sábado, 12 de dezembro de 2009

Minaretes

No texto de hoje no DN, Anselmo Borges regressa ao resultado do referendo na Suíça que proibiu a construção de minaretes. Um excerto:

A islamofobia aumentou depois dos atentados terroristas levados a cabo na Europa por muçulmanos radicais. Há hoje um receio latente da islamização da sociedade europeia, sobretudo quando se pensa nos próximos desequilíbrios demográficos. Não admira, pois, que políticos da direita em França, Holanda, Dinamarca, Áustria, Bélgica, Itália, tenham exultado. A própria Angela Merkel considerou que esta vitória deve ser tomada em conta e "levada a sério".

Neste contexto, é de sublinhar a declaração do presidente da Conferência Episcopal Alemã, aliás na linha do Vaticano quanto à reciprocidade - é sabido, por exemplo, que na Arábia Saudita não é permitida a construção de uma igreja cristã: "É justamente porque nós, cristãos, recusamos e condenamos as restrições à liberdade religiosa impostas em países muçulmanos que devemos não só socorrer os cristãos que lá haja, mas intervir igualmente a favor dos direitos dos muçulmanos que cá estão."

(O artigo pode ser lido na íntegra aqui.)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (11) - S. José um pai emprestado?

É uma das figuras mais enigmáticas ligadas à história de Jesus. Dele pouco se sabe, dele pouco se fala, o próprio não é nunca citado dizendo alguma coisa. É uma espécie de personagem passiva, de figurino. Faz de pai, mas diz-se que não é o verdadeiro pai. Quem é este José, o carpinteiro?


[Ilustração: Mestre de Flémalle, José na sua Oficina (pormenor), 1425-28/Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque]

“Chamado para esposo de Maria/ E para pai de Deus feito menino,/ Tu protegeste e deste alimento/ Ao próprio Deus.// Patriarca do silêncio e do trabalho/ Escondes na humildade o coração/ Cheio de amor a Cristo e sua mãe/ Em Nazaré.”
(Hino da Liturgia das Horas)


São mais as perguntas que as certezas que, mesmo entre investigadores e especialistas da Bíblia, se formulam a propósito de José, o “pai putativo” de Jesus, como lhe chamou o Papa João Paulo II [exortação Redemptoris Custos (O protector do redentor), sobre a figura e missão de S. José na vida de Cristo]. De José, supõe-se que ele é o que não é, para seguir à risca a definição do dicionário. Mas, de facto, ele é o que foi, acredita a tradição cristã.

Confuso? O biblista francês Charles Perrot, do Insituto Católico de Paris, descreve o quadro da situação antes de sintetizar alguns dos problemas que se colocam aos teólogos: “Maria estava noiva ou já era casada com José. Ora, ela encontrou-se grávida por obra do Espírito Santo, isto é, pela força de Deus, conforme o sentido que habitualmente se dá a esta palavra.” (Narrativas da Infância de Jesus, ed. Difusora Bíblica) Ou seja, tal como acredita a tradição cristã, a partir dos relatos evangélicos, Jesus nasceu sem qualquer intervenção de José.

Esta descrição contém já “um paradoxo: Maria é a esposa de José e a criança que ela trás no seio vem de Deus. Isto é uma dificuldade” para demonstrar que Jesus é da linhagem do rei David, como afirmam os relatos evangélicos. Há uma segunda dificuldade, regista Perrot, citando a Bíblia: “José, que era um homem justo e não queria difamá-la [Maria], resolveu deixá-la secretamente.”

Tal afirmação bíblica colide com as práticas judaicas conhecida do repúdio no casamento. Situando-se exclusivamente n texto, Perrot verifica que “o casamento de José e Maria fica posto em questão pela presença da criança”. E só a adopção legal, a que corresponde a decisão de José, permite converter Jesus em seu filho, “com todos os direitos e pretensões”. Se Maria dá a vida a Jesus, é a atitude de José que acaba por fazer de Jesus um ser social, assumindo, mesmo se misteriosamente, a paternidade.

José era carpinteiro – uma profissão especializada que, no tempo, equivaleria a uma classe média actual, pelo importante estatuto social que tinha. Nada a ver, portanto, com a descrição do “humilde” carpinteiro com que tantas vezes a hagiografia cristã o descreve. E foi entre essas lides que Jesus cresceu e pela profissão do pai ficou também conhecido. De tal modo que um dia, quando regressa à Nazaré da sua infância, conta o evangelho de Mateus, “ensinava os habitantes na sinagoga deles, de modo que todos se enchiam de assombro e diziam: ‘De onde lhe vem esta sabedoria e o poder de fazer milagres? Não é ele o filho do carpinteiro? (13, 54).

Na carta citada, de Agosto de 1989, João Paulo II escreve que “o filho de Maria é também filho de José”. Mas os evangelhos “não registam palavra alguma que ele tenha dito”. E foi nesse mistério, nessa paternidade escondida e muda, no silêncio de José e no silêncio feito à sua volta, que a espiritualidade cristã construiu a sua figura. Mas “esse silêncio tem uma especial eloquência”, regista o anterior Papa. “Graças a tal atitude pode captar-se perfeitamente a verdade contida no juízo que dele nos dá o evangelho: ‘o justo’.”


Um velho piedoso na iconografia tradicional
Na iconografia tradicional, a figura de S. José é representada essencialmente como um velho piedoso, por vezes quase simplório. Em Portugal, e em regiões como o Alentejo, por exemplo, S. José é objecto de uma grande devoção, mas as representações que dele são feitas são, na maior pare dos casos, daquele tipo. José António Falcão, director do Departamento de Património Histórico da Diocese de Beja, já explicou que tal figuração remete para a “herança de todos os cultos patriarcais” anteriores ao cristianismo, que afirmavam o homem como esteio da família. Mas há imagens que contrariam essa figuração: na Igreja da Senhora do Carmo, em Cuba, pode ver-se um S. José jovem e vigoroso. Mas também há algumas onde se vê um jovem feliz pela sua paternidade. É o caso de uma Natividade do século XIII, dos frescos provenientes da abside de Poliñá, séc. XIII, actualmente no Museu Diocesano de Barcelona.


Poema - Natal, de Fernando Pessoa

Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

D. Manuel Clemente, Prémio Pessoa 2009

O bispo do Porto, D. Manuel Clemente, foi o escolhido como Prémio Pessoa 2009. O júri, presidido por Francisco Pinto Balsemão, justificou: "A sua intervenção cívica tem-se destacado por uma postura humanística de defesa do diálogo e da tolerância, de combate à exclusão e da intervenção social da Igreja. Ao mesmo tempo que leva a cabo a sua missão pastoral, D. Manuel Clemente desenvolve uma intensa actividade cultural de estudo e debate público. Em tempos difíceis como os que vivemos actualmente, D. Manuel Clemente é uma referência ética para a sociedade portuguesa no seu todo."

Mais pormenores sobre a atribuição do prémio podem ler-se aqui. No Religionline já se tinha assinalado a produção ensaística mais recente, em Setembro, quando remetemos para uma entrevista publicada no Público/Ípsilon e que pode ser lida aqui.

Esta é a primeira vez que o galardão é atribuído a uma figura da hierarquia católica. Outras figuras publicamente reconhecidas como crentes - José Mattoso ou João Lobo Antunes - tinham já recebido antes o Prémio Pessoa.
(Foto © Público)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Simone Weil, marginalidade e alternativa

Uma jornada comemorativa do centenário de Simone Weil, com o título acima citado, é o que propõe a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa esta sexta-feira, dia 11. Será no anfiteatro IV, a partir das 10h00, com o seguinte programa:

10h00 às 11h40 - I Sessão
Moderadora: Maria Luísa Ribeiro Ferreira
Sylvie Courtine-Denamy - Enracinement et déracinement chez Simone Weil
Manuela Silva - A actualidade de uma estranha mística para os nossos estranhos tempos
Debate

12h00 às 13h15- II Sessão
Moderadora: Fernanda Henriques
José Pacheco Gonçalves - Empenho e sentido de responsabilidade em Simone Weil
José Tolentino Mendonça - Um itinerário para Deus - o comentário de Simone Weil à oração do Pai-Nosso
Debate

14h30 às 15h45 - III Sessão
Moderadora: Maria José Vaz Pinto
Fernanda Henriques - Simone Weil: interrogando para compreender
Maria José Vaz Pinto - O lastro do pitagorismo na ideia weiliana de ciência
Debate

16h00 às 18h00 - IV Sessão
Moderadora: Filipa Afonso
Maria Luísa Ribeiro Ferreira - Encontros e desencontros de dois filósofos “judeus”: Simone Weil e Espinosa
Sérgio Sorrentino - La necessité et le bien dans l’éthique de Simone Weil
Debate
Lançamento do livro "As mulheres e a filosofia" de Maria Luísa Ribeiro Ferreira

18h00 Encerramento

Entrada livre; inscrição: cinco euros (deve ser feita no dia; direito a certificado de participação)

Calendário de Advento (10) - João Baptista: Profeta do deserto e do desconcerto

Contam os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas que “apareceu João, o Baptista, a pregar no deserto da Judeia”. Um homem desconcertante: alimenta-se de gafanhotos e mel silvestre, veste-se com uma pele, baptiza no rio Jordão, exorta à mudança de vida. Mas este homem não fica a pregar no deserto, ao contrário do que a expressão popular indicia. De tal modo incomoda os mais poderosos que o rei o manda degolar.


