quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (16) - Isaías, profeta para tempos de crise

“Obra magna” entre os textos bíblicos, uma das grandes obras da literatura universal. O livro de Isaías conta a história do profeta com o mesmo nome que viveu no século VIII a.C. e que confronta reis e poderosos com a crise e a injustiça do tempo.

[Ilustração: Isaías de Miguel Ângelo, abóbada da Capela Sistina (Vaticano)]

Vou criar um novo céu e uma nova terra; (…) Alegrem-se e rejubilem para sempre por aquilo que vou criar. Olhai, vou criar uma Jerusalém cheia de alegria. (…) Construirão casas e habitarão nelas, plantarão vinhas e comerão o seu fruto.
(Isaías 65, 17-18; 21)


É três em um: “A amplitude, beleza literária e conteúdo teológico convertem o livro de Isaías numa obra magna do Antigo Testamento”, escreve o biblista catalão Francesc Ramis Darder (revista Vida Nueva, 8-10-2005). E o livro bíblico divide-se em três partes, correspondentes a outros tantos autores, épocas e contextos. A personalidade de Isaías “foi de tal modo forte, que a tradição funde na sua pessoa as três partes do livro que leva o nome de Isaías”, lê-se na introdução ao livro, na edição da Nova Bíblia dos Capuchinhos (ed. Difusora Bíblica).

De estilo “clássico e nobre”, diz o mesmo texto que o Primeiro Isaías “é uma das grandes obras da literatura universal”. E acrescenta: “O autor é um grande poeta que usa a lei das assonâncias e sabe tirar partido dos sinais dos tempos. É um grande teólogo da História, que fala através de símbolos e metáforas com uma carga emotiva e apelativa muito profunda.”

Que profeta é este? No conceito bíblico, profeta é aquele “que anuncia diante doutras pessoas alguma coisa da parte de Deus”, explica o biblista basco Jesus-Maria Arsumendi (Primeiro Isaías, ed. Difusora Bíblica).

O Primeiro Isaías (que abrange até ao capítulo 39 do livro bíblico) nasce à volta do ano 760 a.C. e vive no século VIII a.C., na época de Ozias, Jotam, Acaz e Ezequias, reis de Judá. Deveria ser de família nobre, talvez mesmo próxima dos reis. Homem culto, a sua acção situa-se num tempo de crise e profundas tensões entre reinos vizinhos. Judá está entalado entre o Egipto e a Assíria, ao qual presta vassalagem. O Segundo Isaías é do tempo do exílio na Babilónia, onde os hebreus mantinham a esperança do regresso. O Terceiro Isaías fala do pecado do povo e de Deus que, apesar disso, não abandona a aliança.

Que profeta é este, afinal? Isaías chama a atenção dos reis e avisa contra perigos de decisões injustas: “Ai dos que decretam leis injustas e dos que redigem prescrições opressoras, dos que afastam os pobres do tribunal, e zombam dos direitos dos fracos do meu povo, fazendo das viúvas a sua presa e roubando os bens dos órfãos!” (10, 1-2)

Isaías é, também, o profeta que recorda que o povo se aproxima de Deus “só com palavras” e que o honra “só com os lábios”, pois o culto que presta “é apenas preceito humano e rotineiro”. A mensagem de Isaías é ainda apropriada pelos cristãos, de modo especial no tempo de Advento, como antecipação do nascimento de Jesus Cristo, como o libertador das injustiças contra as quais o profeta se manifesta.

No capítulo 11, anuncia-se esse “reino messiânico” de paz e justiça: “Então o lobo habitará com o cordeiro,/ e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito;/ o novilho e o leão comerão juntos,/ e um menino os conduzirá. (…) Não haverá dano nem destruição em todo o meu santo monte.”


O Segundo Isaías
O chamado Segundo Isaías (os capítulos 40 a 55) terá sido escrito por volta do ano 540 a.C., por um autor que viveu o exílio dos judeus na Babilónia. Ou seja, foi escrito dois séculos depois da primeira parte. Mas insere-se nos objectivos do livro bíblico: a de narrar as infidelidades do povo judeu à aliança com Deus, a sua posterior conversão durante e após o exílio, acabando a manifestar perante todos os povos a glória divina, como explica Francesc Ramis Darder (Vida Nueva, 19-11-2005). Incluem-se nestes capítulos alguns dos mais belos textos, em poesia, do livro de Isaías, como os “cânticos do servo”. Um deles é o do capítulo 42: “Eis o meu servo, que Eu amparo,/ o meu eleito, que Eu preferi./ Fiz repousar sobre ele o meu espírito,/ para que leve às nações a verdadeira justiça. (…) Eu, o Senhor, chamei-te por causa da justiça,/ segurei-te pela mão;/ formei-te e designei-te como aliança de um povo/ e luz das nações;/ para abrires os olhos aos cegos,/ para tirares do cárcere os prisioneiros,/ e da prisão, os que vivem nas trevas.


Poema - Loa, de Vitorino Nemésio

Meu Menino Jesus dos triguinhos no prato,
Não enxugues a tua lágrima de vidro,
Não apagues a tua estrela de prata suspensa no quarto ainda morno,

Não deixes envelhecer os velhos tios de retábulo
Ajoelhados em torno:
Deixa estar as palhinhas urinadas no estábulo,
Que a chuva cheira bem e o pão tufa no forno.
Doira, Menino Jesus, aquele milho amarelo
Que o Joaquim Pacheco secou na escuridão do seu muro,
E manda um navio de nevoeiro
Ao poeta que embarcou à noite no Funchal
Deixando o lenço de sua Mãe molhado no último adeus.
Anda, Menino Jesus, e não me queiras mal
Se eu te disser que assim é que te sinto Deus.
Manda o navio de nevoeiro
Pela primeira vaga que vires redonda e rebentada:
Tua mão outra vez a atira contra a noite,
Como se não tivesse batido nessa grande praia parada.
E deixa as minhas faltas à missa,
Esquece os pontos fracos da minha velha teologia,
E o orgulho, a razão, o materialismo passageiro...
Mandes tu pelo mar o navio de nevoeiro!

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (15) - A Lapinha na Festa madeirense

Na Madeira celebra-se a Festa, mais do que dizer apenas o Natal., expressão que revela a alma enternecida e reconciliadora do verdadeiro ilhéu. Numa simbiose do sagrado e profano, atenuam-se conflitos, por momentos regressa-se ao arquétipo ideal de uma comunidade pacífica e incorruptível.
(Texto de Tolentino de Nóbrega, no Público de 15/12/2005; Foto: Ricardo Jardim, "Lapinha do Caseiro", ed. Assírio & Alvim)


Na cidade, cosmopolita, são as luzes, as músicas, as lojas convidando à compra de presentes. “Tudo aparência, visões especiosas para os olhos ingénuos da gente nova, mas não de toda”, como conta o escritor madeirense Horácio Bento de Gouveia (1901-1983). “No campo, nas freguesias rurais, donde não se vê a cidade, porque a montanha a encobre com seus refolhos, pelas azinhagas, no adro da igreja, à porta dos casais não se ouve falar do Natal e sim da Festa, a Festa do Menino Jesus”.

Na cidade “compra-se pinheiros, verduras para embrincar os presépios. Na aldeia vai-se às abas da serra buscar o alegra-campo e galhos de loiro, e das paredes rústicas trazem-se os fetos-cabrinhas para alindar a escadinha dos pastores e do menino”. E na Festa há festa de igreja com três padres e cantores de fora, pifes, gaitas, manchetes e estoirar de bombas que anunciam as Missas do Parto, as novenas de Natal que começam a ser celebradas a partir de amanhã, de madrugada com muita afluência de fiéis.

Entre as muitas tradições do meio rural ou urbano é costume comum, perdido nos primórdios da colonização e depois acaloradamente mantido pelo espírito franciscano, fazer-se o presépio, armar-se a lapinha. É esta última designação, como descreve José de Sainz-Trueva em Presépios de Meninos Jesus de Ontem e de Hoje (DRAC, Funchal, 1987), usada na ilha para identificar o conjunto de figuras denominadas no continente português genericamente de presépio. Contudo, ao procurar-se estabelecer uma tipologia local dessa manifestação, o termo desdobra-se numa dupla significação, traduzindo-se em resultados formais diferentes.

As lapinhas madeirenses fundamentalmente podem classificar-se em "escadinhas" e "rochinhas". Estas são ramadas em qualquer dependência da casa, embora nalgumas residências, e pelas suas grandes dimensões, exista o "quarto da lapinha". Tem como estrutura pedaços de madeira e outros objectos que sob o papel pintado ajudam a dar a ideia dos montes e vales, com os típicos sucalcos, nos quais se vêem as casinhas de colmo, as ovelhinhas pastando, grupos folclóricos dançando e bailando, carreiros, borracheiros e vilões na matança do porto ou num arraial com coreto, barracas de espetada e procissão.

As escadinhas, de três ou de mais degraus, tendo no topo a imagem do Menino Jesus ladeada por jarrinhas de oratório e "solitários" com flores de ensaião e de papel, colocam-se sobre uma cómoda ou mesa previamente forradas com colcha adamascada ou toalha de linho com bordado madeira. Nos degraus das escadinhas dispõem-se alternadamente pastores, fruta, pão “merendeiro” ou “brindeiro”", searinhas e passarinhos de confecção artesanal.

Como variantes das lapinhas e rochinhas encontramos alguns registos de natal e presépio de caixa, encerrados em maquinetas envidraçadas, recheados de minuciosos elementos de miolo de pão, barro ou papel provenientes dos extintos conventos do Funchal.

Entre os barristas e presepistas madeirenses, destacou-se Francisco Ferreira (1849-1931), o Caseiro, antigo colono das freiras de Santa Clara e familiar do poeta madeirense Herberto Hélder. De todos, diz Jayme Câmara (De San Loyrenço, Prosa do estio e do Outono, 1932), era a mais conhecida em toda a ilha, “povoada de grupos alegóricos, pastores pacientemente talhados em cedro, numerosas figuras plenas de um acentuado movimento, embora por vezes microcéfalas, e que se nos antolham confinadas nos domínios da teratologia”.


