quarta-feira, 29 de agosto de 2012
domingo, 19 de agosto de 2012
Uma nova figura inspiradora
Na sua coluna dominical "Os dias da semana", no Diário do Minho, Eduardo Jorge Madureira refere-se a um caso ocorrido nos Estados Unidos da América, que coloca questões que talvez não estejam tão longe como isso da nossa própria realidade. Eis o texto:
Na versão apresentada no YouTube, o episódio dura exactamente trinta e seis segundos. É muito pouco tempo, mas é suficiente para se ficar a saber bastante sobre quem é o político que pretende ser o próximo vice-presidente dos Estados Unidos da América. O título do vídeo é, por si só, eloquente: “Homem de 71 anos deitado ao chão por questionar Paul Ryan”. (“71-year-old taken to the ground for questioning Paul Ryan”).
A história passou-se no ano passado na cidade de West Allis. Paul Ryan, o engomado congressista do Wisconsin que o candidato republicano às eleições presidenciais norte-americanas de Novembro escolheu, há dias, como candidato a vice-presidente, é o convidado especial de um almoço-debate. A assistência, que pagou para estar presente, ouve-o defender o seu programa: é necessário reduzir a dívida do país. Para o fazer, impõe-se suprimir os principais apoios sociais, entre os quais o seguro de doença para os maiores de 65 anos. Em substituição, haverá uma quantia que será entregue aos idosos mais desfavorecidos para ajudar a que eles próprios tratem de fazer um seguro privado.
As coisas são claras para Paul Ryan: “O essencial da dívida do país deve-se aos nossos programas sociais”. Mas nem todos estão de acordo. Incomodado, um participante, identificado como Tom Nielsen, um pacato reformado de 71 anos, interpela-o com contundência: “Eu descontei durante cinquenta anos para tudo, para o desemprego, para a segurança social, para o seguro de velhice… e agora quer…” Tom Nielsen não consegue concluir a frase. A polícia atira-se a ele violentamente, retirando-o da sala, deitando-o ao chão e algemando-o.
Nos últimos segundos do vídeo, Paul Ryan goza com Tom Nielsen, que, mesmo tendo pago para almoçar e debater, foi expulso do almoço-debate. “Espero que tenha tomado o medicamento contra a hipertensão”. A graçola do agora candidato a vice-presidente é parva, mas isso não impede os presentes de se rirem. Talvez nem todos, porque, tanto quanto se sabe, mais uns quantos comensais foram postos na rua por se terem mostrado pouco simpáticos com Paul Ryan, colocando-lhe perguntas não apreciadas.
A imprensa dos Estados Unidos da América e da Europa tem referido que a entrada em cena de Paul Ryan poderá fazer com que o programa de saúde pública para idosos (o famoso Medicare), promovido pelo presidente Barack Obama, se torne o principal tema da campanha eleitoral. E muitos são os que julgam que, apesar de as péssimas ideias de Paul Ryan serem susceptíveis de beneficiar o adversário, os maus propósitos do número dois de Mitt Romney contra os reformados fornecerão um novo argumentário aos que, seja em que continente for, avaliam as pessoas apenas pelo contributo que dão para a criação de valor financeiro, ou porque produzem ou, sobretudo, porque consomem. Se dão prejuízo, porque recorrem aos serviços, e em particular aos de saúde, para os quais descontaram ao longo das suas vidas de trabalho, é preciso pô-los à margem.
Para Paul Ryan, os reformados são o novo grande inimigo dos Estados Unidos da América. O seu próximo grande combate será, pois, contra eles e contra os mais pobres de entre eles. Acabar com os apoios de que usufruem, eliminando as ajudas aos mais carenciados e, simultaneamente, reduzir os impostos dos mais ricos, é o essencial do programa de Paul Ryan. Ele afirma-se como o novo guerreiro contra os que vivem à custa do Estado, mesmo dando-se o caso de ele próprio, sendo tão novo, se encontrar, desde há muito, a viver à custa do Estado. Os órfãos portugueses de George W. Bush têm uma nova figura inspiradora.
Na versão apresentada no YouTube, o episódio dura exactamente trinta e seis segundos. É muito pouco tempo, mas é suficiente para se ficar a saber bastante sobre quem é o político que pretende ser o próximo vice-presidente dos Estados Unidos da América. O título do vídeo é, por si só, eloquente: “Homem de 71 anos deitado ao chão por questionar Paul Ryan”. (“71-year-old taken to the ground for questioning Paul Ryan”).
