quarta-feira, 19 de maio de 2010

Músicas que falam com Deus (5) - Os Salmos e a Torá de Moni Ovadia


Moni Ovadia, nascido em 1946 na Bulgária, é músico, cantor, actor, escritor e autor teatral. Judeu, vivendo em Itália desde criança, Moni fundara, em 1972, o Gruppo Folk Internazionale, cujo repertório era dedicado à música dos Balcãs. Entre as suas obras literárias ou teatrais, destacam-se «Dybbuk», sobre a Shoah, considerada a mais importante peça sobre o Holocausto. A sua música, onde a inspiração do Judaísmo e da música klezmer é evidente, assenta quase só na sua voz intensa e vigorosa, funda e forte. Neste disco, Ovadia recorda que a Torá conta que o Universo foi criado a partir da palavra de Deus: «Disse luz e foi a luz.» Ou seja, a criação «é um fenómeno acústico», tal como a revelação a Abraão e a Moisés, no Sinai. Por isso devemos falar em «teofonia» no monoteísmo, propõe. Neste disco, nem sempre fácil, Ovadia canta orações, salmos bíblicos ou o sh’má judaico: «Escuta, Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é um.»


Título: Kavanàh; Autor: Moni Ovadia; Edição: Promomusic; informações: http://www.moniovadia.it/

(Texto publicado na revista Além-Mar, de Maio de 2010)

Diálogo entre a Igreja e a Arte no Câmara Clara


Vídeo: RTP | Emissão: 16 de Maio de 2010, RTP2

domingo, 16 de maio de 2010

O que vai sobrar desta viagem está nas mãos dos católicos

(Foto: Adriano Miranda, no Público)

Dias profissionalmente intensos e, por isso, menos possibilidade de ir comentando aqui a visita de Bento XVI a Portugal. Por isso, deixo um comentário que escrevi no Público deste sábado, em jeito de síntese de algumas questões importantes. Acrescente-se que as alusões do Papa ao "espaço novo de liberdade" que a instauração da república trouxe à Igreja são significativas, tendo em conta tantas vozes na Igreja que teimam em apenas ver as perseguições que existiram (um pouco como na questão da pedofilia). Aqui ficam então, algumas notas sobre a primeira viagem a Portugal de um Papa cuja imagem perante muitos portugueses, católicos e não católicos, mudou em quatro dias. Também por caua da forma como ele quebrou o proocolo e as estritas regras de segurança e se aproximou das pessoas:

1. A viagem de Bento XVI a Portugal ficará marcada pelas declarações do Papa acerca dos abusos sexuais de membros do clero: "A maior perseguição da Igreja não vem de inimigos externos, mas nasce do pecado na Igreja." Esta ideia devia ser evidente para todos os crentes, mais ainda para os responsáveis da instituição eclesiástica. Se sabemos que ninguém é perfeito e que, em linguagem da teologia cristã, o pecado habita a Igreja, mais essa consciência deveria existir.

Não parece ter sido assim nesta crise. Pelo menos, para vários responsáveis do Vaticano, que viram na divulgação de notícias dos casos de pedofilia uma campanha contra a Igreja. Não sou ingénuo a ponto de ignorar que há quem queira alimentar ou amplificar determinadas realidades. Mas esta não é a realidade principal.

Os responsáveis católicos que assim falaram esqueceram, aliás, factos elementares e importantes como o ter sido a Conferência Episcopal Alemã a criar uma comissão que investigou os casos que, nos últimos dois meses, vieram a público naquele país. Essa atitude dos bispos alemães coincide com a frase do Papa: só uma consciência do seu próprio pecado pode levar a Igreja (e cada crente) a purificar-se. Convém, por isso, que esses responsáveis saibam aprender com Bento XVI.

2. Uma visita de um Papa a um país permite apenas a comunicação unidireccional. O Papa veio a Portugal, pronunciou discursos, saudações e homilias, foi saudado em cada encontro que teve por alguém representativo e foi escutado, mal ou bem, pelas multidões ou convidados que acorreram às diferentes iniciativas.

Longe vão os tempos das primeiras viagens de João Paulo II, quando, nas intervenções com que era saudado, o Papa Wojtyla ouviu mesmo referências críticas a posições da hierarquia. Também já não é praticamente possível a relação directa do Papa com as pessoas. As razões de segurança sobrepuseram-se às razões da comunidade.

