domingo, 19 de janeiro de 2014

Anticiclone papal

Crónicas

Na sua crónica desta sexta-feira no Correio da Manhã, com o título “O anticiclone papal”, Fernando Calado Rodrigues analisa as nomeações do Papa para novos cardeais, anunciadas na semana passada:

A lista dos purpurados de Bergoglio, sendo surpreendente, é todavia congruente com a sua atenção às periferias, a qual não se tem cansado de referir nas mais variadas circunstâncias. Verifica-se, uma vez mais, uma profunda coerência entre as palavras do atual Papa e a forma concreta como governa a Igreja.

O texto integral pode ser lido aqui.

Já há quinze dias, o mesmo autor falava do efeito Francisco, antecipando precisamente algumas expectativas que o anúncio dos cardeais veio confirmar. Sob o título “Um bom 2014”, escrevia:

Espera-se que 2014 seja o ano em que frutifiquem as ideias que o cardeal Bergoglio carregou desde o “fim do mundo” e semeou durante o ano de 2013. José Manuel Vidal escreve no sítio espanhol “Religión Digital”, de que é diretor, que 2014 será o ano em que se consolidará “a revolução tranquila de Francisco”. O ano em que “a primavera da Igreja florescerá em todas as estruturas e níveis”. Não é ele o único a acalentar essas expectativas e a fazer votos para que assim seja.

(texto completo aqui)

Na semana passada, a crónica era sobre o episódio da recusa da Comunidade Judaica do Porto em participar numa iniciativa conjunta com outras comunidades judaicas e com uma paróquia católica do Porto, para a criação de um Centro da Memória Judaica. O texto pode ser lido aqui.




O efeito Francisco

Crónicas

Nas suas duas últimas crónicas no DN, Anselmo Borges escreve sobre o efeito do discurso e acção do Papa. Na semana passada, começou por referir  “O que dizem de Francisco”:

Aos 77 anos, tem inquestionavelmente isso que os profissionais norte--americanos das relações públicas chamam o star power. Fala muito e livre. Beija, acaricia, diz piadas, escreve cartas, chama ao telefone, tuíta, o mais importante, surpreende." Nenhum tema o assusta. "Será Francisco o Papa do renascimento da comunidade católica?" O famoso escritor Umberto Eco definiu-o como "o Papa da globalização", dizendo numa entrevista: "Estou convencido de que Francisco está a representar um facto absolutamente novo na história da Igreja e, talvez, na história do mundo." Como semiólogo, considera que "é um homem moderno, é o Papa da internet". O Papa Francisco levará a bom termo o seu desígnio? 


Neste sábado, o título era “Francisco e Obama”:

O efeito Francisco é inegável. Está aí a sua imensa influência nos média. Tem 11 milhões de seguidores no Twitter. Foi considerado a personalidade do ano 2013. Granjeou empatia, simpatia e admiração global. A prática religiosa tem aumentado. E a razão é simples: tomou a sério o Evangelho.
Mas não se pode ser ingénuo. Encontrará muitas resistências dentro e fora da Igreja. Sobretudo dentro, correndo o risco de, como Obama, cuja popularidade desceu, ver em parte bloqueada a sua revolução pacífica. É o que aconteceria se não conseguisse uma nova Constituição para a Igreja, uma profunda e rápida transformação da Cúria, transparência plena no Banco do Vaticano.
Mas há razões para uma esperança fundada. Rodeou-se do G8 cardinalício e quer rapidamente reformar a Cúria. Francisco faz a síntese de franciscano e de jesuíta. Ele é cristão franciscano, com formação de jesuíta para uma estratégia na eficácia.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Arriscar o quê? – e mais duas perguntas

Crónicas - À Procura da Palavra



(ilustração reproduzida daqui)

No seu comentário à liturgia católica deste domingo, (II do tempo comum no calendário litúrgico), pergunta Vítor Gonçalves, sob o título “Arriscar o quê?”:

(...) deixo uma sugestão de aprofundamento para um estudo apresentado esta quinta-feira sobre “Literacia social: os valores como fundamento de competência” onde se constata que “86,4% das pessoas que ganham até 500 euros considera muito importante ajudar os outros, percentagem que vai baixando à medida que os rendimentos aumentam e que atinge o valor mais pequeno – 46,7% – quando chega ao grupo dos que ganham mais de 4 mil euros por mês” e se conclui: “Os portugueses com mais habilitações e mais rendimentos são os que dão menos importância à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos.”

