terça-feira, 8 de setembro de 2009
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Telhados de Vidro
(...) Um padre do centro histórico de Lisboa acaba de escrever um texto aos paroquianos, publicado no boletim paroquial, com um apelo descarado ao voto num dos candidatos e, consequentemente, num dos partidos, à Câmara de Lisboa. Para que não restem dúvidas, o padre esclarece que se trata da pessoa com quem preferíamos trabalhar."
(excerto de artigo publicado na SIC Online, que pode ler na íntegra aqui)
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Oração na praia
“A praia também pode ser um lugar de oração para quem está a banhos”, escreve António Marujo no “Público” desta quinta-feira.
As Irmãs Doroteias promovem evangelização na praia da Quarteira. Distribuem pequenas tiras de papel com a “mensagem do dia” e convidam os veraneantes para as tendas do “encontro” e do “silêncio”. “Quem estava de férias gostou da iniciativa que levou o catolicismo até à quente praia do Algarve”.
Para ler online, clique aqui, a seguir escolha “Portugal” e clique na quinta página.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Tudo sobre a "Caritas in Veritate"
Em língua portuguesa é de certeza a resenha mais completa sobre os antecedentes, a publicação e a recepção da “Caritas in Veritate”, a encíclica social de Bento XVI. Ficamos a conhecer as reacções de Bento XVI à falência do Lehman Brothers e o consequente adiamento do documento, os (alguns) economistas que foram consultados, ou que em 1985 Ratzinger proferiu uma conferência sobre “Market economy and ethics”, no que terá sido a única vez que abordou o tema principal da CV. Mas isto é só o início.
A página (aqui) é do Instituto Humanitas Unisinos.
O texto (umas 20 páginas A4 se for impresso) sugere dezenas de ligações muito interessantes. Impossíveis de ler na totalidade. Sugiro esta (comentários de Jean-Yves-Calvez, Luiz Alberto Gómez de Souza e Plínio de Arruda Sampaio).
A Unisinos é a Universidade do Vale do Rio dos Sinos, dos jesuítas, considerada uma das três melhores privadas do Brasil.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Se a religião não fizer parte da solução, será parte do problema
“É a democracia compatível com a religião?”, pergunta Esther Mucznik no “Público” de 30 de Julho de 2009. “A resposta não oferece dúvidas. Todos os grandes regimes democráticos convivem com a fé religiosa dos seus cidadãos, inclusive com uma cultura religiosa dominante. Dos EUA à Indonésia, da Índia à França, a democracia convive com a religião de forma tanto mais harmoniosa quanto maior for a liberdade religiosa. A condição de uma plena vivência democrática não é a ausência de Deus, mas sim a autonomia da esfera política, tome esta a forma que tomar, seja o laicismo a la française ou o comunitarismo religioso inglês”, escreve a investigadora em assuntos judaicos.
Esther Mucznik sintetiza o modo como os três monoteísmos se relacionam com o Estado. O cristianismo é geneticamente separatista (porque nasceu com um Estado, o Império Romano, constituído e por causa do “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”), mas só não caiu na "tentação teocrática" porque esta foi vencida pelo Estado moderno. O judaísmo não distingue político e religioso. Se Israel é hoje um “Estado relativamente laico”, “em que a lei é feita por um parlamento eleito por sufrágio universal e não pelos sábios da Torá”, é porque foi fundado por europeus imbuídos de ideias europeias, socialistas ou liberais. No Islão, “a mensagem do profeta precedeu o Estado, que foi concebido como um instrumento da religião”. Daí que o “islão seja a religião de Estado em praticamente todos o lado, numa relação de forças por vezes instável e conflituosa, como se vê actualmente no Irão”.
Esther Mucznik cita Madeleine Albright, Secretária de Estado de Bill Clinton, que diz acreditar “fortemente” na separação da religião e do Estado ("Público", 20 de Julho), D. Manuel Clemente, que afirma que a presença do islão nas sociedades europeias não deve ser encarada como ameaça mas sim como um desafio, e o rabino Jonathan Sacks, que disse que “se a religião não fizer parte da solução, será parte do problema”. Refere ainda a “criação inédita no Ministério dos Negócios Estrangeiros [francês] de um «Pólo Religiões»”, porque, em certos países, fazer política é falar de religião e inversamente.