Mesmo se Ratzinger foi surpreendente em Lisboa, em Fátima e no Porto, quebrando essas regras e aproximando-se das pessoas por diversas vezes, isso não é suficiente para que o Papa possa perceber sentires mais profundos das comunidades.

3. Faltaram dois encontros: um com as minorias religiosas, outro com os jovens. Ambos foram remediados, o primeiro com convites para o encontro com a cultura no CCB, o segundo com uma ida organizada dos jovens à nunciatura para a serenata. As minorias religiosas mereciam mais. Ou talvez não: o clima inter-religioso em Portugal é simpático e cordial, falta um verdadeiro processo de diálogo, cuja responsabilidade maior cabe, neste caso, à maioria. Quanto aos jovens: a um ano da Jornada Mundial da Juventude em Madrid, teria sido interessante ver a capacidade mobilizadora deste Papa para um tal evento.

4. Foi pena que, no encontro das instituições de acção social da Igreja, as únicas palmas que se tenham escutado tenham sido para as alusões do Papa ao aborto e ao casamento. Provavelmente, os participantes escutaram mal - à semelhança do que aconteceu em alguns meios de comunicação: o Papa não fez uma enésima condenação do aborto, antes elogiou os que "procuram lutar contra os mecanismos socioeconómicos e culturais que levam ao aborto e que têm em vista a defesa da vida e a reconciliação e cura das pessoas feridas pelo drama do aborto". Se está implícita aqui a doutrina tradicional da Igreja sobre o tema, a frase diz muito mais que isso. E, nesta afirmação, cada palavra é importante. Nesse discurso, foi pena o Papa não ter feito uma referência mais circunstanciada à actual crise económica e à responsabilidade do sistema financeiro, na linha do que escreveu na sua última encíclica.

5. O encontro do Papa no Centro Cultural de Belém, com os agentes culturais, mostrou um Papa preocupado com a modernidade, com o diálogo intercultural, com a arte e com a busca das possibilidades de encontro. Este encontro abriu possibilidades novas num caminho que a Igreja em Portugal tem sabido percorrer.

6. Desta viagem, sobrará muita coisa. Ou nada. Tudo depende da capacidade dos católicos - e da hierarquia, em primeiro lugar - em captar algumas questões essenciais.

sábado, 15 de maio de 2010

Visita de Bento XVI a Portugal - "Em jeito de balanço"

Por Esther Mucznik * [in PÚBLICO, 15.5.2010]



No final da visita de Bento XVI, não há como negá-lo: a fé católica está viva e bem viva na população portuguesa. Pode não se querer ver, atribuir aos media, ridicularizar, rebaixar, lastimar, mas não se pode negar que o que se passou aqui, durante os quatro dias da visita papal, foi um impressionante testemunho de fé. Não apenas por parte dos velhos, dos pobres, dos desesperados: a presença do Papa desencadeou o que muitos mais escondem ou guardam para si: "Não tenhais medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais da fé", pediu o Papa. Creio que foi ouvido.

Isto põe em causa duas ideias mestras das nossas sociedades ocidentais nos dias que correm: a primeira é o desaparecimento de Deus, tornado inútil e dispensável pela razão humana; a segunda é o mito multiculturalista - a convivência de culturas no mundo ocidental, necessária e enriquecedora, não torna de facto obsoleta aquela que está na raiz da identidade colectiva de um povo.

O que fica desta visita papal? Em primeiro lugar, a humildade e a coragem de uma visão autocrítica do homem que veio até nós "como peregrino". Bento XVI não hesitou em dizer que as principais ameaças à igreja vêm de dentro e não de fora e, fundamental, que o perdão não se substitui à justiça. Não hesitou em criticar os que colocam demasiada confiança nas estruturas e nos poderes, em vez de se virarem para o mundo e exortou os fiéis a irem para a rua, para onde corre a vida. O Papa "conservador" falou de mudança e falou claro.

