Anselmo Borges escreve na última crónica do DN (19 Maio 2012) sobre... o tempo: "A vida boa é definida pela riqueza das experiências que podemos ter. Multiplicar por dois a velocidade permite multiplicar por dois as experiências. É isso que de modo difuso procuramos no prazer que pomos em multiplicar as nossas actividades". Pergunta-se: e somos mais felizes?" Ler tudo aqui
segunda-feira, 21 de maio de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
Sem silêncio não há comunicação, mas com silêncio pode também não haver
Convido o leitor a adivinhar quem poderá ser o autor das seguintes afirmações:
“[D]esejo partilhar convosco algumas reflexões sobre um aspecto do processo humano da comunicação que, apesar de ser muito importante, às vezes fica esquecido, sendo hoje particularmente necessário lembrá-lo. Trata-se da relação entre silêncio e palavra: dois momentos da comunicação que se devem equilibrar, alternar e integrar entre si para se obter um diálogo autêntico e uma união profunda entre as pessoas. Quando palavra e silêncio se excluem mutuamente, a comunicação deteriora-se, porque provoca um certo aturdimento ou, no caso contrário, cria um clima de indiferença; quando, porém se integram reciprocamente, a comunicação ganha valor e significado. O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo”.
O autor destas reflexões não é conhecido por ser um grande pensador dos processos da comunicação humana, mas isso não significa que o que diz não mereça figurar nos tratados sobre a comunicação e não venha, de facto, de um grande pensador. O excerto é, na verdade, do Papa Bento XVI e faz parte da mensagem que propôs para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se celebra no próximo domingo.
Vale a pena ler o texto na íntegra, visto que apresenta uma dimensão dos processos comunicativos absolutamente crucial para os tempos que vivemos. Depois de, na mensagem de 2011, o Papa ter chamado a atenção para outra vertente essencial – «quando as pessoas trocam informações, estão já a partilhar-se a si mesmas, a sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais» - desta vez, convoca o silêncio. Não o silêncio dos pusilânimes, mas o silêncio ativo dos que buscam a verdade, se interrogam , meditam e, por essa via, se colocam à escuta, procuram discernir o que faz sentido e vale a pena, dão espaço e tempo aos outros, aos que verdadeiramente nos questionam.
“Aprender a comunicar é aprender a escutar, a contemplar, para além de falar”, diz ainda o Papa.
Mas, se é verdade que sem silêncio não há comunicação, não é menos verdade que, com silêncio também pode não haver. Depende do sentido em que o silêncio é experimentado. E muitas pessoas, inclusive na Igreja, vivem o silêncio não como experiência desejada e como atitude de escuta do outro, mas como resultado de atos de silenciamento. E não se trata sequer de inimigos, mas de pessoas que pensam de modo diferente.
Sempre que o silêncio é unilateral - ou seja, exigido a outros para que nos escutem - é falso e nega a comunicação. Mais: tenho para mim que é sinal de fraqueza de quem o procura impor.
Que revolução se faz necessária para dar, hoje, nas nossas circunstâncias, substância a estes desafiosos!
(Uma versão mais reduzida deste texto foi publicada no diário digital Página 1 de 14.05.2012)
sábado, 19 de maio de 2012
B. Häring: "Vejo com profunda preocupação..."
Escrevia assim o P. [Bernard] Häring há 20 anos (in “La teología ante el tercer milenio”, en: Marciano Vidal, Conceptos fundamentales de ética teológica, ed. Trotta, Madrid, 1992, 15-33):
… Vejo com profunda preocupação como nesta última década do século XX se vai agudizando uma neurose coletiva, de tipo paternalista... Todos desconfiam de todos, recompensa-se os delatores, e há sempre arrivistas dóceis e sem escrúpulos, que medram com as circunstâncias…
… Há uma minoria, em sintonia com o até há pouco chamado Santo Oficio e profundamente envolvida na nomeação de bispos, que pretende impor a toda a Igreja os seus critérios particulares: aos ‘bons’ católicos, que muitas vezes se sentem inseguros e mesmo perplexos, oferece-lhes o seu monopólio de seguranças, a sua verdade absoluta, … aos católicos críticos impõe-lhes o reconhecimento desse monopólio absoluto em todas as questões relativas à fé e aos costumes, sob pena de sanção disciplinar ou mediante a exigência de um juramento de fidelidade às suas directrizes.
Uma empresa que, após ter perdido os seus direitos de exclusividade, continua a comportar-se como se continuasse a possuir todos os seus monopólios e corta sistematicamente as asas às suas forças mais criativas, não demorará a ver-se sem clientela e inclusivamente privada dos seus mais dinâmicos colaboradores…” A voz profética do P. Häring não necessita de comentário.
Post de Juan Massiá en Religión Digital a propósito da advertência da Comissão Episcopal da Doutrina da Fé de Espanha ao teólogo Andrés Torres Queiruga
Marcadores:
Andrés Torres Queiruga,
Bernard Häring,
Juan Masiá
sexta-feira, 18 de maio de 2012
O Papa, o descanso, a família e os feriados
O Papa Bento XVI voltou a apelar, na audiência-geral desta quarta-feira,
ao respeito do domingo como “dia de descanso”, pedindo atenção à necessidade do
“equilíbrio entre duas questões estreitamente ligadas: a família e o trabalho”,
noticiou a Ecclesia.
Na sua alocução, Bento XVI referiu mesmo que o trabalho “não deveria
colocar obstáculos à família, mas, pelo contrário, sustentá-la e uni-la,
ajudá-la à abrir-se à vida e a entrar em relação com a sociedade e com a
Igreja”.
A intervenção do Papa não pode vir mais a propósito, nestes tempos de
crise económica em toda a Europa e poucos dias depois de ter sido anunciado o
acordo entre Portugal e a Santa Sé acerca da suspensão de dois feriados
religiosos – o Corpo de Deus e o Dia de Todos os Santos – além dos dois civis
(5 de Outubro e 1 de Dezembro) cuja suspensão (ou eliminação) o Governo também
já decidira.
Nos últimos anos, e mais ainda nos últimos meses, tem-se instalado um
discurso que pretende convencer-nos que as pessoas estão destinadas apenas a
ser máquinas de produção. Temos todos que produzir mais, que trabalhar mais,
que fazer mais, dizem-nos. Mesmo se todas as estatísticas nos mostram que
Portugal é já dos países da União Europeia (e mesmo da OCDE) com mais horas de
trabalho por dia ou por semana, como se pode reler aqui.
O problema, portanto, não está em trabalhar mais (talvez esteja, sim, na
deficiente organização do trabalho; ou na falta de cultura de muitos
empresários; ou na pequena corrupção; ou na injusta remuneração e consequente
incapacidade de mobilizar as pessoas para objectivos comuns; ou...). Até porque,
agora, ao trabalhar mais corresponde receber menos (pelo menos para quem já
recebe menos, como se soube segunda-feira, a propósito das 20 maiores empresas
cotadas na Bolsa de Lisboa; ao contrário, quem já recebia mais, mais ficou a
ganhar).
A questão dos feriados não é, por isso, uma questão menor. E esteve mal
a hierarquia católica em Portugal, ao aceitar abdicar de duas datas festivas
sem ter chamado a atenção do Governo para as duas questões centrais que estavam
em causa: que a antropologia cristã, como tantas vezes lemos e ouvimos, nos diz
que as pessoas não são apenas máquinas de produzir e que necessitam também do
lazer, da festa, da família, dos amigos, do desporto, da cultura, do espírito;
e que dois feriados a menos não são solução de espécie alguma para a economia
portuguesa, como tantos economistas e investigadores têm feito notar.
Pena que o discurso do Papa não tenha tido mais eco.
Já agora: também é pena que alguns sectores e algumas pessoas barafustem
tanto com a “intromissão” do Vaticano na vida do país; era mais saudável se
protestassem antes contra o que verdadeiramente está em causa – a dignidade
humana e uma concepção de pessoa que não nos vê apenas como roldanas de uma
máquina.
terça-feira, 15 de maio de 2012
A crise, quando nasce e cresce, não é para todos
O Público noticiava ontem com destaque que "Gestores do PSI-20 ganham 44 vezes mais que os trabalhadores". E explicava:
"Os salários dos gestores das principais cotadas na bolsa de Lisboa não seguiram a tendência geral de perda de rendimentos que se verificou em 2011. As remunerações dos presidentes executivos destas 20 empresas aumentaram 5,3%, para 17,6 milhões de euros. Já a média salarial dos trabalhadores caiu quase 11%."Comentando esta informação, escreve hoje Manuel António Pina, no Jornal de Notícias:
"A notícia ontem conhecida segundo a qual as remunerações dos gestores das principais empresas cotadas subiram 5,3% em 2011 enquanto o salário médio dos trabalhadores (dos privilegiados que ainda têm trabalho e salário) baixou quase 11%, apenas confirma - se isso precisasse de confirmação - a quem está o Governo a cobrar os custos da "crise" e contra quem é dirigida a política de "empobrecimento" de que fala o primeiro-ministro.
Cresceu igualmente o fosso da desigualdade entre salários de topo e de base: em 2010, os executivos recebiam 37 vezes mais do que os trabalhadores; em 2011, com a propalada "austeridade para todos", essa diferença aumentou... para 44 vezes".
