domingo, 21 de julho de 2013

“Uma só é necessária”

Crónica - À PROCURA DA PALAVRA


"Maria escolheu a melhor parte.”
(Evangelho de Lucas 10, 42 – Domingo XVI do Tempo Comum, Ano C)

Nunca gostei da expressão “doméstica” para designar a profissão de incontáveis mulheres e mães. Para além de sugerir alguém “domesticado”, sempre se desvalorizou o trabalho incalculável em tempo e dedicação que uma casa e uma família requerem. Talvez pudesse definir-se como “gestora de cuidados familiares”, “licenciada em tudo e mais alguma coisa”, “chefe do governo familiar”. Na riqueza destes novos tempos de partilha das responsabilidades associadas a uma casa e a uma família, a “fatia de leão” continua a pertencer à mulher!
No tempo de Jesus todos os trabalhos da casa repousavam ainda mais nos ombros da mulher. Assim, é natural a atitude de Marta em ocupar-se das actividades próprias para acolher aquele hóspede tão especial que é Jesus. O que não é usual (e pouco próprio, como vemos pelas palavras que lhe dirige a irmã) é a atitude de Maria: sentada aos pés de Jesus a escutar as suas palavras. É a atitude do discípulo, que coloca em primeiro lugar a escuta do Mestre. E também isso é novo e bem referido por São Lucas: muitas discípulas seguiam Jesus. A resposta de Jesus não põe em causa o trabalho que generosamente Marta desempenha, mas sim que ela fique tão absorvida e atarefada, a ponto de perder a sua paz interior. E sublinha essa novidade de que também a mulher é chamada a ser discípula, com a mesma igualdade e dignidade dos “habituais” discípulos varões! O acolhimento de Jesus é acolhimento da sua palavra e da sua presença; não é gastar-se a “fazer coisas” cuja necessidade imediata pode ser facilmente discutível.

sábado, 20 de julho de 2013

Desabafos de um habitante do Absurdistão

Crónica

Absurdistão será o reino do absurdo - do latim, por contaminação, de ab-sonus (que não soa bem) e surdus (surdo, que não percebe), ab-surdus: etimologicamente, absurdo é, pois, o dissonante, e, depois, o contra-senso. Num Dicionário de Filosofia, poderá encontrar-se esta definição: a destruição de uma relação normal ou lógica que se esperava entre as coisas ou entre si e o mundo. A situação portuguesa é, neste nosso tempo, assim: surreal, que não se entende, com um futuro incerto e perigoso.
Pergunta-se, por exemplo, quando e como se vai pagar uma dívida de mais de 200 mil milhões de euros, com juros anuais de mais de 7, 5 mil milhões de euros. Mas há aquele velho e tremendíssimo debate entre os atenienses e os mélios, para o qual já chamei aqui a atenção, onde se mostra a terrível lei do mais forte: os mais fortes, neste momento, são os credores - numa situação de protectorado. À beira da bancarrota, chegou a esfola, com impostos sobre impostos, de tal maneira que, a partir de um certo limiar, a receita pode ser menor, porque as empresas fecham e o desemprego cresce. Mas há quem queira austeridade sem austeridade. Ah, e a fuga de capitais! E a corrupção a medrar, também na cumplicidade de política e negócios. E a economia paralela. E a Justiça que não funciona. E o desemprego a caminho de um milhão - quando se fala em desempregado, é preciso entender alguém que não tem trabalho, portanto, que não produz, que não contribui com impostos, que, pelo contrário, vai buscar apoio à segurança social, que pode deprimir... E, pela primeira vez, desde que me conheço, se, antes, se investia pessoalmente e amanhã a vida havia de ser melhor, agora reina o pessimismo do pior. O pior é mesmo isso: perdeu--se a esperança, a confiança, não se acredita, não há crédito. Para todos? Não, pois os muito ricos são-no cada vez mais. E os portugueses são uma "espécie em vias de extinção": temos uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo, com a consequência, entre outras, de 1,5 de pessoas activas por cada pensionista. E todos gritam, e bem, por crescimento económico, mas há sempre alguém que, também com razão, pergunta: e quem investe e com o dinheiro de quem?
Pergunta-se como foi possível chegar aqui. Fica-se atordoado, quando se pensa nisso.