Em segundo lugar, Bento XVI verbalizou uma verdade histórica, que ainda hoje não é frequente ouvir da boca de muitos católicos portugueses: que a República "abriu, na distinção entre Igreja e Estado, um espaço novo de liberdade para a Igreja". Sem distinção, não há de facto liberdade, não apenas para a igreja - qualquer igreja - mas sobretudo para as pessoas. A separação da religião e do Estado, para além de condição de liberdade inerente a qualquer sistema democrático, é também condição indispensável da não- perversão dos valores religiosos. Dito de outra maneira, a força vital de uma religião não vem da promiscuidade com o poder, mas da tensão com esse mesmo poder: a sua criatividade vem do espaço de liberdade em que se move, não do poder que a desertifica. E só essa liberdade permite a busca de sentido de que fala Bento XVI.

Em terceiro lugar, o Papa insistiu na necessidade de retomar o diálogo entre cultura e religião, tal como se tem empenhado em conciliar razão e fé. Estas duas linhas têm sido uma constante no pontificado de Bento XVI. Diz-se que a religião é o mundo das certezas e o mundo da arte ou da cultura, das interrogações e da dúvida. Não vou por aí: uma e outra comungam da mesma dúvida, da mesma busca, seja esta entendida como uma busca mística, ou simplesmente como uma força espiritual que nos eleva acima de nós próprios - ou seja, à verdadeira beleza. Em cada verdadeira obra de arte há sempre uma centelha "divina".

O que fica da visita de Bento XVI? A imagem de um homem de fé intensa, contida e serena, provavelmente diferente do que muitos portugueses estavam à espera. À pergunta dos jornalistas aos peregrinos de Fátima: "O que sentiu?", as pessoas respondiam quase invariavelmente: "Não sei explicar", "não tenho palavras", "foi único", "uma grande emoção". A corrente passou entre os católicos portugueses e o Papa. E é evidente que este se sentiu em casa...

Uma nota para terminar: é de destacar a excelente organização da estadia do Papa, o empenho dos católicos, da Igreja e das instituições oficiais, que fez desta visita um sucesso. Mas não posso deixar de estranhar o facto de não ter sido previsto um encontro, mesmo breve, de Bento XVI com confissões religiosas não- católicas. Seria o reconhecimento de que no Portugal de hoje existem "outros" que fazem parte integrante da sociedade, não apenas como pessoas de cultura, tal como foram convidados para o Centro Cultural de Belém, mas como representantes de confissões não-católicas, nas quais se reconhecem muitos cidadãos portugueses. Talvez em 2017, quando o Papa voltar a Fátima...
(*) Investigadora em assuntos judaicos


(Crédito da foto: Página 1, 13.5.2010)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Visita do Papa Bento XVI através de algumas frases

Palavras do Papa:

“(...) não é só de fora que surgem os ataques ao Papa e à Igreja. Os sofrimentos da Igreja surgem dentro da própria Igreja e dos pecados que existem na Igreja (...)
Sempre se sabia isto, mas hoje vemo-lo realmente de modo mais aterrador, ou seja, a maior perseguição à Igreja não surge dos inimigos que estão fora, mas nasce do pecado dentro da Igreja e, por isso, a Igreja tem uma profunda necessidade de reaprender a penitência,de aceitar a purificação”.
(Aos jornalistas no avião, no trajecto Roma - Lisboa)

"A Igreja está aberta a colaborar com quem não marginaliza nem privatiza a essencial consideração do sentido humano da vida".
(Ao desembarcar no aeroporto da Portela)

"Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas que acontece se o sal se tornar insípido?".
(Homilia no Terreiro do Paço)

“Há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade.”
(No Centro Cultural de Belém)

“A convivência da Igreja, na sua adesão firme ao carácter perene da verdade, com o respeito por outras ‘verdades’ ou com a verdade dos outros, é uma aprendizagem que a própria Igreja está
a fazer”.
(No Centro Cultural de Belém)

“Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza.”
(No Centro Cultural de Belém)


[Crédito da foto: BRUNO FONSECA / LUSA]

Outras vozes


"A missa de ontem foi uma cerimónia digna e bem organizada, apesar de ser impressionante o facto de no altar não haver uma presença feminina"
(Maria João Sande Lemos, No Diário de Notícias)

