como arcebispo de Munique (1977-82), como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (1982-2005) e como papa (desde 2005 até ao presente) na (má) gestão da crise sobre abusos sexuais de clérigos", escreve o editorial.
O pedido é feito - acrescenta a posição - "não primariamente enquanto jornalistas que procuram a notícia, mas como católicos que entendem que circunstâncias extraordinárias requerem respostas extraordinárias".
Esta tomada de posição segue-se a notícias dos últimos dois dias do diário the The New York Times, segundo as quais indiciadoras de que o papa dificilmente poderia não ter sido minimamente informado da gravidade de alguns casos, quer nos Estados Unidos da América (enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé) quer antes, na Alemanha (enquanto arcebispo de Munique). Recorde-se que o Vaticano reagiu a estas notícias considerando-as mais uma etapa de "ataque ignóbil" à figura do papa.