Texto de António Marujo
O patriarca ortodoxo Bartolomeu na Amazónia, em 2006,
O Papa Francisco escreveu ao patriarca Bartolomeu, da Igreja Ortodoxa, manifestando a ideia de que a “caminhada conjunta dos últimos cinquenta anos “ permite já “experimentar estar em comunhão, embora esta ainda não seja plena e completa”. Esse trabalho “rumo à comunhão plena deve continuar”, acrescenta o Papa, para que os cristãos possam responder às necessidades de “tantos homens e mulheres do nosso tempo, sobretudo os que sofrem de pobreza, fome, doença e guerra”.
A carta seguiu para o Fanar, a residência do primaz ortodoxo, na passada sexta-feira, 30 de Novembro, dia da festividade de Santo André, que é o patrono da Constantinopla cristã. Francisco e Bartolomeu já se encontraram várias vezes, tal como os seus antecessores, desde 1964, quando o patriarca Atenágoras e o Papa Paulo VI puseram fim a nove séculos de excomunhão mútua.
“Ambas as Igrejas, com um sentido de responsabilidade para com o mundo, sentiram o apelo urgente que leva cada um de nós, que foi baptizado, a proclamar o Evangelho a todos os homens e mulheres”, escreve ainda o Papa. Por essa razão, católicos e ortodoxos podem “trabalhar hoje em busca da paz entre os povos, pela abolição de todas as formas de escravatura, pelo respeito e dignidade de cada ser humano e pelo cuidado com a criação”. (texto integral aqui, em castelhano)
Apesar da reafirmação do desejo de unidade, esta mensagem surge num contexto em que Constantinopla e o patriarcado (também ortodoxo) de Moscovo estão de relações cortadas, depois de um acumular de tensões nos últimos anos e, sobretudo, nos meses mais recentes. Em causa, está o facto de o patriarca Bartolomeu ter reconhecido a autonomia da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, até agora dependente do patriarcado de Moscovo.
O problema é que, às razões e tensões religiosas juntam-se as divergências políticas: Moscovo e Kiev estão em guerra aberta no leste da Ucrânia, depois da anexação da Crimeia pela Rússia. E ambas as lideranças políticas apoiam a respectiva Igreja nacional na argumentação que é utilizada por ambos.
Maldições e intromissões políticas
A zanga entre Moscovo e Constantinopla passou já por afirmações de maldição, orações que se deixaram de fazer e intromissões políticas, culminando com o corte de relações desde Outubro. Antes dele, os ortodoxos russos tinham deixado de rezar pelo patriarca Bartolomeu, de Constantinopla – que tem a primazia de honra na ortodoxia –, e este acusara o metropolita Hilarion Alfeyev (número dois e “ministro” dos estrangeiros do patriarcado russo) de ter mentido no processo.