"Vemos, ouvimos e lemos" todos os dias que as desigualdades, o desemprego e a precariedade não páram de crescer. Neste quadro, será razoável e ético, já para não dizer evangélico, que, salvo poucas excepções, os discursos que predominam nos principais responsáveis da nossa Igreja como que elidam a questão da justiça social, reduzindo os desafios desta hora ao socorro aos mais necessitados, sem pôr, ao mesmo tempo, em evidência e denunciar com vigor os processos e políticas que produzem a miséria e o abandono? Não se estará a reduzir e a truncar a riqueza da Doutrina Social da Igreja, em nome de lógicas, conveniências ou interesses que não podem ser certamente os do Evangelho? Bastaria, para tanto, dar publicamente respaldo ao que tem dito e publicado a Comissão Nacional Justiça e Paz e os movimentos operários católicos.
(Crédito da foto: AMBCVLumiar Blog)
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Músicas que falam com Deus (13) - Silêncio
Guardamos-te, Bernardo, na tua música e no nosso coração.
(uma evocação aqui, escrita pelo Francisco Marujo)
(uma evocação aqui, escrita pelo Francisco Marujo)
A crise, os mais vulneráveis e a fraternidade operativa
“A Cáritas Europa está preocupada com a evolução das políticas
atuais, que considera de solução fácil e a curto prazo não enfrentando os
desafios fundamentais das nossas sociedades”, noticia a agência Ecclesia. Os responsáveis da instituição manifestaram-se mesmo “alarmados” com os efeitos da crise económica sobre os “mais vulneráveis da sociedade”.No sábado, a propósito das críticas que diversos teólogos espanhóis têm feito ao poder financeiro internacional, Anselmo Borges recordava, na sua coluna do DN, a referência de Xabier Pikaza à actual “santíssima trindade” que nos domina: "A Trindade cristã era formada por Deus Pai, o Filho Jesus Cristo (que éramos todos os seres humanos) e o Espírito Santo (que era a comunhão ou amor entre Deus e os seres humanos, entre todos os seres humanos). Mas agora surgiu uma Trindade diferente, formada por Deus-Capital (que não é Pai, mas monstro que tudo devora), pelo Filho-Empresa, que não redime, mas produz bens de consumo ao serviço dos privilegiados do sistema, e pelo Espírito Santo-Mercado, que não é comunhão de amor, mas forma de domínio de uns sobre os outros."
A ditadura financeira actual (é disso que se trata) já nem se esconde atrás de subterfúgios: sexta-feira passada, dois ministros alemães – o das Finanças e o dos Negócios Estrangeiros – disseram que Grécia e França teriam que cumprir os programas de austeridade (assim chamados, mas que são de austeridade apenas para alguns). Os povos votam, têm a ilusão de estar a decidir o seu futuro através desse exercício democrático, mas a meia-dúzia de iluminados que nos desgovernam é que pretendem ditar as regras.
Hoje, no Público, ficámos a saber que os salários dos presidentes das empresas do PSI-20 (as mais importantes do país) subiram 5,3 por cento, ao contrário dos salários dos trabalhadores, cuja média desceu 11 por cento.
Em Fátima, na tarde de dia 12, o bispo de Leiria-Fátima, António Marto, disse que “os mercados foram criados para servir a humanidade e não a humanidade para servir os mercados”. E na homilia da missa com que encerrou a peregrinação de 13 de Maio, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Cosenlho Pontifício da Cultura, dizia que os cristãos não deviam “ter medo de sujar as mãos, ajudando os miseráveis da terra” e empenhando-se numa “fraternidade operativa”.
Uma fraternidade operativa que passa hoje, parece-me, em primeiro lugar, pela denúncia da usurpação de direitos a que os mesmos mercados e a ditadura financeira nos tem submetido - tirando cada vez mais gente para o leque dos "miseráveis" da terra - ou os mais vulneráveis, na expressão da Cáritas. A questão da justiça social deve voltar a ser colocada, desde logo, através do re-questionamento do papel do Estado na redistribuição da riqueza. Porque se o Estado (e os governos) não serve para isso, então de pouco serve(m). Esse é, seguramente, um dos desafios fundamentais dos tempos que vivemos.
(ilustração: Cáritas Europa)
domingo, 13 de maio de 2012
Abusos sexuais do clero: dez anos depois
São passados dez anos sobre a eclosão, nos Estados Unidos da América, do escândalo do abuso sexual sobre crianças e adolescentes por parte de membros do clero, na sua maioria na segunda metade do séc. XX. A onda de denúncias de abusos semelhantes propagou-se, entretanto, a outras partes do mundo. O Vaticano e diversos episcopados, sob a égide do atual Papa, tomaram, na última década, medidas para lidar com estas situações e prevenir novos casos. Mas inúmeros aspetos se mantêm em aberto e muitas mais questões continuam sem ser afrontadas. Nesta sexta-feira, um conjunto de personalidades reuniu-se na Universidade de Santa Clara, na Califórnia, para uma espécie de ponto de situação. Intitulou-se a conferência “Clergy Sexual Abuse Ten Years Later”. Um dos conferencistas convidados foi o padre jesuita Thomas J. Reese, do Woodstock Theological Center em Georgetown e antigo diretor editorial da revista America. As notas que se seguem são extratos da sua conferência:
Ler o texto integral, em inglês, AQUI.
"Primeiro, acho que a igreja - e por igreja eu quero dizer tanto o clero como o povo de
Deus - precisa de re-equacionar a sua atitude para com os sobreviventes de abuso sexual. (...) [N]ão devemos olhar para as vítimas de abuso simplesmente como clientes ou problemas com que temos de lidar (...) precisamos de ver os sobreviventes de abuso como pessoas que podem ensinar-nos o que significa ser cristão, o que significa ser igreja. Ninguém que ouve as suas histórias pode deixar de ser tocado por eles. Isto significa que não podemos responder a cada nova vítima que surge com "Oh, não, mais outro!" Ao contrário, temos de vê-los como parte integrante da nossa comunidade, pessoas que devem ser acolhidas. Tal atitude encorajaria a igreja a chegar aos milhares de vítimas de abuso sexual que não se manifestaram. Queremos que eles se cheguem à frente, a igreja precisa deles". (...)
"Terceiro, nós ainda não temos um sistema orientado para a prestação de contas por parte dos bispos. É uma desgraça que só um bispo (o Cardeal Law) se tenha demitido por causa de sua incapacidade de lidar com a crise de abuso sexual. A igreja seria um lugar muito melhor, hoje, se 30 ou mais bispos se tivessem levantado, reconhecido os seus erros, assumido responsabilidades integrais, pedido desculpas e se tivessem demitido. É suposto que um pastor dê a vida pelas suas ovelhas; estes homens não estiveram dispostos a depor o báculo para o bem da igreja".
Os bispos também têm que estugar o passo e fiscalizar-se a si próprios. Eu sei que "à luz do Direito Canónico, só o papa pode julgar um bispo". Mas há muitas coisas que os bispos podem fazer, em todo o caso. Primeiro, devem falar e criticar publicamente aqueles bispos que não estão a seguir a 'carta' [com as normas a seguir relativamente a casos de abusos sexuais do clero, de 2002] ou que falham nas suas responsabilidades. Os bispos, incluindo, claro está, o presidente da conferência episcopal, devem poder dizer "Que vergonha, bispo, ponha a sua casa em ordem". Isto não é um julgamento canónico, é correção fraterna. O Vaticano também precisa de fazer a sua parte. Parece não ter qualquer problema quando se trata de investigar freiras e teólogos, mas investigar um bispo por má gestão não é uma prioridade. Um bispo pode ser rapidamente removido na Austrália por sugerir a necessidade de discutir o tema da ordenação das mulheres e de padres casados, mas já os bispos que falharam na gestão dos abusos sobre crianças não são removidos. Apenas o foram, em alguns cssos, na Irlanda por ação de um arcebispo corajoso e da pressão do primeiro-ministro e do governo.(...)"
"O problema hoje, na Igreja Católica, é que a sua hierarquia se centrou tanto na obediência e no controle que perdeu a capacidade de ser uma instituição de correção fraterna. A hierarquia ataca os teólogos criativos, investiga as religiosas, censura as publicações católicas convertendo a lealdade na virtude mais importante. Tais ações são justificadas pela hierarquia por causa do temor de "escandalizar os fiéis", quando na verdade foi a hierarquia que os escandalizou".
Ler o texto integral, em inglês, AQUI.
Monoteísmo conduz ao fundamentalismo?
Hoje ao serão (22h30), Paula Moura Pinheiro conversa, no programa Câmara Clara da RTP2, com Anselmo Borges e João Gouveia Monteiro, ambos docentes da Universidade de Coimbra. Um dos motes é debater se o monoteísmo conduz ao fundamentalismo. Mas vários outros temas de atualidade serão tratados, como se pode ler no press release distribuído pelo programa:
"Na semana em que a Santa Sé chegou a acordo com a República Portuguesa sobre os feriados religiosos a suprimir, uma conversa sobre os limites do laicismo do Estado. Anselmo Borges é padre, teólogo, Professor de Filosofia na Universidade de Coimbra e autor em questões religiosas. João Gouveia Monteiro é ateu, Professor de História na Universidade de Coimbra e autor em questões de História Medieval e de Civilização e cultura. Ambos organizaram o colóquio internacional que agora dá origem ao livro As Três Religiões do Livro, editado pela Imprensa da Universidade de Coimbra, e ambos convergem em diversas ideias. Duas dessas ideias: a escola pública contemporânea devia ensinar História das Religiões, há mais verdade no conjunto de todas as religiões que numa só religião. O mau tratamento a que as mulheres são sujeitas nas três religiões do livro e as melhores edições da Tora, da Bíblia e do Corão em português são outros dos temas tratados".