Um Papa que provoca

Crónica

Apenas alguns dias após a eleição do Papa Francisco, o Professor Manuel Pinto escrevia que este é "um pontífice que não tem parado de surpreender, desde o ‘atrevimento’ do nome (já considerado em si mesmo uma encíclica, ou até mesmo um programa)".
Esta semana Alberto Melloni, um estudioso da História da Igreja, especializado no Concílio Vaticano II, afirmou ao sítio ‘Vatican Insider’, que a homilia do Papa proferida na visita a Lampedusa é um texto "programático de um Pontificado". Para o historiador "poucos se deram conta" da importância e da profundidade da homilia do Papa, "é um texto comparável ao discurso de abertura do Concílio" de João XXIII. As palavras verbalizam a opção do Papa pelos mais pobres, cuja escolha do nome já tinha deixado subentendida.

D. Manuel Clemente: A democracia é uma terra para todos


A democracia é uma terra para todos e a Igreja deve ser uma casa aberta onde todos possam entrar. No momento em que o novo patriarca dá entrada oficial na diocese de Lisboa, são publicadas várias entrevistas de D. Manuel Clemente. Uma delas (na realidade, um conjunto de três entrevistas em momentos diferentes) é editada sob a forma de livro, cuja edição será apresentada esta terça-feira, a partir das 19h, na Fnac Chiado, em Lisboa (ver convite na ilustração, que pode ser ampliado clicando na imagem). As outras surgem no DN, no i e na Renascença (além de uma outra que tinha sido recuperada neste blogue no momento da sua nomeação como patriarca de Lisboa)
Na entrevista dada ao DN de sexta-feira (disponível apenas no jornal em papel ou para os assinantes da edição electrónica), D. Manuel Clemente fala dos aplausos de que os políticos foram alvo nos Jerónimos – “esse tipo de manifestações não é para os templos (...). Mas aplaudiram, outras se calhar não aplaudiriam” – e do modo como Igreja e Estado podem relacionar-se.
A democracia, diz o novo patriarca, é “uma terra de todos e para todos e de responsabilidades partilhadas”. E acrescenta: “Creio que não há católico convicto que tenha uma visão das coisas segundo os princípios do Evangelho e da doutrina social da Igreja, que não queira seriedade, solidariedade, justiça, repartição, partilha, proximidade.”
Sobre a Igreja e a sua missão, diz o patriarca que o cristianismo é caracterizado por um “ritmo comunitário”. Refazer esse ritmo “é um dos grandes desafios” da pastoral católica deste tempo.
A dimensão comunitária da Igreja é um dos temas abordados por D. Manuel no livro-entrevista Uma Casa Aberta a Todos (ed. Paulinas), que reúne uma entrevista sobre o trajecto pessoal de D. Manuel a outras duas entrevistas anteriores (a propósito do Prémio Pessoa de 2009 e sobre o Papa Francisco).

quarta-feira, 17 de julho de 2013

José Dias da Silva (1942-2013): Um porteiro do Reino de Deus


(foto reproduzida daqui)

