terça-feira, 10 de abril de 2012

"A luz torna possível a vida; torna possível o encontro; torna possível a comunicação; torna possível o conhecimento, o acesso à realidade, à verdade"

Vale a pena ler a homilia de Bento XVI dedicada à luz, na Vigília Pascal (7 de abril):
Fiat Lux @Carolyn M. French, 2010

Queridos irmãos e irmãs!
A Páscoa é a festa da nova criação. Jesus ressuscitou e nunca mais morre. Arrombou a porta que dá para uma nova vida, que já não conhece doença nem morte. Assumiu o homem no próprio Deus. «A carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus»: dissera São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (15, 50). E todavia Tertuliano, escritor eclesiástico do século III, a propósito da ressurreição de Cristo e da nossa ressurreição, não temera escrever: «Tende confiança, carne e sangue! Graças a Cristo, adquiristes um lugar no Céu e no Reino de Deus» (CCL II, 994). Abriu-se uma nova dimensão para o homem. A criação tornou-se maior e mais vasta. A Páscoa é o dia duma nova criação, mas por isso mesmo, neste dia, a Igreja começa a liturgia apresentando-nos a criação antiga, para aprendermos a compreender bem a nova. E assim, na Vigília Pascal, a Liturgia da Palavra começa pela narração da criação do mundo. A propósito desta e no contexto da liturgia deste dia, são particularmente importantes duas coisas. Em primeiro lugar, a criação é apresentada como uma totalidade da qual faz parte o fenômeno do tempo. Os sete dias são imagem duma totalidade que se desenvolve no tempo, aparecendo os dias ordenados até ao sétimo, o dia da liberdade de todas as criaturas para Deus e de umas para as outras. Por conseguinte, a criação está orientada para a comunhão entre Deus e a criatura; a criação existe para que haja um espaço de resposta à glória imensa de Deus, um encontro de amor e liberdade. Em segundo lugar, na Vigília Pascal, a Igreja fixa a atenção sobretudo na primeira frase da narração da criação: «Deus disse: “Faça-se a luz”!» (Gn 1, 3). Emblematicamente, a narração da criação começa pela criação da luz. O sol e a lua são criados somente no quarto dia. A narração da criação designa-os como fontes de luz, que Deus colocou no firmamento do céu. Deste modo, priva-os propositalmente do caráter divino que as grandes religiões lhes tinham atribuído. Não! Não são deuses de modo algum; são corpos luminosos, criados pelo único Deus. Entretanto já os precedera a luz, pela qual a glória de Deus se reflete na natureza do ser que é criado.
Que pretende a narração da criação dizer com isto? A luz torna possível a vida; torna possível o encontro; torna possível a comunicação; torna possível o conhecimento, o acesso à realidade, à verdade. E, tornando possível o conhecimento, possibilita a liberdade e o progresso. O mal esconde-se. Por conseguinte, a luz aparece também como expressão do bem, que é luminosidade e cria luminosidade. É de dia que podemos trabalhar. O fato de Deus ter criado a luz significa que Ele criou o mundo como espaço de conhecimento e de verdade, espaço de encontro e de liberdade, espaço do bem e do amor. A matéria-prima do mundo é boa; o próprio ser é bom. E o mal não vem do ser que é criado por Deus, mas existe só em virtude da sua negação. É o «não».
Na Páscoa, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Deus disse novamente: «Faça-se a luz!». Antes tinham vindo a noite do Monte das Oliveiras, o eclipse solar da paixão e morte de Jesus, a noite do sepulcro. Mas, agora, é de novo o primeiro dia; a criação recomeça inteiramente nova. «Faça-se a luz!»: disse Deus. «E a luz foi feita». Jesus ressuscita do sepulcro. A vida é mais forte que a morte. O bem é mais forte que o mal. O amor é mais forte que o ódio. A verdade é mais forte que a mentira. A escuridão dos dias anteriores dissipou-se no momento em que Jesus ressuscita do sepulcro e Se torna, Ele mesmo, pura luz de Deus. Isto, porém, não se refere somente a Ele, nem se refere apenas à escuridão daqueles dias. Com a ressurreição de Jesus, a própria luz é novamente criada. Ele atrai-nos a todos, levando-nos atrás de Si para a nova vida da ressurreição e vence toda a forma de escuridão. Ele é o novo dia de Deus, que vale para todos nós.
Mas isto, como pode acontecer? Como é possível chegar tudo isto até nós, de tal modo que não se reduza a meras palavras, mas se torne uma realidade que nos envolve? Por meio do sacramento do Batismo e da profissão da fé, o Senhor construiu uma ponte até nós, pela qual o novo dia nos alcança. No Batismo, o Senhor diz a quem o recebe: Fiat lux – faça-se a luz. O novo dia, o dia da vida indestrutível chega também a nós. Cristo toma-te pela mão. Daqui para a frente, serás sustentado por Ele e assim entrarás na luz, na vida verdadeira. Por isso, a Igreja antiga designou o Batismo como «photismos – iluminação».
Porquê? A escuridão que verdadeiramente ameaça o homem é o fato de que ele é, na verdade, capaz de ver e investigar as coisas palpáveis, materiais, mas não vê para onde vai o mundo e donde o mesmo venha; para onde vai a sua própria vida; o que é o bem e o que é o mal. Esta escuridão acerca de Deus e a escuridão acerca dos valores são a verdadeira ameaça para a nossa existência e para o mundo em geral. Se Deus e os valores, a diferença entre o bem e o mal permanecem na escuridão, então todas as outras iluminações, que nos dão um poder verdadeiramente incrível, deixam de constituir somente progressos, mas passam a ser simultaneamente ameaças que nos põem em perigo a nós e ao mundo. Hoje podemos iluminar as nossas cidades de modo tão deslumbrante que as estrelas do céu deixam de ser visíveis. Porventura não temos aqui uma imagem da problemática que toca o nosso ser iluminado? Nas coisas materiais, sabemos e podemos incrivelmente tanto, mas naquilo que está para além disto, como Deus e o bem, já não o conseguimos individuar. Para isto serve a fé, que nos mostra a luz de Deus, a verdadeira iluminação: aquela é uma irrupção da luz de Deus no nosso mundo, uma abertura dos nossos olhos à verdadeira luz.
Por fim, queridos amigos, queria ainda acrescentar um pensamento sobre a luz e a iluminação. Na Vigília Pascal, a noite da nova criação, a Igreja apresenta o mistério da luz com um símbolo muito particular e humilde: o círio pascal. Trata-se de uma luz que vive em virtude do sacrifício: a vela ilumina, consumindo-se a si mesma; dá luz, dando-se a si mesma. Este é um modo maravilhoso de representar o mistério pascal de Cristo, que Se dá a Si mesmo e assim dá a grande luz. Uma segunda idéia, que a reflexão sobre luz da vela nos sugere, deriva do fato de a mesma ser fogo. Ora, o fogo é força que plasma o mundo, poder que transforma; e o fogo dá calor. E aqui se torna novamente visível o mistério de Cristo: Ele, a luz, é fogo; é chama que queima o mal, transformando assim o mundo e a nós mesmos. «Quem está perto de Mim, está perto do fogo»: assim reza um dito de Jesus, que nos foi transmitido por Orígenes. E este fogo é ao mesmo tempo calor: não uma luz fria, mas uma luz na qual vêm ao nosso encontro o calor e a bondade de Deus.
O Precónio, o grande hino que o diácono canta ao início da Liturgia Pascal, de modo muito discreto chama a nossa atenção ainda para outro aspecto. Lembra-nos que o material do círio se fica a dever, em primeiro lugar, ao trabalho das abelhas; e, assim, entra em cena a criação inteira. No círio, a criação torna-se portadora de luz. Mas, segundo o pensamento dos Padres, temos aí também uma alusão implícita à Igreja. Nesta, a cooperação da comunidade viva dos fiéis é parecida com o trabalho das abelhas; constrói a comunidade da luz. Assim podemos ver, no círio, também um apelo dirigido a nós mesmos e à nossa comunhão com a comunidade da Igreja, que existe para que a luz de Cristo possa iluminar o mundo.
Neste momento, peçamos ao Senhor que nos faça sentir a alegria da sua luz, de modo que nós mesmos nos tornemos portadores da sua luz, para que, através da Igreja, o esplendor do rosto de Cristo entre no mundo (cf. LG 1).