Poema - Toada do Natal, de José Régio

Natal. Eis que anunciando o Cristo que nasceu,
De branco, um Serafim voou do céu,
À fímbria do vestido a poeira dos sóis presa...
Vinte anos faz que o viste a par do Sete-Estrelo.
Cresceste... e nunca mais tornaste a vê-1o!
Pois basta-te querê-lo:
Ergue as mãos juntas,
Reza...

Natal. Eis que inviolada, uma Mulher foi Mãe,
E se venera agora (e para sempre, amém)
A que deu fruto e é pura — ideal pureza...
Não sabes já vencer-te e crer sem compreender?
Esquece o que os manuais dão a aprender:
Mergulha no teu ser,
Como num templo:
Reza...

Natal. Eis que ao luar, os mortos que dormiam
Dos frios leitos lôbregos se erguiam,
E vinham consoar à sua antiga mesa...
Não tens que lhes dizer desde que te hão deixado?
Não sentes os teus mortos a teu lado?
Pois fala-lhes calado,
Para que te ouçam:
Reza...

Natal. Eis que uma paz, que ao certo é doutra vida,
Abranda toda a terra empedernida,
E é cada mesa em festa uma igrejinha acesa...
Abre hoje o coração — portal que se franqueia.
São todos teus irmãos: até os da cadeia,
As que andam na má sina e os que não têm ceia...
Por todos e por ti, Ave, Maria:
Reza...

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (14) - João da Cruz: místico, preso e torturado no convento

É num contexto de tensões religiosas pela reforma da Igreja que aparece um dos grandes místicos da história católica: João da Cruz. O poeta da Noite Escura foi preso, torturado e excomungado. Alguns dos seus poucos poemas estão entre “os mais belos” da língua espanhola.

(Ilustração: Ilda David' "S. João da Cruz - Poesias Completas", ed. Assírio & Alvim)


“Aonde te escondeste,/ Amado, e me deixaste soluçando?/ Como o cervo correste,/ Ferida me deixando;/ Tinhas partido, quando saí clamando.”
(S. João da Cruz, Poesias Completas, trad. José Bento, ed. Assírio & Alvim)


Preso, torturado pelos frades do convento onde chegou a estar detido, mais tarde excomungado, João da Cruz (1542-1591), reformador dos carmelitas, é uma das mais importantes figuras do catolicismo. Mas a sua dimensão de místico e poeta foi calejada no cativeiro de nove meses, no convento carmelita de Toledo.

Juan de Yepes (nome de baptismo) nasce em Fontiveros (próximo de Ávila, Espanha), numa família pobre. Depois da morte do pai, a família vai para Medina del Campo, em 1551. Juan tenta, sucessivamente, aprender ofícios num orfanato e trabalhar num hospital para pobres. Acaba a estudar humanidades, entre 1559 e 1563 no colégio dos Jesuítas.

Em 1564, Juan entra no convento de Medina del Campo dos carmelitas mitigados. A expressão designa os abrandamentos da regra que muitos carmelos tinham adoptado, à mistura com o relaxamento da fé. Títulos académicos vendidos ou oferecidos, tesourarias dos conventos reabastecidas “em parte através da exploração de ‘devoções’ populares próximas da magia” eram, entre outras, razões para que a primitiva regra já não servisse, diz Jean-Pie Lapierre (A Noite Obscura, ed. Estampa).

Frei Juan de San Matias, o nome que adopta na vida religiosa, vai estudar para Salamanca, sendo ordenado três anos depois. É nessa ocasião, com 25 anos, que encontra pela primeira vez madre Teresa de Jesus. A futura santa Teresa d’Ávila, reformadora do carmelo, tinha já mais de 50 anos e Juan confessa-lhe a sua insatisfação com o que vivia no carmelo. O seu objectivo era, então, entrar num convento de monges cartuxos.

O encontro muda, no entanto, o rumo da vida do frade. Teresa de Jesus vivia já com um pequeno grupo de carmelitas “descalças”, designação adoptada pelas reformadoras. Juan decide trabalhar com ela no sentido de renovar a regra carmelita. Abandona o hábito de mitigado e, em Janeiro de 1568, funda os carmelitas descalços, assinando pela primeira vez como João da Cruz.

Os obstáculos, as acusações e os conflitos de que é vítima sucedem-se. O clima adensa-se. Mitigados e descalços são peões de brega da política expansionista de Filipe II. Nove anos depois, a 2 de Dezembro de 1577, frei João é preso em Ávila, por homens armados que o levam, às escondidas, para o carmelo de Toledo.

Ali, recorda Jean-Pie Lapierre, o reformador é colocado num buraco com cerca de três metros de comprimento por dois de largura. Apenas sai para lhe darem uma refeição de pão e água, servida de joelhos, no chão. Come no meio de 80 irmãos – palavra desadequada, como se vê – que, em cada sexta-feira, lhe aplicam a disciplina (instrumento de correias que servia para a autoflagelação).

Deste degredo, do qual quase ninguém sabe o paradeiro, João foge a 15 de Agosto de 1578. Frei João contará que foi Nossa Senhora que a isso o incitou. E, para o fazer, tem a ajuda do novo carcereiro, o irmão João de Santa Maria, que nos últimos três meses, o vinha também fornecendo de papel e tinta.

Na fuga, João da Cruz leva consigo um caderno. Nele escrevera os seus poemas – entre os quais o Cântico espiritual, a Chama de amor viva e Noite escura. E, mesmo se a poesia de frei João não ocupa mais de 40 páginas, o poeta e tradutor José Bento não tem dúvida em colocar aqueles três entre os “mais belos poemas da língua espanhola e porventura de qualquer língua”.

A prosa e a poesia de João da Cruz inclui ainda mais de 20 cartas e oito textos (disponíveis nas Obras Completas, ed. Carmelo) três dos quais são comentários aos três poemas referidos.
João da Cruz morre a 14 de Dezembro de 1591, aos 49 anos, depois de fundar vários carmelos reformados. Nas Outras coplas a lo Divino, escreve: “A mais forte conquista/ na escuridão se fazia.”


Uma cela para João da Cruz
O norte-americano Bill Viola, um dos mais importantes realizadores contemporâneos, fez um Room for Saint-John of the Cross (1983), onde procura reconstruir a cela onde, durante nove meses, o poeta e místico espanhol esteve preso. Num texto publicado nos Cahiers du Cinéma (Janeiro de 1986), intitulado “A escultura do tempo”, Raymon Bellour descreve as imagens: uma mesa, um copo, um minúsculo monitor a cores e “uma voz que parece vinda chão [que] recita poemas em espanhol, coberto pelo rugido do vento”. A escolha do tema de João da Cruz destina-se a “exprimir o que tomou hoje o lugar de Deus”. “Na sua cela sem janela, pode pensar-se que S. João imaginava uma paisagem: tinha a imagem interior de uma percepção. [Viola] inspira-se para mergulhar na Noite Escura e aí encontrar Deus.” O realizador, que filma, e o espectador, que vê, “encontram-se sempre um pouco na pele de S. João da Cruz”, de quem trabalha essa “imagem-paisagem” interior.


Poema - Paisagem Verdadeira, de Edmundo de Bettencourt

O verde tenro e vivo, de folhagem,
presépio dos meus sonhos, em menino,
pôs-se de luto, a par com o meu destino,
cego-me a vê-lo imagem de miragem...

Quando, iludido, o busco na ramagem,
já com seus tons mais brandos não atino;
e nesta escuridão, só me ilumino
vendo-o compor-me interior paisagem:

paisagem d’outro verde, que de mim
sai alongado em foco para a terra
a procurar vencer-lhe a cerração,

e aonde num crepúsculo sem fim
tonta, a esperança, esvoaçando, erra
sobre torres d’encanto e de traição!

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (13) - A luz, mesmo se é noite

Enchem-se de luz as cidades, acendem-se velas em casa, cintilam lâmpadas coloridas alegrando ruas e lojas. Passeiam-se crianças e adultos a ver iluminações de Natal, fazem-se romarias aos centros urbanos onde se concentra o bulício e a luminosidade. A luz, um dos mais profundos símbolos cristãos, aparece mais intensamente como sinal de que o tempo natalício está à porta.


(Ilustração: Ilda David', Moisés junto da sarça ardente; in Bíblia Ilustrada, tradução de João Ferreira d'Almeida, edição do texto de José Tolentino Mendonça; ed. Assírio & Alvim/Círculo de Leitores)


“O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; e aos que jaziam na sombria região da morte surgiu uma luz.”
(Evangelho de S. Mateus 4, 16)

Santa Luzia é hoje festejada no calendário católico e pelos protestantes do Norte da Europa. Mártir, padroeira dos oftalmologistas, a sua história – para lá do nome, que deriva de luz – tem pouco a ver com a cura da vista. Viveu em Siracusa, no final do século III, era muito bela e ajudava os pobres dando-lhes comida. Entre os pretendentes, um jovem nobre insistia em casar com ela, o que ela recusava. O frustrado noivo ter-se-á vingado denunciando a fé cristã de Luzia e provocando o seu martírio.

No domínio da lenda está a história dos olhos. Antes de morrer, Luzia é inquirida sobre a razão de não querer casar com o nobre. Ela pergunta, por sua vez, o que via o rapaz em si. O prefeito Pascásio, que a interroga, terá respondido: “Os teus olhos brilham como duas estrelas e encantam como duas pérolas.” A jovem pede um prato. Bruscamente, tira os próprios olhos, colocando-os na bandeja para que fossem entregues ao rapaz.

Luzia renuncia à vista, mas não à fé. Se a lenda tem um sentido, ele pode ser o de dizer que a experiência da fé é, por vezes, a de atravessar as próprias sombras: “Visita fulgurante do amor de Deus, o Espírito Santo atravessa cada ser humano como luz que brilha na sua própria noite”, escreve o irmão Roger, de Taizé (Deus só pode amar, ed. Gráfica de Coimbra).