"Confesso que não percebo a campanha "Foi o Pai que me ensinou", que está por todas as ruas para comemorar a visita papal. Sei que este Pai se escreve com maiúscula porque foi assim que a Agência Ecclesia escreveu no despacho que anunciava a campanha".
(José Vítor Malheiros, Público, 12.5.2010)

"Face au Tage, dans le cadre grandiose de la place Terreiro de Paco, dans une liturgie aussi simple que belle, balayée par le souffle de l'Atlantique, le dialogue entre un pape porteur de la Tradition vivante de l'Église et un peuple travaillé par les forces de la sécularisation pouvait commencer".
(...)
"Tout se passe comme si, depuis son arrivée au Portugal, Benoit XVI avait décide de reprendre la main. Reprendre la main sur la gestion médiatique de la crise pédophile en affirmant, dès le décollage de Rome, que le péché était présent a l' intérieur de l'Église, que la persécution pouvait aussi venir de l'intérieur".
La Croix, 12.5.2010

domingo, 9 de maio de 2010

Bento e Anselmo, a vinda do Papa e a pretensa ideologia de Jesus Cristo

Bento Domingues escreve no "Público" de hoje que "a vinda do Bispo de Roma, com responsabilidade colegial pelas situações das comunidades católicas de todo o mundo, deveria servir para um encontro dos católicos portugueses, nas suas diversas tendências, com as questões que agitam a cristandade e a forma como são vividas em Portugal. Se o Papa deve ter muito que dizer, também deve ter muito que ouvir. De outra forma, não haverá encontro". Um assunto para seguir esta semana.

Anselmo Borges, no DN de ontem, dizia que "no fim, o que estará em julgamento é a justiça e o amor: "Destes-me de comer, de beber, de vestir, fostes visitar-me à cadeia e ao hospital." "Sempre que o fizestes a um qualquer foi a mim que o fizestes". (…) A pergunta decisiva não é então se Jesus é de direita ou de esquerda, mas quantos católicos tentam ser cristãos". Ler tudo aqui.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Sobre a exploração da visita do Papa

A 'devoção' leva muitos media a explorar até ao tutano a vinda de Bento XVI a Portugal. Os títulos não enganam:
Claro que não existe festa sem comércio e os actos públicos e de multidões que caracterizam a visita tonam a exploração comercial praticamente inevitável. Mas não é seguro que se Cristo voltasse e visse esta feira, não pegasse, não digo num chicote para expulsar os vendilhões (Jo 2,13-17), mas não dissesse que o seu Reino não é deste mundo e actuasse em conformidade. No diário 'Página 1' de ontem publiquei, com alusões a este assunto o texto que segue:
"É já visível que a generalidade dos grandes meios de difusão colectiva se preparam para apostar forte na cobertura da viagem do papa a Portugal. Aqui não há direitos exclusivos de transmissão. Todos se podem juntar e até cooperar para fazer da visita um grande acontecimento, dos maiores, se não mesmo o maior deste ano, entre nós.
É claro que o interesse dos media não se deve a uma súbita descoberta da importância da dimensão religiosa e cristã na vida de tantas pessoas. Deve-se em primeiro lugar à percepção de que uma visita papal, com tudo o que a envolve de simbolismo, espectáculo e exotismo, é susceptível de fabricar audiência. O papa (e a visita papal) é uma “marca” que vende e, numa sociedade em que tudo se mercadeja, não se pode desperdiçar a ocasião. É ver como não são apenas as redacções que se mobilizam: bem antes delas, os departamentos de marketing dos media já começaram a trabalhar afanosamente e até os jornais das escandaleiras se entregam devotamente a apregoar um qualquer produto que explore a visita do papa.
Certo é que a dimensão e impacto desta deslocação de Bento XVI a Portugal é indissociável da cobertura mediática, que dá a muitos milhares de pessoas a oportunidade de acompanhar a distância o que se vai passar em Lisboa, em Fátima e no Porto. Importa, porém, considerar que este acontecimento se dá num quadro bastante particular, quer do ponto de vista da sociedade, quer dos media (para já não falar da própria Igreja).
De facto, encontramo-nos mergulhados numa espécie de Inverno sócio-económico e político, marcado por uma crise profunda de valores e por desigualdades cada vez mais gritantes. Em que medida a descrença crescente nas instituições da democracia e a dificuldade de encontrar um sentido para a vida serão marcados por (e marcarão) esta viagem do papa?
No plano mediático, é certo que, apesar da crise, os grandes meios, e em especial a TV, mantêm uma centralidade saliente no quotidiano. Mas os novos media e particularmente as redes sociais disputam um lugar próprio no comentário, no escrutínio, na mobilização e na participação. Esta é uma realidade nova, que não existia, em 2000, aquando da última visita de João Paulo II. Que papel terão estas redes e modalidades de comunicação antes, durante e depois da estadia de Bento XVI em Portugal? Eis o que vale a pena analisar".