(O texto completo pode ser lido aqui)

No domingo anterior, em que se celebrava o baptismo de Jesus, escrevia o mesmo autor, com o título “Descoberta ou ritual?”:

Hesitei demoradamente em iniciar estas palavras semanais com a experiência forte do filme “12 anos escravo” que relata o drama da escravatura nos meados do século XIX nos Estados Unidos. Baseado na vida real de Solomon Northup, que vivendo livre em Nova Iorque em 1841, com a esposa e os filhos, se viu reduzido à condição de escravo por 12 anos nas grandes propriedades do sul esclavagista. O momento em que pôde, de novo, assumir o seu nome e a sua condição livre, sem medo de chicotadas, tem o sabor de um renascimento. E não consigo desligá-lo desta identificação de Cristo com a humanidade decaída, na fila dos pecadores para o baptismo de penitência de João, e com a voz de Deus que Lhe diz (e nos diz): “Este é o meu Filho muito amado!”


Antes, no domingo da Epifania, Vítor Gonçalves perguntava: “Que estrela?”

Numa belíssima parábola sobre o propósito da vida o recente filme de Bem Stiller, “A vida secreta de Walter Mitty” apresenta a história de um homem instalado que vive sonhos de aventura sem nunca os realizar. E ainda que trabalhe numa revista de fotografia que tem como lema, “Ver o mundo e os perigos que virão, ver por trás dos muros, chegar mais perto, encontrar o outro e sentir. Esse é o propósito da vida”, só a muito custo irá experimentar o risco e a mudança. Claro que não é um mago à procura do presépio mas o brilho que lhe nasceu nos olhos abre caminhos novos. Como é tão verdade a palavra insistente de Jesus:“Procurai e achareis!”

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Marcelo Barros em Portugal - Ecologia e espiritualidade: mudar o paradigma


(foto reproduzida daqui)

Marcelo Barros, monge beneditino brasileiro e um dos nomes de topo daquilo que já se pode chamar a eco-teologia, está em Portugal e intervirá, hoje e amanhã, em mais dois debates – um no Porto, outro em Braga. Ontem, Marcelo Barros falou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, numa sessão que contou com a participação de Paulo Borges, professor universitário e responsável da União Budista Portuguesa.
O debate de hoje no Porto decorre a partir das 17h, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação e conta também com a intervenção de Margarida Felgueiras, professora da mesma faculdade, e Jorge Moreira, da Sociedade de Ética Ambiental. Amanhã, quinta-feira, em Braga, a partir das 10h, a Sala de Actos do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Munho (campus de Gualtar) recebe, além de Marcelo Barros, dois professores universitários: Jacinto Rodrigues (Porto) e José Pinheiro Neves (Minho). A vinda de Marcelo Barros a Portugal é a convite dos Missionários da Consolata.
Na intervenção de Lisboa, Marcelo Barros referiu-se à “crise ecológica gravíssima” que vivemos e que, pela primeira vez na história humana, “não é natural” e tem “custos astronómicos”, pelas catástrofes ambientais que já provocou.
Neste contexto, é necessária uma espiritualidade que reconcilie a pessoa humana com a natureza, defendeu. Mas que abranja os diferentes âmbitos da vida, aliando a ecologia ambiental à ecologia social. Marcelo Barros citou os números da concentração de riqueza no mundo (metade está na posse de dois por cento de pessoas) e dos milhares de crianças que morrem diariamente por fome, em contraste com o milhão de toneladas de alimentos que se deita para o lixo, diariamente para acentuar o paradoxo da situação actual.
As espiritualidades indígenas, através das quais Marcelo Barros descobriu a ecologia, podem ajudar-nos a descobrir que “não há separação entre natureza e história, entre natureza e cultura”. A espiritualidade ecológica pode ser, assim, um caminho de reconciliação e unidade.

