quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Deus ainda tem futuro?

Agenda


O que aconteceria se a simples palavra “Deus” deixasse de existir? Esta pergunta de Karl Rahner serve de mote para mais uma edição dos colóquios Igreja em Diálogo, promovidos pela Sociedade Missionária da Boa Nova, no seu seminário de Valadares (Gaia).
De novo coordenado pelo padre e professor de Filosofia Anselmo Borges, o colóquio deste ano – um dos mais destacados debates de teologia em Portugal – decorre no próximo fim-de-semana (sábado e domingo) e tem por título “Deus ainda tem futuro?”.
O programa, que pode ser consultado na íntegra aquiconta com um leque de participantes deveras apelativo, entre os quais: Jean-Paul Willaime, um dos nomes de topo da sociologia religiosa contemporânea, que irá descrever a situação espiritual do mundo; o físico Carlos Fiolhais, que tratará da relação entre a ciência e o divino; o jesuíta Juan Masiá, que vive há décadas no Japão e irá destrinçar “o Deus do Oriente e o Deus do Ocidente”; o também jesuíta Paul Valadier, ex-director da revista Études, que tem investigado as relações entre fé, política e moral; Isabel Gómez-Acebo, um dos mais importantes nomes das teologias feministas; e Andrés Torres Queiruga, um dos teólogos contemporâneos mais importantes.
“A morte absoluta da palavra ‘Deus’ uma morte que eliminasse até o seu passado, seria o sinal, já não ouvido por ninguém, de que o Homem morreu”, escrevia ainda Rahner, citado por Anselmo Borges na apresentação do tema.
O coordenador do colóquio acrescenta: “Václav Havel, o grande dramaturgo e político, pouco tempo antes de morrer surpreendeu muita gente ao declarar que ‘estamos a viver a primeira civilização global’ e ‘também vivemos na primeira civilização ateia, numa civilização que perdeu a ligação com o infinito e a eternidade’, temendo, também por isso, que ‘caminhe para a catástrofe’”. Daí que, “no contexto de uma crise global do mundo – crise financeira, económica, social, política, moral – é preciso perguntar se a crise de Deus não ocupa lugar central”.

Para debater sábado e domingo, em Valadares.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Pode amar-se um computador?


(vídeo - Luís A. Santos)

O director da revista jesuíta La Civiltà Cattolica, padre Antonio Spadaro, começa por contar uma história de um aluno nigeriano: ele ama o seu computador “porque lá dentro estão todos os [seus] amigos”.
Foi sexta-feira passada, em Fátima, nas Jornadas das Comunicações Sociais da Igreja Católica, dedicadas ao tema da evangelização em ambiente digital. Spadaro, responsável directo pela recente entrevista do Papa Francisco às revistas jesuítas – entre as quais a portuguesa Brotéria – sublinhou por diversas vezes a ideia de que a internet e as redes sociais são um ambiente e não um instrumento. O que muda tudo, na forma como se olha e se actua. Há distinções a abolir: o online e o offline, o real e o virtual... O ambiente digital é um ambiente ordinário de experiência de vida, não um ambiente de casulo ou paralelo, dizia, recordando a mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano.
“Evangelizar em rede não é criar um perfil facebook e colocar um anjinho”, ironizou Spadaro, recordando as palavras do Papa Francisco, nessa mesma manhã, em Assis, apelando a que ninguém seja “cristão de pastelaria”.
Spadaro, de quem as Paulinas acabaram de editar Ciberteologia - Pensar o Cristianismo na Era da Internetdefende que, se a internet altera o nosso modo de ver a realidade, então ela terá também influência sobre o modo de pensar a fé – já que a teologia é precisamente um modo de pensar a fé. Por isso, a tecnologia não é apenas um conjunto de instrumentos, mas uma parte do viver, acrescentou.
O também autor do blogue CyberTeologia recordou ainda um discurso de Paulo VI aos jesuítas, em 1964 quando o Papa Montini disse que “o cérebro mecânico vem em ajuda do cérebro espiritual”.  Por isso, acrescentou, “o campo para compreender a fundo a tecnologia é a teologia espiritual” e “ a experiência religiosa exprime-se também no ambiente digital”.
A proposta de Spadaro como que torna ultrapassada a ideia do decreto Inter Mirifica, do Concílio Vaticano II sobre a comunicação social, que considerava estes meios como instrumentos. Mesmo o nosso modo de fazer a pesquisa mudou, disse: “Na Idade Média, o homem orientava-se para o norte, que era Deus; na II Guerra Mundial, passou a ser um radar, à procura de um sinal [Karl Rahner falava do homem que procura Deus, que procura um sentido]; hoje, o homem não está à procura, mas está à espera de um sinal que o ligue ao mundo; o homem actual tem é de permanecer ligado; é um descodificador; já não é a busca que caracteriza o homem.”

