terça-feira, 30 de agosto de 2011

Nas vésperas da evocação da “Primavera da Igreja”

Antonio Celso de Queirós é bispo emérito de Catanduva, São Paulo, Brasil. Acaba de escrever um artigo intitulado "Tempo de nova esperança. Tempo de um novo Concilio?". Trata-se de uma leitura perspectivada a partir da realidade brasileira e latino-americana, mas não deixa de colocar dimensões e reptos que imorta ter em conta. Fica aqui o parágrafo introdutório e a reflexão final:
Quem viveu mais de perto o clima eclesial de meados do século passado (antes do Concílio Vaticano II) não pode deixar de perceber a situação atual como algo similar. Naquela época, como hoje, uma mistura de perplexidade e esperança preocupava muitos cristãos. Só os que viviam completamente em outro mundo, não percebiam que algo grande estava por ocorrer. O anúncio de um Concílio Ecumênico foi recebido com uma mistura de surpresa e temor. Surpresa pelo anúncio de algo com o qual a Igreja não estava acostumada. Temor de que isso pudesse terminar com as reflexões e as buscas, por um gesto autoritário da hierarquia. Com o tempo, o medo foi sendo superado. A superação foi mais ampla diante dos textos conciliares, especialmente as quatro grandes constituições e as encíclicas papais contemporâneas: Mater. et Magistra e Pacem in Terris de João XXIII, e depois com a de Paulo VI. (...)
Voltando ao início destas reflexões, agora, como no período que precedeu o Concílio, os que estão atentos aos sinais dos tempos, percebem que algo tem que ocorrer. Como naqueles anos, é preciso superar a mera perplexidade e o temor, abrindo-se a uma grande esperança. Recordando Santo Tomás de Aquino, as condições de esperança são a busca de um bem custoso que ainda não temos e um motivo firme para nos apropriarmos dele. Nossa esperança para a Igreja se baseia na presença do Espírito na história, nas sementes abundantemente semeadas pelo Concílio Vaticano II e na atuação nela do Espírito Santo. Aquele que plantou as sementes é também capaz de fazê-las nascer, crescer e frutificar. De nossa parte é necessário prosseguir na busca, vivendo a paciência ativa que sabe suportar as “demoras de Deus”, e viver as surpresas e contradições sem deixar-se abater. Ao mesmo tempo ajudando a semear o que já disse sabiamente alguém: “As decisões mais perfeitas, mais tardias, costumam ser piores que as decisões menos perfeitas, mas tomadas imediatamente”. De qualquer maneira, estamos certamente em um tempo apropriado para viver com maior intensidade a recomendação de o apóstolo ser “alegres na esperança, firmes na atribulação, constantes na oração” (RM, 12, 12).
A leitura integral do texto pode ser feita aqui

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O bispo lixeiro que chegou a cardeal



«O cardeal Jàn Chryzostom Korec nasceu em Bosany, diocese de Nitra, em 22 de janeiro de 1924. Em 1949, os comunistas subiram ao poder na Checoslováquia. O jovem Jàn Korec foi, portanto, ordenado sacerdote secretamente em 1950, enquanto em 1951 se tornou o bispo mais jovem do mundo.

Uma ordenação episcopal, segundo narra o L'Osservatore Romano, “feita com muita pressa, em um apartamento, com medo de que a polícia irrompesse de um momento a outro”.

Durante 9 anos, desempenhou sua missão de sacerdote e de bispo numa fábrica, onde trabalhou como operário e depois como guarda noturno. Em 1960, foi detido, processado e condenado a 12 anos de prisão. Foi recluído num mosteiro transformado em prisão, onde havia outros 6 bispos e 200 sacerdotes.

Em seus anos de prisão, celebrou missa e, quando estava em isolamento, imaginava estar a fazer exercícios espirituais. Em 1968, com a “Primavera de Praga”, saiu da prisão gravemente doente. Para ganhar a vida, começou a trabalhar como lixeiro em Bratislava. Pela primeira vez, celebrou a missa em público.

Em 1969, chegou a reabilitação, com a qual pôde obter um passaporte para Roma, onde se encontrou com Paulo VI, o qual lhe entregou as insignias episcopais. Em 1974, no entanto, foi anulada a reabilitação e ele foi novamente preso, para cumprir os quatro anos que lhe faltavam da sentença primitiva. Libertado logo depois pelas suas más condições de saúde, continuou trabalhando como operário até os 60 anos.