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Critérios para avaliar uma religião

"Penso, com efeito, que uma religião se avalia pela sua capacidade
de melhorar a sorte do homem, de melhorar a sociedade e
de conduzir ao bem".

André Gounelle
in René Girard (2009)O Bode Expiatório e Deus. Covilhã:UBI

domingo, 2 de maio de 2010

Anselmo Borges: Católicos em autogestão?

Pessoas da política e dos media pediram-me para escrever um texto sobre o que é ser católico. Porque por vezes "discutem entre si, acusando-se mutuamente: quem é o católico?"

Apesar da dificuldade, fica aí uma tentativa simples, quase ingénua.

Afinal, o católico é antes de mais o cristão baptizado na Igreja Católica. O acento tem de estar no "cristão". Ora, quem é o cristão?

Ler mais aqui.

Bento Domingues: Jesus Cristo num hospital

sábado, 1 de maio de 2010

Mário Rui de Oliveira - A caruma e os pinhões de Roma


No Público de hoje, está um texto com o retrato de quatro padres portugueses que trabalham no Vaticano ou em instituições católicas em Roma. Este é o retrato de Mário Rui Oliveira.

A praça junto do Panteão está apinhada nesta sexta-feira de sol, em Roma. O padre Mário Rui de Oliveira, de 37 anos, que trabalha no supremo tribunal da Igreja Católica, consegue, mesmo assim, ver pormenores escondidos: as cores das casas em volta, uma "edicola", o nicho com uma pintura de Nossa Senhora numa das paredes...

O café tomara-se antes, no Sant"Eustachio, onde se bebe um dos melhores cafés em Roma. Instantes depois, diante da sóbria grandeza do Panteão, símbolo da história da cidade, confessa que "há um Mário antes de Roma e um Mário depois de Roma". Não por acaso: a capital italiana está presente nos dois livros de poesia que publicou: Bairro Judaico e Vento da Noite (ed. Assírio & Alvim).

"Saio de casa para olhar o mundo", escreveu num poema. "Essa descoberta, esse desejo de olhar o mundo, é fruto de Roma. É reencontrarmo-nos com o que se deixa nestas ruas", diz, por entre grupos que tiram fotos, comem ou riem. Ou que apenas conjugam o verbo estar, neste princípio de tarde como só Roma oferece.

O padre Mário Rui vive entre a ordem do Direito Canónico e a desordem da cidade: "Mesmo no meio do caos e da agressão, Roma torna-nos atentos à santidade e à beleza." Por isso é possível ver toda a cidade fazendo percursos através das pequenas fontes ou da pintura de Caravaggio, sugere. "A caruma e os pinhões são um dom de Roma", escreveu, num outro poema.

"Estar na Piazza Navona, com o sol a bater nos edifícios de Borromini dá-nos a sensação de estar só com o que se ama, como se fosse só meu."

Sente vontade de voltar a publicar - talvez ainda este ano. "Com o volume de trabalho, a poesia é também salvação." Mas que trabalho é este? Mário Rui de Oliveira está desde 2007 na Assinatura Apostólica, o supremo tribunal da Igreja onde, por exemplo, aprecia pedidos de nulidade matrimonial.

Um modo de ajudar, diz o canonista. "Para alguém com fé, poder celebrá-la de novo e evitar o sofrimento pode ser importante." Recorda um casal que pediu a nulidade do casamento e teve resposta afirmativa, depois negativa em segunda instância. Teria que ser resolvido em Roma, com longa demora. O casal pediu para o caso ser apreciado em terceira instância em Portugal, para poupar tempo. A resposta foi positiva. "Está em execução e as pessoas estão livres."