sábado, 5 de outubro de 2013

Reforma da Cúria Romana em marcha

Os oito cardeais do conselho de consultores tiveram a sua primeira reunião, em Roma, entre 1 e 3 de Outubro, com o Papa Francisco. Em debate, esteve a reforma da Cúria. O porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, afirmou que haverá novas regras de funcionamento da estrutura central da Igreja Católica, o que implica uma nova Constituição e não apenas a mudança de alguns pormenores da Pastor bonus. A reportagem da SIC, aqui, com alguns comentários recolhidos durante as jornadas de comunicação social, que decorreram quinta e sexta-feira, em Fátima.
Na sequência deste primeiro encontro do “G-8” – os oito cardeais nomeados pelo Papa para discernir sobre a reforma –, Francisco foi a Assis no dia de S. Francisco e, entre outras coisas, voltou a condenar a morte o alheamento europeu perante a morte de imigrantes, que na quinta tivera mais um episódio trágico ao largo de Lampedusa.

Com a visita do Papa a Assis como pano de fundo, o frade franciscano capuchinho Fernando Ventura comenta o ambiente de reforma e faz, na SIC Notícias, um balanço destes primeiros meses do novo pontificado. A entrevista pode ser vista aqui

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Papa Francisco e Eugenio Scalfari: a arte do diálogo

O título é roubado a Hans Kung, que esta quarta-feira comentava dessa forma no La Repubblica a entrevista publicada na véspera pelo jornal italiano.
O director do jornal, Eugenio Scalfari, estivera com o Papa Francisco uma semana antes. E concluía, após o colóquio: “Este é o Papa Francisco. Se a Igreja se tornar tal como Francisco a pensa e deseja, teremos uma mudança de era.”
Esta nova entrevista do Papa que nem gosta especialmente de entrevistas revela (mais do que as frases mais mediáticas sobre a Cúria ou o Vaticano), a vontade de alguém que insiste sobretudo em falar do que deve ser essencial na mensagem cristã – a pessoa de Jesus. E do modo como isso deve levar os crentes a entenderem-se com os não-crentes que, na cidade dos homens, querem uma outra forma de vida, com mais espaço para todos.
A entrevista surge no contexto da reunião que hoje termina no Vaticano, entre o Papa e os oito cardeais por ele chamados para o novo conselho de consultores, que ele pretende colocar a colaborar estreitamente com ele no governo da Igreja. Há dia, em passagem por Portugal, o cardeal Seán O’Malley, arcebispo de Boston, falava das expectativas de reforma da Igreja que esta reunião trazia – nomeadamente em termos de uma maior colegialidade e participação.
A entrevista publicada pelo La Repubblica sucede a uma troca de cartas entre Eugenio Scalfari e o Papa, publicada há poucas semanas pelo mesmo jornal. Scalfari começou por questionar o Papa, numa espécie de carta aberta, sobre a questão das reformas e o Papa tomou a iniciativa de responder ao director do jornal, manifestando-lhe também a sua vontade de se encontrar com ele.
O texto original da entrevista agora publicada pode ser encontrado aqui.
A tradução aqui utilizada, que apenas foi sujeita a uma pequena revisão, foi feita por Rui Pedro Vasconcelos, da Livraria Fundamentos, de Braga.