Informação adicional: O “Pólo Religiões” é dirigido por Joseph Maila, antigo reitor do Instituto Católico de Paris (aqui).
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Aparições e polémicas no Escorial
Músicas que falam com Deus (2) - Rock cristão, uma história incipiente em Portugal
sábado, 25 de julho de 2009
Leviandades
No Expresso da semana passada, Henrique Raposo escrevia outra vez sobre a encíclica Caritas in Veritate, depois de José Tolentino Mendonça já lhe ter dito que ele, de cristianismo, perceberá pouco, como se contou no texto anterior. Mas o cronista quis ripostar, confessando que fôra "leviano".
A ignorância de Henrique Raposo sobre o cristianismo (e, mais grave ainda, sobre a realidade) é mais do que leviana: primeiro, começa por falar de um cardeal "mui sul-americano (e mui vermelho)" que "destilou todos os clichês do livro de estilo marxista"; depois, cita uma frase do cardeal Maradiaga (que por acaso tem nome e é das Honduras), sobre a "cobiça" do mercado (que aliás nem se viu nas causas da actual crise) chamando-lhe "padre de passeata". Sobre o nível da prosa, que pelos vistos queria ser engraçada, está tudo dito.
O mais grave é que Raposo descobre que, cruzes credo!, a encíclica Caritas in Veritate mostra "pontos de contacto entre Bento XVI e a esquerda". Se o cronista ler alguns dos teólogos dos primeiros séculos do cristianismo, vai descobrir certamente perigosos pontos de contacto com a extrema-esquerda (será que na altura já existiriam esse perigosos?), na defesa que faziam da primazia do bem comum sobre a propriedade privada (ideia que continua a ser repetida pela doutrina social da Igreja) ou quando diziam que era um crime menor alguém com fome roubar para comer...
Mas ainda não chegava. E eis que o cronista descobre que a globalização "retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza no 'resto do mundo'". Aliás, temo-las visto, a afogarem-se no Mediterrâneo ou no Atlântico, ávidas de gozarem as delícias da praia e da natação depois de descobrirem a riqueza, o emprego, o desenvolvimento, os seguros de saúde e todas as coisas boas do bem-estar... Temo-las visto no Darfur, nos Grandes Lagos, nas bolsas de miséria à volta as grandes cidades do hemisfério Sul. Ah: e temos visto também como as coisas estão tão bem que a pobreza em Portugal não só subsiste, como passa de geração em geração, como se alarga a camadas que antes não eram atingidas...
A crónica acaba com uma ameaça: que Bento XVI coloca a ideologia (??) da caridade à frente da realidade e que isso será tema para outra conversa. Não, por favor, queremos ser poupados. É que quem não entende que a caridade é antes uma atitude de vida e que, sim, está muitas vezes na linha da frente na transformação da dura realidade que tanta gente... - quem não entende isto, é melhor poupar-nos a mais "leviandades".
sábado, 18 de julho de 2009
Uma encíclica que irrita, como a Mafalda
Algumas das opiniões já surgidas, mesmo em meios católicos, pretendem continuar a fazer desta encíclica concreta um texto abstracto, altamente respeitável, mas inofensivo. Não: o Papa coloca o dedo em várias feridas, apontando a necessidade de reformular um sistema financeiro tremendamente injusto, que tem levado a fome e a miséria a muita gente e que provocou a actual crise em que estamos mergulhados. A encíclica é um manual para o desassossego, diz Tolentino Mendonça.
No seu artigo de hoje no DN, Anselmo Borges fala também do que a encíclica traz de importante. E destaca a atenção que lhe dispensaram políticos e media internacionai (ao contário do que se passou em Portugal), que sublinharam a sua "inesperada orientação à esquerda", a denúncia do "capitalismo selvagem", a "necessidade de o Estado recuperar um papel activo e a "a urgência da reforma das Nações Unidas e da arquitectura financeira global", entre outros temas. O texto está aqui na íntegra.
O nosso presente e o nosso futuro, em tempo pré-eleitoral
Encontramo-nos hoje em Portugal mergulhados numa dupla crise: uma que vem muito de trás, resultante de uma não-definição clara de objectivos consensuais para o futuro do País e outra, que resultou da aceleração e agudização desta pela crise global.