(Crédito da tradução: Zenith)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Páscoa, correrias e mulheres

Última Ceia, de Bohdan Piasecki, 1988
De madrugada, ao raiar do Sol, foram mulheres as que se aventuraram a ir ao sepulcro de Jesus para perfumar o corpo morto. Ninguém sabe o que aconteceu nessa manhã inaugural. Sabe-se apenas que foi um acontecimento de tal modo forte e intenso que mudou a vida de um punhado de mulheres e homens. E que, por causa disso, eles e elas mudaram a seguir a face da vida do mundo.

Foram mulheres as que se aventuraram inicialmente a correr, para anunciar a ressurreição de Jesus. Esse é o mote da crónica À Procura da Palavra, do padre Vítor Gonçalves, publicada neste Domingo de Páscoa no jornal Voz da Verdade: “Na noite silenciosa e calma Maria caminha devagar. Quantas lágrimas vai semeando pelo caminho? Vai ao sepulcro fazer o quê? Ungir o corpo de Jesus porque a urgência da sepultura não permitiu fazer os ritos devidos a um defunto? Quer e não quer aproximar-se. Não quer mesmo pensar que tudo foi verdade, que viu morrer Jesus. Mas eis que tudo muda. No alvor do amanhecer vê o sepulcro vazio. E instala-se a correria pascal.”

(Para continuar a ler, clicar aqui).

O papel d’As Mulheres da Páscoa é também o tema da crónica de frei Bento Domingues no Público deste domingo. “Seria necessário estudar o lugar da mulher na cultura religiosa do tempo de Jesus, para perceber o alcance da revolução que ele desencadeou”. Diz assim o texto integral da crónica:

1. As mulheres entraram muito cedo e de vários modos na vida de Jesus de Nazaré. Hoje, é quase impossível imaginar a importância desse fenómeno. Seria necessário estudar o lugar da mulher na cultura religiosa do tempo de Jesus, para perceber o alcance da revolução que ele desencadeou. Vivemos numa época na qual a mulher tem um papel cada vez mais activo na vida e na liderança das sociedades, mas a sua situação na Igreja é um anacronismo que, esperamos, os anos se encarregarão de vencer.

A exegese feminista conquistou, no âmbito das abordagens contextuais, um lugar, ainda não ao sol, mas à sombra, no documento da Comissão Pontifícia Bíblica, de 1993 (A interpretação da Bíblia na Igreja).

O que espanta é a lentidão em reconhecer o que parece claro no Novo Testamento e que, ainda hoje, muitos não querem ver o que estão a ver, devido à resistência de uma cultura secular anti-feminista que os torna cegos, mas vamos por partes.

2. No Evangelho de S. Lucas, depois da cena escandalosa da mulher que surpreendeu, tocou e beijou Jesus, na casa de um fariseu, onde ele estava a jantar – e para onde ela não tinha sido convidada - (Lc. 7, 36-50), são as mulheres que surgem em grupo, de uma forma estranha e ambígua. Vale a pena transcrever o texto: “depois disso, ele andava por cidades e aldeias, pregando e anunciando a boa nova do reino de Deus. Os Doze acompanhavam-no, assim como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demónios, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Suzana e várias outras, que os serviam com os seus bens.” Iremos encontra-las depois da Ressurreição dedicadas a converter, muito a custo, os Apóstolos que lhes não davam crédito (Lc. 24, 9-11). São elas as mulheres da Páscoa cristã.

O grande historiador judeu, Flávio Josefo (37 ou 38 – c. 100 d.C), nas Antiguidades Judaicas, afirma, por duas vezes, que ”o testemunho das mulheres não deve ser aceite por causa da fragilidade e presunção do seu sexo”. Noutra passagem, com outras palavras, repete a mesma ideia: “das mulheres não se pode aceitar nada como certo, por causa da ligeireza e temeridade do seu sexo”.

Um outro judeu, Jesus de Nazaré, parece que estava apostado em atirar pelos ares, costumes e ideias, que perpetuavam a marginalização do testemunho das mulheres. A opção deste Nazareno era de um atrevimento escandaloso, ao fazer delas testemunhas da sua Vida, da sua Paixão, da Ressurreição e do Pentecostes.

É certo que começam a aparecer, no Evangelho de S. Lucas, em grupo, mas de uma forma sorrateira e como que, apenas, financiadoras do novo projecto. Dá a ideia que foram conquistando terreno até ao momento extremo de tornarem o futuro do movimento cristão dependente delas. Não me parece nada que tenha sido assim, embora não tenha espaço para o demonstrar.

As narrativas do Novo Testamento, aquilo a que chamamos os Evangelhos, são fruto de várias tradições, de várias comunidades, de tempos e culturas diferentes. O que espanta é que sendo textos escritos por homens, também eles marcados pela mentalidade reflectida por Flávio Josefo – basta ver o que pensavam os apóstolos quando elas os procuravam evangelizar (Lc. 24, 9-11) – como é que os seus escritos testemunham uma presença impressionante de mulheres em torno de Jesus e nas Igrejas nascentes. Aqueles que desejam abafar o papel que as mulheres devem desempenhar actualmente na Igreja, imaginam Jesus, de Mitra e Báculo, a ordenar, numa Missa solene, os doze apóstolos, mostrando assim que Jesus, de Mitra e Báculo, não ordenou nenhuma mulher. E homens?