(Ilustração - Leonardo da Vinci: Santa Ana, a Virgem, o Menino e São João, c. 1498, Museu do Louvre, reproduzido em "Leonardo da Vinci", de Fernando Marias, ed. Estampa/Círculo de Leitores)

“Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.”
(Profecia de Isaías 40, 3)

O cenário: um rio, deserto à volta. Um homem austero, muito austero. Multidões procuram-no, para o ouvir. Mas a mensagem deste profeta judeu não é meiga: João Baptista fala da necessidade de arrependimento, diz que quem tem uma túnica deve repartir com quem não tem nenhuma, pede aos soldados que não exerçam violência sobre ninguém, e aos colectores de impostos que não cometam injustiças. Veste-se mal, alimenta-se pior e acusa o rei de trair o irmão, tirando-lhe a mulher deste para casar.

Um homem que viveu há dois mil anos mas que “desconcerta o nosso tempo”, diz o padre João Resina Rodrigues (A Palavra no Tempo, ed. Multinova). Vivemos no supérfluo, na diplomacia, no compromisso. [João Baptista] era o homem do essencial, da verdade, dos caminhos rectilíneos. Não terá percebido toda a riqueza da alegria (nenhum dos santos é total), mas é, sem dúvida, um homem de Deus.”

João é um dos vários profetas que, no tempo de Jesus, agitam Israel. O seu estilo de vida e de pregação insere-o nos movimentos baptistas, que exortam as pessoas a mudar de vida, num tempo em que a fé judaica está em crise.

A ocupação romana, a espera messiânica que não se concretiza, a divisão em grupos e seitas (fariseus, saduceus, zelotas, essénios, levitas) espartilham o judaísmo. E a falta de líderes políticos ou religiosos reconhecidos – excepção para dois rabinos que se destacam, Hillel e Shamai – cria o ambiente propício para o aparecimento de todo o tipo de visionários.

O Baptista destaca-se dos restantes, até pelas consequências do que diz. Mas os seus discípulos percebem que ainda não é ele o Messias que aguardam: “Ele não era a luz, mas vinha para dar testemunho da luz”, escreverá outro João, o evangelista, cerca de sete décadas depois.

Nos evangelhos, João é apresentado como primo de Jesus. E é ele que lhe prepara o caminho. “Não confere o perdão dos pecados, mas o conhecimento da salvação que será dada no perdão dos pecados”, escreve o biblista francês Augustin George (Para Ler o Evangelho Segundo S. Lucas, ed. Difusora Bíblica). Mas, nota frei Lopes Morgado (Em minha memória, ed. Difusora Bíblica), quando vê Jesus, apesar de conhecer a sua “honestidade”, João “tem a liberdade e a lucidez de mandar interpelá-lo: ‘És tu aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?’”.

“É o homem de Deus”, observa João Resina na obra citada. “Totalmente consagrado à sua tarefa, acima dos prazeres e das vaidades, das glórias e das quezílias. Vive no deserto, na austeridade total. Em todo o caso, em nada se assemelha àqueles ascetas que renunciaram a tudo porque em tudo viram pecado ou ocasião de pecado (…). João comporta-se como um homem livre, alheado das satisfações vulgares (…). Embora retirado do mundo, mostra uma grande experiência da vida. (…) Diz aos letrados que não se pode viver na mentira, pede aos soldados que não se sirvam da força para fazer exigências, manda a todos os que possuem que repartam com quem não tem.”


João e Jesus, dois percursos paralelos
João Baptista tem um percurso paralelo embora não totalmente coincidente com o de Jesus. Mesmo se os evangelhos o vêem como último profeta do Antigo Testamento, anunciador do Messias. Nas narrativas evangélicas, o Baptista começa por ter um nascimento miraculoso: se Jesus é encarnação de Deus sem intervenção humana, João nasce de pais já em idade avançada – e o seu pai é castigado pela falta de fé na mensagem do anjo, ficado mudo até ao dia do seu nascimento. João escolhe depois o deserto para viver e anunciar a sua mensagem. Jesus passa pelo deserto no início da sua vida pública ou quando precisa de ficar só. Ambos são escutados por multidões ávidas de alguém que indique caminhos de renovação. E ambos acabarão mortos de forma violenta, por causa do que dizem: João é degolado, Jesus é pregado numa cruz. O único encontro entre ambos narrado pelos evangelhos dá-se quando Jesus vai ter com João para que este o baptize nas águas do Jordão, tal como fazia às pessoas que o procuravam: “Eu é que tenho necessidade de ser baptizado por ti, e Tu vens a mim?”


Poema – A copa de Baltasar, de Eugénio de Castro

(A Júlio Dantas)

Os três Reis Magos tinham-se ido embora
Em dromedários calmos, ao luar...
Seus presentes de brilho singular,
Dispunha-os São José na manjedoura.

Um pastor cobiçoso nessa hora
Não se cansava ali de cobiçar
A áurea copa em que o negro Baltasar
Trouxera o claro incenso e a mirra loura.

Em Jesus, qu’rendo mostrar que o ouro
Nada mais vale que o mesquinho pó,
E que riquezas de esplendor imenso

Só se encontram das almas no tesouro,
Ao pegureiro atónito brandou:
– “Leva a copa, mas deixa a mirra e o incenso!”

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

Músicas que falam com Deus (4) - Silêncio, um diálogo musical com a Bíblia


“Silêncio” é um projecto original: o grupo Sete Lágrimas convidou três artistas ligados a três diferentes tradições cristãs (Ivan Moody, ortodoxa, Andrew Smith, protestante, e João Madureira, católica) para comporem peças sobre textos bíblicos – respectivamente, o relato da criação do mundo no Génesis, as Lamentações de Jeremias e a Paixão de Jesus. 
O resultado é um diálogo dos compositores com a Bíblia, do religioso com a arte e dos compositores entre si: apesar das peças terem sido criadas em separado, o resultado final é um profundo diálogo entre os três compositores tecido pelo fio do texto bíblico. 
A música é de grande qualidade: Ivan Moody recria a serenidade do ambiente preambular e a força do acto criador; Andrew Smith revela-nos a voz do deserto e do exílio; João Madureira dá uma intensidade inusitada à morte de Jesus (começando pelo Pai-Nosso e pela forte invocação do Pater). 
Às criações, os compositores acrescentaram uma peça antiga que recriaram: um hino russo, uma canção inglesa e uma cantiga de Santa Maria, de Afonso X. 
A obra assinala os 25 anos do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja. 
Um disco notável.


Título: Silêncio; Intérpretes: Sete Lágrimas; Edição: Arte das Musas, 2009; info: mail@artedasmusas.com; discos@dargil.pt 

(Mais informação sobre o projecto e excertos das músicas aqui; texto publicado na revista Além-Mar, de Dezembro de 2009)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (9) - Árvore de Natal: A utopia messiânica e os protestantes


(Ilustração: A Criação, de Barbara Garrison, colagem e aguarela, in “La Creazione, Seconda Rassegna Internazionale di Illustrazione per l'Infanzia”, Ed. Messagero, Padova)

Símbolo importado do Norte da Europa e dos países protestantes, a árvore de Natal remete também para um tema bíblico relevante: a árvore do Paraíso, a árvore de Jessé. Esta última é a imagem da utopia messiânica e, mais tarde, da de Jesus Cristo.

“Ainda que os montes sejam abalados e tremam as colinas, o meu amor por ti nunca mais será abalado, e a minha aliança de paz nunca mais vacilará. Quem o diz é o Senhor, que tanto te ama.” (Profecia de Isaías 54, 10)

É em volta da árvore que a expectativa do Natal vai crescendo: ali se vão colocando os presentes destinados a ser abertos entre alegrias e esperanças. Ali ganham cor sonhos de laços coloridos, desejos de promessas sempre renovadas.

A alegria começa antes: na construção da árvore de Natal, como do presépio, ganha expressão o comunitário: estrelas construídas pelos mais novos, anjos feitos na escola, iluminações que cantam. Ensaia-se o gosto, aprende-se a beleza. A alegria celebra o quotidiano ou o extraordinário.

Num dos textos da profecia de Isaías, lida pelos cristãos durante o Advento, proclama-se o inesperado: “Exulta de alegria, estéril, tu que não tinhas filhos, entoa cânticos de júbilo, tu que não davas à luz, porque os filhos da desamparada são mais numerosos do que os da mulher casada. É o Senhor quem o diz” (Isaías 54, 1).

Diariamente, ilumina-se a árvore, símbolo da época de Natal mais ligado ao Norte da Europa e aos países protestantes. Daí terá vindo, mesmo se a sua origem será ainda mais remota: possivelmente estará ligada a rituais de ornamentação ou a jogos na Idade Média.

Símbolo maior de uma vida que nasce e se renova, a árvore é também um tema bíblico relevante. No Paraíso, era a árvore do conhecimento do bem e do mal a que marcava a fronteira entre Deus e a humanidade. Na profecia de Isaías, nasce de um tronco de árvore a utopia messiânica: “Brotará um rebento do tronco de Jessé” (11, 1).

Utopia de um mundo justo, equitativo e pacificado, a profecia de Isaías fala do tronco de Jessé. Refere-se ao pai daquele que viria a ser o rei David, de Jerusalém e que, para os cristãos, é o início da árvore genealógica de Jesus. Esse texto prenunciador da utopia de um mundo diferente que os cristãos lêem como profecia da boa nova que Jesus irá anunciar:

“Brotará um rebento do tronco de Jessé,
e um renovo brotará das suas raízes.
Sobre ele repousará o espírito do Senhor:
espírito de sabedoria e de entendimento,
espírito de conselho e de fortaleza,
espírito de ciência e de temor do Senhor.

Não julgará pelas aparências
nem proferirá sentenças somente pelo que ouvir dizer;
mas julgará os pobres com justiça,
e com equidade os humildes da terra;
ferirá os tiranos com os decretos da sua boca,
e os maus com o sopro dos seus lábios.
A justiça será o cinto dos seus rins,
e a lealdade circundará os seus flancos.

Então o lobo habitará com o cordeiro,
e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito;
o novilho e o leão comerão juntos,
e um menino os conduzirá.