Estamos em vésperas de eleições. Os cidadãos, mulheres e homens, poderão ficar, mais uma vez, perante um menu diversificado de propostas avulsas, raramente bem esclarecidas e coerentes, sem terem em seu poder os dados necessários para fundamentarem e fazerem as suas escolhas. Continuarão alienados pela retórica dos discursos e cada vez mais descrentes quanto à importância do seu voto.
Urge, pois, neste momento crítico da sociedade portuguesa e da democracia, encontrar modos de proporcionar uma opinião pública esclarecida. E isto faz-se, em grande medida, através de debates sérios, diversos, com homens e mulheres de áreas distintas capazes de reflectir e formular não apenas “críticas pontuais”, tantas vezes de mera oportunidade partidária, mas capazes de trazer ao debate questões de fundo, conteúdos argumentados, propostas viáveis e que vão para além das receitas já conhecidas. Há que acreditar que novos projectos às escalas global e nacional são possíveis.
Pode acrescentar-se que o texto se torna mais premente, quando reparamos na (falta de) qualidade do debate que a maior parte dos comentários em sites e blogues dá mostra. A indigência habitual desses comentários continua a revelar-se, também neste tema, como um dos sintomas da baixa qualidade da cidadania que existe em Portugal: discute-se tudo ao lado, sempre com uma arrogância e uma má educação absoluta. Mas vale a pena ler o documento, escrito por várias pessoas de qualidade reconhecida. O texto está aqui.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Lourdes Pintasilgo, uma mística na política
Lourdes Pintasilgo nunca coube na mediocridade nacional. A sua vida e experiência internacionais ultrapassavam-nos a todos, olhavam o mundo como uma família inteira que precisava de sarar e alimentar muitos dos seus membros, que precisava de formar e educar as pessoas para a saúde, para a responsabilidade cívica e política, para a participação na vida das comunidades. E fazia-o, sempre, em nome da fé que a animava, em nome de uma mística que ligava a fé e a cidadania, porque ambas são indissociáveis.
No site da Fundação Cuidar o Futuro, que ela instituiu e que herdou o espólio dessa vida cheia, pode encontrar-se um documento sobre o sagrado e a política, objecto de uma conferência na Gulbenkian em Abril de 1989. Nele se lê:
"Porque o cristianismo não é, em primeiro lugar, uma religião, não há, para o homem da fé, distinção entre o sagrado e o profano.
Três notas apenas a recordá-lo:
Primeiro, o cristianismo está para além do espaço sagrado. Após a expulsão dos vendilhões, Cristo responde aos fariseus dizendo-lhes que, se quiserem, poderão destruir o templo porque Ele o reconstruirá em três dias; desloca o espaço sagrado para a sua própria existência.
Segundo, o cristianismo está para além de um tenpo sagrado. Quando os fariseus o interpelam por curar um paralítico ao sábado, Ele responde-lhes que é Senhor do sábado.
Finalmente, a decisão tomada pelos apóstolos no I Concílio de Jerusalém de não exigirem a circuncisão, significa a liertação do cristianismo nascente em relação ao ritual sagrado. E Pedro vai mesmo mais longe ao dizer, na sua primeira carta, que o sacrifício necessário é um sacrifício espiritual, uma vida santa, misericordiosa, compassiva.
Ao homem do sagrado - do ritual e do sacrifício - contrapõe-se o homem espiritual, o homem cujo estatuto próprio é o de uma fundamental liberdade. (...) Para o homem espiritual, a grande questão face à política não é a distinção entre o sagrado e o profano. É, antes, a relação íntima entre a mística e a política."
O documento na íntegra pode ser lido aqui.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Obama e Ratzinger
O Papa não deixou de relembrar a posição da Igreja sobre a defesa da vida - ofereceu ao presidente democrata uma cópia de Dignitatis Personae, um recente documento da Igreja sobre bioética -, mas optou pelo diálogo construtivo. Obama correspondeu com elogios à nova encíclica social.
Foram os interesses comuns, as matérias de convergência e eventual cooperação - o Médio Oriente, o diálogo com o Islão, a crise económica e financeira mundial, as migrações ou o apoio aos povos mais pobres - que marcaram a agenda. "Agradeço todo o seu trabalho e rezo por si", disse o anfitrião ao visitante..."