Recuperar essas vidas "daria um grande romance". Como ir ao encontro das pessoas e perguntar "que vidas têm agora". Sobra tempo para sonhar esses sonhos ou para "passear, partilhar uma boa "pasta" e um bom vinho, participar na oração da Comunidade de Santo Egídio, rezar as vésperas na Capela Sistina com 50 ou 60 pessoas ou acompanhar um grupo de idosos e doentes que se correspondem com condenados à morte no Texas".

"Talvez as vidas sejam tocadas, mesmo que levemente, pelo sorriso de Deus", escreve em outro poema. "No meio do sofrimento, descobrir que Deus continua a sorrir e entra na vida das pessoas é criar uma alma", diz agora, diante do Panteão.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Conferências de Maio: "Renovar a Igreja, Animar a Sociedade"

As Conferências de Maio deste ano, organizadas pelo Centro de Reflexão Cristã, têm por tema "Renovar a Igreja, Animar a Sociedade". Sâo constituídas por quatro mesas redondas, cada qual sobre um sub-tema, sempre à terça-feira, com excepção da última, que será à segunda e têm lugar no Centro de Estudos da Ordem do Carmo (Rua de Santa Isabel, 128-130, Lisboa, Metro: Rato).

1 – A Ousadia da Esperança
Dia 4 de Maio, 3ª feira, 18h30m
  • Eugénio Fonseca
  • João Wengorovius Menezes
  • Lourenço de Almeida
2 – Conversão Contemporânea e Criação Cultural
Dia 18 de Maio, 3ª feira, 18h30m
  • Fr. Bento Domingues
  • Emília Nadal
  • Jacinto Lucas Pires
3 – A Coragem de Agir
Dia 25 de Maio, 3ª feira, 18h30m
  • Francisco Sarsfield Cabral
  • José Leitão
  • P. Peter Stilwell
4 – A Demanda no Mundo da Incerteza
Dia 31 de Maio, 2ª feira, 18h30m
  • Eduardo Lourenço
  • P. José Tolentino de Mendonça
  • Maria de Sousa

domingo, 25 de abril de 2010

Bento, Anselmo e Küng

Texto de Bento Domingues sobre a Comissão de Socorro aos Presos Políticos, "Público" de hoje.

No DN de ontem, Anselmo Borges escrevia sobre a diferença/continuidade entre animal e homem. "(...) a pergunta é inevitável: qual é a constituição do ser humano para poder fazer o que faz e ser como é, no contexto da evolução?" Ter tudo aqui.

Já no P2 de ontem, a Carta de Hans Küng aos bispos do mundo inteiro a sugerir que peçam ao Papa um concílio. Aqui.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Islão e o Cristianismo na África Sub-Sahariana


O retrato que se colhe, de um ponto de vista histórico, é o de uma transformação completa do panorama do peso relativo das religiões, na África sub-sahariana, segundo um trabalho há dias publicado nos Estados Unidos da América pelo Pew Research Center, sob o título Islam and Christianity in Sub-Saharan Africa.
Vale a pena ler o texto: AQUI.

sábado, 17 de abril de 2010

"Nós e os outros" - texto de Anselmo Borges no DN

(...) No processo de nos fazermos, o outro aparece inevitavelmente. O outro não é adjacente, mas constitutivo. Só sou eu, porque há tu, em reciprocidade. O outro pertence-me, pois é pela sua mediação que venho a mim e me identifico: a minha identidade passa pelo outro, num encontro mutuamente constituinte. Ler tudo aqui.

sábado, 10 de abril de 2010

Anselmo Borges: A lei do celibato obrigatório

Anselmo Borges escreve no DN sobre a lei do celibato obrigatório.