A história passou-se no ano passado na cidade de West Allis. Paul Ryan, o engomado congressista do Wisconsin que o candidato republicano às eleições presidenciais norte-americanas de Novembro escolheu, há dias, como candidato a vice-presidente, é o convidado especial de um almoço-debate. A assistência, que pagou para estar presente, ouve-o defender o seu programa: é necessário reduzir a dívida do país. Para o fazer, impõe-se suprimir os principais apoios sociais, entre os quais o seguro de doença para os maiores de 65 anos. Em substituição, haverá uma quantia que será entregue aos idosos mais desfavorecidos para ajudar a que eles próprios tratem de fazer um seguro privado.
As coisas são claras para Paul Ryan: “O essencial da dívida do país deve-se aos nossos programas sociais”. Mas nem todos estão de acordo. Incomodado, um participante, identificado como Tom Nielsen, um pacato reformado de 71 anos, interpela-o com contundência: “Eu descontei durante cinquenta anos para tudo, para o desemprego, para a segurança social, para o seguro de velhice… e agora quer…” Tom Nielsen não consegue concluir a frase. A polícia atira-se a ele violentamente, retirando-o da sala, deitando-o ao chão e algemando-o.
Nos últimos segundos do vídeo, Paul Ryan goza com Tom Nielsen, que, mesmo tendo pago para almoçar e debater, foi expulso do almoço-debate. “Espero que tenha tomado o medicamento contra a hipertensão”. A graçola do agora candidato a vice-presidente é parva, mas isso não impede os presentes de se rirem. Talvez nem todos, porque, tanto quanto se sabe, mais uns quantos comensais foram postos na rua por se terem mostrado pouco simpáticos com Paul Ryan, colocando-lhe perguntas não apreciadas.
A imprensa dos Estados Unidos da América e da Europa tem referido que a entrada em cena de Paul Ryan poderá fazer com que o programa de saúde pública para idosos (o famoso Medicare), promovido pelo presidente Barack Obama, se torne o principal tema da campanha eleitoral. E muitos são os que julgam que, apesar de as péssimas ideias de Paul Ryan serem susceptíveis de beneficiar o adversário, os maus propósitos do número dois de Mitt Romney contra os reformados fornecerão um novo argumentário aos que, seja em que continente for, avaliam as pessoas apenas pelo contributo que dão para a criação de valor financeiro, ou porque produzem ou, sobretudo, porque consomem. Se dão prejuízo, porque recorrem aos serviços, e em particular aos de saúde, para os quais descontaram ao longo das suas vidas de trabalho, é preciso pô-los à margem.
Para Paul Ryan, os reformados são o novo grande inimigo dos Estados Unidos da América. O seu próximo grande combate será, pois, contra eles e contra os mais pobres de entre eles. Acabar com os apoios de que usufruem, eliminando as ajudas aos mais carenciados e, simultaneamente, reduzir os impostos dos mais ricos, é o essencial do programa de Paul Ryan. Ele afirma-se como o novo guerreiro contra os que vivem à custa do Estado, mesmo dando-se o caso de ele próprio, sendo tão novo, se encontrar, desde há muito, a viver à custa do Estado. Os órfãos portugueses de George W. Bush têm uma nova figura inspiradora.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Abbé Pierre, 100 anos de um profeta
Nasceu a 5 de agosto de 1912, em Lyon, tendo
sido chamado Henri Grouès. Faria neste domingo 100 anos, se ainda fosse vivo. Foi
o quinto de oito irmãos. Entrou nos Capuchinhos aos 19 anos, depois de ter
renunciado à sua parte do património familiar e de ter distribuído tudo o que
possuía por obras de caridade. No Inverno de 1954, o Abbé Pierre lançou o seu
apelo em favor do abrigo para pessoas que não tinham casa: “Meus amigos,
socorro! Uma mulher acaba de morrer gelada, esta noite...” Nas décadas seguintes, não desistiu de lutar pelos direitos dos mais pobres.