É uma imaginação a funcionar ao contrário. O que podemos e devemos imaginar é o que deve ter sido a presença activa das mulheres, em todo o percurso de Jesus, para ter resistido ao aperto cultural e religiosos do seu tempo.

3. Pertence aos exegetas continuar a analisar, com todos os métodos de que dispõem, as narrativas sobre o túmulo vazio e as aparições do Ressuscitado. Essas narrativas coincidem em algo essencial: A morte não teve sorte com Jesus: Ele está vivo e para sempre; é o mesmo, embora já não da mesma maneira. Aos discípulos pede que sejam testemunhas dessa esperança, essa memória de futuro.

Não se trata de nada que se possa provar por qualquer das ciências que existem. É de outra ordem. A fé, como diz o filósofo Wittengstein, é fé naquilo de que necessita o meu coração, a minha alma e não a minha inteligência especulativa. Pois é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer, com a sua carne e sangue, que tem de ser salva e não a minha razão abstrata. Só o amor pode acreditar na Ressurreição.

O espantoso capítulo 20 do Evangelho de S. João conta que uma mulher, Madalena, liberta e apaixonada, não largou Jesus nem na vida, nem no vazio da morte, nem no túmulo. Continuou a procurá-lo. Não o encontrou, mas foi encontrada por aquele que sabia o seu nome. A sua recompensa foram novos trabalhos, uma encomenda directa do Ressuscitado: “vai, a meus irmãos e diz-lhes: Subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus”. Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: vi o Senhor e as coisas que ele lhe disse.

Porque impedir as mulheres da Páscoa de realizarem a sua missão apostólica na vida da Igreja ao serviço da transformação do mundo?

Para aprofundar o papel de algumas mulheres que foram decisivas na vida de Jesus, publiquei também hoje, na revista Público/2 um trabalho com o título “Elas estavam lá desde o início”. O texto pode ser lido aqui.

domingo, 8 de abril de 2012

"Quem nos estraga a vida? Quem é que no-la pode libertar?"

Eduardo Jorge Madureira, na sua coluna do Diário do Minho deste Dia de Páscoa:


"Nestes dias em que tanto se pede jejum de palavras, mas ninguém se cala, pode muito bem ser, afinal, por via da leitura de algum livro que surja a oferta de uma ou outra ocasião de recolhimento. Uma das obras que, para o efeito, se podem revelar de grande utilidade é Livres para acreditar. Dez passos para a fé, da autoria de Michael Paul Gallagher, um padre jesuíta irlandês, que foi professor de literatura na Universidade de Dublin, razão por que, aliás, não se estranhará que, no livro, escritores, como Nathaniel Hawthorne, T. S. Elliot, Saul Bellow ou Flannery O’Connor, e doutores da Igreja, como Santo Agostinho ou S. Tomás de Aquino, convivam tranquilamente.


Num dos passos mais fecundos do livro, escreve Gallagher que “a fé cristã não é apenas umaquestão de verdade, mas um modo de vida, e um modo de vida que resiste às directivas de uma sociedade de massas. A maior vitória da ideologia do consumismo é reduzir a religião a mais um item na prateleira do supermercado, pondo o cristianismo a competir com o fornecimento e a procura de bens, comodidades ou seguranças”. Considera ele que, “deste modo, uma pequena dose de religião pode tornar-se uma espécie de música de fundo agradável para uma vida fundamentalmente desorientada ou imatura. Este uso tranquilizante da religião para a segurança humana é a armadilha mais típica do mundo desenvolvido. O cristianismo converte-se numa agradável alienação da realidade, pessoalmente consoladora, mas sem nada de desafiante em termos sociais, atraente para um entusiasmo rápido e até para uma certa generosidade, mas evitando a profundidade de um seguimento como uma escolha no mundo de hoje”.

Enquanto professor universitário, Michael Paul Gallagher reconhece que a universidade pode representar um logro, ao ser uma dessas “instituições de elites que criam as suas próprias formas de opressão, permanecendo cegas, pelo menos na prática (a teoria é uma coisa diferente!), para os perigos do seu próprio sistema”. Enquanto padre, lamenta que as “tentações institucionais” possam “levar a melhor”. É que, acrescenta, “a autoridade pode ser mal utilizada, as pessoas podem não ser ouvidas e o ritualismo pode querer fazer-se passar por alimento espiritual”. Gallagher diz que “a lista podia continuar, e isso seria um reescrever das páginas dos evangelhos em que Cristo confronta a religião oficial: Os fariseus não morreram naquela geração. O seu espírito revela-se sempre que não actuamos como discípulos, mas sim como funcionários das coisas de Deus”.

A ideologia consumista, que fornece o pano de fundo e embebe a cultura dominante, é fustigada pelo autor de Livres para acreditar: “Os valores da cultura professados e vividos – sucesso, poder, prestígio, orgulho nacional, pessoal e de classe, riquezas e autoglorificação – chocam tão ampla e profundamente com os valores de Jesus que um seguidor de Cristo não pode senão sentir a cultura como um ataque à fé religiosa”.

Citando o filósofo John Francis Kavanaugh, Michael Paul Gallagher afirma que, ao contrário do que tantos postulam, é possível – e, obviamente, necessário – resistir à cultura dominante, que, assim, será menos dominante e menos desumanizadora, se se discernirem os seus perigos e se se criar algum tipo de consciência partilhada. Os mecanismos da inevitabilidade tão propagados pela ideologia dominante funcionam apenas quando as pessoas estão divididas e fragmentadas e não são capazes de alcançar algum tipo de consciência comum, considera Gallagher, socorrendo-se agora do filósofo Charles Taylor.

“A cultura que nos rodeia tenta fazer com que a religião desconsidere a dimensão de conflito dos evangelhos e que opte por um ‘programa de Jesus reduzido’”, para usar uma expressão de um outro autor, Michael Warren, que Gallagher convoca para explicar que, “nesta situação, qualquer resistência genuína terá de estar ‘fundamentada em determinados modos de vida que concretizem uma alternativa de vida’”.

Depois de citar Warren, que acredita que, no contexto religioso, um grupo não pensa primeiro para em seguida agir, mas, pelo contrário, o seu modo de agir plasma o seu modo de pensar: quando se descobrem os compromissos adequados, surge também a estrutura de vida adequada, Michael Paul Gallagher reclama uma suspeita saudável em relação à cultura que nos rodeia, capaz de representar mais um passo na direcção da liberdade. É preciso “despertar e procurar discernir as influências à nossa volta!” E, retomando uma questão de Warren, pergunta Gallagher: “Quem é que está a imaginar a tua vida por ti?” Esta pergunta, se se quiser, pode desdobrar-se em duas: Quem é nos estraga a vida? Quem é que no-la pode libertar?".