João Paulo II nomeou-o bispo de Nitra em 1990 e instituiu-o cardeal em 1991. Em 1998, chamou-o ao Vaticano para pregar os exercícios espirituais da Quaresma. Durante vários anos, foi presidente da Conferência Episcopal Eslovaca.

Numa entrevista concedida a La Civiltà Cattolica (21 de fevereiro de 1987), afirmou: "Não me atribuo grandes méritos. Quanto mais passam os anos, mais vejo claro que o que tem importância pertence à graça, isto é, a Deus”.»

Este texto foi publicado ontem pela agência Zenit,a propósito dos 60 anos de ordenação episcopal do cardeal Jàn Chryzostom Korec e da carta que sobre a efeméride Bento XVI lhe enviou, considerando-o “pastor trabalhador, fiel e prudente”.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sem emprego para os jovens, vivemos um presente equivocado

Palavras de Bento XVI aos jornalistas, durante o voo Roma-Madrid, a caminho das Jornadas Mundiais da Juventude:
«Se confirma en la crisis actual todo lo que sucedió en la grave crisis anterior: la dimensión ética no es una cosa ajena a los problemas económicos, sino una dimensión interior y fundamental. La economía no funciona solo con reglas mercantiles, sino que necesita una razón ética para estar al servicio del hombre.
Es lo que afirmó Juan Pablo II en su primera encíclica social: el hombre debe ser el centro de la economía y la economía no se debe medir según las ganancias, sino según el bien de todos, de esta manera se incluye la responsabilidad hacia los demás. La economía funciona verdaderamente bien solo si funciona de manera humana, respetando al otro según las diferentes dimensiones. La primera es la responsabilidad ante el propio país, y no solo ante sí mismo.
La segunda es la responsabilidad hacia el mundo: los países no están aislados, incluso Europa no está sola, sino que es responsable de la entera humanidad y debe afrontar los problemas económicos con esta clave de responsabilidad por las demás partes del mundo, por aquellos países que sufren la sed y el hambre. La tercera dimensión tiene que ver con el futuro, tenemos que proteger nuestro planeta, pero tenemos que proteger también el funcionamiento del sistema de trabajo para todos, para pensar en el futuro y en el presente. Si los jóvenes de hoy no encuentran prospectivas de vida, el nuestro es un presente equivocado».

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Sacrifícios - é só para alguns

"Ser sério sobre a partilha dos sacrifícios" é como Warren Buffett, o terceiro homem mais rico do mundo se dirigie ao Governo dos Estados Unidos. "Parem de nos mimar com isenções fiscais", denuncia ele, num artigo publicado no passado domingo, no New York Times. E os dados que fornece são absolutamente escandalosos, sobretudo num tempo em que se agravam os impostos e as condições de vida para as classes médias e, sobretudo, para os mais pobres.
Em Portugal, a realidade é certamente diversa, mas num ponto, decisivo, coincide: com o argumento de criar melhores condições de competitividade aos empregadores e às empresas, os que menos têm e menos podem são os mais sobrecarregados com as medidas drásticas já tomadas e a anunciadas. Os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Os dados recentemente divulgados não deixam margem para dúvidas: as 25 maiores fortunas do país, cujo valor excede os 17 mil milhões de euros, viram, em tempo de crise, esse valor crescer 17,8% face a 2010, representando agora a 10,1% do PIB português, segundo um estudo anual da revista Exame.
Será de esperar algum gesto do tipo  do de Warren Buffett da parte de algum dos líderes das maiores fortunas portuguesas? Julgo que podemos esperar sentados. Só se for para se queixarem de que o Estado os não deixa ir tão longe quanto pretendem. Essa era, pelo menos, a música, até há pouco tempo.
Mas raramente se ouve os que defendem a justiça social e o combate à pobreza a denunciar esta desigualdade que destrói a dignidade humana e mina a sociedade. Raramente os vemos exigir solidariedade e equidade no esforço que é pedido a todos em tempo de crise grave. Vemos vozes a exigir que, nas medidas do Estado, sejam salvaguardados os grupos de menores recursos, mas não vemos denunciar a soberba dos economicamente poderosos. As migalhas que estes possam dar a esta ou àquela instituição não podem calar a denúncia desta injustiça estrutural.

Ler mais:
Quem são os mais ricos de Portugal?