A vaca pastará com o urso,
e as suas crias repousarão juntas;
o leão comerá palha como o boi.
A criancinha brincará na toca da víbora
e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente.

Não haverá dano nem destruição em todo o meu santo monte,
porque a terra está cheia de conhecimento do Senhor,
tal como as águas que cobrem a vastidão do mar.”
(Isaías 11, 1-10)


Símbolos e ritos protestantes
Mais depurada que no universo católico, nem por isso a celebração protestante do Natal deixa de ter símbolos. Além da árvore, cuja tradição terá começado no Norte da Europa, protestante, outras tradições acabaram também por se universalizar. Na coroa do Advento, as quatro velas acendem-se, cada domingo, marcando o ritmo da espera; na Escandinávia, as igrejas enchem no primeiro domingo do Advento, mesmo se durante o resto do ano estão vazias. Dias depois, a 13 de Dezembro, na festa de Santa Luzia (mártir cristã do fim do século III ou início do século IV), as raparigas vestem-se de branco e levam uma coroa com quatro velas acesas. S. Nicolau (6 de Dezembro) é muito festejado no Norte da Europa, em alguns casos com a troca de presentes a ser feita nesse dia. E o presépio, apesar de menos usado, marca também presença. Em vez da Missa do Galo há um culto especial no dia de Natal após o qual, em muitos casos, se abrem os presentes. Na véspera, a consoada é festa de família. “Senhor Deus, damo-nos conta de quanto nos amas e ‘desde há tanto tempo”, reza-se, numa pequena liturgia doméstica.


Poema – Rosas de Inverno, de Camilo Pessanha

Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.

Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonisar do ano,
Tão fora da estação!

Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
As almas das mendigas!

Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (8) - Imaculada: Um dogma que divide, um enunciado sobre Deus que ama a humanidade

Os protestantes não aceitam, os ortodoxos expressam-no quase como os católicos, mas estes formularam a doutrina tradicional num dogma: a Imaculada Conceição, proclamado há 151 anos. Essa decisão não foi inocente, como inocentes não foram as promessas de D. João IV em dar uma renda ao santuário de Vila Viçosa e em proclamar a Imaculada como padroeira de Portugal.

[Ilustração: Francesco Barbieri, "Assunta" (Imaculada Conceição), Igreja do Sso. Rosário em Cento (Ferrara), in "Una Donna Vestita di Sole", ed. Federico Motta, Milano, 2005]

“Os primeiros cristãos devem ter sentido o que há de espantoso nesta afirmação: Deus, o absoluto e o eterno, escolheu uma criatura e ama-a como sua mãe. Por isso chamaram a Maria Mãe de Deus.” (Padre João Resina Rodrigues, A Palavra no Tempo, ed. Multinova)

Imaculada Conceição? Dita assim, a expressão aparecerá estranha a muita gente. O dogma católico, formulado há 151 anos (em 1854), sob o pontificado do Papa Pio IX, afirma que Maria, mãe de Jesus, não conheceu o mal.

A definição dogmática remete para a noção de pecado original. De acordo com este enunciado (aprofundado por Santo Agostinho no meio de polémicas teológicas do século IV), desde a criação do mundo que cada pessoa, quando nasce, está em pecado.

Com a formulação do dogma da Imaculada, a Igreja atribui à mãe de Jesus uma espécie de “imunidade absoluta” em relação ao mal, como se escreve na enciclopédia católica Théo. Mas esta proposição doutrinal mais não faz que formalizar uma tradição que, no mundo católico e ortodoxo, existia já desde há muitos séculos. Ao contrário do que acontece entre as igrejas protestantes, que não veneram a figura da mãe de Jesus da mesma maneira que católicos e ortodoxos.

“Durante muito tempo, as igrejas protestantes minimizaram ou ignoraram a figura de Maria”, escreve João Resina Rodrigues na obra acima citada. “A ideia era concentrar toda a atenção em Cristo e também contrariar alguns exageros da devoção católica. Hoje, temos todos uma teologia mais serena, Não ignoramos (de resto, nunca ignorámos) que só Jesus Cristo é salvador.”

No mundo ortodoxo, a mãe de Jesus é designada muitas vezes como “plenamente santa” e como “Theotokos”, ou mãe de Deus – embora nenhuma destas designações tenha sido elevada à categoria dogmática. Ambas se fundam, entretanto, na saudação que, segundo o relato bíblico, o anjo lhe fez, ao anunciar-lhe o nascimento de Jesus: “Salvé, ó cheia de graça!”

A doutrina tradicional colocava, mesmo antes de ser adoptada como dogma, problemas teológicos: como é que o salvador pode nascer de alguém que já está salvo? Para tentar resolver o problema, o teólogo católico escocês John Duns Scott, do século XIII, formulou então o que ele chamou de “redenção antecipada”.

Foi esse argumento que levou o Papa Pio IX, depois de ter consultado os bispos de todo o mundo, a declarar o dogma. Mas esta decisão também tinha outros objectivos, mesmo se implícitos: era uma forma de o papado afirmar a sua autoridade contra o liberalismo e anticlericalismo do século XIX. Ao mesmo tempo, antecipava o terreno para a proclamação de outro dogma que protestantes e ortodoxos também não partilham: o da infalibilidade pontifícia, declarado em 1870, no Concílio Vaticano I.

Apenas quatro anos depois da proclamação de Pio IX, o dogma como que foi confirmado. Em Lourdes, a 25 de Março de 1858, a jovem Bernadette Soubirous contou ter visto uma figura de mulher a aparecer-lhe numa gruta. Em resposta à pergunta sobre a identidade da aparição, esta respondeu, no dialecto local dos Pirinéus: “Que soy era Immaculada Councepciou!”

O mesmo padre João Resina escreve: “O dogma da Imaculada (…) convida-nos a aceitar que a santidade é o encontro do dom de Deus com o dom da criatura. Ninguém é santo sem o dom de Deus, o dom de Deus não prescinde da liberdade humana.”


Contributos portugueses
O dogma católico da Imaculada Conceição tem também contributos portugueses. O inglês Gilberto Hastings, primeiro bispo de Lisboa pós-reconquista, adoptou o calendário de Salsbury, onde se fazia referência à Imaculada. Em 1645, após a restauração da independência em relação a Espanha, o rei D. João IV propôs nas cortes de Lisboa que a Imaculada Conceição fosse consagrada como padroeira do reino. O rei propunha-se pagar 50 cruzados de ouro anuais ao santuário de Vila Viçosa, o primeiro da Península Ibérica a adoptar a invocação. Promessa de rei, ainda, era a garantia de defender a ideia da concepção de Maria de Nazaré sem pecado original. Decisões que não eram só da ordem da devoção: o rei pretendia também o apoio da Santa Sé para a causa da independência. Em 1671, o Papa Clemente X confirmou a escolha da Imaculada Conceição como padroeira de Portugal. No século XVIII, a adesão a essa doutrina era mesmo condição de acesso à carreira docente na Universidade de Coimbra.


Poema - O Meu Natal (excerto), de António Nobre

A noite de Natal. Em meu paiz, agora,
O que não vae até romper o dia, a aurora!
As mezas de jantar na cidade e na aldeia,
A’ luz das velas, ou á luz d’uma candeia,
Entre rizadas de creanças e crystaes
(De que me chegam até mim só ais, só ais),
Dois milhões de almas e outros tantos corações,
Pondo de parte odios, torturas, afflicções,
Que o mel suaviza e faz adormecer o vinho:
São todas em redor duma toalha de linho!

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)

350 toques a rebate pelo clima

No próximo domingo, dia 13, os sinos de muitas igrejas em todo o mundo irão tocar pelo clima, enquanto decorre a Cimeira de Copenhaga sobre as alterações climáticas. Um toque a rebate, quase se poderia dizer. Mas serão antes 350 toques, às três da tarde de domingo, simbolizando as 350 partes por milhão que muitos cientistas dizem ser a medida máxima aceitável para o dióxido de carbono a lançar na atmosfera. No Público de segunda-feira, publiquei um texto sobre algumas tomadas de posição das diferentes igrejas cristãs a propósito da cimeira. E falei também d'A Rocha, uma organização ambientalista de inspiração cristã que nasceu em Portugal e está hoje presente em vinte países:

Uma organização ambientalista nascida em Portugal há 26 anos, impulsionada por um inglês, hoje presente em 20 países e inspirada na teologia cristã da criação. A Rocha, assim se chama esta associação, nasceu na Quinta da Rocha, em plena ria de Alvor (Portimão).

Ali está ainda um dos seus principais alvos das suas lutas: juntamente com outras cinco organizações ambientalistas (entre as quais a Quercus e a Liga para a Protecção da Natureza), A Rocha tem lutado pela reposição dos sapais e outras zonas com espécies protegidas na ria de Alvor.

Os ambientalistas consideram que esses habitats foram destruídos pela empresa Butwell – o caso está mesmo em tribunal.

O centro d’A Rocha no Alvor é, aliás, o lugar de onde irradia uma das principais acções da organização: a educação ambiental. “Fazemos uma abordagem como a da pediatria: ensinamos a prevenir, como fazer bem, como se cresce bem”, diz Tiago Branco, director executivo d’A Rocha em Portugal.

Peter Harris, pastor anglicano e ornitólogo, veio para Portugal em 1983, com a família, para estudar zonas ameaçadas e que eram utilizadas pelas aves migratórias. Parou no Alvor.

Nessa altura, Peter tinha uma sensação, como diz ao PÚBLICO: “Estranhei a pouca atenção dos cristãos [ao ambiente e biodiversidade].” Hoje, as coisas mudaram: “O actual Papa tem tido várias posições sobre o cuidado com a Terra, há iniciativas e declarações de diferentes Igrejas”, o patriarca ortodoxo de Constantinopla dinamiza simpósios sobre lugares ameaçados.