No site do Secretariado Nacional da Pastoral
Cultura, evoca-se em vários textos esta figura ímpar e profética do cristianismo contemporâneo, incluindo uma
intervenção que fez em Lisboa e a entrevista que publiquei no Público,
reproduzida no livro Deus Vem a Público. O pior mal, dizia ele, é a pessoa
sentir-se inútil. Foi, alias, com um ex-suicida a quem pedira ajuda que o Abbé
Pierre fundou os Companheiros de Emaús. (Foto também reproduzida do site do SNPC)
sábado, 4 de agosto de 2012
O Papa a falar do código laboral português?
Na
semana em que entraram em vigor as novas normas laborais, vale a pena ainda
recordar as palavras do Papa Bento XVI, domingo passado, em defesa da ideia do “direito ao trabalho”, “sobretudo” no actual momento
de crise económica. A notícia vale o que vale e refere-se a uma empresa da
região de Castelgandolfo, onde o Papa está a gozar férias (outra coisa que,
como o emprego, é cada vez mais um luxo). Mas até parecia que Bento XVI estava a falar dos milhares de empregos que, diariamente são abatidos em Portugal.
O Papa, cujas palavras podem ser lidas por alguns lídceres politicos como as de
um ingénuo (ou de um perigoso esquerdista), apelou a que “não falte a ninguém o
pão necessário para uma vida digna e sejam abatidas as desigualdades, não com
as armas da violência, mas com a partilha e o amor”.
Em
Portugal, o vice-coordenador nacional da
Liga Operária Católica (LOC/MTC) considerou, em declarações à RR citadas aqui, que o novo código
laboral é mau para os trabalhadores e vai ter efeitos negativos na economia
portuguesa. Há coisas que parecem evidentes, de tão graves efeitos que
provocam. Continuaremos a ouvir quem diga que estes são sacrifícios necessaries.
E continuaremos a ver e experimentar que os sacrifícios são apenas para alguns – os que não
podem fugir deles.
sábado, 7 de julho de 2012
Solidão, religiões e vivência comunitária
" (...)
Para A. de Botton, um dos aspectos mais dramáticos do nosso tempo é a solidão, que as religiões superam mediante a vivência comunitária, onde conhecidos e desconhecidos se reconhecem como amigos.
As religiões conhecem bem as fragilidades humanas - a angústia, as tentações de injustiça, a maldade, a paralisia dos remorsos pela incapacidade de atingir níveis decentes de integridade - e sabe lidar com elas. Para lá do saber, interessam-se pela sabedoria: qual a finalidade do meu trabalho?, como devo amar?, como posso ser virtuoso?, como viver com arte?, qual o sentido da existência? (...)".
Anselmo Borges,Guia das religiões para uso dos não crentes, Diário de Notícias, 7.7.2012
terça-feira, 3 de julho de 2012
Vaticano II: Para além de ruptura e continuidade
"Para além de ruptura e continuidade. O Concílio Vaticano II e os diferentes projetos históricos" é o título do artigo que acaba de publicar a Revista Humanitas Unisinos, na sua edição online. A partir dos pressupostos essenciais da “História dos Conceitos” desenvolvida pelo historiado alemão Reinhart Koselleck, o seu autor, Sérgio Ricardo Coutinho, « analisa a “justa hermenêutica” do Concílio Vaticano II, proposta por Bento XVI e a leitura descontinua otimista proposta pela Escola de Bolonha de Giuseppe Alberigo». Sérgio Ricardo Coutinho é mestre em História Social pela Universidade de Brasília – UnB e doutorando na mesma área pela Universidade Federal de Goiás – UFG, Sérgio Ricardo Coutinho é professor do curso de pós-graduação em História do Cristianismo Antigo na UnB e de História da Igreja no Instituto São Boaventura, de Brasília. É presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (Cehila-Brasil).
Ler o artigo:
Por: Sérgio Ricardo Coutinho
Introdução
Na última Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, realizada em abril, Luiz Carlos Susin , OFM Cap, foi convidado para apresentar uma “análise de conjuntura eclesial”.
Sua fala se concentrou na “Igreja a cinquenta anos da abertura do Concílio Vaticano II” e, na primeira parte dela, se debruçou sobre a “pluralidade de interpretações” do evento conciliar, que acabou por estabelecer um conflito polarizado entre “a hermenêutica da ruptura e a hermenêutica da continuidade”.