Marcadores:
Anselmo Borges,
Ateísmo,
Igreja Católica,
Religiões
domingo, 6 de maio de 2012
"Gosto de gente convicta, mas..."
A palavra de Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias:
Ler o texto de João César das Neves AQUI
"João César das Neves (JCN) na sexta-feira passada foi a Fátima, onde disse (cito a Lusa, que é laica, e cito o site Fátima Missionária, que não o é) que "o verdadeiro problema da saúde é religioso e a solução para o ultrapassar está na Igreja Católica". Antes, JCN diagnosticara os problemas da saúde em Portugal, assim: "A saúde comeu de mais e sofre de obesidade, tem vida sedentária, já experimentou vários tratamentos mas não terminou nenhum, em consequência, tem a tensão alta, tonturas e depressão." E desse quadro clínico passou para o tal remédio: "A solução" é o trabalho da comunidade cristã. Gosto de gente convicta mas receei que a solução única de JCN - ou se vai por aqui (pela via religiosa), ou nada... - pudesse de alguma forma impedir outras hipóteses de remédio. É que eu estava particularmente sensível à arrogância, naquela sexta-feira, dia 4, em que ouvi JCN. Porque por um daqueles milagres que abalam até infiéis como eu, Miguel Esteves Cardoso tinha respondido, no dia 3, ao que JCN escreveria no dia seguinte. MEC, que é crente como JCN, tem o seu amor muito doente. Com o seu jeito sagrado para as palavras, MEC tem exposto a sua dor em público (que ninguém mais tente, só ele o sabe). Naquele dia, no Público, ele escreveu uma carta a Deus. E ele dizia a Deus: "Ajuda a Maria João, se puderes. Se não puderes, não dificultes a vida a quem pode ajudar."A resposta dada no dia anterior - DN
Ler o texto de João César das Neves AQUI
quarta-feira, 2 de maio de 2012
"Para que cada vez mais gente seja gente"
Frei Fernando Ventura, em debate, ontem, com Ana Lourenço, no programa Contracorrente, na SIC Notícias, transcrito pela jornalista Helena Teixeira da Silva.
(Via: Pedro Santos Guerreiro)
"Não é tempo de pendurar as esperanças no senhor do tempo, num qualquer messias. Este
tempo é um ponto de chegada, um momento de antítese, dos ismos todos que não funcionaram à espera da síntese final. É um tempo em que a nossa missão é ser gente com gente para que cada vez mais gente seja gente. É o tempo da serenidade consciente, que terá de levar fatalmente à cidadania praticante. Eu tenho muito medo dos cidadãos não praticantes. É tempo de mobilizar a urgência urgente deste tempo. Não são os nossos governos que nos governam! Nós vivemos numa fatalidade edipiana de termos de bater no pai, mas o pai é pobre. Por ali não haverá salvação.
Quando vi as imagens do Pingo Doce, fiquei triste e alarmado. Vi isto na Venezuela, com o Chavez, exactamente o mesmo tipo de reacção. Fiquei com esta imagem como um ícone, ou como um contra ícone, uma mensagem de sinal contrário daquilo que é uma das urgências a descobrir hoje. Desde logo, querem convencer-nos que economia e finanças é a mesma coisa - e não é. As finanças serão uma pequena parte daquilo que é a economia, a gestão da casa, que tem de ser uma casa comum. Estamos confrontados com um discurso de inevitabilidades - que não existem! Nós, enquanto seres humanos, independentemente das nossas sensibilidades políticas ou religiosas ou seja o que for, nós enquanto seres existimos entre dois abismos de solidão: nascemos sozinhos e morremos sozinhos, ninguém nasce por nós e ninguém morre por nós. O desafio e o bloqueio que neste momento nos mata... porque a crise não é económica, a crise é racional acima de tudo. A crise tem a ver com isto: quem és tu para mim? Nestes dois limites de solidões, aquilo que se nos pede enquanto seres humanos é que sejamos capazes de criar redes de solidariedade. Desculpem lá puxar a brasa para a minha sardinha franciscana: nós vivemos um mito urbano quando para se falar dos franciscanos se continua a falar da pobraza franciscana, como se Francisco de Assis fosse tolinho da cabeça e como se alguém no seu perfeito juízo fosse capaz de optar por um não-valor. O que Francisco traz à História é uma opção pela fraternidade, o que é outra coisa - e tem consequências. Tem consequências na relação com o outro, tem consequências naquilo que tem que ser - e isto é que nos vai doer muito - o milagre que pode levar à saída da crise. Não quero proclamar que tenho a chave para a saída da crise, mas tenho pelo menos uma pista de reflexão. Ou pelo menos uma ideia que gostava de partilhar. Há uma ideia que me arrelia muito: nos últimos tempos, temos uma sociedade marcada por uma partidarite aguda, tribalizada. E a partidarite é uma inflamação da democracia. Vivemos esta falta de ideias e tantas vezes damos conta que em vez de termos uma linha de pensamento, só temos uns gatafunhos ideológicos que nos matam e que nos prendem, que não nos deixam depois chegar a esta que pode ser uma primeira pista de reflexão para nos entendermos e para nos situarmos. Porque quando o cinzento é a cor da moda, o arco-íris é um insulto. E nós estamos cinzentos, demasiado cinzentos.
Deixem-me deixar esta ideia bíblica: nós, em alguns arroubos místico-gasosos, ficamos muito alarmados e muito agitados interiormente com a multiplicação dos pães e dos peixes. Se nós percebêssemos o que está ali, se nós percebêssemos o desafio de construção social e de acusação contra o egoísmo cego do capitalismo que mata a História, ou dos ismos todos, quaisquer que eles sejam, quando a pessoa não está no centro, e que matam a História!... Sejam totalitarismos de direita ou totalitarismos de esquerda (mantendo-nos ainda nesta linguagem primitiva de separações destes géneros). O que aconteceu naquele momento? A cena é descrita como tendo sido ao final da tarde, imensa gente, tudo cheio de fome, é preciso dar de comer a esta gente. A resposta de Jesus à cena foi: "dai-lhes vós de comer". Pânico! Como é que vamos arranjar de comer para esta gente toda? Quem teve a solução ali naquele momento? Um catraio, alguém que não tem nada a perder. Só uns pães e uns peixes. Só houve multiplicação porque houve divisão. A solução tem que passar por aqui: é preciso dividir para multiplicar e é preciso somar sem subtrair nada a ninguém. O segredo está aqui. A chave está aqui. E por aqui pode construir-se a esperança. Por aqui pode criar-se redes de relações, por aqui pode dizer-se às pessoas que a esperança é possível. É preciso organizar esta esperança.
Eu, hoje, vi as cenas do Pingo Doce e vi as cenas das manifestações das duas centrais sindicais. As manifestações têm uma função catártica, porque é preciso gritar e é preciso explodir e é preciso libertar energias. Mas depois do final da manifestação, depois de enrolar a bandeira, o que é que eu faço com aquilo, para onde vai a minha desesperança? Eu que deixei a minha centralidade, e aqui voltamos a Imaus, eu que deixei a minha esperança pendurada na centralidade de uma Jerusalém qualquer, e vou a caminho da minha Imaus do desespero. Hoje não são só dois que vão a caminho de Imaus do desespero, são milhões no mundo inteiro, que perdem o emprego, que deixam de poder satisfazer as necessidades da sua família, onde a esperança desaparece. São às centenas os que morrem como gatos afogados no mediterrâneo a saltar do Norte de África para chegar a Lampedusa, à Sicília, às costas do Sul de Espanha. É este subir, pegar no cachorro para ver o muro do outro lado. Quem tem a História nas mãos somos nós. As revoluções nunca se fazem pelas estruturas, as revoluções começam por baixo contra as estruturas. As estruturas são coisas estáticas, têm um medo desgraçado de serem tocadas. Isto é a piscina de água choca, está toda a gente com a água por aqui [pelo pescoço], quando alguém faz onda, todos gritam: não faças ondas! Todas as estruturas sofrem deste mal.
Hoje, depois da manifestação, pensei: para que Imaus vai esta gente? Que esperança podemos trazer à História? Será que as centrais sindicais, a Igreja, as associações do bairro, não têm uma responsabilidade social? Têm! Têm que ter! A nossa resposta e o nosso grito não pode ser só enrolar a bandeira até à próxima manifestação ou até à próxima greve geral. É preciso sermos imaginativos e fazer outra coisa. Deixem-me ser profundamente demagógico agora: nós estamos todos com a corda ao pescoço. De cada vez que metemos gasolina, os nossos carros andam a impostos, 84% do que metemos no carro são impostos e aquilo anda. E os preços estão a subir, não porque a matéria prima esteja a subir, mas porque o consumo está a baixar. Isto é maquiavélico, um ciclo vicioso. Temos quatro companhias em Portugal a vender gasolina. O Governo já disse, pela activa e pela passiva, várias vezes, que não tem poder para mexer naquilo. O lobi está instalado. Mas nós temos maneira de mexer. Imagine que durante uma semana a CGTP e a UGT dizem: esta semana ninguém compra gasolina e gasóleo em duas destas marcas. Aqueles senhores, ao fim de uma semana, terão os preços mais baixos. E as outras duas vão ter que baixar também, por causa da concorrência. De cada vez que vou na auto-estrada sinto-me insultado. Porque é que gastaram aqueles milhões a colocar aqueles painéis sobre a informação de preços quando os preços são todos iguais? Isso é brincar!
Ou nos galvanizamos ou nos albanizamos! Não há via do meio."