(Crédito da foto: The Jesuits in Ireland)

sábado, 7 de abril de 2012

"Teólogo condenado: da criação à ressurreição"

Da coluna de Anselmo Borges, no Diário de Notícias de hoje:

"Enquanto o Papa, em Cuba, fazia apelo à liberdade, a Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola publicava uma Notificação - na prática, para a opinião pública, a condenação de mais um teólogo, Andrés Torres Queiruga. Como se a liberdade fosse para os outros e não devesse vigorar também no interior da Igreja.
Para muitos - também para mim -, A. Torres Queiruga é um dos maiores teólogos católicos vivos. No meu entendimento, foi e é o teólogo que de modo mais profundo e conseguido enfrentou o cristianismo com a modernidade e a modernidade com o cristianismo. Desgraçadamente, alguns teólogos e bispos espanhóis não pensam assim.
O que aí fica é tão-só, na medida em que o permite uma crónica de jornal, o que considero nuclear no pensamento de A. Torres Queiruga.(...)".

Para continuar a ler o texto, clicar: AQUI.
Para ler a Notificação da Conferência Episcopal Espanhola: AQUI
Breve esclarecimento de Torres Queiruga: AQUI
Outras tomadas de posição sobre o assunto: AQUI.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sexta-Feira Santa em Cuba e em Roma

Hoje é feriado em Cuba, o que acontece excepcionalmente, como uma espécie de retribuição da visita do Papa Bento XVI ao país, há pouco mais de uma semana. Este facto traduz luzes e sombras na relação da Igreja Católica com o regime e com a sua forma de estar na sociedade. 

Desde logo, é positivo que os crentes tenham mais espaço, num país sujeito ainda a um regime monolítico e que continua dependente da voz de um chefe. Mesmo que essa possibilidade de expressão seja para já apenas restrita à dimensão institucional e pastoral (como através da realização de actos públicos de fé), o alargamento dessa possibilidade de expressão pública é sempre positivo. Quanto mais espaço houver para que determinados grupos se possam exprimir, mais depressa a liberdade chegará para todos. 
Há um reverso neste facto: ao limitar as suas reivindicações a uma dimensão institucional (feriados de Natal e Sexta-Feira Santa, procissões na rua, etc.), a Igreja Católica (ou as suas lideranças) está a esquecer a situação de um povo que continua a sofrer por causa das limitações da liberdade e da cegueira do embargo norte-americano - ambos denunciados pelo Papa nos seus discursos em Cuba. O perfil moderado do cardeal Jaime Ortega não é alheio a este processo, já que o arcebispo de Havana prefere privilegiar uma relação institucional de entendimento do que uma lógica de denúncia clara das violações dos direitos humanos. 
Este feriado ocorre depois de, na homilia da Missa Crismal, Quinta-Feira Santa em Roma, o Papa ter criticado "um grupo de padres [que, recentemente] num país europeu publicou um apelo à desobediência, dando exemplos concretos sobre a maneira de exprimir esta desobediência". A referência visava os cerca de 400 padres austríacos que, até ao momento, assinaram já a "Iniciativa dos Padres", que propõe reformas na Igreja no âmbito disciplinar e ministerial. Nomeadamente, estão em causa questões como a distribuição e a função do clero numa altura em que os padres são cada vez mais escassos, a ordenação de homens casados e de mulheres. 
Apesar da referência do Papa de que a renovação pós-Convílio Vaticano II (1962-65) "assumiu formas inesperadas de movimentos plenos de vida" (sem especificar quais), Bento XVI não quis admitir que isso passa também pelo facto de tantos cristãos, mulheres e homens, quererem assumir de forma adulta a sua fé, o que os leva a questionar dogmas e tradições que a exegese bíblica mais recente e profunda coloca cada vez mais em questão - sobre o papel das mulheres, por exemplo. 
A hierarquia católica não pode continuar a cair no erro de ignorar a cidadania dos seus crentes: pedir mais espaço para a Igreja implica também dar mais espaço e direito de cidadão aos baptizados no interior da estrutura católica.
Sexta-Feira Santa é ainda sexta-feira de Paixão, também para a vida de muitos crentes no interior da Igreja Católica. 

(foto: Bento XVI na Praça da Revolução, em Havana; copiada daqui)

sábado, 31 de março de 2012

As narrativas da Paixão de Jesus na voz de Luís Miguel Cintra


A 9 de Setembro de 2011, no "Público/P2", o actor e encenador Luís Miguel Cintra dizia, a propósito da sua (re)aproximação à fé: "Como é que é possível não se ter fé? Como se pode viver sem necessidade de acreditar em nada a não ser o que é comprovado cientificamente? É deixar escapar uma parte principal da vida. É por isso que me comovo."
Cintra já leu, nos últimos anos, os textos do Apocalipse e do Cântico dos Cânticos, da Carta a Filémon e do Eclesiastes. Leu também o sermão de frei António de Montesinos, que marcou a crítica dos religiosos dominicanos à colonização espanhola na América Central, ou o sermão de Quarta-Feira de Cinzas, do padre António Vieira.
Este sábado, véspera do início da Semana Santa, Luís Miguel Cintra e as Monjas Dominicanas do Lumiar (Lisboa) propõem uma experiência inédita: o actor dará voz às narrativas da Paixão de Jesus Cristo segundo os quatro evangelhos.
Será no Mosteiro das Dominicanas, a partir das 15h30. Cada uma das leituras será introduzida por uma reflexão do dominicano frei Mateus Peres.
Será, com certeza, uma comoção, ouvir estes textos com a secura, a dignidade e a poesia da voz de Luís Miguel Cintra. Como este trecho do evangelho de São João, no capítulo 17:
“Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste. Eu dei-lhes a glória que Tu me deste, de modo que sejam um, como Nós somos Um. Eu neles e Tu em mim, para que eles cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu me enviaste e que os amaste a eles como a mim.
Pai, quero que onde Eu estiver estejam também comigo aqueles que Tu me confiaste, para que contemplem a minha glória, a glória que me deste, por me teres amado antes da criação do mundo.
Pai justo, o mundo não te conheceu, mas Eu conheci-te e estes reconheceram que Tu me enviaste. Eu dei-lhes a conhecer quem Tu és e continuarei a dar-te a conhecer, a fim de que o amor que me tiveste esteja neles e Eu esteja neles também.”

(foto copiada daqui)

quinta-feira, 29 de março de 2012

A economia tem futuro?