(excerto de artigo de opinião publicado na SIC Online, que pode ler na íntegra aqui)
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Calvino: 500 anos de um reformador
A doutrina de Calvino, nascido fez sexta-feira 500 anos, acabou por influenciar a construção da democracia, esteve no desenvolvimento do capitalismo e foi decisiva para que a Igreja Confessante na Alemanha se opusesse convictamente ao nazismo. Austero, colérico, polémico e violento com adversários, Calvino foi o grande organizador da Reforma protestante. Os seus seguidores imediatos faziam dele um quase santo, enquanto os adversários o tinham como teocrata e ditador. Apesar de várias contradições, Calvino está na origem das ideias modernas da tolerância, da liberdade religiosa e da democracia. No Público/P2 de sábado passado, publiquei uma entrevista ao pastor Dimas de Almeida e um texto biográfico sobre Calvino (clicando, aparece a primeira de tês páginas; as outras podem ler-se a seguir, clicando na seta com a numeração, em cima à esquerda). A Dimas de Almeida devemos a publicação da Breve Instrução Cristã, o primeiro texto de Calvino editado em Portugal (que há poucos meses tinha traduzido e explicado também as 95 Teses de Lutero sobre as indulgências. Em ambos os casos, as edições são do Centro de Estudos de Ciências das Religiões, da Universidade Lusófona.
domingo, 12 de julho de 2009
Carlo Maria Martini: "A caridade anunciada por Jesus é a participação plena na sorte dos outros"
O encontro ocorreu na residência dos jesuítas em Gallarate, na região italiana da Lombardia. Antes de receber o jornalista, o cardeal, reuniu-se com uns 50 sacerdotes procedentes dos arredores de Milão. Queriam escutar as suas palavras de fé e esperança numa sociedade cada vez menos cristã e cada vez mais indiferente, conta Scalfari. E esta indiferença suscitou a primeira pergunta:
“Eugenio Scalfari - Indiferente em relação a quê?
Carlo Maria Martini - Já não há uma visão do bem comum. O sentimento dominante é o de defender os interesses particulares e não os do grupo. Quiçá pensam que são bons cristãos porque de vez em quando vão à missa e fazem com que os seus filhos recebam os sacramentos. Mas o cristianismo não é isso, não é só isso. Os sacramentos são importantes se coroam uma vida cristã. A fé é importante se avança junto com a caridade. Sem a caridade, a fé está cega. Sem caridade no há esperança e não há justiça.
Eugenio Scalfari - O senhor, cardeal Martini, afirmou em muitas ocasiões que a caridade é importante, mas talvez seja necessário definir com exactidão o que quer dizer com esta palavra. Não creio que se limite a fazer o bem ao próximo.
Carlo Maria Martini - Fazer o bem, ajudar o próximo, são desde logo aspectos importantes, mas não são a essência da caridade. Há que escutar aos demais, compreendê-los, inclui-los no nosso afecto, reconhecê-los, romper a sua solidão e ser seus companheiros. Em resumo: amá-los. A caridade anunciada por Jesus é a participação plena na sorte dos outros. Comunhão dos espíritos, luta contra a injustiça”.
O resto da entrevista pode ser lida aqui.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
A propósito do encontro de Obama com Bento XVI
No primeiro discurso, Obama pegou de frente na polémica questão do aborto, sobretudo para apelar à procura de um "terreno comum" [common ground] em que aqueles que entendem que o aborto é, em si mesmo um mal, se possam encontrar na busca de soluções comuns.
No Cairo, dirigindo-se aos milhões de muçulmanos, a questão de fundo não andou muito longe da anterior: como é possível encontrar nas diferenças entre o tal "common ground" que nos permita viver em paz e trabalhar juntos, sem necessariamente anular as identidades e as diferenças.
Os discursos valem o que valem e devem ser confrontados com as acções e as suas circunstâncias. Mas não deixa de ser sintomático que este apelo ao debate e ao diálogo, em vez do anátema, tenha sido seguido com curiosidade e interesse no Cairo e, pelo contrário, com gritos insultuosos, protestos, vigílias de reparação e boicotes por parte de largos sectores católicos, incluindo de muitos bispos, nos Estados Unidos.