(Via: Pedro Santos Guerreiro)
Luz nas trevas
Naquele tempo, Jesus levantou a voz e disse: «Quem crê em mim não é em mim que crê, mas sim naquele que me enviou;
e quem me vê a mim vê aquele que me enviou.
Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em mim não fique nas trevas.
Se alguém ouve as minhas palavras e não as cumpre, não sou Eu que o julgo, pois não vim para condenar o mundo, mas sim para o salvar.
Evangelho segundo S. João 12,44-48
e quem me vê a mim vê aquele que me enviou.
Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em mim não fique nas trevas.
Se alguém ouve as minhas palavras e não as cumpre, não sou Eu que o julgo, pois não vim para condenar o mundo, mas sim para o salvar.
Evangelho segundo S. João 12,44-48
domingo, 29 de abril de 2012
"Identidades religiosas em Portugal": comentários de Anselmo Borges
Anselmo Borges comenta, na sua coluna semanal no DN, os resultados do inquérito sobre "Identidades religiosas em Portugal: identidades, valores e práticas - 2011", realizado pela Universidade Católica. Escreve ele, a dado ponto:
" (...)Como conclui o relatório assinado por Alfredo Teixeira, do Centro de Estudos de Religiões e Culturas, da UC, referindo-se à reconfiguração da pertença religiosa em Portugal, "pode observar-se um decréscimo relativo da população que se declara católica e um incremento da percentagem relativa às outras posições de pertença religiosa, com um particular destaque para o universo protestante (incluindo os evangélicos)". "Globalmente, o crescimento relativo dos sem religião em relação ao número de católicos é mais pronunciado do que o crescimento do número dos pertencentes a outras denominações religiosas. Isto é particularmente relevante no caso da categoria 'crentes sem religião'" (4,6%). O conjunto constituído pelos não crentes concentra-se na região de Lisboa e Vale do Tejo.Ler o texto completo: "Menos católicos mais católicos?" (DN, 28.4.2012)
Como escreveu Vasco Pulido Valente, a diminuição percentual dos católicos "não se pode tratar como uma catástrofe" (já a sua afirmação de que "o católico típico português, como se esperaria, é hoje uma mulher da província e de meia-idade, longe de qualquer cidade importante e sem educação escolar (ou sem quase educação escolar)" é uma caricatura apressada). De qualquer modo, dizer, como fez o porta-voz da CEP, que "o que é essencial é a qualidade e não a quantidade" pode ser uma resposta preguiçosa.
As explicações para a situação são múltiplas, e a Igreja não é a única responsável. Assim, não se pode esquecer a secularização da consciência nem o materialismo e o hedonismo da nossa cultura bem como a abertura maior do mercado religioso, também por causa da imigração. O sentido de mais autonomia, maior prosperidade e a escolarização poderão contribuir para a indiferença religiosa, o ateísmo e a crença sem pertença. Mas, por parte da Igreja, não poderá ignorar-se a influência negativa dos escândalos da pedofilia, a ostentação do Vaticano, a hierarquização, que não favorece a real participação dos fiéis e nomeadamente das mulheres, a quebra no dinamismo pastoral do clero, a inadaptação aos novos tempos, concretamente no domínio sexual, que conduz a fracturas face à doutrina oficial.(...)"
Marcadores:
Anselmo Borges,
Portugal,
Prática religiosa,
Religiões
domingo, 22 de abril de 2012
À Procura da Palavra - O mesmo e Outro
(Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)
Os encontros com Jesus ressuscitado são sempre surpreendentes. Passam do desconhecimento inicial à alegria do reconhecimento. Uma saudação de paz, o susto e o medo, as dúvidas, o sopro do Espírito, e a missão de levar a Boa Nova são alguns temas comuns dos relatos. É sempre a dificuldade de colocar na estreiteza das palavras o esplendor deste acontecimento. Mas o importante é que estes encontros mudam a vida daqueles que os experienciam. Sendo os mesmos, é como se ficassem também outros: capazes de afastar o medo e de ousar viver como nunca tinham imaginado!
As mãos e os pés de Jesus trazem as marcas da paixão. Não é indiferente esta insistência que São Lucas apresenta: Jesus não foi homem a fingir, nem a ressurreição apagou as marcas do sofrimento. E é como companheiro, como amigo que se preocupa com o desânimo dos discípulos de Emaús e com o medo dos apóstolos fechados em casa, que Ele se aproxima. A vida que vence a morte não acontece sem a lâmina do sofrimento. Várias vezes o convite a seguir Jesus foi apresentado com o horizonte da cruz. Por dentro destes dias difíceis que são os nossos, a dúvida, o medo e até a sensação do abandono de Deus estão presentes. É também por dentro das nossas portas fechadas que o mesmo Jesus se apresenta. Para ajudar a descobrir novos significados da vida, novos modos de sermos com os outros. Sermos os mesmos na identidade mais profunda, mas outros na esperança transformadora!
Ainda mal refeitos da surpresa e iluminados para compreenderem que as Escrituras falam de Jesus, os discípulos foram logo enviados como testemunhas. A sua universidade foi o Espírito Santo e o seu método o amor que haviam de colocar nas palavras e nos gestos. Refazendo as pontes entre as pessoas. Levando a misericórdia e o perdão a todas as realidades feridas. Reinventando em cada tempo os projectos que podem unir as pessoas, levando-as a darem o melhor de si mesmas, a comprometerem-se na mudança do que está mal e degrada o ser humano. Partilhando o trabalho e a festa, vencendo o desânimo e a amargura. O encontro com Jesus ressuscitado não torna a vida mais fácil; torna-a mais plena. E as marcas das nossas paixões são marcas de um amor dado em total gratuidade.
“Portugal com menos católicos” é o primeiro eco de um estudo do Centro de Estudos de Religiões e Culturas da Universidade Católica Portuguesa. Para lá dos números, que ressurreição nos pedirá a análise mais profunda deste estudo? “Enterrar a cabeça como a avestruz” será recusar os apelos do Espírito de Jesus! Que “mesmo” guardar sem impedir que possamos ser “outro”?
"Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo." (Evangelho segundo S. Lucas, 24, 39 - Domingo III da Páscoa)
Ilustração reproduzida daqui
Os encontros com Jesus ressuscitado são sempre surpreendentes. Passam do desconhecimento inicial à alegria do reconhecimento. Uma saudação de paz, o susto e o medo, as dúvidas, o sopro do Espírito, e a missão de levar a Boa Nova são alguns temas comuns dos relatos. É sempre a dificuldade de colocar na estreiteza das palavras o esplendor deste acontecimento. Mas o importante é que estes encontros mudam a vida daqueles que os experienciam. Sendo os mesmos, é como se ficassem também outros: capazes de afastar o medo e de ousar viver como nunca tinham imaginado!
As mãos e os pés de Jesus trazem as marcas da paixão. Não é indiferente esta insistência que São Lucas apresenta: Jesus não foi homem a fingir, nem a ressurreição apagou as marcas do sofrimento. E é como companheiro, como amigo que se preocupa com o desânimo dos discípulos de Emaús e com o medo dos apóstolos fechados em casa, que Ele se aproxima. A vida que vence a morte não acontece sem a lâmina do sofrimento. Várias vezes o convite a seguir Jesus foi apresentado com o horizonte da cruz. Por dentro destes dias difíceis que são os nossos, a dúvida, o medo e até a sensação do abandono de Deus estão presentes. É também por dentro das nossas portas fechadas que o mesmo Jesus se apresenta. Para ajudar a descobrir novos significados da vida, novos modos de sermos com os outros. Sermos os mesmos na identidade mais profunda, mas outros na esperança transformadora!
Ainda mal refeitos da surpresa e iluminados para compreenderem que as Escrituras falam de Jesus, os discípulos foram logo enviados como testemunhas. A sua universidade foi o Espírito Santo e o seu método o amor que haviam de colocar nas palavras e nos gestos. Refazendo as pontes entre as pessoas. Levando a misericórdia e o perdão a todas as realidades feridas. Reinventando em cada tempo os projectos que podem unir as pessoas, levando-as a darem o melhor de si mesmas, a comprometerem-se na mudança do que está mal e degrada o ser humano. Partilhando o trabalho e a festa, vencendo o desânimo e a amargura. O encontro com Jesus ressuscitado não torna a vida mais fácil; torna-a mais plena. E as marcas das nossas paixões são marcas de um amor dado em total gratuidade.
“Portugal com menos católicos” é o primeiro eco de um estudo do Centro de Estudos de Religiões e Culturas da Universidade Católica Portuguesa. Para lá dos números, que ressurreição nos pedirá a análise mais profunda deste estudo? “Enterrar a cabeça como a avestruz” será recusar os apelos do Espírito de Jesus! Que “mesmo” guardar sem impedir que possamos ser “outro”?
terça-feira, 10 de abril de 2012
"A luz torna possível a vida; torna possível o encontro; torna possível a comunicação; torna possível o conhecimento, o acesso à realidade, à verdade"
Vale a pena ler a homilia de Bento XVI dedicada à luz, na Vigília Pascal (7 de abril):
Queridos irmãos e irmãs!