A economia como gosto do outro. Elena Lasida, economista uruguaia, professora da Faculté de Sciences Sociales et Economiques do Institut Catholique de Paris (ICP), é a convidada da conferência desta sexta-feira, em Lisboa, com o título "Que Futuro para a Economia? - Contributos da antropologia judaico-cristã".
Num texto de Lasida, a vice-reitora do ICP para a investigação defende que a economia deve ser encarada na perspectiva da aliança e da promessa. "A aliança evoca antes de mais uma experiência humana. Trata-se de uma experiência relação que desde logo pode definir-se por aquilo que não é: a aliança é o contrário da dominação (...) implica uma reciprocidade, uma 'ida e volta', um dar e receber de cada um, que cria uma certa pertença comum. (...) A promessa situa-se ao nível da utopia mais que do projecto, da criação mais que do fabrico, do novo e desconhecido mais que do pré-concebido."
Elena Lasida, que dirige um mestrado em "Economia solidária e lógica do mercado", é autora de várias obras, entre as quais o mais recente Le Gout de l'Autre. La crise, une chance pour réinventer le lien (O gosto do outro. A crise, uma oportunidade para reinventar os laços), sobre cujo conteúdo se pode ver aqui um vídeo da editora Albin Michel. A conferência decorre na Fundação Cidade de Lisboa (Campo Grande, 380), a partir das 18h de sexta-feira e é promovida pela Fundação Betânia.



quinta-feira, 15 de março de 2012

Nova livraria em Braga dedicada ao cristianismo e cultura

Acaba de ser inaugurada em Braga a livraria Fundamentos, dedicada aos "livros novos e usados relacionados com o cristianismo e as religiões é o objetivo da Livraria Fundamentos, inaugurada este sábado em Braga". A informação é dada pelo site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.
A livraria - que tem um blog no Wordpress - está aberta diariamente de terça a sábado e nas tardes de segunda-feira e poderá abrir ad casum noutro horário, se os clientes marcarem previamente com o proprietário.
O espaço situado junto à central de autocarros da cidade foi «pensado para todos os que queiram fundamentar a sua fé cristã e o seu serviço na Igreja, assim como todos os que de algum modo queiram descobrir um pouco mais acerca do Cristianismo», refere uma nota enviada ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.
Nos primeiros dias de vida a livraria disponibiliza obras das editoras Apostolado da Oração, Assírio & Alvim, Difusora Bíblica, Editorial Franciscana, Gráfica de Coimbra, Leya, Paulinas, Paulus, Pedra Angular, Perpétuo Socorro, Tenacitas e Universidade Católica.
Aguarda-se a chegada próxima de publicações da Aletheia, Almedina, Cotovia, Edições 70, Esfera dos Livros, Europa-América, Gradiva, Principia e Temas & Debates, bem como de editoras estrangeiras, como a Khaf, SalTerrae, Sígueme, Trotta e Verbo Divino.

terça-feira, 13 de março de 2012

"Fia-te na Virgem e não corras!"

O Bispo de Beja tem razão em estar preocupado com a seca e faz bem em rezar para que chova e até em apelar aos católicos que façam o mesmo. Mas a agência Ecclesia, que noticia esta preocupação, acrescenta que o bispo está descontente porque "os agricultores têm mais esperança nos subsídios da União Europeia do que em Deus".

“Noutros tempos já se teriam levantado súplicas ao céu a implorar a graça da chuva”, escreveu D. António Vitalino Dantas na mais recente nota semanal, citada pela agência Ecclesia, acrescentando que “algumas pessoas ainda falam da ajuda de São Pedro, mas parece que com pouca convicção”. Aparentemente os crentes “não se fazem ouvir e a maioria da população não acredita na providência divina, mas somente na previdência de Bruxelas”, assinala D. António.
Salvo melhor opinião, o bispo de Beja está a misturar dois planos que conviria manter autónomos. Que os crentes acreditem na providência para fazer cair a chuva e que actuem em consequência é uma coisa. Que procurem, ao mesmo tempo, os apoios da União Europeia para minorar os efeitos da seca é outra coisa, ainda que eventualmente complementar. Se o prelado manifestasse contentamento por ver que os agricultores não ficaram parados perante a 'estiagem', ainda que lamentasse a falta de devoção a S. Pedro ainda se compreendia. Assim, até parece que ele preferia que eles ficassem a rezar e deixassem a Comissão Europeia sossegada.
Recentemente ouvi um bispo defender, na homilia dominical, citando Luther King, que mais valia gastar 15 ou 20 euros a comprar e ler a Bíblia, do que gastar muitas dezenas ou centenas nos consultórios de psicólogos e psiquiatras (as palavras não são textuais, mas a ideia é fiel). Dois ou três domingos depois, numa igreja da mesma cidade um jovem padre secretário do mesmo hierarca, certamente tocado por ideia tão profunda, voltou a apresentar o exemplo e a explicar o seu alcance.
Salvo o devido respeito, também me parece haver aqui um enviesamente e uma confusão de planos. Que se acredite que faça bem a leitura da Bíblia e que esse bem-estar possa funcionar como prevenção de maleitas do foro mental é uma coisa. Outra bem diferente é tomar isso como receita (médica) que se possa lançar assim, universalmente, 'do altar para baixo'. E pode ser uma falta grave de respeito pela diversidade de situações, muitas das quais aconselham e recomendam mesmo a consulta de profissionais. 
São dois exemplos - de vários outros que poderia acrescentar - de uma dificuldade de convivência com a esfera secular e de resquícios de tempos de hegemonia e domínio da esfera do religioso, que se pensava ultrapassado.
Há um ditado popular que, muito antes de se falar em "autonomia das realidades terrestres" (expressão curiosa, esta!), já para ela apontava, ao advertir: "Fia-te na Virgem e não corras!"

domingo, 11 de março de 2012

O que fazer na amarga situação da Igreja?

Sob o título "Maldito o homem que confia no homem", o monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, publicou um artigo na revista Jesus, de março de 2012, que Moisés Sbardelotto, do Instituto Humanitas Unisinos, traduziu para português. O pano de fundo são os múltiplos e sucessivos "casos" que desde a Cúria romana às mais diversas partes da Igreja Católica, mostram que a Igreja, sendo de fundação divina, é afinal bem humana. Eis o texto.

Como reagir ao que está acontecendo na Igreja, nestes últimos tempos de modo mais manifesto do que antes? Lamentar? Já foi feito. Denunciar? Sim, sempre buscando não ofender a caridade nem nomear o "pecador"! Talvez, trata-se também de fazer desses momentos uma ocasião para viver o Evangelho e para continuar amando a Igreja, mesmo que às vezes se devesse concluir que ela é irreformável por ser impermeável ao Evangelho...

Sabemos que a Igreja não é uma realidade atemporal gerada pelo testamento de um fundador: é uma realidade histórica, é história e faz história. Sabemos também que, no lugar estabelecido pelo direito, pode haver a iniquidade (cf. Eclo 3, 16) e que ainda no grupo dos 12 chamados por Jesus ao seu redor e envolvidos na sua vida, a pedra fundamental tem a tentação de reagir como Satanás, e os 12 são lentos para crer, mas prontos para renegar e até mesmo para trair Jesus! Das palavras de Jesus sabemos também que, no campo, no espaço eclesial, trigo e joio crescem juntos, que a cizânia não deve ser erradicada, mas é preciso esperar, ter paciência e voltar o olhar para aquele que será o fruto da colheita.