E não deixa de ser, também, significativo, que neste processo, a posição mais aberta e dialogante - adoptada, por exemplo, pelo Osservatore Romano e, agora, por alguém que foi o "teólogo oficial", digamos assim, dos papas João Paulo II e Bento XVI - venha do Vaticano.
Os pragmáticos e os cínicos dirão que se trata de manobras tácticas de aproximação. Acredito que há mais do que isso no que tem vindo a passar-se.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
A encíclica da crise
"Sem preconceitos, porque é assim que deve ser abordada, a encíclica social de Bento XVI é um compêndio, um guia, para compreender a crise e o mundo. Naturalmente, todo o texto respira e transpira uma visão transcendental, o pensamento católico sobre a vida, o Homem e o mundo. Mas este é um texto que derruba fronteiras. Corajoso, nada conservador, critica governos e gestores de um mercado falido, como nenhum político eleito fez até agora. Rasga, no sentido positivo do termo, uma certa lógica pragmática, sem ética, que domina a economia e a política, motivadora de resignação e imprudência, geradora da crise. Os valores que atravessam a encíclica social de Bento XVI, são os valores da exegese do tempo, propostas de construção de fraternidade, esmagadas por pressupostos com pés de barro que servem de desculpa para adiar opções… radicais."
(excerto de artigo de opinião publicado na SIC Online, que pode ler na íntegra aqui)
A encíclica de Bento XVI pode ser lida aqui.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Agumas notas à margem de uma encíclica
Algumas notas à margem:
- É lastimável a crescente ignorância mediática em Portugal: a generalidade dos jornais, rádios e televisões quase ignorou a publicação da encíclica, não percebendo a importância do documento; nada de estranhar: na véspera, dia da assinatura do tratado de não-proliferação nuclear e dia dos graves confrontos na China, as televisões brindaram-nos, nos principais serviços noticiosos, com 30 minutos de uma indigente apresentação de um jogador de futebol...
- A encíclica pede criatividade e empenhamento aos cristãos. Mas esse é um dos problemas: quer nas lideranças políticas, quer nas empresariais e económicas, tem havido cristãos. E alguns deles são grandes responsáveis por vários factores da crise em que estamos mergulhados.
- Outro problema: o pensamento social católico, que pode ser caracterizado de "esquerda" (usando uma expressão redutora, mas que se entende), é olimpicamente ignorado por muitos crentes com responsabilidades políticas, económicas, empresariais - que preferem destacar os "valores" familiares e individuais que a Igreja Católica defende.
- A quadratura do círculo: é difícil ver católicos que politicamente defendem o liberalismo desregulado a adoptar os critérios propostos pelo pensamento social católico das últimas décadas e que pouco têm a ver com a desregulamentação laboral ou com a centralidade da pessoa e do trabalho humano...
- Voltar à escola? Sábado passado, no seminário da Comissão Justiça e Paz, o sindicalista Ulisses Garrido pôs em causa o que se ensina nas áreas de Economia e Gestão da Universidade Católica. Talvez não seja má ideia a Igreja Católica começar por afrontar questões desse género.
- Ao propor a revisão da arquitectura política e financeira mundial, o Papa repete o que já João XXIII e João Paulo II tinham defendido. Mas, em certa medida, as coisas pioraram, com a criação dos directórios mundiais: G-8, G-20, troika europeia, grupo de Davos, mais os clubes mais ou menos selectos... São esses directórios que também estão em causa. O mundo não pode continuar a fazer de conta que negoceia e dialoga, para depois alguns países boicotarem, alterarem, esquecerem ou ignorarem o que se vai discutindo em fóruns internacionais. Se as coisas não são só assim, há muito a rever neste modo de funcionar.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
A Igreja e a crise nas Honduras
A mim espanta-me esta agilidade na tomada de partido, num subcontinente onde os movimentos dos militares na esfera do poder político, ao longo de boa parte do século XX - incluindo nas Honduras até aos inícios dos anos 80 - deveria aconselhar alguma precaução. E o cardeal e arcebispo de Tegucigalpa Oscar Andrés Rodríguez, que esteve em Maio passado em Fátima, não é um hierarca qualquer. Não era ele um dos 'papabile', aquando do último conclave?