Act. (18.8):
Nem de propósito: o Bartoon, "coluna" do cartoonista Luís Afonso, no Público, trata hoje um aspecto do assunto deste post:



















Act. (23.8):
"Milionários franceses, detentores das dezasseis maiores fortunas do país, instaram esta terça-feira o Governo a aplicar uma taxa especial sobre os rendimentos dos mais ricos para ajudar a debelar os problemas financeiros do país. A proposta de Warren Buffet continua assim a ganhar o apoio dos seus pares. (...)
Numa petição publicada no site da revista de informação Le Nouvel Observateur, citada pela agência Reuters, membros das 16 maiores fortunas do país, incluindo a herdeira da L’Oreal e o director da petrolífera Total, pedem a criação de uma “contribuição especial” sobre os rendimentos mais elevados, sem afectar o cash flow das respectivas empresas.

“Estamos conscientes de que beneficiamos do sistema francês e do ambiente europeu a que estamos ligados, os quais esperamos poder ajudar a preservar”, dizem os signatários do documento, que incluem ainda os directores executivos da agência de publicidade Publicis, os homólogos do banco Société Générale e o presidente da companhia Air France, entre outros.

“Num momento em que o défice das finanças públicas e as perspectivas de agravamento da dívida do Estado ameaçam o futuro da França e da Europa, e em que o Governo pede a todos um esforço de solidariedade, consideramos necessário o nosso contributo”, acrescentam.

Ler o texto completo: Público


terça-feira, 26 de julho de 2011

“A Internet não é um simples instrumento de comunicação"

É corrente a ideia de que a Internet (e a Web) configuram um novo meio de comunicação. Uma análise mais atenta coloca em questão tal ideia. Basta que cada um se pergunte o que faz ou pode fazer com ela e nela.
Na igreja tem sido isso que tem sido defendido e propagado, o que conduz inevitavelmente à assimilação deste fenómeno informativo e comunicativo aos media já nossos conhecidos, o que não deixa de ser uma simplificação redutora.
Esta nota vem a propósito da intervenção há dias feita por António Spadaro, editor da revista La Civiltà Cattolica perante os bispos do Brasil (a conferência intitulou-se “Espiritualidade e elementos para uma teologia da comunicação em rede”) e pode ser lida - em italiano, AQUI).
“Internet não é meio de evangelização, é um ambiente de vida”, começou por notar o conferencista que também é sacerdote. “A internet é um novo contexto existencial, não um lugar específico no qual se entra em algum momento para viver on line e do qual se sai para entrar novamente na vida off line”, afirmou.
Para Antonio Spadaro, a internet é uma revolução “com raiz no passado” por replicar “antigas formas de transmissão do saber e do viver comum”. Ele defendeu a ideia da internet como ambiente e não simplesmente instrumento de comunicação.
que se pode usar ou não, mas um ambiente cultural, que determina um estilo de pensar, contribuindo para definir um modo peculiar de estimular a inteligência e de estreitar as relações, e mesmo um modo de estar no mundo e de organizá-lo”, destacou.
Segundo o padre Spadaro, neste sentido se pode dizer que a internet não é um “novo meio de evangelização”, mas, antes de tudo, “um contexto no qual a fé é chamada a exprimir-se não por uma mera vontade de presença, mas por uma conaturalidade do cristianismo com a vida dos homens”.
O desafio para a Igreja, de acordo com Spadaro, não é o modo de usar bem a rede, “como se acreditava”, mas “como viver bem o tempo da rede”. “A Rede coloca desafios muito significativos para a compreensão da fé cristã. A cultura digital tem uma reivindicação a fazer ao homem mais aberto ao conhecimento e aos relacionamentos”, considerou.

Fonte: site da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

sábado, 23 de julho de 2011

Os dias do luto - reportagem na TSF

Serena ou repentina, a morte chega implacável para todos. “Todos nós sabemos que a morte é um horizonte natural da vida.” Mas como viver com os dias da saudade? Lutos inesperados, lutos sem nomes, lutos proibidos, lutos entre o mistério e o absurdo. É importante “que o pensamento da morte volte, porque nos cemitérios o que lá está é esta pergunta: ‘O que é o homem?’”