Então, por que sofrer? Por que lamentar aquele lamento que foi profético na boca e no coração dos profetas do Antigo Testamento, do próprio Jesus que chorou sobre Jerusalém, de homens da Igreja como Basílio, o grande, ou outros Padres do Oriente e do Ocidente? Nestes anos, observamos a deterioração que ocorria sob os nossos olhos: da calúnia e da crítica feroz atiçadas em um submundo traiçoeiro alimentado por blogs e jornalistas complacente às diversas facções, ao denegrimento de homens e mulheres que tinham o único defeito de serem leais, não aduladores, não buscadores de poder e de apoios nas diversas cúrias eclesiais.

Notamos também que, ao grito de alguns – incluindo o próprio cardeal Ratzinger a partir de pelo menos a Via Sacra celebrada na vigília da morte de João Paulo II – que denunciavam o mal-estar eclesial, o carreirismo, a avidez do dinheiro e do poder, seguia-se logo depois uma série de eventos que forneciam motivação a esses lamentos e a essas denúncias.

E contudo: o que fazer, o que dizer diante de uma Igreja que parece ter perdido, em muitos dos seus responsáveis que carregam o fardo do serviço a todos, a tensão em direção à unidade e à caridade? Se antigamente criávamos ateus com imagens distorcidas de Deus por nós fabricadas e pregadas, hoje eles não são mais significativos, e nos encontramos paralisados pelo espetáculo que oferecemos. Os homens e as mulheres não pertencentes à Igreja se sentem confirmados no seu estranhamento com relação aos que se dizem comprometidos com a nova evangelização, enquanto muitos cristãos vão embora silenciosamente, sem contestação, ou tentam viver a fé "apesar da Igreja", etsi ecclesia non daretur.

Bento XVI, na Mensagem para a Quaresma 2012, exorta a redescobrir a dimensão da correção fraterna como constitutiva da vida cristã. De correção, são necessitados o indivíduo assim como a comunidade cristã no seu conjunto, a ekklesía. E a correção ocorre com palavras e obras, assim como a evangelização, a liturgia, a história da salvação.

A degradação da vida eclesial é, acima de tudo, abandono da escuta da Palavra de Deus, tendo saído da postura salvífica da escuta, na qual se recolhe toda a existência da Igreja e da qual só pode proceder todo ato de palavra seu. Mas o primado da Palavra de Deus é tal não só quando está na base da pregação e da palavra magisterial da Igreja, mas também quando regula e corrige o falar intraeclesial, quando se torna ascese da palavra na Igreja para construir uma comunicação "evangélica" que fuja das duplicidades, das mentiras, das manipulações, das adulações.

A franqueza, a “parrésia”, a transparência e também a partilha da palavra, a dimensão comunitária e colegial da palavra são a resposta eclesial à Palavra de Deus que busca comunhão e a cria convertendo o falar humano a partir do exemplo de Jesus, de quem as pessoas diziam: "Ninguém jamais falou como esse homem" (Jo 7, 46).

De Jesus também se dizia: "Ele fez bem todas as coisas" (Mc 7, 37). A escuta da Palavra de Deus é acompanhada pelo agir bom, verdadeiramente magisterial, de muitos, muitíssimos cristãos anônimos e sem holofotes midiáticos, que são igreja santa de Deus mesmo que escondida como cepa em terra seca. Há os mártires, os cristãos perseguidos, há homens e mulheres que se levantam de manhã para trabalhar, que lutam para pôr filhos no mundo e para mantê-los, há pessoas que cotidianamente se consomem curvando-se sobre os seus irmãos sofredores com amor, há muitos cristãos que sofrem intimamente por sua própria inadequação de serem conformes ao Evangelho, mas todos esses não fazem notícia, ninguém os discerne e os observa, ninguém os ouve...

Além disso, isso já não aconteceu com aquele "judeu marginal" que foi Jesus de Nazaré? Quem se deu conta dele durante a sua vida? Quem se interessou pela sua história tecida só de amor e de serviço fiel aos irmãos? Só poucas dezenas de discípulos no meio de uma multidão que acorria a ele só para ganhar pão e assistir a algum milagre...

O que fazer, então, nessa amarga situação? Escutar novamente a Palavra de Deus, escutar o magistério silencioso dos cristãos cotidianos, e resistir de novo e de novo ao diabo, o divisor, combatendo o bom combate da fé todos os dias, confiando somente em Jesus, o Senhor, e lembrando as palavras do profeta Jeremias: "Maldito o homem que confia no homem" (Jer 17, 5). Resta-nos recomeçar a nossa vida cristã dizendo a nós mesmos: hoje é o primeiro dia de vida cristã que me resta para viver!
 (texto italiano: AQUI) 

sábado, 10 de março de 2012

O nosso pensar e a nossa busca


"Um crente continua sussurrando ao não crente que está em mim: 'Talvez seja verdade'. Um não crente, ao contrário, continua sussurrando ao crente que está em mim: 'Talvez não seja verdade'. E nessa tensão desenvolve-se o nosso pensar e a nossa busca, qualquer que seja o destino".
Apólogo rabínico citado por Martin Buber

Ciência, espiritualidade e justiça


A coluna de Anselmo Borges, no DN deste sábado começa assim:
"Quando se fala da Igreja e do mundo, há, à partida, um equívoco fundamental: a Igreja e as pessoas na Igreja querem dialogar com o mundo, como se também elas não fossem mundo. Ora, há um só mundo, no qual vivemos todos. Os cristãos também vivem neste único mundo, mas a partir da perspectiva do Deus revelado em Jesus Cristo. E dialogam com os outros, dando e recebendo luz, na procura comum da verdade e do sentido.
O equívoco alarga-se e aprofunda-se com o perigo de os "quadros" da Igreja - padres, bispos, papa - poderem viver dentro de um mundo muito artificial: de modo geral, nascem dentro de famílias católicas tradicionais, são formados em ambientes fechados, seguem uma carreira sem riscos, não vivem intensamente o que constitui o grosso das preocupações das pessoas: emprego, filhos, casa... (...)"

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quinta-feira, 1 de março de 2012

Políticos, artistas e religiosos online à volta da esperança

"Personalidades tão diversas como o eurodeputado Paulo Rangel, os cantores Tiago Bettencourt e Carminho, o porta-voz do Papa ou o escritor Jacinto Lucas Pires juntam-se numa iniciativa online para apresentar o seu olhar sobre a esperança. A página web www.essejota.net, da Companhia de Jesus, propõe celebrar deste modo o seu quarto aniversário.