Está moderadamente optimista com Copenhaga: “Os frutos concretos serão limitados, mas o debate é inevitável e, pouco a pouco, tem que haver uma resposta.”


Recorde-se ainda o recente simpósio (o oitavo) da série Religião, Ciência e Ambiente, promovido pelo patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, que desta vez decorreu no Mississipi, em Outubro (a foto, copiada do site do simpósio, mostra o patriarca ortodoxo na cerimónia da bênção das águas, no início da iniciativa).

Minaretes, crucifixos e o verdadeiro sinal de fé

Vale a pena regressar à discussão sobre os minaretes e os crucifixos, a partir de textos dos últimos dias. No Público desta segunda-feira, dia 7, Rui Tavares escrevia sobre "Os Novos Anti-Semitas" e recordava a inspiração islâmica do World Trade Center (na foto, copiada daqui):

Mohammed Atta, o terrorista que espetou o primeiro avião contra as Torres Gémeas de Nova Iorque, era diplomado em urbanismo, com uma tese de mestrado sobre uma das cidades mais antigas do mundo — Aleppo, na Síria — e discretamente detestava os arranha-céus “ocidentais” que ali eram construídos.

Quando decidiu passar à acção, assassinando milhares de pessoas num dos edifícios mais conhecidos do mundo, Mohammed Atta sabia muito bem o que estava a destruir.
Minoru Yamasaki, o arquitecto que projectou as torres gémeas, era um apaixonado pela arquitectura islâmica. O seu edifício preferido era a Mesquita do Xá em Ispaão (ou Isfahan) no Irão. Um dos países onde trabalhou mais foi na Arábia Saudita, ao serviço da família real (talvez tenha mesmo chegado a usar os serviços de Muhamad bin Laden, o pai de um certo adolescente chamado Osama, futuro estudante de engenharia).

E em diversas ocasiões escreveu sobre o seu interesse pela arquitectura islâmica. Na sua autobiografia, o arquitecto descrevia as Torres Gémeas como “uma Meca de tranquilidade na Baixa de Manhattan”.

Aposto o meu diploma em História da Arte em como o complexo do World Trade Center era todo ele influenciado pela arquitectura islâmica, a começar pela Grande Mesquita de Meca. Desde a escultura central, evocando a pedra sagrada da Caaba, aos delicados pilares de alumínio cujas nervuras se unem em arcos mouriscos, até ao pavimento do pátio interior desenhado radialmente como as filas dos peregrinos na hajj. (Escrevi sobre isso uma peça de teatro e ensaio chamado O Arquitecto, para quem estiver interessado). E a maior pista de todas estava, naturalmente, nas duas Torres Gémeas — os maiores minaretes do mundo.

Um dos melhores cronistas do mundo é um israelita chamado Uri Avnery. Ele sabe bem o que é o antisemitismo. Quando nasceu na Alemanha o seu nome era Helmut Ostermann, mas a sua família teve de fugir do nazismo em 1933, estabelecendo-se na Palestina.

Ao saber do resultado do referendo na Suíça que proibiu a construção de minaretes nas mesquitas, Uri Avnery escreveu o seguinte: “Parece que o anti-semitismo se deslocou de um povo semita para o outro. Na Europa do pós-Holocausto é difícil ser antijudeu, e por isso os anti-semitas se tornaram antimuçulmanos. É como dizemos em hebraico: a mesma senhora num vestido diferente.”

Uri poderia ter acrescentado que até as manhas do velho anti-semitismo antijudeu e do novo anti-semitismo antiárabe se assemelham. Nos anos 30, os suíços tentaram afugentar os judeus proibindo alguns rituais de preparação de alimentos prescritos pela religião judaica.

Os novos anti-semitas podem até usar alguns dos argumentos que o Mohammad Atta usava antes de se tornar terrorista – que lutam contra a “descaracterização” das suas culturas, etc. Mas por detrás esconde-se a raiva a uma cultura em particular: Mohammed odiava os ocidentais, os novos anti-semitas odeiam árabes e muçulmanos. Nem o tentaram disfarçar proibindo outros edifícios, outras torres, outros templos de outras religiões.

Mas se quiserem ver a marca da arquitectura islâmica no seu país, basta olhar para as muitas igrejas góticas: foi apenas depois de verem as mesquitas de Jerusalém que os cristãos começaram a fazer edifícios altos, esguios, com os seus pilares nervurados, arcobotantes e torres pontiagudas. Os novos antisemitas não conhecem sequer a sua própria cultura.


No mesmo dia, no La Stampa, Enzo Bianchi, prior da Comunidade de Bosé, retomava também o tema. O texto integral está aqui, mas reproduzem-se a seguir os dois parágrafos finais:

Reconhece-se que a Igreja – dos bispos suíços à Conferência Episcopal Italiana, ao L’Osservatore Romano – percebeu e denunciou este uso instrumental da religião da parte de quem nutre interesses ideológicos e políticos e não cuida do bem do conjunto da colectividade, mas continua a ser verdade que nestes últimos anos assistimos a uma progressiva erosão dos valores do diálogo, do acolhimento, da escuta do outro: à força de querer afirmar a própria identidade sem os outros, acaba-se por usá-la e ostentá-la contra os outros. Se a cruz é brandida como uma espada, é Jesus que é blasfemado por causa de quem talvez se adorne com o sue nome, mas contradiz o evangelho e o seu anúncio de amor. A verdadeira força do cristianismo é, em vez disso, a vida de homens e mulheres que, com a sua caridade, humanizaram a sociedade, movidos pelo convite de Jesus: “Quem quer ser meu discípulo, abrace a cruz e siga-me” e pelo seu anúncio: “Reconhecer-vos-ão como meus discípulos se tiverem amor uns pelos outros.” Quando os cristãos se mostrarem capazes de ser solidários com os seus irmãos e irmãs em humanidade, quando renunciarem a guerras santas e permanecerem entretanto firmes em dar testemunho de Jesus, com palavras e actos, então poderão ser reconhecidos como discípulos do seu Senhor mansos e humildes de coração.

Sim, a disputa sobre os crucifixos e os minaretes não deveria fazer esquecer que a visibilidade mais eloquente não é a de um elemento arquitectónico ou de um objecto simbólico, mas o comportamento quotidiano ditado pela adesão concreta e operativa aos princípios fundamentais do próprio credo, seja ele religioso ou laico.

No 2 Dedos de Conversa, há uma outra reflexão, também a propósito de arquitectura, que merece igualmente ser lida. E ainda no Público, pode ler-se a entrevista de Sofia Lorena ao sociólogo das religiões Stefano Allievi.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A terceira margem da alma


Poeta e prosadora, Adélia Prado é, com certeza, uma das mais extraordinárias escritoras de língua portuguesa, como, aliás, o puderam comprovar os que, na segunda-feira e anteontem, escutaram, na Velha-a-Branca, poemas dela, ditos por Ana Arqueiro, Carolina Losa, Manuela Martinez, Marta Catarina e Sandra Andrade, do Sindicato de Poesia. Adélia Prado, que faz 74 anos no próximo domingo, é brasileira e católica. No início de Dezembro de 2007, a Agência Zenit deu conta do que afirmou sobre a linguagem poética e a linguagem religiosa em Aparecida, São Paulo, no âmbito de uma iniciativa que se intitulou “Vozes da Igreja”. “Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum”, sublinhou a poeta na ocasião.

A missa, garantiu Adélia Prado, “é a coisa mais absurdamente poética que existe. É o absolutamente novo sempre. É Cristo se encarnando, tendo a sua Paixão, morrendo e ressuscitando. Nós não temos de botar mais nada em cima disso, é só isso”. Às vezes, parece que não é só isso: “Olha, gente, tem algumas celebrações em que a gente sai da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar”.

Contou a Agência Zenit que, ao propor a discussão do resgate da beleza nas celebrações litúrgicas, Adélia Prado reconheceu que essa é uma preocupação que a tem ocupado desde há muitos anos: “Como cristã de confissão católica, eu acredito que tenho o dever de não ignorar a questão”.

A questão do canto usado na liturgia mereceu a atenção da escritora, que julga que muitas vezes ele não ajuda a rezar. “O canto não é ungido, ele é feito, fazido, fabricado. É indispensável redescobrir o canto oração”. Adélia Prado sublinhou que “o canto barulhento, com instrumentos ruidosos, os microfones altíssimos, não facilita a oração, mas impede o espaço de silêncio, de serenidade contemplativa”.

Explicou a autora de Bagagem, Com licença poética e Solte os cachorros, títulos das suas três obras editadas em Portugal, pela Cotovia, “a palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração e de qualquer coisa, a beleza da arte, é puro silêncio e pura audição”. E o que sucede é que “nós não encontramos mais em nossas igrejas o espaço do silêncio. Eu estou falando da minha experiência, queira Deus que não seja essa a experiência aqui”. O relato não informa sobre se o “aqui” paulista a que Adélia Prado se refere é ou não uma excepção, mas, em Portugal, abundam os mesmíssimos exemplos do que tanto a constrange. Tal como no Brasil, entre nós, “parece que há um horror ao vazio. Não se pode parar um minuto”. Como Adélia Prado observa: “Não há silêncio. Não havendo silêncio, não há audição. Eu não ouço a palavra, porque eu não ouço o mistério, e eu estou celebrando o mistério”.

Para a poeta, “muitos procedimentos nossos são uma tentativa de domesticar aquilo que é inefável, que não pode ser domesticado, que é o absolutamente outro”. É por o indizível ser de imensa magnitude que faltam as palavras. “E não ter palavras significa o quê? Que existe algo inefável e que eu devo tratar com toda a reverência”.

“A liturgia celebra o quê?” À pergunta que formulou, Adélia Prado deu também uma resposta: “O mistério. E que mistério é esse? É o mistério de uma criatura que reverencia e se prostra diante do Criador. É o humano diante do divino. Não há como colocar esse procedimento num nível de coisas banais ou comuns”.

