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segunda-feira, 5 de março de 2018

O final da vida humana e a eutanásia

Agenda – Debate



O final da vida humana e a eutanásia é o tema do debate promovido pelo CRC (Centro de Reflexão Cristã) na próxima quarta-feira, dia 7, a partir das 18h, com a participação de José Manuel Pureza e de Miguel Oliveira da Silva e moderação de Rosa Lourenço.
Pretendendo “um debate objectivo, informado e sereno, com pluralidade de pontos de vista”, o CRC juntará assim dois crentes com posições diferentes sobre o tema: José Manuel Pureza, professor de Relações Internacionais e investigador em Estudos para a Paz, é um dos signatários de um projecto de lei de despenalização de morte assistida, apresentado pelo Bloco de Esquerda no Parlamento; Miguel Oliveira da Silva, catedrático de Ética Médica, primeiro presidente eleito do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (2009-2015), é autor de um livro sobre o tema e tem chamado a atenção para os erros e abusos que a aprovação de tal lei pode permitir. 

O debate decorre na sede do CRC (R. Castilho, n.º 61 – 2º Dirº), em Lisboa, e tem moderação da jurista Rosa Lourenço.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Legislação capciosa, alegrias do amor, subidas e descidas


No DN de sexta-feira passada, 23, Anselmo Borges fala do que considera Legislação capciosa, para se referir a diversas medidas legislativas aprovadas ou em curso no Parlamento:
Aqui, a argumentação tem de ser racional e não religiosa. De qualquer modo, mesmo do ponto de vista religioso, sei que, na perspectiva cristã, autonomia e teonomia coincidem, que Deus é misericórdia e não nos criou para sofrer, existe a autonomia e a vida é um bem, um direito, e não um fardo, que pode tornar-se insuportável. Mas o problema é outro. Trata-se de uma questão civilizacional, e é preciso estar bem consciente dos perigos dramáticos e temíveis que se corre. Por exemplo, com uma lei aberta à eutanásia e ao suicídio medicamente assistido (lembra um oxímoro), não surgirá depois uma pressão disfarçada e subtil sobre os doentes e os velhos, que acabará por ser interiorizada por eles, para que exerçam o direito à eutanásia "voluntária"?
(texto na íntegra aqui)

No Público de Domingo, 25, frei Bento Domingues fala da Amoris Laetitia e dos recentes debates a propósito do acesso aos sacramentos dos católicos divorciados que voltaram a casar. Porque será que a alegria do amor dá tanta tristeza?, pergunta o título:
Como tinham sido muitas as tentativas de neutralização do caminho aberto por esse Concílio, o Papa Francisco resolveu escancarar portas e janelas. A Igreja não é para a Igreja, não pode ser auto referente. Introduziu, por isso, a linguagem e a prática de uma Igreja de saída para as periferias. Deseja que os cardeais da cúria, os bispos das dioceses, os párocos e os teólogos das universidades abandonem a sua auto contemplação e passem a ser pastores, a terem o cheiro das ovelhas, porque são estas as importantes. Os cristãos são um reino de sacerdotes. Pertence-lhes a missão de oferecer a sua vida para a alegria do mundo todo.
A desgraça deste Papa é não ser, apenas, palavras e bons conselhos. É o primeiro a viver e fazer aquilo que propõe aos outros.
(texto na íntegra aqui)

Já na semana anterior, frei Bento Domingues tinha escrito sobre o mesmo tema, sob o título A família nasce de uma bênção divina.

Vítor Gonçalves escreve na última edição do jornal Voz da Verdade sobre Subir para descer, a propósito do episódio da transfiguração de Jesus:
Nenhuma revelação acontece para que tudo fique na mesma. Abre caminhos onde abismos ou muros pareciam intransponíveis, oferece meios para novos passos, sacia e desperta novas sedes. Não desistamos de subir aos montes onde se vê, respira e ouve melhor. Mas não esqueçamos que a vida acontece na renovação dos caminhos da planície, na conversão das escolhas e nas batalhas quotidianas. Não vemos como Deus faz resplandecer tudo quando descemos ao encontro dos outros?
(texto na íntegra aqui)

Ilustração: Viens a mon secours (Vem em meu socorro), de Bernadette Lopez (Berna), reproduzida daqui


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Integrar a fragilidade, refazer a vida inteira




O padre António Pedro em 2015, no Hospital de Santa Maria (Lisboa); 
actualmente, exerce funções de capelão hospitalar no Hospital de Santa Marta 
e Maternidade Alfredo da Costa, também em Lisboa
 
A criadora da noção de cuidados paliativos dizia que “quando já não há nada a fazer, está tudo por fazer”. O padre António Pedro Monteiro, 31 anos, assistente religioso no maior hospital do país, diz que, perante o sofrimento, importa construir um caminho que integre a fragilidade e devolva a saúde pelo perdão de si mesmo e dos outros. E o padre Augusto Cima, 78 anos, manifesta-se muito crítico na falta de profissionalismo no acompanhamento dos doentes feito pelas estruturas católicas (o Dia Mundial do Doente foi assinalado Domingo passado) – ver no final ligação para uma entrevista na TSF.