Debate em Lisboa: O Papa e o inquérito sobre a Família

Agenda 

Hoje, às 18h30, o CRC (Centro de Reflexão Cristã) promove, na sua sede, um debate acerca do tema O Papa Francisco e o inquérito sobre a Família. A iniciativa tem a participação de Alfredo Teixeira, professor na Universidade Católica, e da artista plástica Emília Nadal. A sede do CRC é na R. Castilho, 61 – 2.º Dir. e a entrada é livre. A propósito, foram recolhidas, através do blogue RELIGIONLINE, 76 respostas ao inquérito do Sínodo dos Bispos sobre a Família. As respostas começaram já a ser enviadas às instâncias competentes e brevemente se darão notícias mais pormenorizadas do tratamento feito e do conteúdo de algumas das respostas.

Do relvado à mitologia

«Poucas dimensões como o desporto conjugam tão bem a superação da espécie com o clamor do inexplicável. “Deus dá a quem merece”, disse Pelé na entronização mediática do “melhor jogador de futebol do mundo”. E enquanto Ronaldo recebia a coroa da glória, ecoava ainda nas avenidas mediáticas o grito do derradeiro adeus a um homem elevado à categoria de herói, um herói transformado em mito.» - excerto de texto de opinião publicado na SIC Online que pode ler, na íntegra, aqui

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Desejar a Paz?

"Será legítimo duvidar da utilidade da oração para a construção da Paz quando se sabe que a religião também alimenta o conflito e a violência. E o desejo? Pode o desejo de Paz ser transversal?

(...) O pano de fundo da mensagem foi a Paz. Tirando os olhos do papel, numa ideia Urbi et Orbi que lhe veio no improviso da consciência, convidou os “não crentes” a juntarem-se “com o desejo” às orações dos crentes pela Paz. “Com a oração ou com o desejo, mas todos pela Paz”, construindo vias de diálogo. Como interpretar este apelo [do Papa] à sintonia entre o desejo e a oração?"

Pode ler aqui, na íntegra, a crónica publicada na SIC Online

Calendário do Tempo

No começo de um novo ano convém lembrar que há muitas formas de celebrar o tempo. 

Um calendário feito em Portugal (Edições Paulinas), cruza as principais datas civis de 2014 com festas de várias religiões e culturas. Um conceito que pode vir a ser exportado. Pode ver a reportagem da SIC aqui:

Entre ritmos e festas, o ano arrancou com um feriado, Dia Mundial da Paz, que assinalou a adesão de Portugal à CEE. Os cristãos católicos celebraram Santa Maria, Mãe de Deus, os cristãos ortodoxos a Circuncisão do Senhor, e os budistas reservaram-se à meditação, dedicados ao Buda histórico. 

Outras curiosas coincidências em 2014... 
A 29 de maio, enquanto os hindus celebram o nascimento do rio Ganges, os crentes da fé Bahai recordam a Ascenção do profeta Bahá'u'lláh. 
A 28 de junho, os muçulmanos começam o Ramadão, enquanto os católicos dedicam o dia ao Imaculado Coração de Maria. 
A 10 de agosto, os chineses têm o Festival dos Fantasmas, com ofertas aos mortos para não atormentarem os vivos, enquanto, entre hindus, as irmãs evocam a protecção dos irmãos na festa do Raksha Bandhan, e os budistas celebram o dia em que Buda entrou no ventre da mãe. 
A 3 de outubro, dia da Alemanha, os hindus celebram a vitória do bem sobre o mal. Ao por do sol começa uma das principais festas judaicas - o Yom Kippur -, a coincidir com o fim da peregrinação anual dos muçulmanos a Meca, enquanto os católicos recordam Francisco de Assis.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Grande jornal dos EUA vai investir na cobertura do catolicismo
... e para isso contrata peso-pesado dos vaticanistas