Supor que, para fazer com que o povo se aproxime de Deus, se deve falar o que se julga ser a linguagem do povo, é algo que considera errado pelo que explicou: “Mas o que é a linguagem do povo? É aí que mora o equívoco”. É que não há ninguém que se aproxime com maior reverência do mistério de Deus do que o próprio povo, afirmou, sublinhando que “o próprio povo é aquele que mais tem reverência pelo sagrado e pelo mistério”.

E pergunta Adélia Prado: “Como é que eu posso oferecer a esse povo uma música sem unção, orações fabricadas, que a gente vê tão multiplicadas e colocadas nos bancos das igrejas, e que nada têm a ver com essa magnitude que é o homem, humano, pecador, aproximar-se do mistério?”.

“Barateou-se”, prossegue a poeta, o espaço do sagrado e da liturgia “com letras feias, com músicas feias, comportamentos vulgares na igreja”. Poupada, talvez, à praga das missas com PowerPoint, karaoke e coisas assim, Adélia Prado dá alguns exemplos do empobrecimento litúrgico. “Está tão banalizado isso tudo nas nossas igrejas que até o modo de falar de Deus a gente mudou. Fala-se o “Chefão”, “Aquele lá de cima”, o “Paizão”, o “Companheirão”. “Deus não é um ‘Companheirão’, ele não é um ‘Paizão’, ele não é um ‘Chefão’. Eu estou falando de outra coisa. Então há a necessidade de uma linguagem diferente, para que o povo de Deus possa realmente experimentar ou buscar aquilo que a Palavra está anunciando”.

A linguagem religiosa “é a linguagem da criatura reconhecendo que é criatura, que Deus não é manipulável, e que eu dependo dele para mover a minha mão”. Com esse espírito, diz Adélia Prado, “a nossa Igreja pode criar naturalmente ritos e comportamentos, cantos absolutamente maravilhosos, porque verdadeiros”.

Insistindo em que a missa é como um poema e que não suporta enfeites, Adélia Prado considera que a celebração da Eucaristia é perfeita na sua simplicidade. “Nós colocamos enfeites, cartazes por todo lado, procissão disso, procissão daquilo, procissão do ofertório, procissão da Bíblia, palmas para Jesus. São coisas que vão quebrando o ritmo. E a missa tem um ritmo, é a liturgia da Palavra, as ofertas, a consagração… então ela é inteirinha”.

Afirma Adélia Prado: “A arte a gente não entende. Fé a gente não entende. É algo dirigido à terceira margem da alma, ao sentimento, à sensibilidade. Não precisa inventar nada, nada, nada”.

EDUARDO JORGE MADUREIRA, in Diário do Minho, 6.12.2009

Calendário de Advento (7) - Quando uma criança aclamou para bispo o cônsul Ambrósio

Aclamado por uma criança, segundo reza a lenda, o então governador de Milão foi escolhido para bispo pelos cristãos da cidade, que queriam alguém capaz de apaziguar as tensões em que haviam mergulhado. Ambrósio destacou-se pela proximidade com que exerceu o cargo, pelos hinos que compôs, pela defesa que fez da propriedade universal dos bens e da autonomia entre a Igreja e o Estado. Erasmo definiu o seu estilo como inimitável.

(Ilustração: Santo Ambrósio, mosaico na Basílica de Sant'Ambrogio, em Milão)

“Ambrósio, famoso entre os melhores em toda a terra, teu devoto adorador, cujos discursos naquele tempo distribuíam ao teu povo zelosamente a flor do trigo, e a alegria do azeite, e a sóbria ebriedade do vinho.”
(Santo Agostinho, Confissões, Livro V, XIII, 23)


Conta a lenda que terá sido uma criança a gritar: “Ambrósio bispo!” Milão vive tempos conturbados, no Outono de 374 (ou de 373), após a morte do bispo Auxêncio. O então cônsul Ambrósio preocupa-se com a possibilidade de conflitos. Contra o uso da época, em que os bispos são escolhidos pelos cristãos de cada cidade, Auxêncio tinha sido escolhido e imposto, duas décadas antes, pelo imperador. Mas o bispo aderira ao arianismo, a corrente que contestava que Cristo fosse Deus. Com isso, provocara divisões entre os cristãos da cidade.

Estes reúnem-se na catedral para escolher o sucessor do bispo ariano. Por precaução, Ambrósio intervém entre os partidários de Auxêncio e de Dionísio, o anterior bispo. É então que alguém grita “Ambrósio bispo!” Rapidamente os dois grupos o aclamam, vendo no cônsul alguém capaz de pacificar as tensões existentes.

O governador, então na casa dos 40 anos, tenta resistir ao voto: nem sequer é baptizado, embora tenha recebido uma educação cristã no seio da família e tenha a irmã mais velha, Marcelina, consagrada à vida religiosa. Acaba por ceder, convencido que o povo falara por Deus. Pede para ser baptizado e só dias depois é consagrado bispo.

Ambrósio nasce provavelmente em Trier (no actual Oeste da Alemanha, próximo do Luxemburgo), entre 334 e 340. O pai era um funcionário importante do império na Gália. O futuro bispo de Milão passa por Roma, onde estuda retórica, latim e grego, além de direito e música. Após vários cargos como funcionário administrativo, é nomeado, em 370, como cônsul da região de Emília Liguria.

Quando é escolhido para bispo, oferece os seus bens à Igreja e inicia estudos de teologia com Simpliciano, que mais tarde lhe sucederá no lugar. Como gesto de reconciliação, chama para colaboradores mais próximos membros do clero que tinham sido ordenados por Auxêncio.

Ambrósio irá destacar-se rapidamente pela proximidade com que exerce o seu cargo, pelos muitos textos que dirige aos cristãos, pelos hinos litúrgicos que compõe, por propor uma forma de cantar os salmos com ritmo alternado – que se mantém até hoje. Entre os seus 37 títulos, estão discursos e homilias, obras sobre a Bíblia, moral e dogmática, comentários a escritores gregos cristãos (Orígenes, Basílio) ou a autores clássicos (Virgílio, Cícero, Flávio José). Erasmo definirá o seu estilo como inimitável.

Nos seus escritos, Ambrósio condena as profundas desigualdades sociais, defendendo a posse comum dos bens e o seu usufruto privado; e afirma, num contexto de polémicas, a doutrina do pecado original, depois aprofundada por Agostinho – que, quando se convertera, pedira a Ambrósio para o catequizar e baptizar, o que acontece em 387.

O bispo afirma ainda a autonomia de ambos os poderes, nas relações entre Igreja e Estado, e a colaboração em matérias de interesse comum, além da supremacia da lei moral. Na época, começa a afirmar-se o poder do Imperador sobre a nova religião. Em 390, o bispo fará mesmo com que o imperador Teodósio peça perdão público por uma carnificina por si ordenada em Tessalónica.

Ambrósio, cuja festa é hoje assinalada na liturgia católica, morre a 4 de Abril de 397. Num dos seus hinos, escrevera: “Ó Deus, criador de todas as coisas,/ tu que governas o firmamento, vestindo/ o dia, com a luz formosa,/ a noite, com a graça do sono,// para que, aos membros em repouso, o descanso/ os devolva ao exercício do trabalho,/ e alivie as almas cansadas,/ e liberte da mágoa os que estão tristes.”


Uma liturgia própria
No seu livro De Sacramentis, Ambrósio escreve: “Em todas as coisas desejo seguir a Igreja romana, mas também nós hominis sensum habemus.” Que é como quem diz, nós também temos o sentido dos ritmos humanos. Tal é o caso da liturgia ambrosiana, que criou ritos, orações, hinos, modos de celebrar a fé próprios, na maior parte dos casos redigidos por Ambrósio. Como o facto de o Advento ter seis semanas, e não quatro como acontece no rito romano. Alguns dos hinos compostos por Ambrósio ainda hoje são utilizados. É o caso das celebrações Santambrosianas 2005, que todos os anos decorrem em Milão e durante as quais o actual acrcebispo, cardeal Dioniggi Tettamanzi, sucessor de Ambrósio na Sé de Milão, continua a seguir o costume de dirigir uma mensagem à população da cidade, que pode ser lida no sítio internet da diocese. Esta iniciativa segue a tradição instaurada pelo bispo do século IV e retomada pelo cardeal Giovanni Colombo, em 1974, continuada depois pelo cardeal Carlo Maria Martini, entre 1979 e 2002.


Poema - O Natal em Londres, de Almeda Garrett

QUE Natal este! — Sempre sois herejes,
Meus amigos inglezes.
Bem haja o santo padre e a sua bulla
De fulminante anathema,
Que excommungou estes ilhéos descridos!
Oh! nunca a mão lhe dôa.
Vêr na minha catholica Lisboa
As festas de tal noite!
Sinos a repicar, moças aos bandos
C’a bem-trajada capa,
E o alvo-teto lenço em côca airosa,
D’onde um par de olhos negros
Dão as boas festas ao vivaz desejo
Do tafulo devoto
Que embuçado accudiu no seu capote
A’ pactuada egreja!
Natal da minha terra, que lembranças
Saudosas e devotas
Tenho de tuas festas tam gulosas,
E de teus dias santos

Tam folgados e alegres! Como vinhas
Nos frios de Dezembro
De regalados fartes coroado
Aquecer ‘corpo e alma
C’o vinho quente, c’os mechidos-ovos,
E farta comezana!
E estes excommungados protestantes,
(Olhem que bruta gente)
Sempre casmurros, sempre enregelados,
Bebendo no seu ale,
E tasquinhando na carnal montanha
Do beef cru e insipido!
Pois os Chistmas-pyes, gabado esmero
De sarmatas manjares!...
Olhem estas pequenas... são bonitas;
Mas que importa que o sejam
Se das Graças donosas praguejadas,
Rusticas e selvagens,
Nem dança airosa, nem alegre jogo
De divertidas prendas
Arranjar sabem, e passar o tempo
Em honesto folguedo!
Jogar um whist morno e taciturno
Sentar-se em mona roda
Junto ao fogão, fazer um detestável
Chá preto e fedorento,
Sem ár, sem graça... — Oh madre natureza,
Quanto mal empregaste
A formosura, o mimo, as lindas cores
Que a taes estátuas déste!