Paradoxal? A dúvida, a incerteza, foi o cadinho onde se amassaram experiências de fé como as de S. João da Cruz, Dostoievski ou Teresa de Lisieux. “Esta eterna fonte está escondida/ neste tão vivo pão pra nos dar vida,/ mesmo se é noite”, escreve João da Cruz no “Cantar da alma que rejubila por conhecer a Deus pela fé” (Poesias Completas, tradução de José Bento, ed. Assírio & Alvim). Os discípulos de Jesus têm, após a ressurreição, experiências de “frustração dos sentidos: aquilo que viram não era o que esperavam ver, não estavam preparados para a surpresa”, nota Domenico Pezzini (As Feridas que Curam, ed. Paulinas). Por vezes, a luz opõe-se à noite e às trevas. “Se me envolve a noite escura/ e caminho sobre abismos de amargura/ Nada temo porque a Luz está comigo”, canta um dos mais belos hinos da Liturgia das Horas.

Luz e noite confundem-se, a luz está na noite. Etty Hillesum, judia deportada que morreu em Auschwitz e escreveu um diário, registava, em 26 de Agosto de 1941: “Há em mim um poço muito profundo. E nesse poço está Deus. Às vezes, consigo chegar a ele, mas o mais frequente é que as pedras e escombros obstruam o poço e Deus fique sepultado. Então, é necessário voltar a trazê-lo à luz.” (Etty Hillesum – Un Itinerário Espiritual, ed. Sal Terrae, Santander)

A luz é o início, está presente desde o primeiro dia da criação do mundo: “Deus disse: ‘Faça-se a luz.’ E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas.” (Génesis 1, 1-5). É uma luz – a estrela – que anuncia o nascimento de Jesus. Experiências de luz são a da transfiguração e da ressurreição de Cristo. Paulo converte-se depois de uma intensa luz o fazer cair do cavalo. A libertação da humanidade é antecipada, no evangelho, como uma luz que “iluminará os que se encontram na escuridão e na sombra da morte e guiará os [seus] passos pelo caminho da paz” (Lucas 1, 79). A luz é identificada com o próprio Cristo: “O Verbo era a luz verdadeira que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina.” (João 1, 9).

Esta luz é amor que arde e tem que se ver. Escreve Santo Agostinho, nas Confissões (Livro XIII, XVIII, 22): “Assim, Senhor, assim, peço-te, (…) nasça da terra a verdade, e a justiça olhe do céu, e façam-se luminares no firmamento. Partamos o nosso pão para o que tem fome e levemos para nossa casa o pobre sem abrigo, vistamos o nu e não desprezemos os familiares.”


Dez milhões de estrelas para a noite de Natal
Dez milhões de estrelas, pede a Cáritas Portuguesa para a noite de Natal. A iniciativa, iniciada há vários anos, pretende que cada pessoa acenda uma vela à janela ou varanda de sua casa. O objectivo: “Contribuir para o desenvolvimento de uma consciência e cultura que afirmem o diálogo e a compreensão, como caminho único para a superação de conflitos e condição para o desenvolvimento dos povos”. Daí a proposta “10 Milhões de Estrelas – um gesto pela Paz” que a Cáritas promove, a nível internacional, e também em Portugal. Em todo o lado, a Cáritas quer que apareçam “milhares de velas” a “aquecer a noite, como sinal da mesma esperança e do mesmo compromisso”. Até dia 24, as Cáritas de todas as dioceses portuguesas estão entretanto a realizar várias iniciativas de apoio a pessoas mais desfavorecidas. Os fundos resultantes da operação – nomeadamente a partir da venda de velas – reverterão para o apoio às famílias desfavorecidas e atingidas pela crise.


Poema - Natal africano, de Cabral do Nascimento

Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz... Mas é Natal.

Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.

Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.

Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

Bento Domingues: A retórica da alegria

“Acabemos de vez com essas caras de sexta-feira pouco santa para poder ressuscitar o quotidiano. Hoje, a tristeza já não vem, sobretudo, do púlpito e do confessionário. A religião laica obriga-nos a consumir, a semana inteira, imagens e noticiários sempre mais deprimentes”, escreve Bento Domingues, no “Público” de hoje, porque hoje, terceiro Domingo do Advento, é o Domingo da Alegria. Clicar para ler.

D. Manuel Clemente

Mais ainda que ecuménico, D. Manuel Clemente é, diante da sociedade, um exemplo de tolerância e de empenho. Estes não são lugares comuns. A tolerância, nestes dias presentes, é um bem raro, uma virtude frágil. Muitos dizem que os religiosos, porque crentes, são os mais predispostos à intolerância. Quando, por exemplo, se fala de fundamentalismo, logo se pensa em religião, em muçulmanos, católicos, protestantes, evangelistas, judeus e outros. Digam a palavra fundamentalista e logo se dirá “religião”. É verdade que, entre os religiosos, há forças fundamentalistas geralmente inimigas da tolerância. Mas há uma outra verdade: entre os chamados laicos, entre os agnósticos e os ateus, o fundamentalismo reina também. Os intolerantes que conheço são tanto religiosos como agnósticos. Excluem-se com a mesma fúria e têm a certeza de que os outros estão sempre no erro. Há um fundamentalismo anti-religioso tão perturbador e tão fracturante das sociedades quanto os fundamentalismos religiosos.

António Barreto
[Apresentação de “Um só propósito – Homilias e escritos pastorais” Manuel Clemente, Bispo do Porto. 25 de Março de 2009]

sábado, 12 de dezembro de 2009

Um Prémio Pessoa em nome do humanismo e do combate à exclusão

«É um excelente contador de histórias. Foi o primeiro bispo católico português a publicar uma mensagem no YouTube. O escolhido para Prémio Pessoa 2009 é o bispo do Porto, Manuel Clemente. Uma "referência ética", diz o júri, com uma intervenção cívica onde se destaca a defesa do diálogo e da tolerância.»

Ecos do Prémio Pessoa, ontem atribuído ao bispo do Porto, D. Manuel Clemente: no Público, o perfil do premiado; na Renascença, um vídeo de 1'06" registando as declarações do premiado após o anúncio da decisão do júri; na Ecclesia, uma notícia que inclui a bibliografia mais exaustiva de Manuel Clemente, bem como uma ligação para diversos textos do próprio bispo do Porto publicados na agência.

Calendário de Advento (12) - Hanukkah, a luz judaica do renascimento

Coincidência de calendário, os judeus celebram normalmente a sua festa de Hanukkah na mesma época em que os cristãos celebram o Natal. A festa das Luzes celebra a purificação do Templo de Jerusalém, depois da profanação selêucida. A luz e o nascimento são símbolos que atravessam também o islão, o budismo ou o hinduísmo.


(Foto: © Daniel Rocha/Público: A família reúne-se em volta do hanukkiah, o candelabro de Hanukkah)


“Ao cair da noite, vem o pranto;
e, ao amanhecer, volta a alegria.
Senhor, foste bom para mim e deste-me segurança;
mas, se escondes a tua face, logo fico perturbado.”
(Salmo 30, lido quando se acendem as velas na festa de Hanukkah)

Os judeus iniciaram a festa de Hanukkah esta sexta-feira ao pôr-do-sol. A Festa das Luzes ou da Dedicação é uma das mais importantes do calendário judaico: durante oito dias, recorda-se a reinauguração do Templo de Jerusalém, depois de este ter sido profanado pelos selêucidas sírios.

Em 165 a.E.C. (antes da Era Comum), foi Judá Macabeu quem liderou uma guerra de guerrilha contra a ocupação selêucida. A perseguição era violenta: o rei Antioco Epifânio queria helenizar a Síria e a Judeia. Proibiu a celebração do Sabat, a leitura da Bíblia e a circuncisão. Duas mulheres que tinham circuncidado foram apanhadas e atiradas pela muralha de Jerusalém. Pior ainda: o rei ordenou sacrifícios com porcos no Templo de Jerusalém, colocando nele uma estátua de Júpiter.

Quando, depois da reconquista de Jerusalém, os judeus purificaram o Templo, conta-se que foi encontrado um pote com azeite para acender a chama sagrada durante um dia. Mas o azeite durou oito dias. Por isso, em memória desse acontecimento, os judeus acendem anualmente (segundo o calendário lunar), em cada um dos oito dias, uma lamparina do candelabro de Hanukkah (e mais uma que é acesa todos os dias).

A festa é, essencialmente, familiar, explica Samuel Levy, conselheiro para os assuntos religiosos da Comunidade Israelita de Lisboa. Há doces e, em alguns casos, prendas para as crianças, tradição iniciada talvez por causa do Natal. Tendo em conta a importância do azeite nesta festa, os doces são sobretudo fritos, como as rabanadas ou os sufganiot (leva farinha, açúcar e canela). A família reúne-se em volta do hanukkiah, a lâmpada de Hanukkah. Reza-se uma bênção, recita-se o salmo 30, canta-se uma das muitas canções da festa.

Se o renascimento do Templo é importante, o nascimento de grandes figuras tem sempre dimensões extraordinárias. Samuel Levy recorda, no judaísmo, os nomes de Moisés, Isaac e Samuel. Moisés é retirado das águas, Isaac e Samuel nascem de mães que tinham sido estéreis até muito tarde. “Senhor do universo, se te dignares olhar para a aflição da tua serva e te lembrares de mim, se não te esqueceres da tua serva e lhe deres um filho varão, eu o consagrarei ao Senhor, por todos os dias da sua vida”, rezava Ana (I Samuel 1, 11), a futura mãe de Samuel (cujo nome significa “Deus escutou”).

Mais tarde, um outro judeu, Jesus, nasce de uma virgem, tal como acontecera com Confúcio, recorda Levy. Também o Alcorão lê de forma miraculosa o nascimento de Maria e de Jesus. “Assim será. Deus cria o que quer. Quando decreta alguma coisa, diz apenas: ‘Seja!’, e é” (Alcorão, 3, 47).

No budismo, a ideia do renascimento é central: “A vida começa como acaba: com a luminosidade-base”, escreve Sogyal Rinpoche (O Livro Tibetano da Vida e da Morte, ed. Círculo de Leitores). E no hinduísmo também o símbolo da luz é essencial: no Diwali, a festa das luzes, celebra-se a vitória sobre a obscuridade e o mal, acendendo velas e lâmpadas nas casas e nas ruas.