“Ainda há esperança?”. O P. Alberto Brito, sj, Provincial dos jesuítas em Portugal, dá o mote à pergunta, a que procuram responder as reflexões de Isabel Jonet, Paulo Rangel e do jornalista António Marujo. A atriz Cleia Almeida, uma das protagonistas do premiado “Sangue do Meu Sangue”, apresenta um filme, o cantor Tiago Bettencourt comenta um vídeo, o fotógrafo Luís Ferreira Alves escolhe uma imagem, o cartoon é de Luís Afonso e a jornalista Paula Moura Pinheiro fala acerca de um quadro. O livro sugerido por Pedro Mexia, um poema de Manuel António Pina, vencedor do Prémio Camões 2011, a música escolhida pela fadista Carminho e a história contada pelo escritor Jacinto Lucas Pires abrem horizontes acerca de um olhar otimista sobre o futuro.
(...)
O www.essejota.net pretende ser um espaço onde se pode encontrar uma nova forma de falar do mundo, do mistério humano e da fé. A partir das suas secções, trabalhadas quinzenalmente por uma equipa de 110 voluntários, que vão desde a arte ao entretenimento, da reflexão sobre acontecimentos da atualidade a textos de aprofundamento da fé cristã, o essejota.net propõe aos seus leitores um olhar atento e esclarecido sobre a realidade, numa linguagem acessível e adaptada às interrogações das gerações mais novas".

(Informação de essejota.net)

Colóquios CRC: "A Bíblia e o diálogo entre religiões"

O Centro de Reflexão Cristã, sediado em Lisboa, está a realizar o seu já habital ciclo de colóquios de Primavera, este ano dedicado ao tema "Palavra de Deus - A Bíblia e o diálogo entre religiões". O primeiro teve já lugar na passada terça-feira, sobre "Novas hermenêuticas e diálogo entre Cristãos, Judeus e Muçulmanos", com o Pastor Dimas de Almeida e o Pe. Joaquim Carreira das Neves, O.F.M. Seguem-se os restantes três:

Colóquio II
20 de Março de 2012
O Apocalipse e os Milenarismos
Pe. Joaquim Carreira das Neves, O.F.M.
José Augusto Ramos
Pastor Timóteo Cavaco

Colóquio III
17 de Abril de 2012
Como ler as Bíblias (Judaica e Cristã) e o Alcorão
Rabino Eliezer di Martino
Faranaz Keshavjee
Pe. Joaquim Carreira das Neves, O.F.M.

Colóquio IV
19 de Junho de 2012
A Compaixão que nos une
Abdool Karim Vakil
Joshua Ruah
Pe. Peter Stilwell

Local: Centro Nacional de Cultura – Galeria Fernando Pessoa
Largo do Picadeiro, nº 10, 1º - Lisboa.[Metro: Baixa-Chiado].

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

FEC promove ciclo de conversas "Alternativas em debate"



O grupo “Alternativas - Cristianismo e Mudança”, uma iniciativa da FEC - Fundação Fé e Cooperação (ONGD), que reúne diferentes personalidades e organizações de identidade cristã, promove três conversas abertas, ao fim da tarde, durante o mês de Março.

Uma proposta para o tempo de Quaresma que quer pensar o desenvolvimento humano tendo a cidadania global como chave de leitura. Descobrir novos caminhos para a economia comum e para o bem-estar de cada pessoa e das comunidades. Parar e olhar para os sinais dos tempos e as inquietações da actualidade. Redescobrir o potencial de cada pessoa e o seu papel na sociedade.

Convidámos várias pessoas de diferentes áreas, que nos darão um olhar cruzado sobre a realidade e perspectivas reflectidas de acção.

6 de Março, 3ª feira, 18h
Sinais dos Tempos: a questão económica e as perspectivas éticas

Sofia Santos (ISCTE Business School) e Francisco Sarsfield Cabral (Economista e Director de informação da Rádio Renascença), Moderação de Luís Mah (Investigador do CESA- ISEG)

Como ponderar esta questão na realidade da banca portuguesa? Os bancos devem incluir uma análise de riscos ambientais e sociais com o objectivo de potenciar uma sociedade mais equilibrada e justa a médio-longo prazo? Os bancos devem ser vistos como agentes pró-activos do desenvolvimento sustentável através da inclusão de “valores morais e de cidadania” na sua gestão?

20 de Março, 3ª feira, 18h
Cristianismo e Mudança: inquietações comuns, diversidade de respostas

António Marujo (Jornalista) e Graham Mcgeoch (Pastor da Igreja da Escócia), Moderação de Laurinda Alves(Jornalista)

Esta conversa põe em diálogo dois crentes de diferentes confissões cristãs (Católico e Presbiteriano), que procuram responder com a sua vida aos desafios das realidades e tempos que vão atravessando. Quais as principais inquietações que sentem e que caminhos de resposta vão encontrando? Que papel tem Deus na política, na economia, na sociedade? Quais os principais desafios aos crentes e às Igrejas, em diálogo com a sociedade?

30 de Março, 6ª feira, 18h
Das nossas acções ao Desenvolvimento Global: entre as políticas e a participação

Jan Vandemoortele (Ex-Director do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), co-arquitecto dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio).

Que grandes desafios a integrar na agenda global do desenvolvimento? Qual o papel das Igrejas? Qual o papel da sociedade civil? Que reformas das Instituições Internacionais? Qual o papel dos países ditos em desenvolvimento e ditos desenvolvidos (como Portugal?).

Local: Livraria Ferin (www.ferin.pt) - Rua Nova do Almada, 70-74, Lisboa (Chiado). Entrada livre.
(Informação da FEC).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Há riscos de se vir a instalar uma "cultura de medo e submissão" nas empresas, denuncia Grupo da Comissão Justiça e Paz


O Grupo Economia e Sociedade (GES) da Comissão Nacional Justiça e Paz acaba de publicar o documento Reflexões em torno do “Acordo de concertação social 2012”

, no qual denuncia "os riscos de que venha a instalar-se uma cultura de medo e submissão entre os cidadãos", pelo "poder discricionário" que aquele acordo instaura a favor do patronato.
O "uso e abuso" desse poder poderá ter graves consequências em matéria de "despedimentos, de diminuição de férias e fixação de horário de trabalho", observa o GES, lembrando que "situações de trabalho, que pressionam os cidadãos trabalhadores para aceitarem condições injustas, apresentadas como “inevitáveis”, não favorecem a democracia nem na empresa nem no contexto mais amplo da sociedade".
O documento faz notar que a concretização do Acordo de concertação social 2012 e seu impacto na economia e na sociedade "vai depender quer da legislação que vier (ou não!) a ser aprovada quer da dinâmica que o mesmo vier a gerar por parte dos parceiros sociais e das relações sociais".
Nesta tomada de posição, o Grupo da Comissão Nacional Justiça e Paz faz apelo "à responsabilidade particular que cabe aos gestores cristãos na viabilização de relações laborais que em tudo salvaguardem a dignidade dos trabalhadores, a condição subjectiva do trabalho humano, a conciliação do trabalho com a vida familiar, o direito universal aos bens e demais orientações do Pensamento social da Igreja".