No último texto do blogue que alimentava, escreveu, em dia da festa de Santo António: “Os pobres são os porteiros do Reino de Deus.” José Dias da Silva manteve até ao fim a fidelidade a profundas convicções de quem aliava a fé em Jesus à confiança num futuro mais justo e solidário para a humanidade. Por isso, pediu que, no seu funeral, não houvesse flores e que, quem quisesse, substituísse esse gesto pela contribuição para o fundo solidário do Instituto Universitário Justiça e Paz, que apoia estudantes do universitários com dificuldades económicas.
O funeral de José Dias da Silva realiza-se esta manhã, da Igreja de São José para o cemitério da Conchada, em Coimbra. Despedimo-nos, assim, de alguém que sabia aliar fé e compromisso, como diz o título do blogue onde escrevia.
Essa síntese foi sempre, aliás, uma das preocupações maiores do Zé Dias, como o tratavam os seus amigos. A sua preocupação era ser coerente com a fé em Jesus, que o animava, e com aquilo que lia da Bíblia e do pensamento social da Igreja, que conhecia como poucos. Apesar de há vários anos lutar contra a doença que o minava, tinha ainda tempo para telefonar e escrever a outros a perguntar pela saúde, a animá-los nas desventuras da vida, para ser solidário, para desejar que a vida fosse mais benévola para todos ou para programar actividades que ajudassem a divulgar a doutrina social da Igreja, para continuar como membro da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Comissão Coorde­nadora Nacional das Semanas Sociais e da Comissão Permanente do Conselho Pastoral Diocesano de Coimbra.
Pode dizer-se que essa reflexão sobre as consequências sociais e políticas do evangelho era uma das suas grandes paixões. Era ele o responsável pelo módulo de Doutrina Social da Igreja na Escola de Leigos da diocese de Coimbra, além de ter orientado e participado em dezenas de cursos e encontros. Colaborador do Instituto de Estudos Teológicos, publicou os livros Viver o Evangelho Servindo a Pessoa e a Sociedade – Introdução à Doutrina Social da Igreja (ed. Gráfica de Coimbra) e Memórias de um Tempo Futuro, que reúne crónicas publicadas na revista Além-Mar, dos Missionários Combonianos, e no jornal Correio de Coimbra.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Eugénio da Fonseca, Presidente da Caritas:
Pobreza em Portugal não se resolve só com medidas assistencialistas


“A pobreza não se resolve com medidas só de dimensão assistencial. Precisa de respostas mais estruturantes e a resposta mais estruturante que, neste momento, tem que existir para vencer a pobreza é voltarmos a devolver o trabalho às pessoas que o perderam”, defende Eugénio da Fonseca, em declarações à Renascença. 
Para o presidente da Cáritas, “é aí que reside, para todas elas, a fonte da autonomia que desejam para poderem retomar a normalidade da vida que tinham”.
O número de residentes em Portugal a viver em condições de privação material aumentou entre 2011 e 2012. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), revelados ontem, 21,8% da população foi afectada por estas dificuldades no ano passado, num total a rondar os 2,3 milhões de pessoas. Por outro lado, a privação material severa também cresceu no mesmo período - de acordo com o INE, incidiu sobre 8,6% da população em 2012, ou seja, cerca de 900 mil residentes.
Eugénio da Fonseca considera que a realidade pode ser ainda mais grave e lembra o recente estudo da Cáritas, que aponta para 2,7 milhões de portugueses na pobreza.“Já conseguimos ter ao nível das taxas de desemprego indicadores actualizados, com diferenças de meses. Não podemos continuar a ter, em fl agelos tão graves como o da pobreza, dados que se reportam a um ano e a dois anos, porque isso, em termos da evolução dos problemas, torna-se tão rápido que a actuação que devemos ter sobre esses mesmos problemas revela-se desajustada. Estamos, muitas vezes, a actuar sobre causas que podem já estar muito mais agravadas do que aquilo que nós supomos”, sustenta.
Eugénio da Fonseca sustenta que “a solidariedade dos portugueses tem cumprido uma missão importantíssima, porque, se não fosse assim, a taxa da chamada pobreza severa, a que o estudo se refere, era muito maior”. “Tem sido graças a essa solidariedade que, pelo menos, há pessoas que ainda conseguem fazer mais refeições por dia, que ainda conseguem ter assegurada a sua casa e algum conforto na sua casa: não têm a luz cortada, têm acesso ao gás, a medicamentos cujas comparticipações não baixaram, há crianças que continuam nos infantários, alunos que não interromperam a sua carreira académica.” [LUSA]

segunda-feira, 15 de julho de 2013

À procura da Palavra – O “próximo”... em Auschwitz

Crónica – P. Vítor Gonçalves

“Querendo justificar-se, perguntou a Jesus: ‘E quem é o meu próximo?’” (Evangelho de Lucas 10, 28 - Domingo XV do tempo comum, Ano C)