Na bênção inicial de Hanukkah, a família judaica reza: “Ó Eterno, nosso Deus: acendemos estas velas por causa dos milagres, redenções, grandes feitos, salvações, maravilhas e consolações que fizeste para com os nossos antepassados.”


Criação e recriação, um tema estético
A reflexão estética sobre a criação do mundo é um tema largamente presente na história da arte, tomando, por exemplo, o ciclo de sete dias proposto pela tradição judaico-cristã. Comum a todas as religiões, incluindo as primitivas, a ideia da criação do mundo foi elaborada no judaísmo depois da libertação da escravatura egípcia, e à luz desse acto fundador. A ideia foi retomada no cristianismo dando à criação e à salvação a unidade de um só acto. No islão, o Alcorão (55, 29) recorda que “todos os dias Alá cria qualquer coisa nova”.


Poema – Canção do pastor perdido, de Reinaldo Ferreira

Ia eu p’ra Belém
Com oferendas também
Por Babel me passava;
E, passando, hesitei,
Hesitando, parei
E parando, ficava.

Mas nem lavas, nem lodos,
Nem os répteis todos
Da Paixão e do Mal
Terão força que possa
Afundar-me na fossa
Do Juízo final.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

Minaretes

No texto de hoje no DN, Anselmo Borges regressa ao resultado do referendo na Suíça que proibiu a construção de minaretes. Um excerto:

A islamofobia aumentou depois dos atentados terroristas levados a cabo na Europa por muçulmanos radicais. Há hoje um receio latente da islamização da sociedade europeia, sobretudo quando se pensa nos próximos desequilíbrios demográficos. Não admira, pois, que políticos da direita em França, Holanda, Dinamarca, Áustria, Bélgica, Itália, tenham exultado. A própria Angela Merkel considerou que esta vitória deve ser tomada em conta e "levada a sério".

Neste contexto, é de sublinhar a declaração do presidente da Conferência Episcopal Alemã, aliás na linha do Vaticano quanto à reciprocidade - é sabido, por exemplo, que na Arábia Saudita não é permitida a construção de uma igreja cristã: "É justamente porque nós, cristãos, recusamos e condenamos as restrições à liberdade religiosa impostas em países muçulmanos que devemos não só socorrer os cristãos que lá haja, mas intervir igualmente a favor dos direitos dos muçulmanos que cá estão."

(O artigo pode ser lido na íntegra aqui.)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (11) - S. José um pai emprestado?

É uma das figuras mais enigmáticas ligadas à história de Jesus. Dele pouco se sabe, dele pouco se fala, o próprio não é nunca citado dizendo alguma coisa. É uma espécie de personagem passiva, de figurino. Faz de pai, mas diz-se que não é o verdadeiro pai. Quem é este José, o carpinteiro?


[Ilustração: Mestre de Flémalle, José na sua Oficina (pormenor), 1425-28/Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque]

“Chamado para esposo de Maria/ E para pai de Deus feito menino,/ Tu protegeste e deste alimento/ Ao próprio Deus.// Patriarca do silêncio e do trabalho/ Escondes na humildade o coração/ Cheio de amor a Cristo e sua mãe/ Em Nazaré.”
(Hino da Liturgia das Horas)


São mais as perguntas que as certezas que, mesmo entre investigadores e especialistas da Bíblia, se formulam a propósito de José, o “pai putativo” de Jesus, como lhe chamou o Papa João Paulo II [exortação Redemptoris Custos (O protector do redentor), sobre a figura e missão de S. José na vida de Cristo]. De José, supõe-se que ele é o que não é, para seguir à risca a definição do dicionário. Mas, de facto, ele é o que foi, acredita a tradição cristã.

Confuso? O biblista francês Charles Perrot, do Insituto Católico de Paris, descreve o quadro da situação antes de sintetizar alguns dos problemas que se colocam aos teólogos: “Maria estava noiva ou já era casada com José. Ora, ela encontrou-se grávida por obra do Espírito Santo, isto é, pela força de Deus, conforme o sentido que habitualmente se dá a esta palavra.” (Narrativas da Infância de Jesus, ed. Difusora Bíblica) Ou seja, tal como acredita a tradição cristã, a partir dos relatos evangélicos, Jesus nasceu sem qualquer intervenção de José.

Esta descrição contém já “um paradoxo: Maria é a esposa de José e a criança que ela trás no seio vem de Deus. Isto é uma dificuldade” para demonstrar que Jesus é da linhagem do rei David, como afirmam os relatos evangélicos. Há uma segunda dificuldade, regista Perrot, citando a Bíblia: “José, que era um homem justo e não queria difamá-la [Maria], resolveu deixá-la secretamente.”

Tal afirmação bíblica colide com as práticas judaicas conhecida do repúdio no casamento. Situando-se exclusivamente n texto, Perrot verifica que “o casamento de José e Maria fica posto em questão pela presença da criança”. E só a adopção legal, a que corresponde a decisão de José, permite converter Jesus em seu filho, “com todos os direitos e pretensões”. Se Maria dá a vida a Jesus, é a atitude de José que acaba por fazer de Jesus um ser social, assumindo, mesmo se misteriosamente, a paternidade.

José era carpinteiro – uma profissão especializada que, no tempo, equivaleria a uma classe média actual, pelo importante estatuto social que tinha. Nada a ver, portanto, com a descrição do “humilde” carpinteiro com que tantas vezes a hagiografia cristã o descreve. E foi entre essas lides que Jesus cresceu e pela profissão do pai ficou também conhecido. De tal modo que um dia, quando regressa à Nazaré da sua infância, conta o evangelho de Mateus, “ensinava os habitantes na sinagoga deles, de modo que todos se enchiam de assombro e diziam: ‘De onde lhe vem esta sabedoria e o poder de fazer milagres? Não é ele o filho do carpinteiro? (13, 54).

Na carta citada, de Agosto de 1989, João Paulo II escreve que “o filho de Maria é também filho de José”. Mas os evangelhos “não registam palavra alguma que ele tenha dito”. E foi nesse mistério, nessa paternidade escondida e muda, no silêncio de José e no silêncio feito à sua volta, que a espiritualidade cristã construiu a sua figura. Mas “esse silêncio tem uma especial eloquência”, regista o anterior Papa. “Graças a tal atitude pode captar-se perfeitamente a verdade contida no juízo que dele nos dá o evangelho: ‘o justo’.”


Um velho piedoso na iconografia tradicional
Na iconografia tradicional, a figura de S. José é representada essencialmente como um velho piedoso, por vezes quase simplório. Em Portugal, e em regiões como o Alentejo, por exemplo, S. José é objecto de uma grande devoção, mas as representações que dele são feitas são, na maior pare dos casos, daquele tipo. José António Falcão, director do Departamento de Património Histórico da Diocese de Beja, já explicou que tal figuração remete para a “herança de todos os cultos patriarcais” anteriores ao cristianismo, que afirmavam o homem como esteio da família. Mas há imagens que contrariam essa figuração: na Igreja da Senhora do Carmo, em Cuba, pode ver-se um S. José jovem e vigoroso. Mas também há algumas onde se vê um jovem feliz pela sua paternidade. É o caso de uma Natividade do século XIII, dos frescos provenientes da abside de Poliñá, séc. XIII, actualmente no Museu Diocesano de Barcelona.


Poema - Natal, de Fernando Pessoa

Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

D. Manuel Clemente, Prémio Pessoa 2009

O bispo do Porto, D. Manuel Clemente, foi o escolhido como Prémio Pessoa 2009. O júri, presidido por Francisco Pinto Balsemão, justificou: "A sua intervenção cívica tem-se destacado por uma postura humanística de defesa do diálogo e da tolerância, de combate à exclusão e da intervenção social da Igreja. Ao mesmo tempo que leva a cabo a sua missão pastoral, D. Manuel Clemente desenvolve uma intensa actividade cultural de estudo e debate público. Em tempos difíceis como os que vivemos actualmente, D. Manuel Clemente é uma referência ética para a sociedade portuguesa no seu todo."

Mais pormenores sobre a atribuição do prémio podem ler-se aqui. No Religionline já se tinha assinalado a produção ensaística mais recente, em Setembro, quando remetemos para uma entrevista publicada no Público/Ípsilon e que pode ser lida aqui.

Esta é a primeira vez que o galardão é atribuído a uma figura da hierarquia católica. Outras figuras publicamente reconhecidas como crentes - José Mattoso ou João Lobo Antunes - tinham já recebido antes o Prémio Pessoa.
(Foto © Público)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Simone Weil, marginalidade e alternativa

Uma jornada comemorativa do centenário de Simone Weil, com o título acima citado, é o que propõe a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa esta sexta-feira, dia 11. Será no anfiteatro IV, a partir das 10h00, com o seguinte programa:

10h00 às 11h40 - I Sessão
Moderadora: Maria Luísa Ribeiro Ferreira
Sylvie Courtine-Denamy - Enracinement et déracinement chez Simone Weil
Manuela Silva - A actualidade de uma estranha mística para os nossos estranhos tempos
Debate

12h00 às 13h15- II Sessão
Moderadora: Fernanda Henriques
José Pacheco Gonçalves - Empenho e sentido de responsabilidade em Simone Weil
José Tolentino Mendonça - Um itinerário para Deus - o comentário de Simone Weil à oração do Pai-Nosso
Debate

14h30 às 15h45 - III Sessão
Moderadora: Maria José Vaz Pinto
Fernanda Henriques - Simone Weil: interrogando para compreender
Maria José Vaz Pinto - O lastro do pitagorismo na ideia weiliana de ciência
Debate

16h00 às 18h00 - IV Sessão
Moderadora: Filipa Afonso
Maria Luísa Ribeiro Ferreira - Encontros e desencontros de dois filósofos “judeus”: Simone Weil e Espinosa
Sérgio Sorrentino - La necessité et le bien dans l’éthique de Simone Weil
Debate
Lançamento do livro "As mulheres e a filosofia" de Maria Luísa Ribeiro Ferreira

18h00 Encerramento

Entrada livre; inscrição: cinco euros (deve ser feita no dia; direito a certificado de participação)

Calendário de Advento (10) - João Baptista: Profeta do deserto e do desconcerto

Contam os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas que “apareceu João, o Baptista, a pregar no deserto da Judeia”. Um homem desconcertante: alimenta-se de gafanhotos e mel silvestre, veste-se com uma pele, baptiza no rio Jordão, exorta à mudança de vida. Mas este homem não fica a pregar no deserto, ao contrário do que a expressão popular indicia. De tal modo incomoda os mais poderosos que o rei o manda degolar.