A Páscoa é a festa da nova criação. Jesus ressuscitou e nunca mais morre. Arrombou a porta que dá para uma nova vida, que já não conhece doença nem morte. Assumiu o homem no próprio Deus. «A carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus»: dissera São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (15, 50). E todavia Tertuliano, escritor eclesiástico do século III, a propósito da ressurreição de Cristo e da nossa ressurreição, não temera escrever: «Tende confiança, carne e sangue! Graças a Cristo, adquiristes um lugar no Céu e no Reino de Deus» (CCL II, 994). Abriu-se uma nova dimensão para o homem. A criação tornou-se maior e mais vasta. A Páscoa é o dia duma nova criação, mas por isso mesmo, neste dia, a Igreja começa a liturgia apresentando-nos a criação antiga, para aprendermos a compreender bem a nova. E assim, na Vigília Pascal, a Liturgia da Palavra começa pela narração da criação do mundo. A propósito desta e no contexto da liturgia deste dia, são particularmente importantes duas coisas. Em primeiro lugar, a criação é apresentada como uma totalidade da qual faz parte o fenômeno do tempo. Os sete dias são imagem duma totalidade que se desenvolve no tempo, aparecendo os dias ordenados até ao sétimo, o dia da liberdade de todas as criaturas para Deus e de umas para as outras. Por conseguinte, a criação está orientada para a comunhão entre Deus e a criatura; a criação existe para que haja um espaço de resposta à glória imensa de Deus, um encontro de amor e liberdade. Em segundo lugar, na Vigília Pascal, a Igreja fixa a atenção sobretudo na primeira frase da narração da criação: «Deus disse: “Faça-se a luz”!» (Gn 1, 3). Emblematicamente, a narração da criação começa pela criação da luz. O sol e a lua são criados somente no quarto dia. A narração da criação designa-os como fontes de luz, que Deus colocou no firmamento do céu. Deste modo, priva-os propositalmente do caráter divino que as grandes religiões lhes tinham atribuído. Não! Não são deuses de modo algum; são corpos luminosos, criados pelo único Deus. Entretanto já os precedera a luz, pela qual a glória de Deus se reflete na natureza do ser que é criado.
Que pretende a narração da criação dizer com isto? A luz torna possível a vida; torna possível o encontro; torna possível a comunicação; torna possível o conhecimento, o acesso à realidade, à verdade. E, tornando possível o conhecimento, possibilita a liberdade e o progresso. O mal esconde-se. Por conseguinte, a luz aparece também como expressão do bem, que é luminosidade e cria luminosidade. É de dia que podemos trabalhar. O fato de Deus ter criado a luz significa que Ele criou o mundo como espaço de conhecimento e de verdade, espaço de encontro e de liberdade, espaço do bem e do amor. A matéria-prima do mundo é boa; o próprio ser é bom. E o mal não vem do ser que é criado por Deus, mas existe só em virtude da sua negação. É o «não».
Na Páscoa, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Deus disse novamente: «Faça-se a luz!». Antes tinham vindo a noite do Monte das Oliveiras, o eclipse solar da paixão e morte de Jesus, a noite do sepulcro. Mas, agora, é de novo o primeiro dia; a criação recomeça inteiramente nova. «Faça-se a luz!»: disse Deus. «E a luz foi feita». Jesus ressuscita do sepulcro. A vida é mais forte que a morte. O bem é mais forte que o mal. O amor é mais forte que o ódio. A verdade é mais forte que a mentira. A escuridão dos dias anteriores dissipou-se no momento em que Jesus ressuscita do sepulcro e Se torna, Ele mesmo, pura luz de Deus. Isto, porém, não se refere somente a Ele, nem se refere apenas à escuridão daqueles dias. Com a ressurreição de Jesus, a própria luz é novamente criada. Ele atrai-nos a todos, levando-nos atrás de Si para a nova vida da ressurreição e vence toda a forma de escuridão. Ele é o novo dia de Deus, que vale para todos nós.
Mas isto, como pode acontecer? Como é possível chegar tudo isto até nós, de tal modo que não se reduza a meras palavras, mas se torne uma realidade que nos envolve? Por meio do sacramento do Batismo e da profissão da fé, o Senhor construiu uma ponte até nós, pela qual o novo dia nos alcança. No Batismo, o Senhor diz a quem o recebe: Fiat lux – faça-se a luz. O novo dia, o dia da vida indestrutível chega também a nós. Cristo toma-te pela mão. Daqui para a frente, serás sustentado por Ele e assim entrarás na luz, na vida verdadeira. Por isso, a Igreja antiga designou o Batismo como «photismos – iluminação».
Porquê? A escuridão que verdadeiramente ameaça o homem é o fato de que ele é, na verdade, capaz de ver e investigar as coisas palpáveis, materiais, mas não vê para onde vai o mundo e donde o mesmo venha; para onde vai a sua própria vida; o que é o bem e o que é o mal. Esta escuridão acerca de Deus e a escuridão acerca dos valores são a verdadeira ameaça para a nossa existência e para o mundo em geral. Se Deus e os valores, a diferença entre o bem e o mal permanecem na escuridão, então todas as outras iluminações, que nos dão um poder verdadeiramente incrível, deixam de constituir somente progressos, mas passam a ser simultaneamente ameaças que nos põem em perigo a nós e ao mundo. Hoje podemos iluminar as nossas cidades de modo tão deslumbrante que as estrelas do céu deixam de ser visíveis. Porventura não temos aqui uma imagem da problemática que toca o nosso ser iluminado? Nas coisas materiais, sabemos e podemos incrivelmente tanto, mas naquilo que está para além disto, como Deus e o bem, já não o conseguimos individuar. Para isto serve a fé, que nos mostra a luz de Deus, a verdadeira iluminação: aquela é uma irrupção da luz de Deus no nosso mundo, uma abertura dos nossos olhos à verdadeira luz.
Por fim, queridos amigos, queria ainda acrescentar um pensamento sobre a luz e a iluminação. Na Vigília Pascal, a noite da nova criação, a Igreja apresenta o mistério da luz com um símbolo muito particular e humilde: o círio pascal. Trata-se de uma luz que vive em virtude do sacrifício: a vela ilumina, consumindo-se a si mesma; dá luz, dando-se a si mesma. Este é um modo maravilhoso de representar o mistério pascal de Cristo, que Se dá a Si mesmo e assim dá a grande luz. Uma segunda idéia, que a reflexão sobre luz da vela nos sugere, deriva do fato de a mesma ser fogo. Ora, o fogo é força que plasma o mundo, poder que transforma; e o fogo dá calor. E aqui se torna novamente visível o mistério de Cristo: Ele, a luz, é fogo; é chama que queima o mal, transformando assim o mundo e a nós mesmos. «Quem está perto de Mim, está perto do fogo»: assim reza um dito de Jesus, que nos foi transmitido por Orígenes. E este fogo é ao mesmo tempo calor: não uma luz fria, mas uma luz na qual vêm ao nosso encontro o calor e a bondade de Deus.
O Precónio, o grande hino que o diácono canta ao início da Liturgia Pascal, de modo muito discreto chama a nossa atenção ainda para outro aspecto. Lembra-nos que o material do círio se fica a dever, em primeiro lugar, ao trabalho das abelhas; e, assim, entra em cena a criação inteira. No círio, a criação torna-se portadora de luz. Mas, segundo o pensamento dos Padres, temos aí também uma alusão implícita à Igreja. Nesta, a cooperação da comunidade viva dos fiéis é parecida com o trabalho das abelhas; constrói a comunidade da luz. Assim podemos ver, no círio, também um apelo dirigido a nós mesmos e à nossa comunhão com a comunidade da Igreja, que existe para que a luz de Cristo possa iluminar o mundo.
Neste momento, peçamos ao Senhor que nos faça sentir a alegria da sua luz, de modo que nós mesmos nos tornemos portadores da sua luz, para que, através da Igreja, o esplendor do rosto de Cristo entre no mundo (cf. LG 1).
(Crédito da tradução: Zenith)
| Fiat Lux @Carolyn M. French, 2010 |
Queridos irmãos e irmãs!
A Páscoa é a festa da nova criação. Jesus ressuscitou e nunca mais morre. Arrombou a porta que dá para uma nova vida, que já não conhece doença nem morte. Assumiu o homem no próprio Deus. «A carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus»: dissera São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (15, 50). E todavia Tertuliano, escritor eclesiástico do século III, a propósito da ressurreição de Cristo e da nossa ressurreição, não temera escrever: «Tende confiança, carne e sangue! Graças a Cristo, adquiristes um lugar no Céu e no Reino de Deus» (CCL II, 994). Abriu-se uma nova dimensão para o homem. A criação tornou-se maior e mais vasta. A Páscoa é o dia duma nova criação, mas por isso mesmo, neste dia, a Igreja começa a liturgia apresentando-nos a criação antiga, para aprendermos a compreender bem a nova. E assim, na Vigília Pascal, a Liturgia da Palavra começa pela narração da criação do mundo. A propósito desta e no contexto da liturgia deste dia, são particularmente importantes duas coisas. Em primeiro lugar, a criação é apresentada como uma totalidade da qual faz parte o fenômeno do tempo. Os sete dias são imagem duma totalidade que se desenvolve no tempo, aparecendo os dias ordenados até ao sétimo, o dia da liberdade de todas as criaturas para Deus e de umas para as outras. Por conseguinte, a criação está orientada para a comunhão entre Deus e a criatura; a criação existe para que haja um espaço de resposta à glória imensa de Deus, um encontro de amor e liberdade. Em segundo lugar, na Vigília Pascal, a Igreja fixa a atenção sobretudo na primeira frase da narração da criação: «Deus disse: “Faça-se a luz”!» (Gn 1, 3). Emblematicamente, a narração da criação começa pela criação da luz. O sol e a lua são criados somente no quarto dia. A narração da criação designa-os como fontes de luz, que Deus colocou no firmamento do céu. Deste modo, priva-os propositalmente do caráter divino que as grandes religiões lhes tinham atribuído. Não! Não são deuses de modo algum; são corpos luminosos, criados pelo único Deus. Entretanto já os precedera a luz, pela qual a glória de Deus se reflete na natureza do ser que é criado.