O prestigiado vaticanista John Allen, jornalista do norte-americano National Catholic Reporter e autor de vários livros sobre o Vaticano, vai passar-se para a equipa do jornal The Boston Globe já a partir do próximo mês, segundo notícia hoje difundida. A contratação visa reforçar o investimento na cobertura do catolicismo e do Vaticano, que aquele diário pretende fazer.
Mais concretamente,  Allen, além de continuar a cobrir os assuntos do Vaticano, será um analista especialmente atento às dinâmicas e acontecimentos do mundo católico e ajudará os responsáveis do prestigiado jornal do Massachusetts a preparar o lançamento de uma publicação autónoma dedicado ao catolicismo.
A aquisição explica-se porque, nas palavras do director do Globe, Brian McGrory, "há um ressurgimento do interesse global na Igreja Católica, inspirado pelas palavras e ações do líder recém-instalado, o Papa Francisco". 
McGregory fez notar que este investimento editorial no universo católico não significa de modo nenhum que o jornal irá reduzir a atenção à cobertura de outras religiões.
The Boston Globe é considerado um jornal de grande prestígio nos Estados Unidos da América, com mais de duas dezenas de prémios Pulitzer no seu palmarés. 
Agradecendo o contributo do seu ainda jornalista, o diretor do National Catholic Reporter escreve hoje, no site da publicação:
"John e eu concordamos que a Igreja Católica é assunto do maior interesse jornalístico. Concordamos também que quanto mais meios de comunicação proporcionarem uma cobertura rigorosa e equilibrada da Igreja isso só pode potenciar os esforços de todos nós".

Ler, sobre este assunto:
-  Boston Globe Hires Journalist to Focus on Catholicism
-  What can we say? Boston Globe hires John L. Allen, Jr.
(Foto: retirada da página de John L. Allen Jr no Twitter)


Comentário breve:

Que pensarão os responsáveis dos media portugueses sobre o interesse jornalístico dos assuntos e acontecimentos relacionados com as religiões, as Igrejas, em particular a Católica? Aparentemente entendem, ao contrário dos seus colegas norte-americanos, citados na notícia deste post, que este é um assunto menor, no qual não vale a pena investir.
Para citar um exemplo, que julgo ser bem revelador: como compreender que um jornal como o Público despeça um dos mais reconhecidos jornalistas especializados em assuntos religiosos, internacionalmente premiado, precisamente no ano, e quase no mês, em que a Igreja Católica iniciou uma nova etapa da sua existência na contemporaneidade, desencadeada pela eleição do Papa Francisco, que não tem parado de surpreender e provocar acontecimento?
Eis uma dimensão que talvez dê a sua achega para a compreensão da atual crise em que o jornalismo se debate. (MP)

domingo, 5 de janeiro de 2014

O homicídio deste sistema económico e o papel das universidades católicas: uma pergunta de Bento Domingues



«Bergoglio criou um problema que não sei como o irá resolver: não se cansa de denunciar a economia que mata. Que poderá ele fazer para que nas instituições universitárias católicas, o ensino no campo da economia, da finança, da gestão, da política não só denuncie e recuse qualquer tipo de participação nesse homicídio, mas sobretudo, que poderá ele fazer para que os professores e alunos dessas instituições investiguem e façam propostas que sirvam a fraternidade como fundamento e caminho da paz?» 
(Bento Domingues, Público, 5 de janeiro de 2014)

O que diz a Evangelii Gadium sobre esta matéria:

"Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. (...) Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras». (Evangelii Gaudium, 53)

Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espectáculo que não nos incomoda de forma alguma (n.54).

Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criámos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência duma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo (n.55).

Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta (n.56).


Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reacção violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e económico é injusto na sua raiz.(...) (n.59)".