(Ilustração - Leonardo da Vinci: Santa Ana, a Virgem, o Menino e São João, c. 1498, Museu do Louvre, reproduzido em "Leonardo da Vinci", de Fernando Marias, ed. Estampa/Círculo de Leitores)

“Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.”
(Profecia de Isaías 40, 3)

O cenário: um rio, deserto à volta. Um homem austero, muito austero. Multidões procuram-no, para o ouvir. Mas a mensagem deste profeta judeu não é meiga: João Baptista fala da necessidade de arrependimento, diz que quem tem uma túnica deve repartir com quem não tem nenhuma, pede aos soldados que não exerçam violência sobre ninguém, e aos colectores de impostos que não cometam injustiças. Veste-se mal, alimenta-se pior e acusa o rei de trair o irmão, tirando-lhe a mulher deste para casar.

Um homem que viveu há dois mil anos mas que “desconcerta o nosso tempo”, diz o padre João Resina Rodrigues (A Palavra no Tempo, ed. Multinova). Vivemos no supérfluo, na diplomacia, no compromisso. [João Baptista] era o homem do essencial, da verdade, dos caminhos rectilíneos. Não terá percebido toda a riqueza da alegria (nenhum dos santos é total), mas é, sem dúvida, um homem de Deus.”

João é um dos vários profetas que, no tempo de Jesus, agitam Israel. O seu estilo de vida e de pregação insere-o nos movimentos baptistas, que exortam as pessoas a mudar de vida, num tempo em que a fé judaica está em crise.

A ocupação romana, a espera messiânica que não se concretiza, a divisão em grupos e seitas (fariseus, saduceus, zelotas, essénios, levitas) espartilham o judaísmo. E a falta de líderes políticos ou religiosos reconhecidos – excepção para dois rabinos que se destacam, Hillel e Shamai – cria o ambiente propício para o aparecimento de todo o tipo de visionários.

O Baptista destaca-se dos restantes, até pelas consequências do que diz. Mas os seus discípulos percebem que ainda não é ele o Messias que aguardam: “Ele não era a luz, mas vinha para dar testemunho da luz”, escreverá outro João, o evangelista, cerca de sete décadas depois.

Nos evangelhos, João é apresentado como primo de Jesus. E é ele que lhe prepara o caminho. “Não confere o perdão dos pecados, mas o conhecimento da salvação que será dada no perdão dos pecados”, escreve o biblista francês Augustin George (Para Ler o Evangelho Segundo S. Lucas, ed. Difusora Bíblica). Mas, nota frei Lopes Morgado (Em minha memória, ed. Difusora Bíblica), quando vê Jesus, apesar de conhecer a sua “honestidade”, João “tem a liberdade e a lucidez de mandar interpelá-lo: ‘És tu aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?’”.

“É o homem de Deus”, observa João Resina na obra citada. “Totalmente consagrado à sua tarefa, acima dos prazeres e das vaidades, das glórias e das quezílias. Vive no deserto, na austeridade total. Em todo o caso, em nada se assemelha àqueles ascetas que renunciaram a tudo porque em tudo viram pecado ou ocasião de pecado (…). João comporta-se como um homem livre, alheado das satisfações vulgares (…). Embora retirado do mundo, mostra uma grande experiência da vida. (…) Diz aos letrados que não se pode viver na mentira, pede aos soldados que não se sirvam da força para fazer exigências, manda a todos os que possuem que repartam com quem não tem.”


João e Jesus, dois percursos paralelos
João Baptista tem um percurso paralelo embora não totalmente coincidente com o de Jesus. Mesmo se os evangelhos o vêem como último profeta do Antigo Testamento, anunciador do Messias. Nas narrativas evangélicas, o Baptista começa por ter um nascimento miraculoso: se Jesus é encarnação de Deus sem intervenção humana, João nasce de pais já em idade avançada – e o seu pai é castigado pela falta de fé na mensagem do anjo, ficado mudo até ao dia do seu nascimento. João escolhe depois o deserto para viver e anunciar a sua mensagem. Jesus passa pelo deserto no início da sua vida pública ou quando precisa de ficar só. Ambos são escutados por multidões ávidas de alguém que indique caminhos de renovação. E ambos acabarão mortos de forma violenta, por causa do que dizem: João é degolado, Jesus é pregado numa cruz. O único encontro entre ambos narrado pelos evangelhos dá-se quando Jesus vai ter com João para que este o baptize nas águas do Jordão, tal como fazia às pessoas que o procuravam: “Eu é que tenho necessidade de ser baptizado por ti, e Tu vens a mim?”


Poema – A copa de Baltasar, de Eugénio de Castro

(A Júlio Dantas)

Os três Reis Magos tinham-se ido embora
Em dromedários calmos, ao luar...
Seus presentes de brilho singular,
Dispunha-os São José na manjedoura.

Um pastor cobiçoso nessa hora
Não se cansava ali de cobiçar
A áurea copa em que o negro Baltasar
Trouxera o claro incenso e a mirra loura.

Em Jesus, qu’rendo mostrar que o ouro
Nada mais vale que o mesquinho pó,
E que riquezas de esplendor imenso

Só se encontram das almas no tesouro,
Ao pegureiro atónito brandou:
– “Leva a copa, mas deixa a mirra e o incenso!”

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

Músicas que falam com Deus (4) - Silêncio, um diálogo musical com a Bíblia


“Silêncio” é um projecto original: o grupo Sete Lágrimas convidou três artistas ligados a três diferentes tradições cristãs (Ivan Moody, ortodoxa, Andrew Smith, protestante, e João Madureira, católica) para comporem peças sobre textos bíblicos – respectivamente, o relato da criação do mundo no Génesis, as Lamentações de Jeremias e a Paixão de Jesus. 
O resultado é um diálogo dos compositores com a Bíblia, do religioso com a arte e dos compositores entre si: apesar das peças terem sido criadas em separado, o resultado final é um profundo diálogo entre os três compositores tecido pelo fio do texto bíblico. 
A música é de grande qualidade: Ivan Moody recria a serenidade do ambiente preambular e a força do acto criador; Andrew Smith revela-nos a voz do deserto e do exílio; João Madureira dá uma intensidade inusitada à morte de Jesus (começando pelo Pai-Nosso e pela forte invocação do Pater). 
Às criações, os compositores acrescentaram uma peça antiga que recriaram: um hino russo, uma canção inglesa e uma cantiga de Santa Maria, de Afonso X. 
A obra assinala os 25 anos do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja. 
Um disco notável.


Título: Silêncio; Intérpretes: Sete Lágrimas; Edição: Arte das Musas, 2009; info: mail@artedasmusas.com; discos@dargil.pt 

(Mais informação sobre o projecto e excertos das músicas aqui; texto publicado na revista Além-Mar, de Dezembro de 2009)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (9) - Árvore de Natal: A utopia messiânica e os protestantes


(Ilustração: A Criação, de Barbara Garrison, colagem e aguarela, in “La Creazione, Seconda Rassegna Internazionale di Illustrazione per l'Infanzia”, Ed. Messagero, Padova)

Símbolo importado do Norte da Europa e dos países protestantes, a árvore de Natal remete também para um tema bíblico relevante: a árvore do Paraíso, a árvore de Jessé. Esta última é a imagem da utopia messiânica e, mais tarde, da de Jesus Cristo.

“Ainda que os montes sejam abalados e tremam as colinas, o meu amor por ti nunca mais será abalado, e a minha aliança de paz nunca mais vacilará. Quem o diz é o Senhor, que tanto te ama.” (Profecia de Isaías 54, 10)

É em volta da árvore que a expectativa do Natal vai crescendo: ali se vão colocando os presentes destinados a ser abertos entre alegrias e esperanças. Ali ganham cor sonhos de laços coloridos, desejos de promessas sempre renovadas.

A alegria começa antes: na construção da árvore de Natal, como do presépio, ganha expressão o comunitário: estrelas construídas pelos mais novos, anjos feitos na escola, iluminações que cantam. Ensaia-se o gosto, aprende-se a beleza. A alegria celebra o quotidiano ou o extraordinário.

Num dos textos da profecia de Isaías, lida pelos cristãos durante o Advento, proclama-se o inesperado: “Exulta de alegria, estéril, tu que não tinhas filhos, entoa cânticos de júbilo, tu que não davas à luz, porque os filhos da desamparada são mais numerosos do que os da mulher casada. É o Senhor quem o diz” (Isaías 54, 1).

Diariamente, ilumina-se a árvore, símbolo da época de Natal mais ligado ao Norte da Europa e aos países protestantes. Daí terá vindo, mesmo se a sua origem será ainda mais remota: possivelmente estará ligada a rituais de ornamentação ou a jogos na Idade Média.

Símbolo maior de uma vida que nasce e se renova, a árvore é também um tema bíblico relevante. No Paraíso, era a árvore do conhecimento do bem e do mal a que marcava a fronteira entre Deus e a humanidade. Na profecia de Isaías, nasce de um tronco de árvore a utopia messiânica: “Brotará um rebento do tronco de Jessé” (11, 1).

Utopia de um mundo justo, equitativo e pacificado, a profecia de Isaías fala do tronco de Jessé. Refere-se ao pai daquele que viria a ser o rei David, de Jerusalém e que, para os cristãos, é o início da árvore genealógica de Jesus. Esse texto prenunciador da utopia de um mundo diferente que os cristãos lêem como profecia da boa nova que Jesus irá anunciar:

“Brotará um rebento do tronco de Jessé,
e um renovo brotará das suas raízes.
Sobre ele repousará o espírito do Senhor:
espírito de sabedoria e de entendimento,
espírito de conselho e de fortaleza,
espírito de ciência e de temor do Senhor.