sábado, 4 de julho de 2009
O não crente e o cardeal
Anselmo Borges escreve hoje no DN sobre uma entrevista de Eugenio Scalfari ao cardeal Martini (na foto). Um bálsamo. Entre outros aspectos a que a lucidez de Martini já nos habituou, há muito tempo que penso que a estrutura diplomática vaticana deveria ser reduzida ao mínimo ou mesmo ser extinta. O cardeal diz expressamente que ela nem sempre existiu e "poderia no futuro ser fortemente reduzida ou mesmo desmantelada". O texto completo do artigo está na ligação acima, aqui destaco mais alguns excertos:Scalfari, cujo último livro é L'uomo che non credeva in Dio (O homem que não acreditava em Deus), disse ao cardeal que não crê em Deus e que o diz "com plena tranquilidade de espírito". E o cardeal: "Eu sei, mas não estou preocupado por causa de si. Por vezes, os não crentes estão mais próximos de nós do que muitos devotos fingidos".
Então, o que é que o preocupa verdadeiramente, quais são, na Igreja, os problemas mais importantes? Resposta: "Antes de mais, a atitude da Igreja para com os divorciados, depois, a nomeação ou a eleição dos bispos, o celibato dos padres, o papel do laicado católico, as relações entre a hierarquia eclesiástica e a política. Parecem-lhe problemas de solução fácil?"
A nossa sociedade está cada vez mais invadida pela indiferença e são o individualismo e a procura exacerbada dos próprios interesses que cavam fundo o abismo entre a fé e a caridade. Talvez ainda se vá uma ou outra vez à missa e se ponha os filhos em contacto com os sacramentos. Mas esquece-se o essencial: a caridade. Ora, "sem caridade, a fé é cega. Sem a caridade, não há esperança nem justiça". Entenda-se: a caridade não é esmola, é atenção ao outro, compreensão e reconhecimento do outro, presença ao outro na sua solidão, "comunhão de espíritos, luta contra a injustiça". O verdadeiro pecado do mundo é a injustiça e a desigualdade, que bradam aos céus. Jesus disse que "o reino de Deus será dos pobres, dos débeis, dos excluídos".
Para Martini, a questão fundamental não está na escassa frequência dos sacramentos, da missa, das vocações, que são "aspectos externos". "A substância é a caridade, a visão do bem comum e da felicidade comum", incluindo a das gerações futuras.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Da crise aos manifestos, à espera de uma encíclica
O momento que se vive não deixará de estar presente no documento do Papa, que já afirmou que "a crise mostra claramente que os paradigmas dominantes nos tempos recentes têm que ser modificados”. Do outro lado, não é de estranhar que governos, empresários e financeiros continuem a fazer vagas declarações sobre reformas necessárias - enquanto vão adiando qualquer tentativa de o fazer efectivamente, a ver se a crise passa, literalmente.
Estamos colocados perante imperativos éticos urgentes e colectivos: sim, que ao contrário do que diz um comentário ao post anterior, penso que há uma ética social (e colectiva e governamental), cujo falhanço esta crise revelou com estrondo. Mas a citada frase do Papa diz o essencial e o mais urgente: é preciso mudar os paradigmas.
Os últimos dias foram pródigos em estudos (necessidades dos portgueses, valores, confiança na democracia) e manifestos (dos 28, dos 52). Destes últimos, o espaço mediático deu destaque ao texto dos 28, pessoas que ao longo das últimas décadas tiveram cargos de responsabilidade políticas, governativas e empresariais. Ao contrário, o pensamento dominante escondeu o texto dos 52, cuja importância e argumentação vale também pelos trajectos profissionais e cívicos de muitos dos seus subscritores.
O paradigma que nos tem dominado - do lucro a qualquer custo, da destruição do planeta, do espezinhamento da dignidade das pessoas e dos direitos dos trabalhadores, das novas formas de escravatura - é que está em causa: foi ele que nos levou a este beco de desesperança em que nos querem fuzilar. Por isso, sigamos com atenção o seminário da CNJP. E um alerta: como não abundarão as notícias sobre ele, vale a pena ver a SIC Notícias, que promete entrevistar sábado, às 23 horas, o presidente da comissão.