domingo, 29 de setembro de 2013

Carlos Maria Antunes: Ir por dentro de si mesmo, na busca do infinito


O português Carlos Maria Antunes, do Mosteiro do Sobrado (Galiza), fez a sua profissão solene de monge cisterciense no passado dia 21 de Setembro. Uma pequena descrição dos principais gestos da cerimónia, bem como uma reportagem fotográfica (de onde também se reproduz a foto, com Carlos Antunes à direita) podem ser vistas aqui.
A profissão inclui a afirmação dos três votos cistercienses: obediência ao prior, estabilidade no mosteiro e na comunidade em que se é acolhido, e aspiração a uma transformação interior que se plasme no exterior.
“O nosso lugar é o caminho. Tão depressa como comecemos a desfazer as malas para nos instalarmos, assim a nossa solidão e inquietude nos fazem voltar e desejar o caminho. Estamos feitos para um amor e uma unidade infinitos”, escreve Carlos Maria Antunes em Atravessar a Própria Solidão (ed. Paulinas).
Um dos gestos da cerimónia é o de o monge que faz os votos se ajoelhar diante de cada um dos outros monges que, por sua vez, o ajuda a levantar-se. “É um gesto que contém um significado poderoso”, lê-se na descrição. “A comunidade acolhe e eleva. Pois o monge, como diz o conhecido apotegma [aforismo], é aquele que cai e se levanta, cai e se levanta...”
No mesmo livro, escreve Carlos Antunes: “Temos de aceitar que esta inquietude é uma parte incurável do ser humano. Não aceitar esta condição conduzir-nos-á a viver fora de nós. Para canalizar criativamente esta inquietude, cada um de nós terá de ir por dentro de si mesmo, na busca desse infinito, na busca do rosto de Deus (...) A nossa sede mais profunda, quando aceite coloca-nos a caminho, em atitude de procura; gera em nós disponibilidade para o novo, gera em nós abertura.”
Um dos outros gestos da profissão solene é a prostração do monge, que não é encarada como humilhação ou submissão, mas como humilde aceitação da vontade de Deus em si mesmo. E que deve traduzir o verdadeiro rosto de Deus.
Em Só o Pobre se faz Pão (ed. Paulinas), outro livro publicado por frei Carlos Maria Antunes (sobre o qual se pode ler aqui uma entrevista ao autor) escreve o monge do Sobrado: “O pobre não me pede só o pão, pede-me a vida. E o que seria de mim sem os que me pedem a vida? Somos todos pobres – na diversidade das expressões da pobreza – e não vivemos das sobras uns dos outros, vivemos da vida uns dos outros, com as suas misérias e com as suas grandezas. A compaixão não é possível a partir de um olhar desnivelado. É sempre a minha dor que acolhe a dor do outro, é sempre a minha fome que acolhe a fome do outro.”

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Músicas que falam com Deus (21) - para o tempo de Natal#7 - O Menino Jesus, de João de Deus e Alfredo Teixeira, vence o Prémio Lopes Graça

A peça “O Menino Jesus numa estória aos quadradinhos”, composta por Alfredo Teixeira, com base no poema “Hino de Amor”, de João de Deus (1830-1896), acabou de vencer o III Prémio Internacional de Composição Fernando Lopes Graça. “O poema de João de Deus transcreve o maravilhoso cristão numa cena bucólica do quotidiano do Deus Menino”, escreve o compositor.
O trabalho musical de Alfredo Teixeira tem sido objecto de vários reconhecimentos públicos – dos quais este prémio é mais um. O seu trajecto original na música portuguesa contemporânea procura, entre outras coisas, ir ao encontro das raízes populares do imaginário cultural e religioso português, num profícuo diálogo criativo.
“À frugalidade descritiva da infância de Jesus nos Evangelhos canónicos cristãos, respondeu o imaginário popular com a efabulação miniatural da história sagrada. João de Deus recolhe, neste poema, toda essa plasticidade”, acrescenta Alfredo Teixeira, num texto que pode ser lido na íntegra no blogue do Grupo Vocal Discantusque é dirigido pelo compositor.
Alfredo Teixeira diz que leu o poema de João de Deus como se se tratasse de uma banda desenhada, à qual associou “a memória fílmica das animações clássicas de Walt Disney”.
O prémio será entregue dia 17 de Dezembro, em lugar ainda a indicar. Na mesma ocasião, a peça “O Menino Jesus...” poderá também ser ouvida pela primeira vez.
Algumas composições de Alfredo Teixeira podem ser escutadas aqui.
Uma outra peça, neste caso um canto de Natal executado pelo Discantus, pode ser ouvida aqui.


In Memoriam. Alfredo Dinis, um padre entre a fé e a ciência


Valorizava a relação entre a fé e a ciência e dizia mesmo que a teologia não pode prescindir da ciência. O padre jesuíta Alfredo Dinis morreu domingo passado, em Braga, onde residia, depois de meses a lutar contra uma leucemia.
Num texto que escreveu para a obra colectiva “Porque a Ciência se tenho Deus?” (ed. Fronteira do Caos), reproduzido no site da Livraria Fundamentos, escrevia ele:
O debate que, por vezes, parece assumir a forma de conflito entre ciência e religião, encontra da parte dos Cristãos em geral, incluindo os professores e investigadores em Teologia, com poucas excepções, uma enorme indiferença (…) E, no entanto, podemos considerar que a Teologia necessita da ciência pelo menos por três razões:
1) para encontrar um interlocutor qualificado na sua tarefa de compreender o mundo e a vida;
2) para colaborar com a ciência na tarefa comum de promover a civilização e a cultura, e de permitir à humanidade tornar-se cada vez mais humana;
3) para introduzir modificações no interior do próprio discurso teológico.”
Além da notícia da sua morte, que pode ser lida aquivale a pena ler também a evocação que dele é feita no site da Fundamentos (de onde também é reproduzida a foto). 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Vento em Roma, calmaria em Portugal