Não julgará pelas aparências
nem proferirá sentenças somente pelo que ouvir dizer;
mas julgará os pobres com justiça,
e com equidade os humildes da terra;
ferirá os tiranos com os decretos da sua boca,
e os maus com o sopro dos seus lábios.
A justiça será o cinto dos seus rins,
e a lealdade circundará os seus flancos.

Então o lobo habitará com o cordeiro,
e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito;
o novilho e o leão comerão juntos,
e um menino os conduzirá.

A vaca pastará com o urso,
e as suas crias repousarão juntas;
o leão comerá palha como o boi.
A criancinha brincará na toca da víbora
e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente.

Não haverá dano nem destruição em todo o meu santo monte,
porque a terra está cheia de conhecimento do Senhor,
tal como as águas que cobrem a vastidão do mar.”
(Isaías 11, 1-10)


Símbolos e ritos protestantes
Mais depurada que no universo católico, nem por isso a celebração protestante do Natal deixa de ter símbolos. Além da árvore, cuja tradição terá começado no Norte da Europa, protestante, outras tradições acabaram também por se universalizar. Na coroa do Advento, as quatro velas acendem-se, cada domingo, marcando o ritmo da espera; na Escandinávia, as igrejas enchem no primeiro domingo do Advento, mesmo se durante o resto do ano estão vazias. Dias depois, a 13 de Dezembro, na festa de Santa Luzia (mártir cristã do fim do século III ou início do século IV), as raparigas vestem-se de branco e levam uma coroa com quatro velas acesas. S. Nicolau (6 de Dezembro) é muito festejado no Norte da Europa, em alguns casos com a troca de presentes a ser feita nesse dia. E o presépio, apesar de menos usado, marca também presença. Em vez da Missa do Galo há um culto especial no dia de Natal após o qual, em muitos casos, se abrem os presentes. Na véspera, a consoada é festa de família. “Senhor Deus, damo-nos conta de quanto nos amas e ‘desde há tanto tempo”, reza-se, numa pequena liturgia doméstica.


Poema – Rosas de Inverno, de Camilo Pessanha

Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.

Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonisar do ano,
Tão fora da estação!

Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
As almas das mendigas!

Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (8) - Imaculada: Um dogma que divide, um enunciado sobre Deus que ama a humanidade

Os protestantes não aceitam, os ortodoxos expressam-no quase como os católicos, mas estes formularam a doutrina tradicional num dogma: a Imaculada Conceição, proclamado há 151 anos. Essa decisão não foi inocente, como inocentes não foram as promessas de D. João IV em dar uma renda ao santuário de Vila Viçosa e em proclamar a Imaculada como padroeira de Portugal.

[Ilustração: Francesco Barbieri, "Assunta" (Imaculada Conceição), Igreja do Sso. Rosário em Cento (Ferrara), in "Una Donna Vestita di Sole", ed. Federico Motta, Milano, 2005]

“Os primeiros cristãos devem ter sentido o que há de espantoso nesta afirmação: Deus, o absoluto e o eterno, escolheu uma criatura e ama-a como sua mãe. Por isso chamaram a Maria Mãe de Deus.” (Padre João Resina Rodrigues, A Palavra no Tempo, ed. Multinova)

Imaculada Conceição? Dita assim, a expressão aparecerá estranha a muita gente. O dogma católico, formulado há 151 anos (em 1854), sob o pontificado do Papa Pio IX, afirma que Maria, mãe de Jesus, não conheceu o mal.

A definição dogmática remete para a noção de pecado original. De acordo com este enunciado (aprofundado por Santo Agostinho no meio de polémicas teológicas do século IV), desde a criação do mundo que cada pessoa, quando nasce, está em pecado.

Com a formulação do dogma da Imaculada, a Igreja atribui à mãe de Jesus uma espécie de “imunidade absoluta” em relação ao mal, como se escreve na enciclopédia católica Théo. Mas esta proposição doutrinal mais não faz que formalizar uma tradição que, no mundo católico e ortodoxo, existia já desde há muitos séculos. Ao contrário do que acontece entre as igrejas protestantes, que não veneram a figura da mãe de Jesus da mesma maneira que católicos e ortodoxos.

“Durante muito tempo, as igrejas protestantes minimizaram ou ignoraram a figura de Maria”, escreve João Resina Rodrigues na obra acima citada. “A ideia era concentrar toda a atenção em Cristo e também contrariar alguns exageros da devoção católica. Hoje, temos todos uma teologia mais serena, Não ignoramos (de resto, nunca ignorámos) que só Jesus Cristo é salvador.”

No mundo ortodoxo, a mãe de Jesus é designada muitas vezes como “plenamente santa” e como “Theotokos”, ou mãe de Deus – embora nenhuma destas designações tenha sido elevada à categoria dogmática. Ambas se fundam, entretanto, na saudação que, segundo o relato bíblico, o anjo lhe fez, ao anunciar-lhe o nascimento de Jesus: “Salvé, ó cheia de graça!”

A doutrina tradicional colocava, mesmo antes de ser adoptada como dogma, problemas teológicos: como é que o salvador pode nascer de alguém que já está salvo? Para tentar resolver o problema, o teólogo católico escocês John Duns Scott, do século XIII, formulou então o que ele chamou de “redenção antecipada”.

Foi esse argumento que levou o Papa Pio IX, depois de ter consultado os bispos de todo o mundo, a declarar o dogma. Mas esta decisão também tinha outros objectivos, mesmo se implícitos: era uma forma de o papado afirmar a sua autoridade contra o liberalismo e anticlericalismo do século XIX. Ao mesmo tempo, antecipava o terreno para a proclamação de outro dogma que protestantes e ortodoxos também não partilham: o da infalibilidade pontifícia, declarado em 1870, no Concílio Vaticano I.

Apenas quatro anos depois da proclamação de Pio IX, o dogma como que foi confirmado. Em Lourdes, a 25 de Março de 1858, a jovem Bernadette Soubirous contou ter visto uma figura de mulher a aparecer-lhe numa gruta. Em resposta à pergunta sobre a identidade da aparição, esta respondeu, no dialecto local dos Pirinéus: “Que soy era Immaculada Councepciou!”

O mesmo padre João Resina escreve: “O dogma da Imaculada (…) convida-nos a aceitar que a santidade é o encontro do dom de Deus com o dom da criatura. Ninguém é santo sem o dom de Deus, o dom de Deus não prescinde da liberdade humana.”


Contributos portugueses
O dogma católico da Imaculada Conceição tem também contributos portugueses. O inglês Gilberto Hastings, primeiro bispo de Lisboa pós-reconquista, adoptou o calendário de Salsbury, onde se fazia referência à Imaculada. Em 1645, após a restauração da independência em relação a Espanha, o rei D. João IV propôs nas cortes de Lisboa que a Imaculada Conceição fosse consagrada como padroeira do reino. O rei propunha-se pagar 50 cruzados de ouro anuais ao santuário de Vila Viçosa, o primeiro da Península Ibérica a adoptar a invocação. Promessa de rei, ainda, era a garantia de defender a ideia da concepção de Maria de Nazaré sem pecado original. Decisões que não eram só da ordem da devoção: o rei pretendia também o apoio da Santa Sé para a causa da independência. Em 1671, o Papa Clemente X confirmou a escolha da Imaculada Conceição como padroeira de Portugal. No século XVIII, a adesão a essa doutrina era mesmo condição de acesso à carreira docente na Universidade de Coimbra.


Poema - O Meu Natal (excerto), de António Nobre

A noite de Natal. Em meu paiz, agora,
O que não vae até romper o dia, a aurora!
As mezas de jantar na cidade e na aldeia,
A’ luz das velas, ou á luz d’uma candeia,
Entre rizadas de creanças e crystaes
(De que me chegam até mim só ais, só ais),
Dois milhões de almas e outros tantos corações,
Pondo de parte odios, torturas, afflicções,
Que o mel suaviza e faz adormecer o vinho:
São todas em redor duma toalha de linho!

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)

350 toques a rebate pelo clima

No próximo domingo, dia 13, os sinos de muitas igrejas em todo o mundo irão tocar pelo clima, enquanto decorre a Cimeira de Copenhaga sobre as alterações climáticas. Um toque a rebate, quase se poderia dizer. Mas serão antes 350 toques, às três da tarde de domingo, simbolizando as 350 partes por milhão que muitos cientistas dizem ser a medida máxima aceitável para o dióxido de carbono a lançar na atmosfera. No Público de segunda-feira, publiquei um texto sobre algumas tomadas de posição das diferentes igrejas cristãs a propósito da cimeira. E falei também d'A Rocha, uma organização ambientalista de inspiração cristã que nasceu em Portugal e está hoje presente em vinte países:

Uma organização ambientalista nascida em Portugal há 26 anos, impulsionada por um inglês, hoje presente em 20 países e inspirada na teologia cristã da criação. A Rocha, assim se chama esta associação, nasceu na Quinta da Rocha, em plena ria de Alvor (Portimão).

Ali está ainda um dos seus principais alvos das suas lutas: juntamente com outras cinco organizações ambientalistas (entre as quais a Quercus e a Liga para a Protecção da Natureza), A Rocha tem lutado pela reposição dos sapais e outras zonas com espécies protegidas na ria de Alvor.

Os ambientalistas consideram que esses habitats foram destruídos pela empresa Butwell – o caso está mesmo em tribunal.

O centro d’A Rocha no Alvor é, aliás, o lugar de onde irradia uma das principais acções da organização: a educação ambiental. “Fazemos uma abordagem como a da pediatria: ensinamos a prevenir, como fazer bem, como se cresce bem”, diz Tiago Branco, director executivo d’A Rocha em Portugal.

Peter Harris, pastor anglicano e ornitólogo, veio para Portugal em 1983, com a família, para estudar zonas ameaçadas e que eram utilizadas pelas aves migratórias. Parou no Alvor.

Nessa altura, Peter tinha uma sensação, como diz ao PÚBLICO: “Estranhei a pouca atenção dos cristãos [ao ambiente e biodiversidade].” Hoje, as coisas mudaram: “O actual Papa tem tido várias posições sobre o cuidado com a Terra, há iniciativas e declarações de diferentes Igrejas”, o patriarca ortodoxo de Constantinopla dinamiza simpósios sobre lugares ameaçados.