Podemos ler em livros, ver em filmes e documentários, imaginar a partir de imagens, mas pisar o terreno de Auschwitz e de Birkenau na Polónia, dois dos vários campos de concentração e extermínio do regime nazi, é indescritível. Depois das paisagens verdes e belas e do esplendor dos inúmeros santuários polacos, estes lugares de dor e absurdo não deixam ninguém indiferente. Alguém disse um dia, perante tanta barbárie e desumanidade, que "Deus morreu em Auschwitz", mas é preciso não esquecer que a paixão de Jesus continua na de cada pessoa que sofre, que a maldade foi e será vencida de muitas maneiras. E se estes lugares parecem concentrações do mal que o ser humano é capaz de inventar, é preciso pensar que o mal acontece e permanece pela força de alguns e pela indiferença de muitos. Os caminhos de Jerusalém para Jericó onde há quem esteja caído, meio morto e abandonado, são, afinal, os caminhos de cada um de nós.

domingo, 14 de julho de 2013

A luz da fé e a humanidade contemporânea

Crónicas

A primeira encíclica do Papa Francisco, Lumen  Fidei, ou luz da fé, é o tema de duas crónicas deste fim-de-semana: no DN de sábado, Anselmo Borges destaca alguns aspectos do texto (e do facto de o actual Papa retomar um esboço já muito completo preparado pelo seu antecessor) para, no final, notar duas lacunas:

Penso que é pena a encíclica não começar pelo dado antropológico de base: a vida humana está desde a raiz fundada na fé, na confiança. Na presente situação, percebemo-lo perfeitamente, pois o que nos falta é precisamente fé, confiança, crédito.
Leonardo Boff também chamou a atenção para outra lacuna: não aborda com profundidade a crise de fé do homem contemporâneo, as suas dúvidas, as suas perguntas. Onde está Deus, quando um tsunami faz milhares e milhares de mortos? Como crer ainda, depois dos campos de extermínio, dos milhões de torturados e assassinados no corpo e na alma? "Crer é sempre crer apesar de... A fé não elimina as dúvidas e angústias de um Jesus que grita na cruz: 'Pai, porque me abandonaste?'A fé tem que passar por este inferno e transformar-se em esperança de que para tudo há um sentido, mas escondido em Deus. Quando se revelará?"
A encíclica [diz]: “A luz da fé não dissipa todas as nossas trevas, mas, como lâmpada, guia os nossos passos na noite, e isto basta para caminhar.”

O texto completo está disponível aqui.

Na véspera, no CM, Fernando Calado Rodrigues sublinhava a importância que o documento dá ao diálogo entre a fé e a razão:

[O Papa] procura demonstrar que a fé não se opõe à busca da verdade, mas até a pode potenciar. Nem a razão precisa de se libertar da fé, como propunha o Iluminismo no século XVIII, para a ciência poder avançar e desenvolver-se; pelo contrário, deve desenvolver com ela sinergias.
O olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, em toda a sua riqueza inesgotável. A fé desperta o sentido crítico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa.
Convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência", afirma o Papa Francisco no surpreendente número 34 desta encíclica.

O texto completo pode ser lido aqui.