"Dizia-me há dias um colega historiador que a lei do celibato obrigatório para os padres fez mais mal à Igreja e aos homens e mulheres do que bem. E eu estou com ele. Ler tudo aqui.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Aprender na Europa com os Estados Unidos

Sob o título "Taking Responsibility - What can Europe learn from the U.S. sexual abuse crisis?", a mais recente edição do semanário "America - the National Catholic Weekly" traz um texto do teólogo jesuíta Thomas J. Reese, do Woodstock Theological Center, Georgetown University, cuja consideração na Europa pode ser útil, no actual quadro de crise, relacionado com os abusos sexuais de crianças por parte de alguns membros do clero. Traduzimos apenas uma parte, recomendando a leitura do artigo na sua integralidade:

" (...) Desde o início que os bispos americanos subestimaram a dimensão e gravidade do problema. Antes de 1993, apenas um terço das vítimas se apresentaram para relatar o abuso às respectivas dioceses, de modo que nem mesmo a Igreja sabia o quão grave a crise se desenhava. A maioria das vítimas não quer que outros saibam que eles foram vítimas de abusos, especialmente os seus pais, cônjuges, filhos e amigos. A cobertura mediática dos abusos do clero incentivou e capacitou as vítimas a manifestrar-se e a descobrirem que não estávamos sozinhas.

Hoje, os europeus estão chocados com as centenas de casos que vêm sendo relatados. Devem preparar-se para milhares. Nos Estados Unidos, mais de 5.000 sacerdotes, ou 4 por cento do clero, foram responsáveis por 13.000 denúncias ao longo de um período de 50 anos. Não há nenhuma razão para pensar que a Europa seja diferente. Espere-se o melhor, mas façam-se as contas e esteja-se preparado.
O maior erro de cálculo dos bispos americanos foi feito a pensar que a crise iria passar em poucos meses.

Aninhar-se e esperar que a tempestade passe é uma estratégia errada. A não ser que se queira ir para uma crise muito prolongada, como nos Estados Unidos, os bispos europeus têm de ser transparentes e encorajar as vítimas a apresentar queixa agora. É melhor pôr cá fora todas as más notícias o mais rapidamente possível do que dar a aparência de uma tentativa de encobrimento.

Uma escola dos jesuítas, em Berlim, fez a coisa certa. Teve conhecimento de sete casos de abuso. Tornou-os públicos, contratou uma advogada para passar a pente fino os seus arquivos e lidar com as vítimas, e depois escreveu aos antigos alunos pedindo às vítimas que se manifestassem. Quando, pelo menos, 120 vítimas se manifestaram dizendo que tinham sido abusados naquela escola jesuíta da Alemanha, os insensatos acharam uma loucura a escola ter-se antecipado com aquelas medidas. Mas não se tratou apenas da atitude mais cristã a ter; foi igualmente uma inteligente acção de relações públicas. Agora ninguém acusa a actual administração da escola de esconder o assunto. Além disso, em lugar de três a cinco anos de má publicidade com uma vítima atrás da outra a aparecer, eles vão ter alguns meses de publicidade negativa até que os media se virem para outro assunto.

Os bispos americanos também cometeram o erro de culpar os media. Em contrapartida, acusaram a cultura permissiva e procuraram reduzir o alcance dos abusos clericais, apontando que há 90.000 a 150.000 casos de abusos sexuais por ano, nos Estados Unidos. Embora isso seja verdade, é contraproducente para os bispos apostar nestes argumentos, que são entendidos como desculpas. Pelo contrário, os bispos devem condenar o abuso, pedir desculpas e pôr em prática políticas para se certificarem de que as crianças estão seguras. Pedir uma vez desculpas não basta. Como um marido que foi infiel à sua esposa, eles devem pedir desculpas, desculpas, desculpas.

Finalmente, os bispos americanos desculparam-se, dizendo que cometeram erros, mas não foram culpados, dada a sua ignorância. Isso não pega. Os católicos norte-americanos queriam que alguns bispos se levantassem e dissessem: "Eu cometi um erro, mudei o padre para outra paróquia, achei que ele não iria abusar novamente, fui mal aconselhado, mas assumo plena responsabilidade. Lamento e demito-me. "

Se 30 bispos dos Estados Unidos tivessem feito isso, a crise não teria ido tão longe como foi. As pessoas teriam dito: "Bom, é isso que os líderes devem fazer. Eles entenderam. Com um novo bispo, podemos arrepiar caminho e seguir em frente.(...) "

Para ler o texto na íntegra: AQUI
Ver ainda no mesmo número da revista:
- The Millstone
- Vatican Goes on Defense in Response to Media Reports.