Que pretende a narração da criação dizer com isto? A luz torna possível a vida; torna possível o encontro; torna possível a comunicação; torna possível o conhecimento, o acesso à realidade, à verdade. E, tornando possível o conhecimento, possibilita a liberdade e o progresso. O mal esconde-se. Por conseguinte, a luz aparece também como expressão do bem, que é luminosidade e cria luminosidade. É de dia que podemos trabalhar. O fato de Deus ter criado a luz significa que Ele criou o mundo como espaço de conhecimento e de verdade, espaço de encontro e de liberdade, espaço do bem e do amor. A matéria-prima do mundo é boa; o próprio ser é bom. E o mal não vem do ser que é criado por Deus, mas existe só em virtude da sua negação. É o «não».
Na Páscoa, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Deus disse novamente: «Faça-se a luz!». Antes tinham vindo a noite do Monte das Oliveiras, o eclipse solar da paixão e morte de Jesus, a noite do sepulcro. Mas, agora, é de novo o primeiro dia; a criação recomeça inteiramente nova. «Faça-se a luz!»: disse Deus. «E a luz foi feita». Jesus ressuscita do sepulcro. A vida é mais forte que a morte. O bem é mais forte que o mal. O amor é mais forte que o ódio. A verdade é mais forte que a mentira. A escuridão dos dias anteriores dissipou-se no momento em que Jesus ressuscita do sepulcro e Se torna, Ele mesmo, pura luz de Deus. Isto, porém, não se refere somente a Ele, nem se refere apenas à escuridão daqueles dias. Com a ressurreição de Jesus, a própria luz é novamente criada. Ele atrai-nos a todos, levando-nos atrás de Si para a nova vida da ressurreição e vence toda a forma de escuridão. Ele é o novo dia de Deus, que vale para todos nós.
Mas isto, como pode acontecer? Como é possível chegar tudo isto até nós, de tal modo que não se reduza a meras palavras, mas se torne uma realidade que nos envolve? Por meio do sacramento do Batismo e da profissão da fé, o Senhor construiu uma ponte até nós, pela qual o novo dia nos alcança. No Batismo, o Senhor diz a quem o recebe: Fiat lux – faça-se a luz. O novo dia, o dia da vida indestrutível chega também a nós. Cristo toma-te pela mão. Daqui para a frente, serás sustentado por Ele e assim entrarás na luz, na vida verdadeira. Por isso, a Igreja antiga designou o Batismo como «photismos – iluminação».
Porquê? A escuridão que verdadeiramente ameaça o homem é o fato de que ele é, na verdade, capaz de ver e investigar as coisas palpáveis, materiais, mas não vê para onde vai o mundo e donde o mesmo venha; para onde vai a sua própria vida; o que é o bem e o que é o mal. Esta escuridão acerca de Deus e a escuridão acerca dos valores são a verdadeira ameaça para a nossa existência e para o mundo em geral. Se Deus e os valores, a diferença entre o bem e o mal permanecem na escuridão, então todas as outras iluminações, que nos dão um poder verdadeiramente incrível, deixam de constituir somente progressos, mas passam a ser simultaneamente ameaças que nos põem em perigo a nós e ao mundo. Hoje podemos iluminar as nossas cidades de modo tão deslumbrante que as estrelas do céu deixam de ser visíveis. Porventura não temos aqui uma imagem da problemática que toca o nosso ser iluminado? Nas coisas materiais, sabemos e podemos incrivelmente tanto, mas naquilo que está para além disto, como Deus e o bem, já não o conseguimos individuar. Para isto serve a fé, que nos mostra a luz de Deus, a verdadeira iluminação: aquela é uma irrupção da luz de Deus no nosso mundo, uma abertura dos nossos olhos à verdadeira luz.
Por fim, queridos amigos, queria ainda acrescentar um pensamento sobre a luz e a iluminação. Na Vigília Pascal, a noite da nova criação, a Igreja apresenta o mistério da luz com um símbolo muito particular e humilde: o círio pascal. Trata-se de uma luz que vive em virtude do sacrifício: a vela ilumina, consumindo-se a si mesma; dá luz, dando-se a si mesma. Este é um modo maravilhoso de representar o mistério pascal de Cristo, que Se dá a Si mesmo e assim dá a grande luz. Uma segunda idéia, que a reflexão sobre luz da vela nos sugere, deriva do fato de a mesma ser fogo. Ora, o fogo é força que plasma o mundo, poder que transforma; e o fogo dá calor. E aqui se torna novamente visível o mistério de Cristo: Ele, a luz, é fogo; é chama que queima o mal, transformando assim o mundo e a nós mesmos. «Quem está perto de Mim, está perto do fogo»: assim reza um dito de Jesus, que nos foi transmitido por Orígenes. E este fogo é ao mesmo tempo calor: não uma luz fria, mas uma luz na qual vêm ao nosso encontro o calor e a bondade de Deus.
O Precónio, o grande hino que o diácono canta ao início da Liturgia Pascal, de modo muito discreto chama a nossa atenção ainda para outro aspecto. Lembra-nos que o material do círio se fica a dever, em primeiro lugar, ao trabalho das abelhas; e, assim, entra em cena a criação inteira. No círio, a criação torna-se portadora de luz. Mas, segundo o pensamento dos Padres, temos aí também uma alusão implícita à Igreja. Nesta, a cooperação da comunidade viva dos fiéis é parecida com o trabalho das abelhas; constrói a comunidade da luz. Assim podemos ver, no círio, também um apelo dirigido a nós mesmos e à nossa comunhão com a comunidade da Igreja, que existe para que a luz de Cristo possa iluminar o mundo.
Neste momento, peçamos ao Senhor que nos faça sentir a alegria da sua luz, de modo que nós mesmos nos tornemos portadores da sua luz, para que, através da Igreja, o esplendor do rosto de Cristo entre no mundo (cf. LG 1).
(Crédito da tradução: Zenith)
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Páscoa, correrias e mulheres
![]() |
| Última Ceia, de Bohdan Piasecki, 1988 |
Foram mulheres as que se aventuraram inicialmente a correr, para anunciar a ressurreição de Jesus. Esse é o mote da crónica À Procura da Palavra, do padre Vítor Gonçalves, publicada neste Domingo de Páscoa no jornal Voz da Verdade: “Na noite silenciosa e calma Maria caminha devagar. Quantas lágrimas vai semeando pelo caminho? Vai ao sepulcro fazer o quê? Ungir o corpo de Jesus porque a urgência da sepultura não permitiu fazer os ritos devidos a um defunto? Quer e não quer aproximar-se. Não quer mesmo pensar que tudo foi verdade, que viu morrer Jesus. Mas eis que tudo muda. No alvor do amanhecer vê o sepulcro vazio. E instala-se a correria pascal.”
(Para continuar a ler, clicar aqui).
O papel d’As Mulheres da Páscoa é também o tema da crónica de frei Bento Domingues no Público deste domingo. “Seria necessário estudar o lugar da mulher na cultura religiosa do tempo de Jesus, para perceber o alcance da revolução que ele desencadeou”. Diz assim o texto integral da crónica:
1. As mulheres entraram muito cedo e de vários modos na vida de Jesus de Nazaré. Hoje, é quase impossível imaginar a importância desse fenómeno. Seria necessário estudar o lugar da mulher na cultura religiosa do tempo de Jesus, para perceber o alcance da revolução que ele desencadeou. Vivemos numa época na qual a mulher tem um papel cada vez mais activo na vida e na liderança das sociedades, mas a sua situação na Igreja é um anacronismo que, esperamos, os anos se encarregarão de vencer.
A exegese feminista conquistou, no âmbito das abordagens contextuais, um lugar, ainda não ao sol, mas à sombra, no documento da Comissão Pontifícia Bíblica, de 1993 (A interpretação da Bíblia na Igreja).
O que espanta é a lentidão em reconhecer o que parece claro no Novo Testamento e que, ainda hoje, muitos não querem ver o que estão a ver, devido à resistência de uma cultura secular anti-feminista que os torna cegos, mas vamos por partes.
2. No Evangelho de S. Lucas, depois da cena escandalosa da mulher que surpreendeu, tocou e beijou Jesus, na casa de um fariseu, onde ele estava a jantar – e para onde ela não tinha sido convidada - (Lc. 7, 36-50), são as mulheres que surgem em grupo, de uma forma estranha e ambígua. Vale a pena transcrever o texto: “depois disso, ele andava por cidades e aldeias, pregando e anunciando a boa nova do reino de Deus. Os Doze acompanhavam-no, assim como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demónios, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Suzana e várias outras, que os serviam com os seus bens.” Iremos encontra-las depois da Ressurreição dedicadas a converter, muito a custo, os Apóstolos que lhes não davam crédito (Lc. 24, 9-11). São elas as mulheres da Páscoa cristã.
O grande historiador judeu, Flávio Josefo (37 ou 38 – c. 100 d.C), nas Antiguidades Judaicas, afirma, por duas vezes, que ”o testemunho das mulheres não deve ser aceite por causa da fragilidade e presunção do seu sexo”. Noutra passagem, com outras palavras, repete a mesma ideia: “das mulheres não se pode aceitar nada como certo, por causa da ligeireza e temeridade do seu sexo”.