Londres — Dezembro, 1823

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

domingo, 6 de dezembro de 2009

É preciso um estilo de vida sóbrio, diz o Papa

(Foto © Gérard Moss, projecto "Brasil das Águas" - efeitos do desmatamento no Rio da Saudade, Amazonas)


O Papa Bento XVI destacou este Domingo a necessidade de uma acção concertada da comunidade internacional para fazer face ao fenómeno do aquecimento global, sem prejudicar as populações mais pobres nesse esforço.

Referindo-se à Cimeira da ONU sobre as alterações climáticas, que se inicia esta segunda-feira, em Copenhaga, o Papa dexiou votos, após a recitação do Angelus, na Praça de São Pedro, para que “os trabalhos ajudem a encontrar acções respeitosas da criação e promotoras de um desenvolvimento solidário, fundados na dignidade da pessoa humana e orientada para o bem comum”.

“A salvaguarda da criação postula a adopção de estilos de vida sóbrios e responsáveis, sobretudo em relação aos pobres e às geração futuras”, acrescentou.

A Ecclesia tem uma notícia mais completa e organizou também um dossier sobre o tema.

Para quem não sabe, pode referir-se que há em Portugal uma associação ambientalista de inspiração cristã, que nasceu há 26 anos e está hoje já presente em duas dezenas de países. A Rocha tem um site onde se podem obter informações, ler textos sobre teologia da criação e saber em que acções concretas a organizaçao está empenhada pelo mundo fora.

Calendário de Advento (6) - O Pai Natal existe mesmo e chama-se Nicolau

[Ilustração: Lorenzo Monaco, Um Milagre de S. Nicolau, pintura sobre madeira, séc. XIV, do Museu de São Marcos, de Florença, reproduzida em "Legenda Áurea", ed. Civilização. Na Pinacoteca do Vaticano, uma pintura sobre madeira, da autoria de Gentile da Fabriano (1425) mostra São Nicolau, acabado de nascer, pondo-se de pé na bacia em que tomava banho (a imagem está reproduzida na mesma obra). Este terá sido, reza a lenda, o primeiro milagre daquele que hoje é conhecido como Pai Natal. Na Galeria dos Ofícios, em Florença, várias outras pinturas representam milagres de São Nicolau ressuscitando um jovem morto, livrando da fome a cidade de Myra ou ajudando um barco a chegar a bom porto.]

Bispo de Myra, na Ásia Menor, no século IV, Nicolau gostava de dar aos pobres. A fama da sua bondade expandiu-se no tempo e no espaço. Chegou até nós e chama-se Pai Natal.

“O que apareceu perante meus olhos desejosos foi um trenó em miniatura e oito pequenas renas, com um pequeno velho condutor, tão vivo e tão rápido, que num instante soube que tinha que ser São Nick.” (Clement C. Moore, The Night Before Christmas)

O Pai Natal existe. A notícia é confirmada anualmente por milhares de crianças que lhe escrevem, por ele suspiram, a ele se dirigem pedindo um presente especial, fazendo a lista de ingénuos desejos.

A mesma informação, admita-se, também é desmentida todos os anos por outros tantos milhares de crianças. Para essas, a descoberta da pequena mentira é uma frustração natalícia. Afinal, o velhinho com barbas brancas que Clement Moore (1779-1863) pela primeira vez descreveu em 1822, no seu poema A Noite de Natal, existe apenas para dar mais vida a um tempo mágico.

O Pai Natal mais recente é conhecido: criado como figura de publicidade, há 70 anos, ele mais não fazia que copiar modelos anteriores. Em 1822, Clement Clarke Moore descreveu-o no seu poema. Moore, filho de um bispo da Igreja Episcopaliana em Nova Iorque, escreveu o poema como um presente para o seu filho. No texto, o Pai Natal – ou São Nick – aparecia com um trenó, gritando pelos nomes das renas, para que estas se apressassem.

Em 1885, Louis Prang, tipógrafo de Boston, pinta de vermelho, pela primeira vez, a figura do santo que representa o Pai Natal. Até aí, a figura aparecia com uma veste castanha ou com peles (Jane Newdick, As Mais Belas Ideias para o Natal, ed. Círculo de Leitores).

Mas afinal, se o Pai Natal existe – ou não? – quem é ele? A lenda recriada no último século e meio repousa sobre uma história: a de São Nicolau, que hoje o calendário católico assinala e é festejado um pouco por todo o lado – mesmo em países predominantemente protestantes.

De Nicolau, bispo de Myra (cidade da Ásia Menor, na actual Turquia), no século IV, sabe-se que terá nascido em Patras e morrido em 374. Amigo de dar e dos pobres, em particular, a fama da sua bondade foi-se expandindo.

Uma das suas primeiras acções terá sido a de ajudar um pobre pai que tinha três filhas. Sem meios, queria fazer dinheiro com elas. Ao saber disto, Nicolau abeirou-se da casa e atirou um saco com moedas pela janela. A primeira das três irmãs pôde, então, casar. Pouco tempo depois, Nicolau fez o mesmo com a segunda. E, à terceira tentativa, o pai aguardou para ver quem era o seu benemérito e foi atrás dele.

Depois de morrer, muitos milagres foram atribuídos a Nicolau. Os marinheiros pediam-lhe socorro quando os barcos naufragavam: “Começou a ajudá-los nos mastros, nos cabos e nos outros aparelhos da nau, e logo a tempestade cessou”, conta-se na Legenda Áurea (ed. port. Civilização).

Os comerciantes invocavam-no também como ajuda para os negócios. Os pais pediam a saúde para as crianças – uma das histórias era que Nicolau ressuscitara três jovens.

Uma figura assim, benemérita e que escutava tanta gente, seria facilmente adoptada. Já na Idade Média há registos da popularização do seu culto na Europa Central. Na Holanda (S. Nicolau é padroeiro de Amesterdão), Sinterklaas chega de barco, vindo de Espanha e não da Ásia Menor, acompanhado por dois jovens negros, ambos chamados Piet. A figura de Sinterklaas dedica, depois, os dias que faltam até ao Natal a visitar crianças e idosos, hospitais e infantários, premiando quem se portou bem (quase todos) e não dando nada a quem se portou mal (quase ninguém).

Quem disse que o Pai Natal não existe?



Poema - Se considero o triste abatimento, de Manuel Maria Barbosa du Bocage

Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.

Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.

Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.

Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

Três Adventos

Na crónica de hoje no Público, Frei Bento Domingues fala do Advento, da relação com o tempo e dos tempos de crise que vivemos (a foto é retirada daqui).

1. O tempo é sempre misterioso. Nele nos realizamos, nele nos perdemos, está sempre a vir e sempre a ir não se sabe para onde. Tem dado muito que fazer aos físicos e aos filósofos, mas quando se abandona a reflexão filosófica, resvalamos para a banalidade. Num encontro ou numa conversa sem assunto ou para evitar assuntos melindrosos, “fala-se do tempo” que faz: do sol, da chuva e do vento, do frio e do calor.

O Novo Testamento (NT), no estado em que o conhecemos, foi escrito em grego e aproveitou a boleia da tradução da Bíblia para o grego, feita em Alexandria, antes do movimento cristão, ficando conhecida como “A Versão dos Setenta” (sábios). Contra o eterno retorno do mesmo, manteve a concepção linear do tempo, um sentido positivo para a história colectiva e individual da aventura humana, apoiada na fidelidade de Deus às suas promessas, apesar de todas as catástrofes.

São essencialmente três as noções de tempo que tecem os textos do NT. O tempo-duração (aiôn) designa a experiência da continuidade da vida, desde o nascimento até à morte. Ao incluir uma Presença divina no fluxo do tempo, sugere algo de eterno, “pelos séculos dos séculos”. O tempo-sucessão (khronos) designa um espaço determinado de tempo, mais breve ou mais longo, delimitado, “naquele tempo…”. O tempo-qualificado (kairos) significa um ponto crítico ou o bom momento, o tempo favorável de que é preciso tirar partido, a ocasião a não perder, a salvação. Só com vigilância e oração é possível reconhecer os “sinais do tempo”.

Apesar disso, o começo (arkhe) e o fim (telos) são as referências supremas do tempo-qualificado. Permitem unificar, sob a acção de Deus criador e juiz, a multiplicidade sucessiva das gerações humanas. Com Cristo, no entanto, “o fim dos tempos veio até nós”. Daí que o verdadeiro tempo seja “hoje”, o toque do eterno na sucessão dos tempos.

2. Quando, no Domingo passado, destaquei, na Missa, que estávamos a começar o Advento, um miúdo – que não aprecia o retorno do mesmo – lembrou-me que eu já tinha dito isto no ano passado. Esta observação crítica levou-me aos sermões de S. Bernardo (século XII) que fala de um tríplice Advento. Entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, entre o Natal e o fim do mundo, o Senhor da história está sempre a vir até nós na sua palavra, nos sacramentos, nos acontecimentos, na voz da consciência. Pelo seu Espírito, faz da nossa vida a sua verdadeira e permanente morada (Jo 14, 23). Neste sentido, a “Parusia”, a presença do Senhor que vem, está sempre a acontecer: é Aquele que vem, que veio e que virá.