Quando chega junto de uma das camas, o padre António Pedro ajoelha. Vai conversar com uma doente que chamara alguém da capelania do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Durante dois ou três minutos permanece ajoelhado, pouco mais do que escutando, entre silêncios.
O pouco que vai dizendo aponta para o presente e o futuro, para a alta que estará próxima, depois de oito meses de internamento, tratamentos e outros sofrimentos. A cena inverte o quadro habitual. “Importa mais escutar Deus que está no outro do que catequizar sobre Deus ou catequizar o próprio Deus”, responderá, quando perguntado sobre tal gesto.
Nascido a 12 de Setembro de 1983, em Vizela (diocese de Braga), António Pedro Monteiro é padre do Sagrado Coração de Jesus (dehoniano) desde 26 de Setembro de 2010. Faz parte da equipa de três padres e um diácono que, diariamente, presta serviço de assistência religiosa, em nome da Igreja Católica, no maior hospital do país.
Uma semana antes de ter sido desafiado a fazer esse trabalho, em 2012, estava António Pedro na Madeira. Contactara todas as escolas da ilha, trabalhava num seminário, numa escola de enfermagem e num lar de idosos. Ao fim de dois anos, sentia que começava a “coser várias pontas”. Foi quando o superior provincial lhe confidenciou a possibilidade de um novo projecto pastoral: o patriarca D. José Policarpo pedira um capelão em Santa Maria, mas não sabia como responder. Nesse momento, nem um nem outro imaginavam que, três semanas depois, o diálogo ganharia um sujeito com António Pedro.

O outro como lugar teológico

Aqui está agora, de bata branca, acorrendo a quem chama – chegam à capelania uma média de 60 pedidos de assistência espiritual por semana. “No hospital, temos de ser não só antenas, mas patenas”, foi o que aprendeu na formação. “Se olhamos a pessoa doente como coitadinha e carente do que tenho para dizer-lhe, encaixamos no modelo anterior de assistência, que se propunha dar sacramentos e levar uma catequese preparada. Se trato a pessoa com dignidade e singularidade, e tento ver nela o rosto de Jesus, como propõe o texto de Mateus 25, então aprendemos que Deus está nessa fragilidade.” Mais do que ir junto dessa pessoa para falar de Deus, acrescenta, importa ter presente que se vai ter com o próprio Deus de Jesus: “A mim o fizestes.”

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Laura Ferreira dos Santos (1959-2016): Católica das margens, em busca de uma ortodoxia maior


Laura Ferreira dos Santos, fotografada por José Caria/Visão 
(foto reproduzida daqui)

Em 2008, ela confessava imaginar o seu encontro com Deus como acontecendo num momento semelhante a um colorido pós-pôr do sol. “Tenho a sensação que só nessa altura, como se diz na Bíblia, todas as lágrimas do nosso rosto serão enxugadas e todas as dúvidas que temos e não conseguimos resolver racionalmente serão resolvidas. (...) A minha ideia do ‘outro lado’ é a de que simplesmente vamo-nos abraçar de imediato e dizer: ‘Finalmente!’” Laura Ferreira dos Santos, professora universitária e ensaísta, que se destacara nos últimos anos na defesa da morte assistida, morreu sexta-feira passada em Braga, após vários anos de luta contra um cancro. O funeral realizou-se sábado, para o Porto.
Autora de um Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença (ed. Angelus Novus, 2003 e 2008), em dois volumes, essa obra marcante no seu percurso foi ignorada nas notícias acerca da sua morte. Nela se definia como uma “católica nas margens”, mas em busca de “uma ortodoxia maior”.
Na entrevista que lhe fiz em 2008 e foi publicada no Público em 5 de Maio desse ano (entretanto também publicada no livro Diálogos com Deus em Fundo, ed. Gradiva), ela contava como escreveu este diário singular na literatura portuguesa, as suas distâncias e proximidades com o catolicismo e a fé.
Mais recentemente, numa entrevista ao suplemento Igreja Viva, do Diário do Minho, Laura Ferreira dos Santos actualizou as razões do seu envolvimento na causa da morte assistida, surgido precisamente por causa da experiência de sofrimento e de morte que enfrentou várias vezes entre os seus próximos e que levou mesmo a mudar o seu modo de entender a fé.
“Como acredito num Deus de amor, acredito também que Ele só pode querer o nosso melhor interesse. Infelizmente, em certas alturas, o nosso melhor interesse é morrermos, para assim escaparmos ao sofrimento atroz. Por isso, por vezes rezamos para que Deus ‘leve’ alguém o mais depressa possível”, dizia, na entrevista que pode ser lida aqui.
Nascida em Braga, a 27 de Março de 1959, Laura Ferreira dos Santos licenciou-se em 1982, na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa. No ano seguinte, passou a leccionar na Universidade do Minho. Trabalhou no Instituto de Educação da UM (Departamento de Teoria da Educação e Educação Artística e Física) e, em 1996, prestou provas de doutoramento em Educação, na mesma Universidade, com uma tese sobre Pensar o desejo a partir de Freud, Girard e Deleuze.
Laura Ferreira dos Santos dedicou a sua investigação à Filosofia da Educação e bioética (neste último caso, especialmente às questões das escolhas de fim de vida). Entre as suas obras, incluem-se Educação e cultura em Nietzsche. Análise da primeira fase do seu pensamento, Pensar o desejo a partir de Freud, Girard e Deleuze (ambos ed. da Universidade do Minho), Alteridades feridas. Algumas leituras feministas do cristianismo e da filosofia (ed. Angelus Novus), Ajudas-me a morrer? A morte assistida na cultura ocidental do século XXI e Testamento Vital – O que é? Como elaborá-lo? (ambos na Sextante). Integrou também, desde Janeiro de 2009, a Comissão de Ética para a Saúde da Administração Regional de Saúde do Norte.