Um outro judeu, Jesus de Nazaré, parece que estava apostado em atirar pelos ares, costumes e ideias, que perpetuavam a marginalização do testemunho das mulheres. A opção deste Nazareno era de um atrevimento escandaloso, ao fazer delas testemunhas da sua Vida, da sua Paixão, da Ressurreição e do Pentecostes.
É certo que começam a aparecer, no Evangelho de S. Lucas, em grupo, mas de uma forma sorrateira e como que, apenas, financiadoras do novo projecto. Dá a ideia que foram conquistando terreno até ao momento extremo de tornarem o futuro do movimento cristão dependente delas. Não me parece nada que tenha sido assim, embora não tenha espaço para o demonstrar.
As narrativas do Novo Testamento, aquilo a que chamamos os Evangelhos, são fruto de várias tradições, de várias comunidades, de tempos e culturas diferentes. O que espanta é que sendo textos escritos por homens, também eles marcados pela mentalidade reflectida por Flávio Josefo – basta ver o que pensavam os apóstolos quando elas os procuravam evangelizar (Lc. 24, 9-11) – como é que os seus escritos testemunham uma presença impressionante de mulheres em torno de Jesus e nas Igrejas nascentes. Aqueles que desejam abafar o papel que as mulheres devem desempenhar actualmente na Igreja, imaginam Jesus, de Mitra e Báculo, a ordenar, numa Missa solene, os doze apóstolos, mostrando assim que Jesus, de Mitra e Báculo, não ordenou nenhuma mulher. E homens?
É uma imaginação a funcionar ao contrário. O que podemos e devemos imaginar é o que deve ter sido a presença activa das mulheres, em todo o percurso de Jesus, para ter resistido ao aperto cultural e religiosos do seu tempo.
3. Pertence aos exegetas continuar a analisar, com todos os métodos de que dispõem, as narrativas sobre o túmulo vazio e as aparições do Ressuscitado. Essas narrativas coincidem em algo essencial: A morte não teve sorte com Jesus: Ele está vivo e para sempre; é o mesmo, embora já não da mesma maneira. Aos discípulos pede que sejam testemunhas dessa esperança, essa memória de futuro.
Não se trata de nada que se possa provar por qualquer das ciências que existem. É de outra ordem. A fé, como diz o filósofo Wittengstein, é fé naquilo de que necessita o meu coração, a minha alma e não a minha inteligência especulativa. Pois é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer, com a sua carne e sangue, que tem de ser salva e não a minha razão abstrata. Só o amor pode acreditar na Ressurreição.
O espantoso capítulo 20 do Evangelho de S. João conta que uma mulher, Madalena, liberta e apaixonada, não largou Jesus nem na vida, nem no vazio da morte, nem no túmulo. Continuou a procurá-lo. Não o encontrou, mas foi encontrada por aquele que sabia o seu nome. A sua recompensa foram novos trabalhos, uma encomenda directa do Ressuscitado: “vai, a meus irmãos e diz-lhes: Subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus”. Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: vi o Senhor e as coisas que ele lhe disse.
Porque impedir as mulheres da Páscoa de realizarem a sua missão apostólica na vida da Igreja ao serviço da transformação do mundo?
Para aprofundar o papel de algumas mulheres que foram decisivas na vida de Jesus, publiquei também hoje, na revista Público/2 um trabalho com o título “Elas estavam lá desde o início”. O texto pode ser lido aqui.
domingo, 8 de abril de 2012
"Quem nos estraga a vida? Quem é que no-la pode libertar?"
Eduardo Jorge Madureira, na sua coluna do Diário do Minho deste Dia de Páscoa:

"Nestes dias em que tanto se pede jejum de palavras, mas ninguém se cala, pode muito bem ser, afinal, por via da leitura de algum livro que surja a oferta de uma ou outra ocasião de recolhimento. Uma das obras que, para o efeito, se podem revelar de grande utilidade é Livres para acreditar. Dez passos para a fé, da autoria de Michael Paul Gallagher, um padre jesuíta irlandês, que foi professor de literatura na Universidade de Dublin, razão por que, aliás, não se estranhará que, no livro, escritores, como Nathaniel Hawthorne, T. S. Elliot, Saul Bellow ou Flannery O’Connor, e doutores da Igreja, como Santo Agostinho ou S. Tomás de Aquino, convivam tranquilamente.
Num dos passos mais fecundos do livro, escreve Gallagher que “a fé cristã não é apenas umaquestão de verdade, mas um modo de vida, e um modo de vida que resiste às directivas de uma sociedade de massas. A maior vitória da ideologia do consumismo é reduzir a religião a mais um item na prateleira do supermercado, pondo o cristianismo a competir com o fornecimento e a procura de bens, comodidades ou seguranças”. Considera ele que, “deste modo, uma pequena dose de religião pode tornar-se uma espécie de música de fundo agradável para uma vida fundamentalmente desorientada ou imatura. Este uso tranquilizante da religião para a segurança humana é a armadilha mais típica do mundo desenvolvido. O cristianismo converte-se numa agradável alienação da realidade, pessoalmente consoladora, mas sem nada de desafiante em termos sociais, atraente para um entusiasmo rápido e até para uma certa generosidade, mas evitando a profundidade de um seguimento como uma escolha no mundo de hoje”.
Enquanto professor universitário, Michael Paul Gallagher reconhece que a universidade pode representar um logro, ao ser uma dessas “instituições de elites que criam as suas próprias formas de opressão, permanecendo cegas, pelo menos na prática (a teoria é uma coisa diferente!), para os perigos do seu próprio sistema”. Enquanto padre, lamenta que as “tentações institucionais” possam “levar a melhor”. É que, acrescenta, “a autoridade pode ser mal utilizada, as pessoas podem não ser ouvidas e o ritualismo pode querer fazer-se passar por alimento espiritual”. Gallagher diz que “a lista podia continuar, e isso seria um reescrever das páginas dos evangelhos em que Cristo confronta a religião oficial: Os fariseus não morreram naquela geração. O seu espírito revela-se sempre que não actuamos como discípulos, mas sim como funcionários das coisas de Deus”.
A ideologia consumista, que fornece o pano de fundo e embebe a cultura dominante, é fustigada pelo autor de Livres para acreditar: “Os valores da cultura professados e vividos – sucesso, poder, prestígio, orgulho nacional, pessoal e de classe, riquezas e autoglorificação – chocam tão ampla e profundamente com os valores de Jesus que um seguidor de Cristo não pode senão sentir a cultura como um ataque à fé religiosa”.
Citando o filósofo John Francis Kavanaugh, Michael Paul Gallagher afirma que, ao contrário do que tantos postulam, é possível – e, obviamente, necessário – resistir à cultura dominante, que, assim, será menos dominante e menos desumanizadora, se se discernirem os seus perigos e se se criar algum tipo de consciência partilhada. Os mecanismos da inevitabilidade tão propagados pela ideologia dominante funcionam apenas quando as pessoas estão divididas e fragmentadas e não são capazes de alcançar algum tipo de consciência comum, considera Gallagher, socorrendo-se agora do filósofo Charles Taylor.
“A cultura que nos rodeia tenta fazer com que a religião desconsidere a dimensão de conflito dos evangelhos e que opte por um ‘programa de Jesus reduzido’”, para usar uma expressão de um outro autor, Michael Warren, que Gallagher convoca para explicar que, “nesta situação, qualquer resistência genuína terá de estar ‘fundamentada em determinados modos de vida que concretizem uma alternativa de vida’”.
Depois de citar Warren, que acredita que, no contexto religioso, um grupo não pensa primeiro para em seguida agir, mas, pelo contrário, o seu modo de agir plasma o seu modo de pensar: quando se descobrem os compromissos adequados, surge também a estrutura de vida adequada, Michael Paul Gallagher reclama uma suspeita saudável em relação à cultura que nos rodeia, capaz de representar mais um passo na direcção da liberdade. É preciso “despertar e procurar discernir as influências à nossa volta!” E, retomando uma questão de Warren, pergunta Gallagher: “Quem é que está a imaginar a tua vida por ti?” Esta pergunta, se se quiser, pode desdobrar-se em duas: Quem é nos estraga a vida? Quem é que no-la pode libertar?".
(Crédito da foto: The Jesuits in Ireland)
"Nestes dias em que tanto se pede jejum de palavras, mas ninguém se cala, pode muito bem ser, afinal, por via da leitura de algum livro que surja a oferta de uma ou outra ocasião de recolhimento. Uma das obras que, para o efeito, se podem revelar de grande utilidade é Livres para acreditar. Dez passos para a fé, da autoria de Michael Paul Gallagher, um padre jesuíta irlandês, que foi professor de literatura na Universidade de Dublin, razão por que, aliás, não se estranhará que, no livro, escritores, como Nathaniel Hawthorne, T. S. Elliot, Saul Bellow ou Flannery O’Connor, e doutores da Igreja, como Santo Agostinho ou S. Tomás de Aquino, convivam tranquilamente.
Num dos passos mais fecundos do livro, escreve Gallagher que “a fé cristã não é apenas umaquestão de verdade, mas um modo de vida, e um modo de vida que resiste às directivas de uma sociedade de massas. A maior vitória da ideologia do consumismo é reduzir a religião a mais um item na prateleira do supermercado, pondo o cristianismo a competir com o fornecimento e a procura de bens, comodidades ou seguranças”. Considera ele que, “deste modo, uma pequena dose de religião pode tornar-se uma espécie de música de fundo agradável para uma vida fundamentalmente desorientada ou imatura. Este uso tranquilizante da religião para a segurança humana é a armadilha mais típica do mundo desenvolvido. O cristianismo converte-se numa agradável alienação da realidade, pessoalmente consoladora, mas sem nada de desafiante em termos sociais, atraente para um entusiasmo rápido e até para uma certa generosidade, mas evitando a profundidade de um seguimento como uma escolha no mundo de hoje”.