Este vocabulário tem vantagens e inconvenientes. Vantagens, ao dizer que não estamos ligados a um Deus parado numa vida parada, em clausura, mas no movimento do mundo. Inconvenientes porque, na vida, nem tudo depende só de Deus que não se sente nada honrado com a desvalorização da criatividade humana.

3. O Advento, preparação do Natal, começa mais cedo nos centros comerciais do que nas Igrejas. Este ano, afectado pela crise mundial que lançou milhões no desemprego, não se fala tanto de febre consumista, mas da urgência de solidariedade que ainda não conseguiu encher de vergonha aqueles que se enchem com a crise e nem levar os gestores da banca e das empresas privadas e públicas a repartir os seus salários escandalosos.

Ao dar corpo à esperança, a solidariedade faz parte da luta contra o desespero, abre o futuro. Não se perde em discussões estéreis e exibicionistas de prós e contras nem na contabilidade da crescente desgraça que esquece a miséria em que os mais velhos nascemos. Certos meios de comunicação estão tão marcados pelo pensamento binário, de ataque e defesa, que perderam a capacidade de olhar para aquilo que, no presente, em vários domínios, já anuncia outras possibilidades de futuro, o advento do novo, do que nunca existiu.

O Advento é o alimento da esperança porque não nos deixa atolados na situação presente. Convoca as energias escondidas e recalcadas pela exclusiva exibição quotidiana do que há de pior nas pessoas e na sociedade. Neste sentido, os antigos textos do profeta Isaías, lidos nas celebrações da passada semana, podem parecer delirantes. Falam da conversão de espadas em relhas de arado, do lobo a viver com o cordeiro, do jantar preparado para todos os povos, enxugando as lágrimas e destruindo a morte para sempre. As palavras não dizem só o que é. Alimentam-se do desejo, do sonho, das possibilidades mais reais do que as reduções ao puramente empírico.

Pode parecer escandaloso que, no Advento, a Igreja mantenha uma semana consagrada à exaltação da alegria sem carpideiras. A concepção cristã da alegria resulta da recusa da indiferença e da opção pela compaixão activa. O caminho cristão não é o da dor e do sofrimento, mas do alívio da dor e do sofrimento. É sempre um cuidar de.

A alma do Advento é a fé de quem não se resigna, o amor de quem acredita na solidariedade, a esperança de quem, mesmo perante o horizonte mais escuro, resiste, mas não dispensa a companhia dos poetas, dos sonhadores e da música.

O Homem na evolução

No seu texto do DN de ontem, Anselmo Borges regressa aos temas da evolução e da relação entre fé e ciência:

A tese da evolução não colide de modo nenhum com a fé. Desde que não vão além dos seus limites e se coloquem na respectiva perspectiva de leitura da realidade, ciência e religião dialogarão com proveito mútuo.

Foi assim que o famoso jesuíta Teilhard de Chardin [na foto], paleontólogo de renome, pôde, apesar da incompreensão da Igreja oficial da altura, reler a sua fé cristã no quadro da evolução. E também Darwin não viu incompatibilidade entre a criação e a evolução. Termina assim "A origem das espécies": "O resultado directo desta guerra da natureza que se traduz pela fome e pela morte é, pois, o facto mais admirável que podemos conceber, a saber, a produção dos animais superiores. Não há uma verdadeira grandeza neste modo de encarar a vida com os seus poderes diversos atribuída originariamente pelo Criador a um pequeno número de formas ou mesmo a uma só? Ora, uma quantidade infinita de belas e admiráveis formas, saídas de um começo tão simples, não cessou de se desenvolver e desenvolve-se ainda."

E, em "A origem do homem", reconhece que este, a partir de um certo grau de desenvolvimento, foi dotado da "nobre fé na existência de um Deus omnipotente", de um "Criador e Governador do Universo", cuja realidade foi "afirmada por algumas das mais altas inteligências que alguma vez existiram".

Há uma pergunta que o ser humano inevitavelmente põe e a que a ciência não pode responder, pois tem a ver com o fundamento e o sentido último da realidade: porque há algo e não nada? E, para ela, em última análise, só há duas respostas em alternativa.

(excerto do texto, que pode ser lido na íntegra aqui.)

sábado, 5 de dezembro de 2009

Presépios em Belém e na Lagoa

O Museu da Presidência da República inaugurou no dia 3 de Dezembro, no Palácio de Belém, a exposição "Alegrem-se os céus e a terra". A mostra assinala a quadra natalícia com peças de iluminura, escultura e pintura dos séculos XV a XVII, num total de 50 trabalhos sobre os temas do Ciclo da Vida da Virgem e de Jesus Menino, provenientes de arquivos e museus nacionais, , bem como de igrejas, museus municipais, fundações e colecções particulares.

Na pintura, artistas portugueses como Francisco Henriques, Josefa de Óbidos ou André Reinoso, contracenam com alguns dos mais reconhecidos artistas franceses, italianos e flamengos, tais como Laurent de La Hyre, Perugino, Francesco Trevisoni, Ambrosius Benson ou o Mestre Hal Lengahs.

A exposição está patente de 3 de Dezembro a 10 de Janeiro de 2010. Os horários são os seguintes: núcleo de escultura e pintura (Galeria das Jaulas): terça a sexta : 14h00-17h30; sábado e Domingo: 10h00-18h00; núcleo de pintura e iluminura (Galeria do Palácio de Belém) sábado e Domingo: 10h00-18h00. O acesso à exposição é livre, integrando a visita ao museu.

Aqui há mais informações e imagens da exposição.

Também em Lagoa (S. Miguel, Açores) está patente, até 11 de Dezembro, uma exposição de presépios de lapinha, com 39 presépios.A mostra pode ser vista na Ermida de Nossa Senhora do Cabo, em Santa Cruz, nos dias úteis das 14h00 às 16h30, e aos feriados e fins-de-semana das 15h00 às 19h00.

Aqui acrescentam-se elementos sobre a mostra.

(Ilustração: foto de José Pessoa, in "O Presépio da Madre de Deus", ed. IPM)

Paulo de Tarso, a última viagem

O filme "Paulo de Tarso, a última viagem" estreou em Espanha na semana passada. No começo do próximo ano, a película começará a percorrer os cinemas do país.

O realizador, Pablo Moreno, que também dirigiu "Talita Kum", é o delegado da diocese de Ciudad Rodrigo para a Pastoral Juvenil.

Aqui, há mais pormenores sobre a notícia e pode ser visto um trailer do filme.

Calendário de Advento (5) - Martinho de Dume: pacificador, organizador, doutrinador

Por causa da crítica de Martinho de Dume à designação dos dias da semana com nomes de divindades pagãs, o português foi a única língua românica que passou a utilizar a expressão de “feira” (ou “feria”) para os mesmos. Foi um dos sucessos, entre outros, do abade de Dume e bispo de Braga.

[Ilustração: Martinho de Dume-miniatura do Códice Albeldensis, c. 976 (Biblioteca do Mosteiro de San Lorenzo de El Escorial, Madrid)]


“Esta é a verdadeira penitência: que o homem nunca mais cometa os erros que cometeu (…), pratique boas obras e dê esmola aos pobres, restaure as forças ao estranho cansado e tudo quanto gostaria que lhe fosse feito a ele por outro ele o faça a outrém.”
(Martinho de Dume, De Correctione Rusticorum)

Pacificador de povos, organizador da estrutura religiosa, evangelizador. Martinho de Dume, bispo de Braga no século VI, destacou-se no seu tempo como um grande pensador e um verdadeiro estratega da doutrinação dos cristãos e da expansão do cristianismo.

Martinho, contava-se, chegou à região vindo do Oriente, talvez da Panónia (actual Hungria). Tal era a convicção de historiadores até há pouco tempo. Mas essa lenda forjou-se na Gália, por causa da veneração de Martinho de Dume, que o calendário católico hoje celebra, ao seu homónimo de Tours, festejado a 11 de Novembro.

O que se sabe é que Martinho veio de longe, chegou à Galécia cerca do ano 550 e se tornou o primeiro abade do mosteiro de Dume, perto de Braga. Ali, o monge “inicia ou dá corpo a uma tradição monástica hispânica de características singulares”, escreve Aires A. Nascimento (Instrução Pastoral Sobre Superstições Populares – De Correctione Rusticorum, ed. Cosmos).

Essa especificidade do Noroeste peninsular católico acabará por originar, entre outras coisas, o rito bracarense. E traduz-se, na época de Martinho, em aspectos como os que “respeitam à observância de normas litúrgicas, à organização dirigida por um bispo-abade e a um programa de vida que combina reflexão com trabalho, cultivando o gosto pelo estudo aliado à meditação”.

Nesse tempo, a Galécia é uma encruzilhada de povos e reinos, após a queda do Império Romano. Em 558, a conversão do rei suevo Teodomiro, impulsionada por Martinho, tem como consequência a pacificação entre suevos, hispano-romanos (já cristianizados) e visigodos.

Esta conversão possibilita ainda a realização do I Concílio de Braga, em 561. A reunião, escreve Aires Nascimento, é “determinante na definição da ortodoxia e na reposição da unidade da fé”, até aí ameaçada pelo priscilianismo, movimento que defendia uma reforma interior da Igreja propondo um caminho de rigorismo, com uma carga anti-social profunda. No concílio já o abade de Dume se destaca. Oito anos depois, em 569, é escolhido naturalmente para suceder a Lucrécio como bispo de Braga e nesse papel organizará o II concílio, em 572.

A sua importância como doutrinador e organizador da Igreja evidencia-se claramente nas duas décadas seguintes: Martinho preocupa-se em combater as práticas pagãs e supersticiosas, ao mesmo tempo que propunha ao clero e aos fiéis normas de vida e regras de comportamento exemplares. “Cuidou sobretudo de uma pastoral directa, atenta às situações, interveniente e benevolente”, sintetiza Aires Nascimento.