Como surgiu este Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença?
Já há muitos anos que escrevo. No segundo volume [do Diário…], de vez em quando há extractos de diários antigos. Escrevi sempre porque tinha vários problemas para resolver e porque a escrita foi sempre a melhor maneira de pensar sobre eles.
Há uma canção de Leonard Cohen, que diz mais ou menos: “Toca os sinos que ainda podes tocar,/ larga a tua oferta perfeita,/ em todas as coisas há uma fissura/ e é por aí que a luz entra.” Desde que a ouvi, tomei consciência de que andei sempre à procura dessa luz, não só em circunstâncias de sofrimento, mas também em outras mais favoráveis.

domingo, 6 de março de 2016

Pais e filhos, histórias subversivas, eutanásia, Spotlight e dinheiro sujo

Crónicas

No seu comentário aos textos bíblicos da liturgia católica deste Domingo, Vítor Gonçalves escreve, sob o título Do Pai aos irmãos:

Não sabemos se o pai da parábola que Lucas nos narra era um bom educador. Mas sabemos que amava os seus filhos. Que pouco lhe interessavam os bens e as propriedades, a fama ou as honrarias, e tudo seria capaz de sacrificar por causa deles. Com que dor aceitou ser “morto” pelo filho mais novo quando lhe deu a parte da herança reclamada? Com que esperança suspirou pelo seu regresso? Com que alegria saiu ao seu encontro e deu início à festa? Com que dor descobriu a dureza de coração do filho mais velho? Com que humildade veio insistir com ele para acolher o irmão? Quem imagina Deus sentado no seu trono celeste a “ver o mundo passar” bem pode mudar de ideias, sob o risco de “inventar” um Deus que não é o Pai de Jesus Cristo!


Ilustração: Bernadette Lopez (Berna), 
reproduzida daqui. 

Na crónica de hoje, no Público, frei Bento Domingues toma também como pretexto a “parábola do filho pródigo”. Sob o título Um contador de histórias subversivas, escreve:

A parábola não ensina, dá que pensar. Liberta a imaginação. Não nos deixa acorrentados às religiões que herdámos. A fé cristã, ao proclamar, na Eucaristia dominical, a parábola do Filho Pródigo vem dizer: não estraguem o Domingo! É a festa das pessoas em processo de transformação. A Eucaristia - o Papa Francisco tem insistido muito neste ponto - não é um prémio, uma recompensa para os bem-comportados, segundo um código de moral convencional. É um convite para a festa, para a festa de Deus revelada nos gestos e nas palavras de Jesus.


Na crónica de ontem, no DN, Anselmo Borges escrevia sobre Os dois pais, a liberdade, Spotlight:

A Igreja Católica tem muitos e graves problemas para resolver, mas a questão da reconciliação sã com a sexualidade é fundamental. O título deste texto, aparentemente desconexo, tem um vínculo: o sexo. Se se dissesse claramente, sem receios, que Jesus é filho de José e de Maria, não haveria lugar para o cartaz. Também é sabido que a pedofilia não deriva necessariamente do celibato obrigatório. Mas a lei do celibato pode ser causa de sexualidades distorcidas. Porque é que a Igreja há-de impor como lei o que Jesus entregou à liberdade?