Está moderadamente optimista com Copenhaga: “Os frutos concretos serão limitados, mas o debate é inevitável e, pouco a pouco, tem que haver uma resposta.”


Recorde-se ainda o recente simpósio (o oitavo) da série Religião, Ciência e Ambiente, promovido pelo patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, que desta vez decorreu no Mississipi, em Outubro (a foto, copiada do site do simpósio, mostra o patriarca ortodoxo na cerimónia da bênção das águas, no início da iniciativa).

Minaretes, crucifixos e o verdadeiro sinal de fé

Vale a pena regressar à discussão sobre os minaretes e os crucifixos, a partir de textos dos últimos dias. No Público desta segunda-feira, dia 7, Rui Tavares escrevia sobre "Os Novos Anti-Semitas" e recordava a inspiração islâmica do World Trade Center (na foto, copiada daqui):

Mohammed Atta, o terrorista que espetou o primeiro avião contra as Torres Gémeas de Nova Iorque, era diplomado em urbanismo, com uma tese de mestrado sobre uma das cidades mais antigas do mundo — Aleppo, na Síria — e discretamente detestava os arranha-céus “ocidentais” que ali eram construídos.

Quando decidiu passar à acção, assassinando milhares de pessoas num dos edifícios mais conhecidos do mundo, Mohammed Atta sabia muito bem o que estava a destruir.
Minoru Yamasaki, o arquitecto que projectou as torres gémeas, era um apaixonado pela arquitectura islâmica. O seu edifício preferido era a Mesquita do Xá em Ispaão (ou Isfahan) no Irão. Um dos países onde trabalhou mais foi na Arábia Saudita, ao serviço da família real (talvez tenha mesmo chegado a usar os serviços de Muhamad bin Laden, o pai de um certo adolescente chamado Osama, futuro estudante de engenharia).

E em diversas ocasiões escreveu sobre o seu interesse pela arquitectura islâmica. Na sua autobiografia, o arquitecto descrevia as Torres Gémeas como “uma Meca de tranquilidade na Baixa de Manhattan”.

Aposto o meu diploma em História da Arte em como o complexo do World Trade Center era todo ele influenciado pela arquitectura islâmica, a começar pela Grande Mesquita de Meca. Desde a escultura central, evocando a pedra sagrada da Caaba, aos delicados pilares de alumínio cujas nervuras se unem em arcos mouriscos, até ao pavimento do pátio interior desenhado radialmente como as filas dos peregrinos na hajj. (Escrevi sobre isso uma peça de teatro e ensaio chamado O Arquitecto, para quem estiver interessado). E a maior pista de todas estava, naturalmente, nas duas Torres Gémeas — os maiores minaretes do mundo.

Um dos melhores cronistas do mundo é um israelita chamado Uri Avnery. Ele sabe bem o que é o antisemitismo. Quando nasceu na Alemanha o seu nome era Helmut Ostermann, mas a sua família teve de fugir do nazismo em 1933, estabelecendo-se na Palestina.

Ao saber do resultado do referendo na Suíça que proibiu a construção de minaretes nas mesquitas, Uri Avnery escreveu o seguinte: “Parece que o anti-semitismo se deslocou de um povo semita para o outro. Na Europa do pós-Holocausto é difícil ser antijudeu, e por isso os anti-semitas se tornaram antimuçulmanos. É como dizemos em hebraico: a mesma senhora num vestido diferente.”

Uri poderia ter acrescentado que até as manhas do velho anti-semitismo antijudeu e do novo anti-semitismo antiárabe se assemelham. Nos anos 30, os suíços tentaram afugentar os judeus proibindo alguns rituais de preparação de alimentos prescritos pela religião judaica.

Os novos anti-semitas podem até usar alguns dos argumentos que o Mohammad Atta usava antes de se tornar terrorista – que lutam contra a “descaracterização” das suas culturas, etc. Mas por detrás esconde-se a raiva a uma cultura em particular: Mohammed odiava os ocidentais, os novos anti-semitas odeiam árabes e muçulmanos. Nem o tentaram disfarçar proibindo outros edifícios, outras torres, outros templos de outras religiões.

Mas se quiserem ver a marca da arquitectura islâmica no seu país, basta olhar para as muitas igrejas góticas: foi apenas depois de verem as mesquitas de Jerusalém que os cristãos começaram a fazer edifícios altos, esguios, com os seus pilares nervurados, arcobotantes e torres pontiagudas. Os novos antisemitas não conhecem sequer a sua própria cultura.


No mesmo dia, no La Stampa, Enzo Bianchi, prior da Comunidade de Bosé, retomava também o tema. O texto integral está aqui, mas reproduzem-se a seguir os dois parágrafos finais:

Reconhece-se que a Igreja – dos bispos suíços à Conferência Episcopal Italiana, ao L’Osservatore Romano – percebeu e denunciou este uso instrumental da religião da parte de quem nutre interesses ideológicos e políticos e não cuida do bem do conjunto da colectividade, mas continua a ser verdade que nestes últimos anos assistimos a uma progressiva erosão dos valores do diálogo, do acolhimento, da escuta do outro: à força de querer afirmar a própria identidade sem os outros, acaba-se por usá-la e ostentá-la contra os outros. Se a cruz é brandida como uma espada, é Jesus que é blasfemado por causa de quem talvez se adorne com o sue nome, mas contradiz o evangelho e o seu anúncio de amor. A verdadeira força do cristianismo é, em vez disso, a vida de homens e mulheres que, com a sua caridade, humanizaram a sociedade, movidos pelo convite de Jesus: “Quem quer ser meu discípulo, abrace a cruz e siga-me” e pelo seu anúncio: “Reconhecer-vos-ão como meus discípulos se tiverem amor uns pelos outros.” Quando os cristãos se mostrarem capazes de ser solidários com os seus irmãos e irmãs em humanidade, quando renunciarem a guerras santas e permanecerem entretanto firmes em dar testemunho de Jesus, com palavras e actos, então poderão ser reconhecidos como discípulos do seu Senhor mansos e humildes de coração.

Sim, a disputa sobre os crucifixos e os minaretes não deveria fazer esquecer que a visibilidade mais eloquente não é a de um elemento arquitectónico ou de um objecto simbólico, mas o comportamento quotidiano ditado pela adesão concreta e operativa aos princípios fundamentais do próprio credo, seja ele religioso ou laico.

No 2 Dedos de Conversa, há uma outra reflexão, também a propósito de arquitectura, que merece igualmente ser lida. E ainda no Público, pode ler-se a entrevista de Sofia Lorena ao sociólogo das religiões Stefano Allievi.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A terceira margem da alma


Poeta e prosadora, Adélia Prado é, com certeza, uma das mais extraordinárias escritoras de língua portuguesa, como, aliás, o puderam comprovar os que, na segunda-feira e anteontem, escutaram, na Velha-a-Branca, poemas dela, ditos por Ana Arqueiro, Carolina Losa, Manuela Martinez, Marta Catarina e Sandra Andrade, do Sindicato de Poesia. Adélia Prado, que faz 74 anos no próximo domingo, é brasileira e católica. No início de Dezembro de 2007, a Agência Zenit deu conta do que afirmou sobre a linguagem poética e a linguagem religiosa em Aparecida, São Paulo, no âmbito de uma iniciativa que se intitulou “Vozes da Igreja”. “Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum”, sublinhou a poeta na ocasião.

A missa, garantiu Adélia Prado, “é a coisa mais absurdamente poética que existe. É o absolutamente novo sempre. É Cristo se encarnando, tendo a sua Paixão, morrendo e ressuscitando. Nós não temos de botar mais nada em cima disso, é só isso”. Às vezes, parece que não é só isso: “Olha, gente, tem algumas celebrações em que a gente sai da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar”.

Contou a Agência Zenit que, ao propor a discussão do resgate da beleza nas celebrações litúrgicas, Adélia Prado reconheceu que essa é uma preocupação que a tem ocupado desde há muitos anos: “Como cristã de confissão católica, eu acredito que tenho o dever de não ignorar a questão”.

A questão do canto usado na liturgia mereceu a atenção da escritora, que julga que muitas vezes ele não ajuda a rezar. “O canto não é ungido, ele é feito, fazido, fabricado. É indispensável redescobrir o canto oração”. Adélia Prado sublinhou que “o canto barulhento, com instrumentos ruidosos, os microfones altíssimos, não facilita a oração, mas impede o espaço de silêncio, de serenidade contemplativa”.

Explicou a autora de Bagagem, Com licença poética e Solte os cachorros, títulos das suas três obras editadas em Portugal, pela Cotovia, “a palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração e de qualquer coisa, a beleza da arte, é puro silêncio e pura audição”. E o que sucede é que “nós não encontramos mais em nossas igrejas o espaço do silêncio. Eu estou falando da minha experiência, queira Deus que não seja essa a experiência aqui”. O relato não informa sobre se o “aqui” paulista a que Adélia Prado se refere é ou não uma excepção, mas, em Portugal, abundam os mesmíssimos exemplos do que tanto a constrange. Tal como no Brasil, entre nós, “parece que há um horror ao vazio. Não se pode parar um minuto”. Como Adélia Prado observa: “Não há silêncio. Não havendo silêncio, não há audição. Eu não ouço a palavra, porque eu não ouço o mistério, e eu estou celebrando o mistério”.

Para a poeta, “muitos procedimentos nossos são uma tentativa de domesticar aquilo que é inefável, que não pode ser domesticado, que é o absolutamente outro”. É por o indizível ser de imensa magnitude que faltam as palavras. “E não ter palavras significa o quê? Que existe algo inefável e que eu devo tratar com toda a reverência”.

“A liturgia celebra o quê?” À pergunta que formulou, Adélia Prado deu também uma resposta: “O mistério. E que mistério é esse? É o mistério de uma criatura que reverencia e se prostra diante do Criador. É o humano diante do divino. Não há como colocar esse procedimento num nível de coisas banais ou comuns”.