O tema é o objecto do programa “Os dias do luto”, da autoria de Manuel Vilas Boas e sonoplastia de Mezicles Helim. Passa na TSF este fim-de-semana: sábado às 11 da manhã, Domingo às 0h e às 12h (e não às sete da tarde como se ouve neste som de apresentação do programa) e poderá depois ser escutada em www.tsf.pt.


quinta-feira, 21 de julho de 2011

"Árvore da vida" ou uma capela

Hoje recomendamos a leitura das imagens ilustradas por um texto (o contrário também vale) que apresentam a nova capela do Seminário Conciliar de Braga, intitulada Árvore da Vida e que estão disponíveis no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura da Igreja Católica. O texto é de Joaquim Félix de Carvalho e as imagens de Asbjörn Andresen e Sérgio Conde, e foram apresentados recentemente num colóquio em Fátima.

Em certa medida, pode dizer-se que a obra é o produto do lento amadurecer da sensibilidade e criatividade de um grupo, de uma comunidade, sem retirar, com isso, os méritos aos artistas que deram forma ao sonho. Ora vejam:

quarta-feira, 20 de julho de 2011


Texto de Bento Domingues no "Público" do domingo passado. No sábado, no DN, Anselmo Borges reflectiu sobre a ordenação de mulheres."A questão tem, pois, de ser revista. Para não ferir este princípio fundamental do Concílio Vaticano II: "Toda a forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa por razão de sexo deve ser vencida e eliminada, por ser contrária ao plano divino". Texto na íntegra aqui.

domingo, 10 de julho de 2011

Bento Domingues: A culpa será de Deus?


Texto de Bento Domingues no "Público" deste domingo, 10 de Julho de 2011.
* "Sacerdócio feminino: entrevista de D. Policarpo suscita sururu internacional, aqui.
* Notícia "Patriarca contraria o Papa sobre as mulheres", aqui.
* Entrevista na revista da Ordem dos Advogados, aqui.
* Esclarecimento posterior de D. José Policarpo, aqui.
* Notícia do "Público" sobre o esclarecimento, aqui.

Anselmo Borges: Os Dez Mandamentos

"Pessoalmente, mais do que a imoralidade preocupa-me a amoralidade. Porque, quando tudo vale, nada vale, pois tudo é igual. Uma sociedade sem convicções e valores comuns partilhados não tem futuro, porque lhe falta horizonte e sentido. Por isso, fonte maior de mal-estar hoje está na falta de critérios de valor e de orientação".

Excerto da crónica de Anselmo Borges no DN de 9 de Julho de 2011. Ler tudo aqui.


sexta-feira, 8 de julho de 2011

Eppur si muove

O patriarca de Lisboa corrigiu o que tinha dito.
Sabemos aquilo que pensa sobre a ordenação de mulheres, uma vez que o exprimiu em diferentes momentos, distanciados no tempo. Não se tratou, pois, de uma 'escorregadela', no contexto de uma entrevista, aquilo que disse, em Maio último, à revista da Ordem dos Advogados.
Este esclarecimento é, de facto, uma mudança de posição. D. José Policarpo afirmou não ver fundamento de ordem teológica para a posição do magistério da Igreja. João Paulo II, contudo, tinha frisado que o assunto não é meramente do foro disciplinar, antes "pertence à própria constituição divina da Igreja" e Bento XVI aludiu, já este ano, a este ensino colocando-o sob a alçada da 'infalibilidade' (o que não deixou de suscitar perplexidade em vários comentadores e teólogos).
D. José manifestava uma atitude de pragmatismo sobre a matéria: sendo uma construção histórica, em algum momento, poderia ser reapreciada. A mudança nesta matéria ocorrerá “se Deus quiser que aconteça e se estiver nos planos Dele acontecerá”, observava, na referida entrevista. Mas a posição de fundo não era, de todo, de questionamento, mas de seguimento, ainda que um seguimento interrogante.
Reacções negativas e mesmo indignação de fiéis quanto ao teor de declarações suas certamente não as teve só agora e, no entanto, isso não justifcaria que viesse, de cada vez, fazer esclarecimentos. O problema, neste caso, está, acima de tudo, em se apresentar este caso num 'framing' segundo o qual um cardeal estaria a questionar a posição e a autoridade do próprio Papa. O que me parece de uma grande injustiça para D. José.
O problema, no meu modo de analisar a situação, está em que hoje, está mais difícil do que nunca a liberdade de pensar no interior da Igreja, nomeadamente por parte de padres, religiosos e bispos. E os polícias da ortodoxia não perdoam. Não hesitam em pressionar, denunciar e, se preciso for, cilindrar, calar e derrubar quem exprima ideias próprias, em matérias que não são sequer do núcleo duro da fé. Esses polícias da ortodoxia não querem saber da valorização conciliar da opinião pública esclarecida no seio da Igreja; olham a sociedade como uma ameaça; preferem um ateu ou agnóstico a um cristão fiel mas crítico; olham mais à moral sexual do que à justiça e à fraternidade; preferem a fidelidade canina à fé esclarecida. Em suma, esses polícias da ortodoxia mostram ser mais papistas do que o Papa, e até ficam perturbados quando ouvem certas coisas de um Papa como o actual. Esses polícias e essa mentalidade de polícia ganhou peso na estrutura da Igreja e era muito importante reflectir e debater sobre as causas e consequências dessa tomada de poder que tão deletéria é para a Igreja e para o seu papel de acolhimento, inquietação e esperança na sociedade.
D. José bem pode, pois, apelar aos católicos a que acatem a disciplina sobre o papel da mulher na Igreja, no relativo ao sacerdócio; a verdade é que "o Espírito sopra onde quer" e a História não pode ser travada.  Aquilo que a estrutura de poder (masculino) fixou e não quer que seja nem questionado nem questionável assim se manteria eternamente se os hierarcas tivessem algum poder monopolista sobre o Espírito Santo. Haja, pois, esperança. Há mais vida (cristã) para além da hierarquia.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

"Nada me faltará"

Maria José Nogueira Pinto, 1952-2011


Nada me Faltará

"(...)Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. (...)
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará".
in DN, 7-7-2011
[Crédito da foto: Pedro Cunha / Público]

D. Policarpo vê-se obrigado a rever posição

O cardeal patriarca de Lisboa difundiu ontem um esclarecimento sobre o teor das suas declarações à Revista “Ordem dos Advogados”, acerca da ordenação de mulheres. Começa por notar que a expressão do seu pensamento provocou "reacções várias e mesmo indignação", atribuídas ao facto de não ter olhado para o tema "com mais cuidado", "sobretudo por não ter tido na devida conta as últimas declarações do Magistério sobre o tema".
D. José Policarpo apresenta diversos factores que fizeram vir ao de cima, nas últimas décadas, a questão da ordenação de mulheres para o ministério do sacerdócio, "sobretudo nos países ocidentais" e cita a posição intransigente do Papa João Paulo II, em que declara que "a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”.
"Somos, assim, convidados a acatar o Magistério do Santo Padre, na humildade da nossa fé", salienta o Patriarca. E conclui deste modo: "Seria para mim doloroso que as minhas palavras pudessem gerar confusão na nossa adesão à Igreja e à palavra do Santo Padre".

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Mês de S. Bento no Mosteiro de Tibães


O Mosteiro de S. Martinho de Tibães, nos arredores de Braga, realiza este mês a iniciativa "Mês de S. Bento", tomando como pretexto o facto de se celebrar no dia 11 (segunda-feira) a festa litúrgica daquela figura da história monástica e padroeiro da Europa.

Oito actividades culturais e religiosas constituem o programa, que se prolonga por todo este mês e que resulta de uma parceria com a paróquia de Mire de Tibães e a Direção Regional de Cultura do Norte. Os eventos têm entrada livre e gratuita, excepto o jantar para o qual é necessária inscrição.

Programa

Dia 2
17h30: Concerto: Percursos da Polifonia Sacra (Curso de Licenciatura em Música da Universidade do Minho)

Dia 8

21h30: Cinema: “O Grande Silêncio” (ao ar livre, na plataforma do Claustro do Refeitório)

Dia 9
18h30: Concerto: Percursos dos tempos litúrgicos (Coro Gregoriano do Porto)

Dia 10
18h30: Vésperas I da solenidade de São Bento (presididas pelo arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga)
20h00: Jantar de São Bento (preço de 25 Euros, por inscrição) (Restaurante “L’Éau Vive” de Tibães (ementa monástica, encontrada nos arquivos do Mosteiro de Tibães))

Dia 16
18h30: Concerto: Cappella Bracarensis

Dia 23
21h30: Cinema: “Dos homens e dos deuses” (ao ar livre, na plataforma do Claustro do Refeitório)

Dia 24
18h00: Concerto: Capella Musical Cupertino de Miranda (no âmbito do Festival Internacional de Polifonia Portuguesa)

terça-feira, 28 de junho de 2011

Bento XVI: tweet via iPad inaugura news.va

O Papa Bento XVI inaugurou hoje, através de uma tweet-mensagem, o novo portal agregador de notícias sobre o Vaticano e sobre o mundo, o news.va, servindo-se de um iPad. Vê-se bem que a familiaridade com a máquina e a destreza dos dedos no touch screen não são por aí além, mas vale o lado simbólico. O vídeo está em italiano, mas dá para entender:

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Sacerdócio feminino: entrevista de D. Policarpo suscita sururu internacional

A entrevista de D. José Policarpo à revista OA, da Ordem dos Advogados, de Maio passado, está a despertar a atenção de alguns órgãos de informação internacionais, que a vêem como susceptível de provocar reacções.
O novo órgão de informação - Vatican Insider - que acaba de ser lançado pelo diário italiano La Stampa em inglês, espanhol e, naturalmente, em italiano, fez-se eco da notícia divulgada no passado dia 22 pela agência Ecclesia, citando algumas das principais declarações do cardeal-patriarca de Lisboa relativamente à matéria referida (de facto, a entrevista trata maioritariamente de vários assuntos, com especial destaque para a posição da Igreja face á crise económica e social).
Sobre a ordenação de mulheres, D. Policarpo entende que "teologicamente não há nenhum obstáculo fundamental”; a questão é, sobretudo, de tradição e o próprio Papa se veria condicionado por este factor. O que leva o patriarca a defender que, “no momento que estamos a viver, é um daqueles problemas que é melhor nem levantar… suscita uma série de reações”. A mudança nesta matéria ocorrerá “se Deus quiser que aconteça e se estiver nos planos Dele acontecerá”, acrescenta.
«O Santo Padre João Paulo II - continua D. José Policarpo - a certa altura, pareceu dirimir a questão. Penso que a questão não se dirie assim; teologicamente, não há nenhum obstáculo fundamental; há esta tradição, digamos assim... nunca foi de outra maneira"
A entrevistadora insiste: "do ponto de vista teológico, não há nenhum obstáculo...
". E a resposta do cardeal clarifica a posição:
"Penso que não há nenhum obstáculo fundmental. É uma igualdade fundamental de todos os membros da Igreja. O problema põe-se noutra óptica, numa forte tradição que vem de Jesus, e na facilidade com que as igrejas reformadas foram para aí (...)".
Contextualizando o momento em que surgem estas palavras e vindas de quem vêm, o articulista do Vatican Insider (cf. The Patriarch of Lisbon: "There are no theological reasons for excluding women from the priesthood") sustenta que elas irão provocar debate, se se tiver em conta as posições do actual Papa a propósito (e na sequência) da Ordinatio Sacerdotalis, de João Paulo II, de 1994.
Por sua vez, o vaticanista John L. Allen Jr., escrevendo hoje no site da revista National Catholic Reporter (cf.: Cardinal sees 'no theological obstacle' to women priests), lembra que Bento XVI há menos de dois meses considerava como "infalível" o magistério sobre esta matéria, numa carta endereçada a um bispo australiano que tinha suscitado a necessidade de se recolocar a questão.

Ler a entrevista de D. José Policarpo à  revista da ordem dos Advogados: AQUI
[Crédito da foto: Paulo Castanheira]

quinta-feira, 23 de junho de 2011

10 viagens papais mais importantes da História

João Paulo II na Terra santa, em Março de 2000

De todas as viagens papais que vimos ao longo dos anos, quais foram verdadeiramente memoráveis?

John L. Allen Jr. selecciona a “10 viagens papais mais importantes da História”. São elas:

10. João XXIII, Loreto-Assis, Itália, 4 de Outubro de 1962
9. João Paulo II, Denver (Estados Unidos), 12 a 15 Agosto de 1993
8. Bento XVI, Turquia, 28 de Novembro a 1 de Dezembro de 2006
7. João Paulo II, Manila, Filipinas, 12 a 16 Janeiro de 1995
6. Empate entre: João Paulo II, Nicarágua, 4 de Março de 1983; e João Paulo II, Cuba, de 21 a 26 Janeiro de 1998
5. João Paulo II, México, 26 a 31 Janeiro de 1979
4. Paulo VI, Terra Santa, 4 a 6 Janeiro de 1964
3. João Paulo II, Assis, 27 de Outubro de 1986
2. João Paulo II, Terra Santa, 20 a 26 de Março de 2000
1. João Paulo II, Polónia, 2 a 10 de Junho de 1979

Ler aqui explicações de cada uma delas e de mais oito que não devem ser esquecidas (ou aqui, em inglês).

quarta-feira, 22 de junho de 2011

José Mattoso: sabedoria e fraternidade

Convido-vos a ver - a viver - um pouco com José Mattoso, acompanhando o seu emocionado depoimento nas recentes Jornadas da Pastoral da Cultura, disponibilizado num vídeo no site do Secretariado Nacional:

domingo, 19 de junho de 2011

À procura da Palavra - ENTRAR NA DANÇA

(Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)

“Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito.”

(Evangelho de S. João 3, 16 - Domingo da Santíssima Trindade)

Tenho um amigo que gosta de entrar nas igrejas para ver. Sim, simplesmente para ver, e não para rezar pois diz que não sabe bem o que é isso, e Deus “ainda nunca me falou para que tivesse de lhe dizer alguma coisa”. Conversamos com gosto e ele lá vai continuando a ver, e, creio, também a ouvir. Gosto especialmente do seu olhar límpido que põe a nu o ritualismo vazio e a ausência de autenticidade dos gestos, dos que acreditamos. Fica particularmente irritado com a sujidade das igrejas e a profusão de flores de plástico a proliferar nos altares como “campas de um cemitério”. Diz-me: “O hábito é uma coisa terrível. Os gestos automáticos quando se faz o sinal da cruz, o ajoelhar rápido como se fosse uma finta a Deus, as respostas decoradas como a tabuada, o ar mortiço e em jeito de funeral de muitas missas fazem-me tristeza. Claro que nem tudo é assim. Mas com que Deus se vão encontrar?”

Começamos as nossas orações com o gesto da cruz. Da cabeça ao peito, de um ombro ao outro. Afirmamos o mistério de Deus, um só Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. É com beleza e verdade que o fazemos? Como se disséssemos a senha para entrar num bailado em que o Pai nos dá a vida para amarmos, o amor mais forte que a morte; e o Filho nos marca com a beleza da sua imagem e pela Palavra feita carne para sermos sua luz no mundo; e o Espírito Santo agita as cordas da nossa harpa interior para sermos música, um cântico de verdadeiro amor? Um gesto simples e tão essencial, se deixamos Deus tirar-nos do egoísmo e do comodismo, e nos ensina a viver de braços abertos. À maneira de Jesus. Fazê-lo é entrar no movimento de Deus, sempre a querer encontrar-se connosco, sempre a lançar-nos ao encontro dos outros. Com a doçura e a suavidade de quem ensina o rodopio do seu amor, sem pisar os pés, sorrindo apenas de um tropeço ou uma queda. Porque o nosso Deus é “um Deus que dança”, título do último livro do P. José Tolentino Mendonça!

Com que Deus nos vamos encontrar?” Resiste em mim a pergunta do meu amigo. E temo a rotina de ser “tu cá, tu lá” com as coisas e os espaços sagrados, onde se contagia o perigo de ser funcionário. Se nos deixamos encontrar por Deus esse encontro transforma-nos. Deixamos os sapatos de chumbo da vida centrada em nós e aceitamos o convite para o bailado. Não precisamos do resplendor de Moisés ao descer o monte nem das vestes brancas de Jesus na transfiguração. Porque serão os outros a notar. Como os bons perfumes que sentimos quando nos aproximamos de alguém perfumado. E até o meu amigo que anda pelas igrejas a ver. Tenho esperança que um dia destes ele descubra como Deus o vê com todo o amor. E aceite entrar na dança. Dá-nos, Senhor, a alegria de darmos contigo passos de verdadeira beleza!

(Ilustração: Pablo Picasso, A Dança da Juventude, 1966)

Textos de Bento Domingues e Anselmo Borges

Textos de Bento Domingues, no "Público" de 19 de Junho (em cima) e de 12 de Junho (em baixo).



No DN de ontem, Anselmo Borges falava sobre "o reconhecimento e as suas esferas". Ler tudo aqui.
Na esfera da intimidade, há o princípio do amor, no sentido abrangente de todas as relações afectivas fortes nos domínios das relações amorosas, familiares, de amizade. Já Aristóteles observou que a vida sem amigos não valeria a pena. E Honneth sublinha a importância da relação da mãe com o bebé na construção da autoconfiança, da identidade e da autonomia. Não é na experiência do amor que radica a confiança em si próprio?