Pois bem, a certa altura de sua análise ele corrobora com a posição tomada pelo papa Bento XVI , quando de seu pronunciamento no Natal de 2005, de que a palavra adequada é “renovação”, pois se trata da “reforma na continuidade do mesmo sujeito Igreja”. Para Susin, de fato, a palavra-chave para entender um Concílio que quer introduzir uma reforma é “renovação”, “pois esta é a história do cristianismo desde o evangelho: novidade, e, portanto, renovação. Importa mais o futuro do que o passado, e a memória só tem sentido enquanto reforça a esperança”.
O que Susin apresenta não é mais uma “hermenêutica do Concílio”, uma espécie de “terceira via” entre ruptura e continuidade, mas o que se revela é a sua própria “representação de tempo histórico”, com um “projeto histórico” específico a partir da experiência que o evento conciliar proporcionou à sua historicidade. Portanto, para o estudo do Concílio Vaticano II, como também para qualquer outro evento histórico, devemos nos afastar de três falsas dicotomias: as clássicas oposições binárias entre continuidade e ruptura, entre fatores internos e externos e, por fim, entre estruturas e eventos. Isso porque, na história, concepções de mudança implicam também concepções de continuidade.
Assim, neste momento de avaliação dos 50 anos de recepção do Vaticano II, o que importa é compreender melhor como os “sujeitos histórico-eclesiais” refletem sobre seu tempo, como experimentam e reagem à sua própria temporalidade para forjarem seus “projetos históricos”.
A “justa hermenêutica” de Bento XVI
Em um pronunciamento feito às vésperas do Natal de 2005, para os cardeais membros da Cúria romana, e quando se encerravam as comemorações dos 40 anos do Concílio Vaticano II, o papa Bento XVI propôs a sua “justa hermenêutica conciliar”.
Este pronunciamento deve ser lido e compreendido num quadro histórico mais amplo em torno do qual se desenvolveu o grande debate sobre o significado e a recepção do Concílio Vaticano II (1962-1965). De fato, com o término do Concílio, não tardou muito a luta por sua interpretação. Rodrigo Coppe Caldeira traça, de forma esquemática, o seguinte quadro geral da hermenêutica conciliar nos anos seguintes à realização do Vaticano II:
“[De um lado está] uma linha de interpretação descontínua, desmembrando dela uma concepção pessimista e outra otimista em relação à ruptura que defende ter o Vaticano II representado na história da Igreja; e [de outro está] uma linha de interpretação contínua, marcada pelo pessimismo no que diz respeito à recepção dos documentos do concílio. Para efeito de análise, tomamos aqui as duas linhas que compõem as hermenêuticas conciliares hegemônicas: a leitura descontinua otimista, marcada por maior inserção na América Latina desde o final do concílio em 1965 [conduzida pela chamada Escola de Bolonha de Giuseppe Alberigo ] e a leitura contínua pessimista, que ocupa lugar de destaque no cenário católico, já que é ela que vai ditar a linha oficial vaticana” .
É justamente diante desse quadro que devemos compreender o tom do discurso do papa Bento XVI, naquele primeiro natal de seu pontificado. Por outro lado, devemos nos atentar também para a “representação do tempo” contida nele, uma espécie de “teoria da história” que o papa desenvolve em vista de um “projeto histórico” específico.
Marcadamente teocêntrica, sua “representação do tempo” procura combinar “renovação em continuidade” a partir de duas ideias profundamente imbricadas: a continuidade da única e verdadeira Igreja e a continuidade dos princípios. O arcabouço teórico está todo concentrado na matriz filosófica grega – que não trata do transitório, da sucessão, da mudança, do devir – e no modelo teológico da escolástica: uma teologia marcadamente metafísica, que busca o conhecimento das primeiras causas, um saber a priori, constituído à margem da experiência histórica concreta. Assim, Bento XVI compreende a “Igreja” como um ser, com a sua essência invisível e transcendental, permanente, contínua, imutável e sempre idêntica a si mesma . Por isso ela, a “Igreja”, é o “único [sujeito] que o Senhor nos deu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, mas permanecendo sempre o mesmo, único sujeito do povo de Deus a caminho”. Por isso também que “vem do Senhor” a constituição essencial da Igreja, ou seja, a primeira causa originária.