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Um grito em Lampedusa contra a "globalização da indiferença"



Notícia, crónicas e vídeos

Foi um grito contra a “globalização da indiferença”. Nesta manhã de segunda-feira, a primeira viagem do Papa Francisco fora de Roma foi, significativamente, à ilha italiana de Lampedusa, situada a 115 quilómetros da costa africana da Tunísia. Sem formalismos políticos (nem do Vaticano, pois o secretário de Estado e outros cardeais ficaram em Roma, já que o Papa não queria uma visita de protocolo), outros gestos falaram por si: o ambão (estante para as leituras) construído para a missa e o báculo com a cruz eram feitos com restos de barcos encalhados ou naufragados ao largo de Lampedusa. E as vestes litúrgicas usadas pelo Papa eram de cor roxa, símbolo do gesto penitencial e de pedido de perdão.
“Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa”, disse o Papa na homilia da missa. Também neste texto, que se pode ler na íntegra aqui, se diz muito em poucas palavras. Desde logo, pela saudação aos emigrantes muçulmanos, precisamente a poucas horas de começar o Ramadão – um sinal de que o dia escolhido não foi casual: “Desejo saudar os queridos emigrantes muçulmanos que hoje, à noite, começam o jejum do Ramadão, desejando-lhes abundantes frutos espirituais. A Igreja está ao vosso lado na busca de uma vida mais digna para vós e vossas famílias.” Depois, pelas perguntas que, disse o Papa, o texto bíblico continua a colocar a cada pessoa: “Adão [homem], onde estás?”; e “Onde está o teu irmão?”
A homilia intensa completa-se ainda pela interpelação que o Papa faz a cada pessoa, não se colocando de fora: “Estas duas perguntas de Deus ressoam, também hoje, com toda a sua força! Muitos de nós – e neste número me incluo também eu – estamos desorientados, já não estamos atentos ao mundo em que vivemos, não cuidamos nem guardamos aquilo que Deus criou para todos, e já não somos capazes sequer de nos guardar uns com os outros. E, quando esta desorientação atinge as dimensões do mundo, chega-se a tragédias como aquela a que assistimos.”
Confirmando o seu envolvimento pessoal em cada gesto, o Papa acrescentou, depois de agradecer aos cerca de seis mil habitantes de Lampedusa o seu acolhimento aos emigrantes: “Recentemente falei com um destes irmãos. Antes de chegar aqui, passaram pelas mãos dos traficantes, daqueles que exploram a pobreza dos outros, daquelas pessoas para quem a pobreza dos outros é uma fonte de lucro. Quanto sofreram! E alguns não conseguiram chegar.”
Às duas perguntas bíblicas, o Papa acrescentou uma terceira: “«Quem de nós chorou por este facto e por factos como este?» Quem chorou pela morte destes irmãos e irmãs? Quem chorou por estas pessoas que vinham no barco? Pelas mães jovens que traziam os seus filhos? Por estes homens cujo desejo era conseguir qualquer coisa para sustentar as próprias famílias? Somos uma sociedade que esqueceu a experiência de chorar, de «padecer com»: a globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar!”

No Página Um de hoje, a crónica de Manuel Pinto é precisamente sobre este gesto da viagem do Papa a Lampedusa, mesmo se escrita antes do acontecimento:

sábado, 6 de julho de 2013

Cem dias de Francisco: a mudança a caminho

Crónicas

Cem Dias de Francisco: a mudança a caminho é o título da crónica de Anselmo Borges no DN de hoje. Escreve o autor, sobre estes primeiros tempos do novo Papa:

E a revolução está em marcha. De modo natural, de tal modo natural que se fica espantado por ser notícia precisamente o que não devia sê-lo. Por exemplo, desejar "boa noite", "bom descanso", "bom almoço" ao povo. O Papa tornou-se humano, vendo-se claramente que o seu desejo e preocupação é o bem-estar, a saúde, a alegria de todos.
Reside na Casa de Santa Marta, rejeitando o Palácio Apostólico, para evitar a solidão e ter uma vida sadia no meio de gente. Um gesto de profundíssimo significado. (...) Acentua permanentemente o amor de Deus e o seu perdão. Quer uma Igreja "de portas abertas" e não "controladores da fé". "A crise é o resultado do capitalismo selvagem", que impôs "a lógica do lucro a qualquer preço, sem atender às pessoas". Critica as máfias que exploram as pessoas e as reduzem à "escravatura". Previne os eclesiásticos contra "o carreirismo".