Enquanto professor universitário, Michael Paul Gallagher reconhece que a universidade pode representar um logro, ao ser uma dessas “instituições de elites que criam as suas próprias formas de opressão, permanecendo cegas, pelo menos na prática (a teoria é uma coisa diferente!), para os perigos do seu próprio sistema”. Enquanto padre, lamenta que as “tentações institucionais” possam “levar a melhor”. É que, acrescenta, “a autoridade pode ser mal utilizada, as pessoas podem não ser ouvidas e o ritualismo pode querer fazer-se passar por alimento espiritual”. Gallagher diz que “a lista podia continuar, e isso seria um reescrever das páginas dos evangelhos em que Cristo confronta a religião oficial: Os fariseus não morreram naquela geração. O seu espírito revela-se sempre que não actuamos como discípulos, mas sim como funcionários das coisas de Deus”.
A ideologia consumista, que fornece o pano de fundo e embebe a cultura dominante, é fustigada pelo autor de Livres para acreditar: “Os valores da cultura professados e vividos – sucesso, poder, prestígio, orgulho nacional, pessoal e de classe, riquezas e autoglorificação – chocam tão ampla e profundamente com os valores de Jesus que um seguidor de Cristo não pode senão sentir a cultura como um ataque à fé religiosa”.
Citando o filósofo John Francis Kavanaugh, Michael Paul Gallagher afirma que, ao contrário do que tantos postulam, é possível – e, obviamente, necessário – resistir à cultura dominante, que, assim, será menos dominante e menos desumanizadora, se se discernirem os seus perigos e se se criar algum tipo de consciência partilhada. Os mecanismos da inevitabilidade tão propagados pela ideologia dominante funcionam apenas quando as pessoas estão divididas e fragmentadas e não são capazes de alcançar algum tipo de consciência comum, considera Gallagher, socorrendo-se agora do filósofo Charles Taylor.
“A cultura que nos rodeia tenta fazer com que a religião desconsidere a dimensão de conflito dos evangelhos e que opte por um ‘programa de Jesus reduzido’”, para usar uma expressão de um outro autor, Michael Warren, que Gallagher convoca para explicar que, “nesta situação, qualquer resistência genuína terá de estar ‘fundamentada em determinados modos de vida que concretizem uma alternativa de vida’”.
Depois de citar Warren, que acredita que, no contexto religioso, um grupo não pensa primeiro para em seguida agir, mas, pelo contrário, o seu modo de agir plasma o seu modo de pensar: quando se descobrem os compromissos adequados, surge também a estrutura de vida adequada, Michael Paul Gallagher reclama uma suspeita saudável em relação à cultura que nos rodeia, capaz de representar mais um passo na direcção da liberdade. É preciso “despertar e procurar discernir as influências à nossa volta!” E, retomando uma questão de Warren, pergunta Gallagher: “Quem é que está a imaginar a tua vida por ti?” Esta pergunta, se se quiser, pode desdobrar-se em duas: Quem é nos estraga a vida? Quem é que no-la pode libertar?".
(Crédito da foto: The Jesuits in Ireland)
sábado, 7 de abril de 2012
"Teólogo condenado: da criação à ressurreição"
Da coluna de Anselmo Borges, no Diário de Notícias de hoje:
"Enquanto o Papa, em Cuba, fazia apelo à liberdade, a Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola publicava uma Notificação - na prática, para a opinião pública, a condenação de mais um teólogo, Andrés Torres Queiruga. Como se a liberdade fosse para os outros e não devesse vigorar também no interior da Igreja.
Para muitos - também para mim -, A. Torres Queiruga é um dos maiores teólogos católicos vivos. No meu entendimento, foi e é o teólogo que de modo mais profundo e conseguido enfrentou o cristianismo com a modernidade e a modernidade com o cristianismo. Desgraçadamente, alguns teólogos e bispos espanhóis não pensam assim.
O que aí fica é tão-só, na medida em que o permite uma crónica de jornal, o que considero nuclear no pensamento de A. Torres Queiruga.(...)".
Para continuar a ler o texto, clicar: AQUI.
Para ler a Notificação da Conferência Episcopal Espanhola: AQUI
Breve esclarecimento de Torres Queiruga: AQUI
Outras tomadas de posição sobre o assunto: AQUI.
"Enquanto o Papa, em Cuba, fazia apelo à liberdade, a Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola publicava uma Notificação - na prática, para a opinião pública, a condenação de mais um teólogo, Andrés Torres Queiruga. Como se a liberdade fosse para os outros e não devesse vigorar também no interior da Igreja.
Para muitos - também para mim -, A. Torres Queiruga é um dos maiores teólogos católicos vivos. No meu entendimento, foi e é o teólogo que de modo mais profundo e conseguido enfrentou o cristianismo com a modernidade e a modernidade com o cristianismo. Desgraçadamente, alguns teólogos e bispos espanhóis não pensam assim.
O que aí fica é tão-só, na medida em que o permite uma crónica de jornal, o que considero nuclear no pensamento de A. Torres Queiruga.(...)".
Para continuar a ler o texto, clicar: AQUI.
Para ler a Notificação da Conferência Episcopal Espanhola: AQUI
Breve esclarecimento de Torres Queiruga: AQUI
Outras tomadas de posição sobre o assunto: AQUI.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Sexta-Feira Santa em Cuba e em Roma
Hoje é feriado em Cuba, o que acontece excepcionalmente, como uma espécie de retribuição da visita do Papa Bento XVI ao país, há pouco mais de uma semana. Este facto traduz luzes e sombras na relação da Igreja Católica com o regime e com a sua forma de estar na sociedade.

Desde logo, é positivo que os crentes tenham mais espaço, num país sujeito ainda a um regime monolítico e que continua dependente da voz de um chefe. Mesmo que essa possibilidade de expressão seja para já apenas restrita à dimensão institucional e pastoral (como através da realização de actos públicos de fé), o alargamento dessa possibilidade de expressão pública é sempre positivo. Quanto mais espaço houver para que determinados grupos se possam exprimir, mais depressa a liberdade chegará para todos.

Desde logo, é positivo que os crentes tenham mais espaço, num país sujeito ainda a um regime monolítico e que continua dependente da voz de um chefe. Mesmo que essa possibilidade de expressão seja para já apenas restrita à dimensão institucional e pastoral (como através da realização de actos públicos de fé), o alargamento dessa possibilidade de expressão pública é sempre positivo. Quanto mais espaço houver para que determinados grupos se possam exprimir, mais depressa a liberdade chegará para todos.
Há um reverso neste facto: ao limitar as suas reivindicações a uma dimensão institucional (feriados de Natal e Sexta-Feira Santa, procissões na rua, etc.), a Igreja Católica (ou as suas lideranças) está a esquecer a situação de um povo que continua a sofrer por causa das limitações da liberdade e da cegueira do embargo norte-americano - ambos denunciados pelo Papa nos seus discursos em Cuba. O perfil moderado do cardeal Jaime Ortega não é alheio a este processo, já que o arcebispo de Havana prefere privilegiar uma relação institucional de entendimento do que uma lógica de denúncia clara das violações dos direitos humanos.
Este feriado ocorre depois de, na homilia da Missa Crismal, Quinta-Feira Santa em Roma, o Papa ter criticado "um grupo de padres [que, recentemente] num país europeu
publicou um apelo à desobediência, dando exemplos concretos sobre a maneira de
exprimir esta desobediência". A referência visava os cerca de 400 padres austríacos que, até ao momento, assinaram já a "Iniciativa dos Padres", que propõe reformas na Igreja no âmbito disciplinar e ministerial. Nomeadamente, estão em causa questões como a distribuição e a função do clero numa altura em que os padres são cada vez mais escassos, a ordenação de homens casados e de mulheres.
Apesar da referência do Papa de que a renovação pós-Convílio Vaticano II (1962-65) "assumiu formas inesperadas de movimentos plenos de vida" (sem especificar quais), Bento XVI não quis admitir que isso passa também pelo facto de tantos cristãos, mulheres e homens, quererem assumir de forma adulta a sua fé, o que os leva a questionar dogmas e tradições que a exegese bíblica mais recente e profunda coloca cada vez mais em questão - sobre o papel das mulheres, por exemplo.
Apesar da referência do Papa de que a renovação pós-Convílio Vaticano II (1962-65) "assumiu formas inesperadas de movimentos plenos de vida" (sem especificar quais), Bento XVI não quis admitir que isso passa também pelo facto de tantos cristãos, mulheres e homens, quererem assumir de forma adulta a sua fé, o que os leva a questionar dogmas e tradições que a exegese bíblica mais recente e profunda coloca cada vez mais em questão - sobre o papel das mulheres, por exemplo.
A hierarquia católica não pode continuar a cair no erro de ignorar a cidadania dos seus crentes: pedir mais espaço para a Igreja implica também dar mais espaço e direito de cidadão aos baptizados no interior da estrutura católica.
Sexta-Feira Santa é ainda sexta-feira de Paixão, também para a vida de muitos crentes no interior da Igreja Católica.
Sexta-Feira Santa é ainda sexta-feira de Paixão, também para a vida de muitos crentes no interior da Igreja Católica.
(foto: Bento XVI na Praça da Revolução, em Havana; copiada daqui)
Subscrever:
Mensagens (Atom)