Crónicas

São várias as crónicas publicadas nestes dias e que vale a pena fazer referir e (re)ler. Desde logo, hoje no Página Um/RR, Manuel Pinto fala sobre o “Vento em Roma, calmaria em Portugal”:
“O entrave maior [à acção do Papa Francisco] poderá vir, porém, dos resistentes silenciosos, que preferem seguir ‘o espetáculo’ lá em Roma a acolher o apelo do Papa a romper com a auto-referencialidade.
Observando os sinais, dir-se-ia que, eclesialmente, em Portugal está tudo calmo, em contraste com os ventos que sopram do Vaticano. E, no entanto, cada vez há mais gente a ser empurrada para as margens, por um sistema que suga os mais fracos e engorda os que mais têm.”

Sábado passado, no DN, Anselmo Borges dissecou o que o Papa pensa sobre a políticauma semana depois de ter feito idêntico exercício acerca do dinheiro.

No Público de Domingo, frei Bento Domingues fala dos “Católicos não cristãos”; e escreve: “São cristãos os que não se servem da Igreja para ter poder. É curioso notar que foram as mulheres, que nada pediram a Jesus – e que, durante o seu processo de condenação, nunca o abandonaram –, que ele encarregou de evangelizar os discípulos, isto é, de o seguirem só pela mística do serviço.
O texto completo pode ser lido aqui.

Vítor Gonçalves escreveu, na Voz da Verdade, sobre “O verdadeiro bem”:
"Jesus fala do “verdadeiro bem” contrapondo-o ao “vil dinheiro”! De que se trata? Que riqueza é esse bem maior, capaz de nos unir a Deus e aos outros, numa alegria feita generosidade e gratuidade, “tesouro que a traça não rói e os ladrões não roubam”? O que é que na nossa vida não tem ainda a ver com esse “verdadeiro bem”?"

Na semana anterior, a crónica era sobre “Acreditar no futuro”:

“O escândalo maior que Jesus faz é revelar um Deus em movimento, que procura incansavelmente uma ovelha ou uma moeda perdidas, que corre para abraçar o filho mais novo e sai de casa para ouvir e falar ao coração do filho mais velho. O Pai de Jesus Cristo rejeita a imobilidade, o trono alto, e a distância como atributos de poder. Perdoar e amar é acreditar no futuro.”

Uma entrevista inovadora


Análise

A entrevista do Papa às revistas jesuítas tem sido muito comentada, desde a sua divulgação, quinta-feira passada. Nos media, destacaram-se sobretudo os temas de sempre – aborto, homossexualidade, contracepção... Mas a entrevista é verdadeiramente inovadora (e vale a pena ser lida na íntegra, o que é possível fazer já em linha aqui, no sítio da Brotéria e, dentro de poucos dias, na edição da revista em papel; a foto, do Papa com o jesuíta Antonio Spadaro, que o entrevistou, foi também reproduzida do sítio da Brotéria).
Este documento é inovador não tanto pelo tom utilizado pelo Papa, e que já começamos a reconhecer, mas pela leitura e pelas propostas concretas que ele faz para a acção da Igreja. Por exemplo, em relação ao papel das mulheres na Igreja (onde o Papa diz muito mais do que parece à primeira vista) ou sobre o processo ecuménico e o diálogo com protestantes e ortodoxos acerca do ministério do bispo de Roma.
Nesse sentido, é uma entrevista que procura retomar a plenitude do espírito conciliar, precisamente na forma e nas questões em que o Concílio Vaticano II (1962-65) ficara bloqueado: a colegialidade, a missão da Igreja no serviço ao mundo, a essência do cristianismo.