Complemento (6.1.2014):
"Na exortação, não há nada que não se encontre na Doutrina Social da Igreja. Eu não falei de um ponto de vista técnico. Eu tentei apresentar uma fotografia do que acontece. A única citação específica foi sobre as teorias da "recaída favorável", segundo as quais todo crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue produzir por si só uma maior equidade e inclusão social no mundo. Havia a promessa de que, quando o copo estivesse cheio, ele transbordaria, e os pobres seriam beneficiados com isso. O que acontece, ao invés, é que, quando está cheio, o copo magicamente se engrandece, e assim nunca sai nada para os pobres. Essa foi a única referência a uma teoria específica. Repito, eu não falei como técnico, mas segundo a doutrina social da Igreja. E isso não significa ser marxista."
(Fonte: IHU-Unisinos)

sábado, 4 de janeiro de 2014

A fortaleza e a fragilidade - Conferências nas Monjas Dominicanas



Agenda

As Conferências no Mosteiro de Santa Maria, no Lumiar, (Lisboa), este ano dedicadas ao tema genérico A relação – Um modo quotidiano e profético de viver o Evangelho, sofreram uma alteração de calendário: a próxima não será animada por Luís Miguel Cintra, como estava previsto, mas por frei Mateus Peres, que antecipará assim o tema agendado para Março: Quando a fortaleza se vive na fragilidade. Para Março, fica agendada a intervenção de Luís Miguel Cintra, que irá ler e comentar O Pórtico da Segunda Virtude, de Charles Péguy.
A conferência de dia 11 realiza-se, como habitualmente, a partir das 15h30 e é seguida de debate e convívio. Cerca das 17h30 é celebrada eucaristia.
O ciclo prevê ainda, entre outras, intervenções com os títulos Construir uma relação igual e diversa: um testemunho (12 de Abril, Sara Martinho e Rita Quintela), A errante sonoridade de Deus: revisitando José Augusto Mourão (10 de Maio, Alfredo Teixeira) e Olhai os lírios do campo (14 de Junho, José Tolentino Mendonça).

Na apresentação do programa, escreve Tolentino Mendonça: “A Fé não é um conjunto de conteúdos abstractos, nem um somatório de vivências despersonalizadas. A fé funda-se, colhe-se e reinventa-se na relação. Na relação nós somos e o outro é, mutuamente nos descobrimos e interrogamos, vivemos presenças e silêncios, saboreamos a transparência e o segredo.”

Melodias de Natal a encerrar as Noites de Luz em Belém


Agenda

O Menino Jesus numa Estória aos Quadradinhos, obra de Alfredo Teixeira que venceu recentemente o III Prémio Internacional de Composição Fernando Lopes Graçaserá uma das peças que podem ser escutadas este domingo à tarde pelo Coro Infanto-Juvenil da Universidade de Lisboa (CIUL) no Palácio de Belém, em Lisboa.
O concerto, a partir das 18h na Sala das Bicas, marca o último dia das Noites de Luz no Palácio de Belém, uma iniciativa do Museu da Presidência da República. O concerto incluirá ainda peças de Eurico Carrapatoso, Fernando Lopes Graça, Benjamin Britten e George Gershwin, além de melodias tradicionais de Natal.
O Menino Jesus numa Estória aos Quadradinhos tem por base o poema “Hino de Amor”, de João de Deus (1830-1896). “O poema de João de Deus transcreve o maravilhoso cristão numa cena bucólica do quotidiano do Deus Menino”, escreve o compositor, que coloca em diálogo as raízes populares do imaginário cultural e religioso português com a linguagem musical mais erudita.

“À frugalidade descritiva da infância de Jesus nos Evangelhos canónicos cristãos, respondeu o imaginário popular com a efabulação miniatural da história sagrada. João de Deus recolhe, neste poema, toda essa plasticidade”, acrescenta Alfredo Teixeira que diz ter lido o poema de João de Deus como se se  tratasse de uma banda desenhada, à qual associou “a memória fílmica das animações clássicas de Walt Disney”.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Encontro de Taizé em Estrasburgo: a urgência de um ecumenismo de relação

Para que a Igreja se torne sempre mais um “lugar de acolhimento e de comunhão, não será tempo de dar novos passos concretos de reconciliação entre os cristãos separados?” A pergunta é do irmão Aloïs, de Taizé, numa das meditações feitas durante o 36º encontro europeu de jovens, que decorreu em Estrasburgo (França), entre 28 de Dezembro e 1 de Janeiro.
O tema da reconciliação entre os cristãos foi uma das notas dominantes dessas meditações de final da tarde (cujos textos integrais podem ser lidos aqui): “Os cristãos reconciliados fazem ouvir a voz do Evangelho com uma muito maior claridade, num mundo que precisa de confiança para preparar um futuro de justiça e de paz”, afirmou o prior de Taizé, que sucedeu ao irmão Roger.