O texto completo pode ser lido aqui.




A propósito da liturgia deste domingo, Vítor Gonçalves faz também uma alusão aos primeiros cem dias do Papa Francisco. Fica aqui a sua crónica:

À procura da Palavra - “Como cordeiros...?”
(Domingo XIV do Tempo Comum, ano C)

”Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos.” (Evangelho de Lucas 10, 13)

A linguagem pastoril que Jesus tantas vezes utiliza tem uma clareza que certamente os discípulos entenderam, mas não é isenta de ambiguidades. Se a imagem de cordeiros aponta para uma missão pacífica no meio de um mundo agreste e violento, é verdade que há também muito "lobo vestido de cordeiro". E se isso pode significar simples falsidade (será assim tão simples?), quando o "ser lobo" tem a ver com saque e rapina, com mais fortes que devoram os mais fracos, não estamos longe de ver representados estes papéis na política e na economia dos nossos tempos. Sem ir à dureza do provérbio latino de que "o homem é lobo para os outros homens", sabemos como vivem em nós a paz e a violência, o bem e o mal. Aquilo que alimentarmos dentro de nós acabará por se manifestar na nossa vida.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O banco do Vaticano

Crónica

Na sua crónica de hoje no CM, Fernando Calado Rodrigues fala do banco do Vaticano. Escreve o cronista, depois de recordar a história do Instituto para as Obras da Religião:
“O Papa Francisco está a dar continuidade ao trabalho do seu antecessor. Os escândalos revelam, também, que a atitude da Santa Sé tem vindo a mudar, como acontece em outros âmbitos, por exemplo a pedofilia no seu seio. Enquanto no passado se dificultava o acesso às autoridades judiciais, hoje coopera-se com elas.

O texto completo pode ser lido aqui.


terça-feira, 2 de julho de 2013

Teologia da Libertação: "Uma das correntes mais significativas da teologia católica do séc. XX", segundo o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé


Gerhard Ludwig Müller"O movimento eclesial e teológico latino-americano conhecido como "Teologia da Libertação", que se espalhou por outras partes do mundo depois do Concílio Vaticano II, deve, em minha opinião, ser incluído entre as correntes mais importantes da teologia católica do século XX." Esta autorizada e enaltecedora avaliação histórica da Teologia da Libertação foi feita por D. Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé - o mesmo organismo que, na década de 1980, publicou duas instruções, advertindo contra os desvios pastorais e doutrinários de correntes de pensamento teológico da América Latina. Este comentário decisivo sobre o movimento da Teologia da Libertação não é um qualquer comentário espirituoso que tenha escapado da boca do atual guardião da ortodoxia católica. 
A mesma opinião equilibrada aparece nas densas páginas do livro "Do lado dos pobres. A Teologia da Libertação", uma coletânea de ensaios escritos com o teólogo Gustavo Gutiérrez e publicados na Alemanha em 2004 e que está para ser agora publicado em Itália. Gutiérrez inventou a fórmula para definir o movimento da Teologia da Libertação, cujas ações foram - por largo tempo - escrutinados de muito perto pela Congregação para a Doutrina da Fé, quando dirigida por Ratzinger. O movimento não foi criticado uma única vez durante esse tempo.
O livro aparece como que um adeus às guerras teológicas do passado e à hostilidade que de quando em vez eclode, para causar propositadamente alarme. A obra colocou também um selo oficial num caminho comum que os dois [Gutiérrez e Müller] tinham percorrido ao longo de muitos anos. Müller nunca escondeu sua proximidade com Gustavo Gutiérrez, que ele conheceu em Lima em 1988, durante um seminário de estudo.


Ler o resto do artigo AQUI [Fonte: Vatican Insider]