Ler o documento na íntegra: AQUI

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Os alertas dos operários católicos ibéricos

“Todo o apoio financeiro dado aos bancos e toda a desregulamentação laboral favorável às empresas e aos empresários não revertem a favor da criação de mais postos de trabalho, muito menos da valorização do trabalho digno e justamente remunerado.” A denúncia está no comunicado final do encontro da Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos, de Portugal, e da HOAC – Hermandad Obrera de Acción Católica, de Espanha, cujas direcções reuniram de 6 a 9 de Fevereiro, no Seminário de Almada.
No documento, os responsáveis da LOC/MTC e da HOAC afirmam que as suas convicções de trabalhadores cristãos, “fundamentadas nos Evangelhos e na Doutrina Social da Igreja”, dizem que “o reconhecimento prático dos direitos sociais serve de barómetro da qualidade democrática de uma sociedade, porque mede também o grau de aplicação da justiça”. E acrescentam: “É preciso afirmar com convicção no momento actual que a defesa dos direitos sociais é um dever de justiça. Dever vinculado à afirmação de um princípio básico de humanidade, o destino universal dos bens, que João Paulo II concretizou de uma forma que tem hoje um grande valor para orientar a nossa vida e ação: ‘As necessidades dos pobres devem ter preferência sobre os desejos dos ricos: os direitos dos trabalhadores, sobre o aumento dos benefícios’.”
No dia em que largos milhares de pessoas se manifestam em Lisboa contra a precariedade, vale a pena atentar no que dizem as direcções dos movimentos de Acção Católica Operária da Península Ibérica. Sobre as medidas que estão a ser tomadas por toda a Europa, escrevem que elas apenas levam “ao equilíbrio dos défices, através de políticas de cortes em direitos sociais (educação, saúde, habitação e outros apoios sociais).”. Pelo contrário, observam ainda as direcções dos dois movimentos, “não se aplicam outras medidas que podiam levar a um aumento de proveitos financeiros para o Estado, como sejam impostos sobre as grandes fortunas e todas as transações financeiras, combate à fraude fiscal e à economia paralela”. E concluem: “É imperativo que o apoio financeiro aos bancos e às empresas seja fiscalizado de forma a ser garantida a manutenção e criação dos postos de trabalho e a sustentabilidade social e familiar dos trabalhadores.”
No comunicado, a LOC/MTC e a HOAC manifestam ainda “muita preocupação” com “as altas taxas de desemprego existentes em cada país” – quase 14 por cento em Portugal, mais de 22 por cento em Espanha. “Esta multidão de desempregados é empurrada para a pobreza e a exclusão social, onde a sua dignidade não é reconhecida e a realização pessoal e familiar é cada vez mais difícil de acontecer.”
As taxas de desemprego entre os jovens são também preocupantes, lê-se no comunicado, que acrescenta ainda referencias aos imigrantes e à saída de empresas para outros países, bem como às condições de trabalho cada vez mais “precárias e fragilizadas: são as constantes revisões da legislação laboral que retiram direitos alcançados em concertação social e contratação colectiva; são os contratos desregulados, os horários flexíveis, os tempos de trabalho incertos, a redução dos salários e o despedimento individual e colectivo facilitado.”
Perante a falta de confiança, os dois movimentos propõem-se “ajudar a criar uma nova consciência, uma nova mentalidade, uma nova cultura, uma nova maneira de pensar, sentir e actuar, que contrarie o ambiente de desmotivação, de alheamento e de medo vivido pelos trabalhadores e pelos cidadãos empobrecidos”.(Foto de Francisco Duarte Marujo) 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Colóquio no Vaticano sobre pedofilia: para a cura e a renovação


Começou nesta segunda-feira em Roma um colóquio que pretende estabelecer uma estratégia eficaz de combate aos abusos sexuais de membros do clero. A notícia que resume o que está em debate na iniciativa, com o título “Para a cura e a renovação”, pode ser lida aqui.
O Papa Bento XVI enviou entretanto uma mensagem que foi lida no início do encontro. Nela, o Papa pede uma profunda renovação da Igreja, afirmando que a cura do sofrimento das vítimas deve ser uma preocupação fundamental para as comunidades cristãs.  Bento XVI pediu ainda, na sua mensagem, que se instaure “uma vigorosa cultura de efectiva salvaguarda e apoio das vítimas”. 
Na abertura do colóquio, o cardeal William Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, afirmou que, na última década, o Vaticano recebeu mais de quatro mil denúncias de casos de pedofilia.
As intervenções que se irão suceder até esta quarta-feira podem ser lidas aqui. E no sítio do Vaticano na internet há uma secção especial dedicada a este tema. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Quando a laicidade se torna ateísmo de Estado


A problemática da laicidade e da secularização continua a ser um campo de difícil compreensão, quando não é terreno de equívocos e mais ou menos minado. Também entre nós.
Jean Baubérot © Bertrand Guay / AFPSobre esta matéria, saiu em França a obra "La Laïcité Falsifiée" (Éd. La Découverte), da autoria de Jean Baubérot, professor honorário da cátedra de História e Sociologia da Laicidade da École Pratiques des Hautes Études. Le Monde des Réligions acaba de publicar uma entrevista com o autor, que enuncia alguns dos equívocos e desafios que em torno da laicidade atravessam a sociedade e a política francesas, nomeadamente a tendência a "reduzir a laicidade à visibilidade da religião no espaço público e a uma neutralidade aplicada não somente ao Estado mas também aos indivíduos, ou pelo menos a alguns deles".
É bastante instrutiva a leitura da entrevista. Fica aqui apenas este excerto, relativo à "confusão entre laicidade e secularização":
Espera-se da laicidade, até hoje, que permita viver relações diversas com a secularização em harmonia social, independentemente de se estar próximo ou distante da religião, do ponto de vista doutrinal, dos ritos, etc.
A laicidade não tem, assim, que impor às pessoas que se secularizem, dado que isso constitui um atentado à sua liberdade de consciência. Ora, atualmente, confunde-se laicidade e secularização, e o Alto Conselho da Integração chega mesmo a reivindicá-lo de forma ostensiva, ao declarar que "numa sociedade secularizada, não é possível fazer isto ou aquilo." Isso é totalmente errado, já não é laicidade mas algo que comporta elementos de um ateísmo de Estado. Pretende-se forçar então certos grupos populacionais a secularizarem-se, o que por um lado é totalmente ineficaz, uma vez que a história mostra que cada vez que se quis minar a liberdade de religião o que se conseguiu foi um endurecimento contra as pessoas e, por  outro lado, isso revela uma total incompreensão daquilo que visa a laicidade.

(Ler: La laïcité en France, un athéisme d'État?")
(Crédito da foto: Jean Baubérot © Bertrand Guay / AFP)