Mostrar mensagens com a etiqueta Santo Agostinho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Santo Agostinho. Mostrar todas as mensagens

sábado, 11 de agosto de 2018

Livros: A mentira – Contra a mentira

Texto de Rui Pedro Vasconcelos

A publicação, no nosso contexto, de uma obra clássica da Tradição cristã – neste caso de Santo Agostinho – representa um acontecimento a registar. Agora, o leitor recebe nas suas mãos dois opúsculos de Agostinho de Hipona, escritos respetivamente em 395 e 420 d. C., sobre a temática da mentira. O primeiro opúsculo, A Mentira, adquire uma linguagem formal e académica, própria das investigações do autor na área da filosofia e da ética; já o segundo opúsculo, Contra a Mentira, consiste numa carta dirigida a um cristão, Consêncio, como resposta a dúvidas levantadas por este sobre a legitimidade de usar a mentira e táticas semelhantes para infiltrar grupos considerados heréticos, como os priscilianistas (movimento de caráter espiritual e popular muito influente na Península Ibérica ao longo dos séculos IV e V, fundado por Prisciliano, bispo de Ávila). Em ambos os opúsculos, Agostinho é perentório: a mentira nunca é, em caso algum, um meio legítimo de evangelização ou anúncio da verdade.
Agostinho procura responder a uma ampla corrente, oriunda da filosofia grega e difundida em significativos autores cristãos da época, segundo a qual a mentira poderia ser justificada em determinadas situações ou de acordo com a intenção de quem a proferisse. Agostinho defende que, podendo em alguns casos ser um mal menor ou leve, a mentira nunca é um bem ou um meio que se justifique, independentemente do fim – seja perseguir a verdade com a mentira ou defender a vida com o falso testemunho. Os mártires elevam-se como baluartes desta integridade da linguagem. Como é bem referido por José Maria Silva Rosa na sua Introdução à obra, a reflexão de Agostinho transporta-nos, hoje, para a natureza do discurso político. Um livro exigente, graças ao qual o leitor se aproximará da sua própria linguagem no comum dos dias.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O diabo não existe

Crónica

Na sua crónica de hoje no Correio da Manhã, Fernando Calado Rodrigues diz que o diabo não existe.
Citando um diálogo contado por Santo Agostinho, diz o cronista:
Desde o dia em que li este diálogo também eu entendi que o Mal é a ausência do Bem, como a doença é a falta da saúde e a escuridão é a ausência de luz. Compreendi, então, que o diabo não é uma existência, mas uma ausência de Deus.

Com o aprofundamento dos estudos teológicos, percebi o que aconteceu naquele diálogo. Agostinho, na falta de uma explicação melhor, inclinava-se para aceitar a existência dos dois princípios absolutos e eternos propostos pelo maniqueísmo: Deus e o Diabo. Depois do encontro com Santo Ambrósio, abandonou essa crença, que passou a combater, e aderiu à fé num único princípio absoluto: Deus, princípio e fim último de todas as coisas.”

(ilustração reproduzida daqui)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

As Confissões, de Santo Agostinho, em debate em Lisboa

Hoje, às 19h00, no Ciclo Nós e os Clássicos, da Livraria Almedina de Lisboa (Atrium Saldanha), serão apresentadas e debatidas As Confissões, de Santo Agostinho. Caberá a Teresa F. A. Alves, professora associada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a apresentação da obra e os comentários ao debate.

O ciclo, coordenado e moderado pela jornalista e escritora Filipa Melo, pretende promover o contacto com os grandes textos clássicos como “aventura mental e afectiva” e numa “relação viva e transmissível”. Em cada sessão, o leitor especialista fala do seu gosto por um título clássico de ficção ou pensamento, como herança universal sem tempo. A sessão é aberta a todos os interessados.

Mais informação pelo telefone 213 570 428 ou em http://www.almedina.net.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Interrogar a beleza

Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar amplo e difuso;
interroga a beleza do céu, interroga a ordem das estrelas;
interroga o sol, que com o seu esplendor ilumina o dia;
interroga a lua, que com sua claridade modera as trevas da noite;
interroga as feras que se movem na água, que caminham sobre a terra, que voam no ar: almas que se escondem, corpos que se mostram; visível que se deixa guiar, invisível que guia. Interroga-os!
Todos te responderão: Vê-nos: somos belos! Sua própria beleza se dá a conhecer. Esta beleza imutável, quem a criou, senão a Beleza imutável?”

Santo Agostinho, Sermão CCXLI, 2: PL 38, 1134, texto evocado ontem, em Roma, por Bento XVI, numa catequese sobre a beleza das catedrais românicas e góticas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Ano Novo - O tempo, nas pequenas como nas grandes coisas



Ouvi dizer a um certo homem douto que o tempo não é senão os movimentos do sol, da lua e das estrelas, e eu não concordei. Porque não serão antes os tempos os movimentos de todos os corpos? Será que, se as luzes do céu parassem e continuasse a mover-se a roda do oleiro, deixaria de haver tempo com que medíssemos as suas voltas e disséssemos, ou que se move durante instantes iguais, ou que umas voltas são mais longas e outras menos, se a roda se movesse umas vezes mais vagarosamente e outras mais velozmente? Ou, dizendo isso, não falaríamos também nós no tempo, ou não haveria nas nossas palavras umas sílabas longas, outras breves, a não ser porque aquelas ressoam durante um tempo mais longo e estas durante um tempo mais breve? Ó Deus, concede aos homens a possibilidade de observarem nas coisas pequenas as noções comuns às pequenas e às grandes coisas.

(Santo Agostinho, Confissões, Livro XI, XXIII, 29; ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda/Centro de Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira; trad. Arnaldo Espírito Santo, João Beato e Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel)