Texto de António Marujo
Vídeo de Maria Wilton
Um presépio com caixa de música: este poderia ser o símbolo da magia de Natal,
representa a dureza da vida dos cristãos palestinos de Belém
Este poderia ser um Natal mágico: um presépio com uma caixa de música a tocar os acordes de Stille Nacht (Noite feliz), talvez a mais bela canção do tempo...
Mas, para muitos cristãos da Terra Santa – e, em especial, da Palestina, o Natal não é mágico. É verdade que é em Belém que está a Igreja da Natividade, construída no local onde, segundo a tradição, Jesus teria nascido. É verdade que, por estes dias, muitos peregrinos vão à cidade, celebrar uma das festas mais importantes do cristianismo. Nada disto leva magia aos cristãos que ali vivem.
“O que acontece é que nos sentimos abandonados”, diz Nicolas, um jovem palestino “cristão católico, da cidade de Belém, o berço da fé e da paz, onde nasceu o nosso salvador do mundo, Jesus”, como se apresenta quando falamos com ele em Lisboa. Pelo quinto ano consecutivo, Nicolas está em Lisboa, até ao Natal, a vender artesanato de Belém, feito em madeira de oliveira. Presépios, imagens de Santo António, cruzes, estrelas, representações da Sagrada Família – tudo pode ser encontrado na Rua Anchieta, número 10 (ao Chiado) – ou ainda, neste domingo, 16 de Dezembro, na paróquia do Cristo-Rei, no Porto.
Nicolas trabalha na cidade de Belém como guia turístico. Para os cristãos da Cisjordânia (Palestina), a única fonte de rendimento são as actividades ligadas ao turismo. “Imaginem que os cristãos que vão visitar Fátima não ficam a dormir lá, nem vão aos restaurantes. O que está a acontecer é isso: os cristãos passam em Belém duas, três horas, visitam a Igreja da Natividade e voltam para Jerusalém.”
Deste modo, não dá para ter um mínimo de rendimento. Resultado? “Muitos pensam em emigrar.” Muitos outros já o fizeram: em menos de 50 anos, o número de cristãos em Israel e na Palestina reduziu de vinte por cento para dois por cento – são agora uns 130/140 mil em nove milhões de habitantes; em Belém, a população cristã era, em 1948 (data da fundação do Estado de Israel) oitenta por cento cristã; hoje, são caiu para menos de vinte por cento.