Como habitualmente nestes encontros, os jovens reuniam-se três vezes por dia para rezar: de manhã nas paróquias da região francesa da Alsácia e da diocese alemã de Friburgo, ali vizinha; à tarde e noite, na espantosa catedral da cidade, na Igreja de São Paulo e em três pavilhões da feira de exposições.
Na tarde de dia 30, o irmão Aloïs ousou mesmo propor o que se poderia chamar de ecumenismo de relação: “Actualmente, arriscamo-nos a ficar parados na simples tolerância. Mas Cristo quer juntar-nos num único corpo. Por isso, gostaria de encontrar as palavras certas para pedir aos cristãos das diferentes Igrejas: não haverá um momento em que será preciso ter a coragem de nos juntarmos todos sob o mesmo tecto, sem esperar que todas as formulações teológicas estejam completamente harmonizadas?
Na conferência de imprensa de balanço do encontro, na tarde de dia 30, o prior de Taizé insistiria na mesma ideia, utilizando outras palavras: “Sente-se hoje uma fadiga no ecumenismo” e os pioneiros do diálogo ecuménico perguntam-se “onde está a próxima geração” que leve por diante essa tarefa. E acrescentou: “Estamos sempre a dizer que há mais coisas a unir-nos que a separar-nos. Mas não damos visibilidade a isso. A grande questão é como dar visibilidade ao que nos une.”
Na meditação de dia 30, acrescentaria: Não será possível exprimir a nossa unidade em Cristo (que, por sua parte, não está dividido), sabendo que as diferenças que permanecem na expressão da fé não nos dividem? Haverá sempre diferenças: algumas serão assunto normal de discussão; outras poderão mesmo ser enriquecedoras. Façamos com os cristãos de outras confissões tudo o que é possível fazermos juntos. Não façamos mais nada sem ter em conta os outros.”

Encontros de Santa Isabel: Uma Igreja despojada

Agenda

A paróquia de Santa Isabel (Lisboa) propõe, neste mês de Janeiro, a edição de 2014 dos Encontros de Santa Isabel. Desta vez sob o tema genérico Uma Igreja despojada,  os encontros decorrem às quintas-feiras (dias 9, 16, 23 e 30), a partir das 21h30, no auditório da Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, com os seguintes temas e intervenientes:
Dia 9 – Uma Igreja atenta à realidade em que vive – com Isabel Cordovil, Pedro Macedo, M. Fernanda Simões e p. José Vieira (provincial dos Missionários Combonianos)
Dia 16 – Um Evangelho de pobres para pobres – D. Manuel Clemente
Dia 23 – Extra pauperes nulla salus (fora dos pobres não há salvação) – Ir. Maria Dolores Ferrer (Irmãzinhas dos Pobres) e p. José Manuel Pereira de Almeida
Dia 30 – Creio na Igreja inteira, despojada, diferente e irreverente – p. João Eleutério

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Do Natal aos Reis: Cantata em Tempos Sombrios


Agenda


O Auditório Vita, em Braga, acolhe no domingo, dia 5 de janeiro, pelas 21h30, o concerto “Do Natal aos Reis”. Uma novidade deste ano será a introdução de textos jornalísticos sobre casos da atualidade, que entrarão em diálogo com a música e textos de contos tradicionais portugueses alusivos a esta quadra festiva. Serão ditos pelo ator e declamador Pedro Lamares.

Neste concerto será apresentada a Primeira Cantata do Natal sobre Contos Tradicionais Portugueses da Natividade para coro misto a capella de Fernando Lopes-Graça, interpretada pelo Coral de Letras da Universidade do Porto, dirigido pelo maestro José Luís Borges Coelho.  