Uma grande novidade: o papel da mulher

Antes disso, importa reter aquilo que me parece uma profunda novidade, quando o Papa se refere ao lugar da mulher (das mulheres) na Igreja. Diz ele na entrevista (fica a citação completa, que vale a pena): 

Papa Francisco: "Onde não há trabalho falta a dignidade"

O discurso do Papa ao mundo do trabalho em Cagliari, Sardenha, neste domingo
(texto do improviso; o texto preparado, mas não lido, pode encontrar-se AQUI, por ora apenas em italiano).
Esta visita começa precisamente convosco, o mundo do trabalho.
Quero expressar a minha proximidade, especialmente perante a situação de sofrimento de tantos jovens sem trabalho...
Meu pai, ainda jovem, foi para a Argentina, cheio de entusiasmo para fazer as Américas. Surgiu a terrível crise e perdeu tudo. Senti na minha infância falar sobre esse tempo em minha casa, ouvi falar sobre esse sofrimento, que conheço bem.
Peço-vos coragem. E que esta não seja uma bonita palavra de circunstância. Não seja apenas o sorriso de um simpático funcionário da Igreja, que vem e vos pede coragem. Não, não é isso que eu quero.
Esta é a segunda cidade que visito na Itália : as duas são ilhas. Na primeira, vi o sofrimento de tantas pessoas que, arriscando a vida , buscam dignidade , pão e saúde. São os refugiados.
E eu vi a resposta daquela cidade que, sendo ilha, não quis isolar-se e recebe os refugiados, fa-los seus e dá um exemplo de acolhimento.
Aqui, encontro também sofrimento, que vos debilita e acaba por vos roubar a esperança. Sofrimento, a falta de trabalho, que leva (e desculpai-me se sou um pouco forte, mas é verdade) a sentir-se sem dignidade. Onde não há trabalho falta a dignidade.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Um liberal no seu labirinto


Livro

Porque Devemos Chamar-nos Cristãos, de Marcello Pera, é o primeiro título da editora Frente e Verso, novo projecto editorial ligado aos jesuítas, cujo aparecimento se deve saudar. Neste livro, Pera defende a ideia de que os liberais e a Europa devem entender-se como cristãos.
A nova marca editorial pretende ter uma presença significativa quer nos debates culturais da sociedade portuguesa e europeia, através da perspectiva cristã, entendendo esta como diversa; quer na formação teológica dos cristãos e de outros interessados em reflectir e debater os “grandes temas do património cristão”; e ainda no diálogo que faça a ponte entre “as várias expressões culturais e a fé cristã”.
Uma editora com estes objectivos deve saudar-se vivamente. Uma das graves deficiências do catolicismo português é o seu baixíssimo nível cultural. Por isso, a intenção de favorecer “a inteligência da fé cristã” é desafiadora.
Filósofo, político italiano, senador desde 1996 e presidente do Senado italiano entre 2001 e 2006, Marcello Pera esteve no PS italiano com Bettino Craxi, foi depois crítico dos partidos e apoiante dos juízes das “Mãos Limpas”, passou a condenar os juízes e ligou-se à Forza Italia, de Berlusconi. Foi enquanto senador desse partido que presidiu ao Senado, como recordou Marcelo Rebelo de Sousa na apresentação do livro, feita terça-feira passada, dia 11, em Lisboa. Inicialmente agnóstico, Pera converteu-se ao catolicismo, influenciado pelo pensamento de Bento XVI, com quem o pensador tinha já publicado o livro Senza Radici (Sem raízes), dedicado à questão das raízes cristãs da Europa.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

E do início, pode vir alguma coisa de bom?

Se olharmos para as comunidades cristãs dos primeiros séculos, o que vemos? “A prática caritativa não foi apenas uma novidade” em termos da sociedade e da cultura do tempo, como também “influenciou decisivamente a evangelização”, como afirmou Santiago Guijarro Oporto, biblista e professor na Universidade Pontifícia de Salamanca, numa intervenção, esta manhã, no XXVIII Encontro da Pastoral Social, que decorre em Fátima. A iniciativa termina esta quinta-feira, com uma conferencia do cardeal Seán O’Malley, arcebispo de Boston.
Na sua intervenção, Santiago Guijarro disse que “dar sem esperar nada em troca foi uma originalidade do cristianismo”. No mundo antigo, a solidariedade funcionava apenas para os membros da família ou do clã. “As diversas formas de ajuda social não eram dirigidas preferentemente aos pobres; tinham, antes, por objectivo enaltecer o prestígio do doador”, disse Santiago Guijarro.
Acrescentou o biblista espanhol: “Só nas comunidades judaicas se tinham desenvolvido formas de caridade que tinham em conta o pobre. Estas acções estavam inspiradas por uma visão de Deus interessado pelos desvalidos.”
Os primeiros cristãos e as casas de famílias onde se reuniam rompem com essa lógica da solidariedade restrita ao clã e acolhem todos, independentemente da sua origem. As próprias cartas de São Paulo são disso um testemunho, acrescentou o biblista. No capítulo 12 da Carta aos Romanos, exemplificou, dos serviços e funções descritos para a comunidade cristã, quatro deles referem-se à caridade: o consolo, a distribuição dos bens materiais, o serviço e a prática da misericórdia.