Supor que, para fazer com que o povo se aproxime de Deus, se deve falar o que se julga ser a linguagem do povo, é algo que considera errado pelo que explicou: “Mas o que é a linguagem do povo? É aí que mora o equívoco”. É que não há ninguém que se aproxime com maior reverência do mistério de Deus do que o próprio povo, afirmou, sublinhando que “o próprio povo é aquele que mais tem reverência pelo sagrado e pelo mistério”.

E pergunta Adélia Prado: “Como é que eu posso oferecer a esse povo uma música sem unção, orações fabricadas, que a gente vê tão multiplicadas e colocadas nos bancos das igrejas, e que nada têm a ver com essa magnitude que é o homem, humano, pecador, aproximar-se do mistério?”.

“Barateou-se”, prossegue a poeta, o espaço do sagrado e da liturgia “com letras feias, com músicas feias, comportamentos vulgares na igreja”. Poupada, talvez, à praga das missas com PowerPoint, karaoke e coisas assim, Adélia Prado dá alguns exemplos do empobrecimento litúrgico. “Está tão banalizado isso tudo nas nossas igrejas que até o modo de falar de Deus a gente mudou. Fala-se o “Chefão”, “Aquele lá de cima”, o “Paizão”, o “Companheirão”. “Deus não é um ‘Companheirão’, ele não é um ‘Paizão’, ele não é um ‘Chefão’. Eu estou falando de outra coisa. Então há a necessidade de uma linguagem diferente, para que o povo de Deus possa realmente experimentar ou buscar aquilo que a Palavra está anunciando”.

A linguagem religiosa “é a linguagem da criatura reconhecendo que é criatura, que Deus não é manipulável, e que eu dependo dele para mover a minha mão”. Com esse espírito, diz Adélia Prado, “a nossa Igreja pode criar naturalmente ritos e comportamentos, cantos absolutamente maravilhosos, porque verdadeiros”.

Insistindo em que a missa é como um poema e que não suporta enfeites, Adélia Prado considera que a celebração da Eucaristia é perfeita na sua simplicidade. “Nós colocamos enfeites, cartazes por todo lado, procissão disso, procissão daquilo, procissão do ofertório, procissão da Bíblia, palmas para Jesus. São coisas que vão quebrando o ritmo. E a missa tem um ritmo, é a liturgia da Palavra, as ofertas, a consagração… então ela é inteirinha”.

Afirma Adélia Prado: “A arte a gente não entende. Fé a gente não entende. É algo dirigido à terceira margem da alma, ao sentimento, à sensibilidade. Não precisa inventar nada, nada, nada”.

EDUARDO JORGE MADUREIRA, in Diário do Minho, 6.12.2009

Calendário de Advento (7) - Quando uma criança aclamou para bispo o cônsul Ambrósio

Aclamado por uma criança, segundo reza a lenda, o então governador de Milão foi escolhido para bispo pelos cristãos da cidade, que queriam alguém capaz de apaziguar as tensões em que haviam mergulhado. Ambrósio destacou-se pela proximidade com que exerceu o cargo, pelos hinos que compôs, pela defesa que fez da propriedade universal dos bens e da autonomia entre a Igreja e o Estado. Erasmo definiu o seu estilo como inimitável.

(Ilustração: Santo Ambrósio, mosaico na Basílica de Sant'Ambrogio, em Milão)

“Ambrósio, famoso entre os melhores em toda a terra, teu devoto adorador, cujos discursos naquele tempo distribuíam ao teu povo zelosamente a flor do trigo, e a alegria do azeite, e a sóbria ebriedade do vinho.”
(Santo Agostinho, Confissões, Livro V, XIII, 23)


Conta a lenda que terá sido uma criança a gritar: “Ambrósio bispo!” Milão vive tempos conturbados, no Outono de 374 (ou de 373), após a morte do bispo Auxêncio. O então cônsul Ambrósio preocupa-se com a possibilidade de conflitos. Contra o uso da época, em que os bispos são escolhidos pelos cristãos de cada cidade, Auxêncio tinha sido escolhido e imposto, duas décadas antes, pelo imperador. Mas o bispo aderira ao arianismo, a corrente que contestava que Cristo fosse Deus. Com isso, provocara divisões entre os cristãos da cidade.

Estes reúnem-se na catedral para escolher o sucessor do bispo ariano. Por precaução, Ambrósio intervém entre os partidários de Auxêncio e de Dionísio, o anterior bispo. É então que alguém grita “Ambrósio bispo!” Rapidamente os dois grupos o aclamam, vendo no cônsul alguém capaz de pacificar as tensões existentes.

O governador, então na casa dos 40 anos, tenta resistir ao voto: nem sequer é baptizado, embora tenha recebido uma educação cristã no seio da família e tenha a irmã mais velha, Marcelina, consagrada à vida religiosa. Acaba por ceder, convencido que o povo falara por Deus. Pede para ser baptizado e só dias depois é consagrado bispo.

Ambrósio nasce provavelmente em Trier (no actual Oeste da Alemanha, próximo do Luxemburgo), entre 334 e 340. O pai era um funcionário importante do império na Gália. O futuro bispo de Milão passa por Roma, onde estuda retórica, latim e grego, além de direito e música. Após vários cargos como funcionário administrativo, é nomeado, em 370, como cônsul da região de Emília Liguria.

Quando é escolhido para bispo, oferece os seus bens à Igreja e inicia estudos de teologia com Simpliciano, que mais tarde lhe sucederá no lugar. Como gesto de reconciliação, chama para colaboradores mais próximos membros do clero que tinham sido ordenados por Auxêncio.

Ambrósio irá destacar-se rapidamente pela proximidade com que exerce o seu cargo, pelos muitos textos que dirige aos cristãos, pelos hinos litúrgicos que compõe, por propor uma forma de cantar os salmos com ritmo alternado – que se mantém até hoje. Entre os seus 37 títulos, estão discursos e homilias, obras sobre a Bíblia, moral e dogmática, comentários a escritores gregos cristãos (Orígenes, Basílio) ou a autores clássicos (Virgílio, Cícero, Flávio José). Erasmo definirá o seu estilo como inimitável.

Nos seus escritos, Ambrósio condena as profundas desigualdades sociais, defendendo a posse comum dos bens e o seu usufruto privado; e afirma, num contexto de polémicas, a doutrina do pecado original, depois aprofundada por Agostinho – que, quando se convertera, pedira a Ambrósio para o catequizar e baptizar, o que acontece em 387.

O bispo afirma ainda a autonomia de ambos os poderes, nas relações entre Igreja e Estado, e a colaboração em matérias de interesse comum, além da supremacia da lei moral. Na época, começa a afirmar-se o poder do Imperador sobre a nova religião. Em 390, o bispo fará mesmo com que o imperador Teodósio peça perdão público por uma carnificina por si ordenada em Tessalónica.

Ambrósio, cuja festa é hoje assinalada na liturgia católica, morre a 4 de Abril de 397. Num dos seus hinos, escrevera: “Ó Deus, criador de todas as coisas,/ tu que governas o firmamento, vestindo/ o dia, com a luz formosa,/ a noite, com a graça do sono,// para que, aos membros em repouso, o descanso/ os devolva ao exercício do trabalho,/ e alivie as almas cansadas,/ e liberte da mágoa os que estão tristes.”


Uma liturgia própria
No seu livro De Sacramentis, Ambrósio escreve: “Em todas as coisas desejo seguir a Igreja romana, mas também nós hominis sensum habemus.” Que é como quem diz, nós também temos o sentido dos ritmos humanos. Tal é o caso da liturgia ambrosiana, que criou ritos, orações, hinos, modos de celebrar a fé próprios, na maior parte dos casos redigidos por Ambrósio. Como o facto de o Advento ter seis semanas, e não quatro como acontece no rito romano. Alguns dos hinos compostos por Ambrósio ainda hoje são utilizados. É o caso das celebrações Santambrosianas 2005, que todos os anos decorrem em Milão e durante as quais o actual acrcebispo, cardeal Dioniggi Tettamanzi, sucessor de Ambrósio na Sé de Milão, continua a seguir o costume de dirigir uma mensagem à população da cidade, que pode ser lida no sítio internet da diocese. Esta iniciativa segue a tradição instaurada pelo bispo do século IV e retomada pelo cardeal Giovanni Colombo, em 1974, continuada depois pelo cardeal Carlo Maria Martini, entre 1979 e 2002.


Poema - O Natal em Londres, de Almeda Garrett

QUE Natal este! — Sempre sois herejes,
Meus amigos inglezes.
Bem haja o santo padre e a sua bulla
De fulminante anathema,
Que excommungou estes ilhéos descridos!
Oh! nunca a mão lhe dôa.
Vêr na minha catholica Lisboa
As festas de tal noite!
Sinos a repicar, moças aos bandos
C’a bem-trajada capa,
E o alvo-teto lenço em côca airosa,
D’onde um par de olhos negros
Dão as boas festas ao vivaz desejo
Do tafulo devoto
Que embuçado accudiu no seu capote
A’ pactuada egreja!
Natal da minha terra, que lembranças
Saudosas e devotas
Tenho de tuas festas tam gulosas,
E de teus dias santos

Tam folgados e alegres! Como vinhas
Nos frios de Dezembro
De regalados fartes coroado
Aquecer ‘corpo e alma
C’o vinho quente, c’os mechidos-ovos,
E farta comezana!
E estes excommungados protestantes,
(Olhem que bruta gente)
Sempre casmurros, sempre enregelados,
Bebendo no seu ale,
E tasquinhando na carnal montanha
Do beef cru e insipido!
Pois os Chistmas-pyes, gabado esmero
De sarmatas manjares!...
Olhem estas pequenas... são bonitas;
Mas que importa que o sejam
Se das Graças donosas praguejadas,
Rusticas e selvagens,
Nem dança airosa, nem alegre jogo
De divertidas prendas
Arranjar sabem, e passar o tempo
Em honesto folguedo!
Jogar um whist morno e taciturno
Sentar-se em mona roda
Junto ao fogão, fazer um detestável
Chá preto e fedorento,
Sem ár, sem graça... — Oh madre natureza,
Quanto mal empregaste
A formosura, o mimo, as lindas cores
Que a taes estátuas déste!

Londres — Dezembro, 1823

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)