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Fraternidade, fundamento e caminho para a paz

A primeira mensagem do Papa Francisco para o Da Mundial da Paz, neste 1 de Janeiro de 2014, é dedicada ao tema “Fraternidade, fundamento e caminho para a paz”. Ficam, a seguir, alguns excertos de um documento que pode ser lido na íntegra aqui.

A fraternidade é uma dimensão essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência, torna-se impossível a construção duma sociedade justa, duma paz firme e duradoura. E convém desde já lembrar que a fraternidade se começa a aprender habitualmente no seio da família, graças sobretudo às funções responsáveis e complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da mãe. A família é a fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo também o fundamento e o caminho primário para a paz, já que, por vocação, deveria contagiar o mundo com o seu amor. (...)
Em muitas partes do mundo, parece não conhecer tréguas a grave lesão dos direitos humanos fundamentais, sobretudo dos direitos à vida e à liberdade de religião. Exemplo preocupante disso mesmo é o dramático fenómeno do tráfico de seres humanos, sobre cuja vida e desespero especulam pessoas sem escrúpulos. Às guerras feitas de confrontos armados juntam-se guerras menos visíveis, mas não menos cruéis, que se combatem nos campos económico e financeiro com meios igualmente demolidores de vidas, de famílias, de empresas. (...)
Paulo VI afirma [na encíclica Populorum Progressio] que tanto as pessoas como as nações se devem encontrar num espírito de fraternidade. E explica: «Nesta compreensão e amizade mútuas, nesta comunhão sagrada, devemos (...) trabalhar juntos para construir o futuro comum da humanidade».[5] Este dever recai primariamente sobre os mais favorecidos. As suas obrigações radicam-se na fraternidade humana e sobrenatural, apresentando-se sob um tríplice aspecto: o dever de solidariedade, que exige que as nações ricas ajudem as menos avançadas; o dever de justiça social, que requer a reformulação em termos mais correctos das relações defeituosas entre povos fortes e povos fracos; o dever de caridade universal, que implica a promoção de um mundo mais humano para todos, um mundo onde todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que o progresso de uns seja obstáculo ao desenvolvimento dos outros. (...)
Além disso, se por um lado se verifica uma redução da pobreza absoluta, por outro não podemos deixar de reconhecer um grave aumento da pobreza relativa, isto é, de desigualdades entre pessoas e grupos que convivem numa região específica ou num determinado contexto histórico-cultural. Neste sentido, servem políticas eficazes que promovam o princípio da fraternidade, garantindo às pessoas – iguais na sua dignidade e nos seus direitos fundamentais – acesso aos «capitais», aos serviços, aos recursos educativos, sanitários e tecnológicos, para que cada uma delas tenha oportunidade de exprimir e realizar o seu projecto de vida e possa desenvolver-se plenamente como pessoa. (...)
Por último, há uma forma de promover a fraternidade – e, assim, vencer a pobreza – que deve estar na base de todas as outras. É o desapego vivido por quem escolhe estilos de vida sóbrios e essenciais, por quem, partilhando as suas riquezas, consegue assim experimentar a comunhão fraterna com os outros. Isto é fundamental, para seguir Jesus Cristo e ser verdadeiramente cristão. É o caso não só das pessoas consagradas que professam voto de pobreza, mas também de muitas famílias e tantos cidadãos responsáveis que acreditam firmemente que a relação fraterna com o próximo constitua o bem mais precioso. (...)
As sucessivas crises económicas devem levar a repensar adequadamente os modelos de desenvolvimento económico e a mudar os estilos de vida. A crise actual, com pesadas consequências na vida das pessoas, pode ser também uma ocasião propícia para recuperar as virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza. Elas podem ajudar-nos a superar os momentos difíceis e a redescobrir os laços fraternos que nos unem uns aos outros, com a confiança profunda de que o homem tem necessidade e é capaz de algo mais do que a maximização do próprio lucro individual. As referidas virtudes são necessárias sobretudo para construir e manter uma sociedade à medida da dignidade humana. (...)