É neste contexto que surge o De Correctione Rusticorum, ou Sermão Sobre a Correcção dos Rústicos. “Um verdadeiro programa de erros condenados e a corrigir”, observa a historiadora Ana Maria Jorge (História Religiosa de Portugal – vol. I, ed. Círculo de Leitores). No texto, Martinho critica vários dos costumes da religiosidade pagã vigentes na Galécia. Superstição, entende o bispo, confunde-se com obra demoníaca.

A par de obras de carácter moral, Martinho critica ainda o uso, que alguns persistiam em fazer, dos nomes de divindades pagãs para designar os dias da semana. O triunfo da designação de “feira” para os dias úteis, em língua portuguesa, tem, assim, a sua assinatura.


Um centro de investigação sobre igrejas cristãs antigas
Dume deverá tornar-se um dos principais centros de investigação de igrejas cristãs antigas, noticiou o Diário do Minho em 2005, citando o arqueólogo Luís Fontes, da Universidade do Minho. Desde 1987 ali há trabalhos de investigação, que permitiram colocar a descoberto uma galeria de 2500 metros quadrados que liga as diferentes secções de ruínas romanas (onde se destaca um balneário), e a basílica e mosteiro, onde Martinho foi abade durante uns nove anos, em meados do século VI. Em 2006, abriu o espaço museológico, que passou a expor também o sarcófago de Martinho de Dume (do século XI), que estava no Museu D. Diogo de Sousa, em Braga. Esta peça é considerada pelo arqueólogo como “a mais importante peça escultórica funerária da Alta Idade Média em Portugal”, pela “riqueza iconográfica” e “qualidade escultórica”. Dume foi, na época de Martinho, um importante centro de irradiação cultural na Península Ibérica. Ali foram traduzidas várias obras clássicas importantes.


Poema - Ao Menino Deus em metáfora de doce, de Jerónimo Baía

Quem quer fruta doce?
Mostre cá, que é isso?
E doce coberto,
E manjar Divino.
Vejamos o Doce,
E depois que o virmos,
Compraremos todo,
Se for todo rico.
Venha ao Portal logo,
Verá que não minto,
Pois de várias sortes
E doce Infinito.
Descubra, minha alma;
Mas ah! Que diviso
Envolto em mantilhas
Um Infante lindo.
Pois de que se admira
Quando este Menino
De Doce coberto
E Manjar Divino?
Diga o como é doce,
Que ignoro o prodígio;
Não sabe o mistério?
Ora vá ouvindo.
Muito antes de Santa Ana
Teve este Doce princípio,
Porque já do Salvador
Se davam muitos indícios.
Mas na Anunciada dizem
Que houve mais expresso aviso,
E logo na Encarnação
Se entrou por modo Divino.
Esteve pois na Esperança
Muitos tempos escondido,
Saiu da Madre de Deus,
Depois às Claras foi visto.
Fazem dele estimação
As Freiras com tal capricho,
Que apuram para este Doce
Todos os cinco sentidos.
Afirmam que no Calvário
Terá seu termo finito,
Sendo que no Sacramento
Há-de ter novo artificio.
Que seja doce este Infante
A razão o está pedindo,
Porque é certo que é Morgado,
Sendo Unigénito Filho.
Exposto ao rigor do tempo
Quando tirita nuzinho,
Um Caramelo parece
Pelo banco & pelo frio.
Tal Doce é, que porque farte
Ao pecador mais faminto,
Será de Pão com espécies
Substancial Doce Divino.
E Manjar tão soberano,
Regalo tão peregrino,
Que os espíritos levanta,
Tornando aos mortos vivos.
Tão delicioso bocado
Será de gosto infinito,
Manjar real verdadeiro,
Manjar branco parecido.
Que é manjar dos Anjos dizem
Talentos mui fidedignos,
Por ser pão-de-Ló, que aos Anjos
Foi em figura oferecido.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

Calendário de Advento (4) - Marcos, jornalista inventor do evangelho e do segredo messiânico

Quando Jesus é preso, conta o evangelho de Marcos (14, 51), “um certo jovem, que o seguia envolto apenas num lençol, foi preso [também] mas, deixando o lençol, fugiu nu”. Os especialistas olham para esta figura como o próprio Marcos. Mais tarde, este seguirá Paulo e Barnabé nas duas primeiras viagens missionárias de Paulo. Na segunda, há uma violenta discussão entre Marcos e Paulo, acabando por se separar. Marcos vai para Roma, colaborando com Pedro na evangelização da capital do império. Aí, provavelmente, escreve o seu evangelho, onde mostra um Jesus “Filho de Deus” e profundamente humano. Um Jesus de contrastes, entre o carinhoso e o distante, que umas vezes pede segredo, e outras quer que divulguem tudo aquilo que faz. O evangelho onde qualquer pessoa, mesmo não-crente, “se sentirá melhor” retratada, diz a Nova Bíblia dos Capuchinhos. Reza a lenda que o seu corpo foi levado do Egipto para Veneza, no século IX. Razão para que a cidade dos doges construísse a esplendorosa basílica a ele dedicada.

(Ilustração: Cristo dando a bênção entre a Virgem e S. Marcos, mosaico do séc. XIII na Basílica de São Marcos, em Veneza)


É o mais antigo evangelho, escrito com a preocupação de falar de Jesus aos pagãos. Guarda um segredo que o seu autror, Marcos, vai desvelando aos poucos. Conciso, directo e colorido, tem um estilo que alguns já identificaram como de um jornalista preocupado em relatar factos.


Uma voz clama no deserto:‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.
(Marcos 1, 3)

O texto escrito por Marcos é o mais antigo entre os quatro evangelhos que narram a vida de Jesus. A narração começa pelas palavras “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. É a primeira vez que alguém usa a expressão para contar a “boa nova” (é esse o significado da palavra evangelho) de Jesus. Marcos é, assim, o inventr do evangelho como género literário.

Os investigadores acreditam que o texto terá sido escrito em Roma, entre os anos 64 e 70 (mais perto desta data), pouco antes da queda de Jerusalém sob a dominação romana. No seu evangelho, Marcos tem um estilo muito próprio: “É exímio na arte de contar: fá-lo com realismo e sentido do concreto, enriquece os relatos de pormenores e dá-lhes vida e cor”, escreve-se na introdução ao texto, na edição da Nova Bíblia dos Capuchinhos (ed. Difusora Bíblica).

Estas características levaram alguns a falar de um evangelho de jornalista – no estilo, pelo menos. A comparação peca por desajustada. Mas aparece porque o autor está interessado, essencialmente, em apresentar factos que transmitam o fundamental da mensagem de Jesus.

A secura ou aridez literária de Marcos levaram ao menosprezo pelo seu texto até final do século XIX. A descoberta de que este era o evangelho mais antigo levou nessa altura à sua reabilitação. Vários autores passam a considerá-lo “mais digno de crédito do que os outros evangelhos”, como escreve o biblista Jean Delorme (Para Ler o Evangelho Segundo S. Marcos, ed. Difusora Bíblica).

Um dos textos bíblicos mais lidos nas quatro semanas de Advento (pelo menos este ano, já que os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são lidos alternadamente), Marcos é hoje valorizado mais por “despertar o interesse pela humanidade de Jesus”, explica Delorme.

Este é também o mais breve dos quatro evangelhos (16 capítulos, em vez dos 21 de João, 24 de Lucas e 28 de Mateus). É o texto “mais simples, directo e colorido, valorizando pormenores em apoio de uma fé sensível ao extraordinário”, escreve frei Lopes Morgado, franciscano capuchinho no número 7 da revista Stella).

O mais antigo evangelho. Um reflexo da que seria a “mais primitiva reflexão da Igreja acerca do acontecimento Cristo, que lhe deu origem”, lê-se na Nova Bíblia dos Capuchinhos. No caso de Marcos, a mensagem é dirigida sobretudo a cristãos oriundos de fora do judaísmo. Por isso o autor reocupa-se em explicar aos seus leitores, em pormenor, usos e costumes do judaísmo.

Também pela mesma razão, Marcos é o único a colocar a figura do centurião romano que está junto da cruz, quando Jesus morre, a fazer uma profissão de fé: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus.” A mesma, afinal, feita pelo próprio autor no início do texto. A mesma que Pedro faz, no capítulo 8 – “Tu és o Messias”, depois de Jesus perguntar aos mais próximos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”

A intencionalidade desta mensagem é o centro da mensagem que Marcos quer fazer passar. E a declaração repetida de Jesus como Filho de Deus, como o Messias aguardado pelos judeus, é também o segredo que o evangelho guarda, ao modo de suspense: “O Jesus de Marcos é enigmático”, escreve Jean Delorme. E é também objecto de sucessivas perguntas: “Quem é ele?”, “O que é isto?”; provoca o espanto: “Nunca vimos coisa assim”.


Poema - Ao nascimento de Nosso Senhor, de Frei Agostinho da Cruz

Tanta formosura
Nume estrebaria,
Jesus, e Maria?

Chove, venta e neva,
Congela-se o rio,
Meu Senhor ao frio
Com’os filhos d’Eva!
Pelo que releva
Numa estrebaria,
Jesus, e Maria?

Nasce a nova Luz,
Nasce a flor das flores,
Amor dos amores,
No berço e na cruz
Maria e Jesus?
Numa estrebaria,
Jesus, e Maria?

Desumana gente
Que não agasalha
A quem só na palha
Ficará contente.
Ai! Quão pobremente
Numa estrebaria,
Jesus, e Maria?

Fermoso Menino,
Meu Senhor eterno,
Por tempo de Inverno
Pobre peregrino;
O amor divino
Numa estrebaria,
Jesus, e Maria?

Por terras estranhas,
A vossa pousada
Tem o tempo armada
De teias de aranhas?
Nasce das entranhas
Jesus, e Maria
Numa estrebaria?

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)