No entanto, quando Bento XVI se refere às ações e decisões dos “homens da Igreja” no percurso da história, especialmente no período da Modernidade (ou seja, as rupturas ocorridas), ele alerta para não se levar em conta as formas concretas como estas decisões foram tomadas, porque “dependem da situação histórica e, por isso, podem sofrer mudanças” ao longo do tempo. O que não se pode esquecer (e segundo o papa são poucos os que percebem isso) é que somente “os princípios expressam o aspecto duradouro, permanecendo no fundo e motivando a decisão desde dentro” e, assim, estas decisões podem seguir sendo válidas, mesmo que as formas de sua aplicação a contextos novos possam mudar.
Se entendemos bem as ideias propostas por Bento XVI, podemos aplicá-la, por exemplo, numa instituição criada e dirigida pelos “homens da Igreja” em uma determinada época histórica: a Inquisição – típica instituição do período da Cristandade. Sua forma concreta mudou nos dias atuais: hoje, o antigo Santo Ofício, chama-se Congregação para a Doutrina da Fé. Esta “nova” instituição manteve o princípio de fundo da “velha” instituição, expressando, conforme o papa, seu aspecto duradouro, permanente e “motivando a decisão desde dentro”; ou seja, o princípio que sustentava o Santo Ofício no passado, como sustenta a Congregação para a Doutrina da Fé hoje é o mesmo: a defesa da Verdade (aquela que está presente na Revelação, na Tradição e no Magistério). Desse modo, a defesa contínua da Verdade possibilitou a busca por “formas adequadas” em determinados contextos históricos e, por isso mesmo, elas podem mudar (ontem Santo Ofício da Inquisição, hoje Congregação para a Doutrina da Fé). Os métodos para a defesa da Verdade já não são mais os mesmos, mas o princípio, este sim, continua o mesmo.
A conclusão que Bento XVI chega é de que o Concílio Vaticano II foi em parte uma ruptura, pois “corrigiu algumas decisões históricas” tomadas pelos “homens da Igreja”, especialmente em relação aos problemas levantados pela época moderna, “mas nesta aparente descontinuidade [a Igreja] manteve e aprofundou sua íntima natureza e sua verdadeira identidade” (os grifos são nossos), ou seja, o seu princípio transcendental e verdadeiramente divino.
O “tempo histórico” em Reinhart Koselleck
Alguns dos pressupostos essenciais da “História dos Conceitos” desenvolvida pelo historiador alemão Reinhart Koselleck, a nosso ver, contribuem em grande medida para desmistificar a equívoca dicotomia entre continuidade e ruptura, que muitas vezes prejudicou, e ainda prejudica, uma compreensão adequada de todo o processo de recepção do Concílio Vaticano II.
Todo o trabalho de Reinhart Koselleck foi realizado a partir de dois parâmetros centrais. O primeiro é a ideia de que a descontinuidade histórica pode ser localizada por meio da análise conceitual. Se a história é caracterizada tanto por rupturas como por continuidades, então estas rupturas estão refletidas na linguagem. Além disso, a linguagem pode ser o contexto de origem de uma descontinuidade histórica que, então, se irradia da linguagem para os acontecimentos e as instituições. Influenciado pela hermenêutica gadameriana, sua proposta para uma história dos conceitos é a de cobrir justamente “a zona de convergência ocupada por conceitos passados e presentes”. Por isso elabora uma “teoria” para que torne possível a compreensão dos “modos de contato e de separação no tempo”.
Desta reflexão, ele a desdobra para uma noção sobre o que constitui o “tempo histórico”. “Tempo histórico” são as concepções construídas por uma sociedade sobre sua temporalidade e, particularmente, sobre seu futuro. A temática historiográfica não é propriamente o passado, mas o futuro; não o fato, mas a possibilidade; mais precisamente, as possibilidades e projetos passados, seus projetos históricos – o futuro passado.
Em todo conceito, realidade ou período histórico a ser analisado pelo historiador estaria em jogo uma determinada relação entre “espaço de experiências” e “horizonte de expectativas”. Através dessas duas categorias de caráter “meta-historico” ou “antropológico”, o homem organiza seu mundo, dá sentido às suas experiências. Koselleck nos oferece um breve esboço do significado de cada uma delas. A experiência “é um passado presente, cujos acontecimentos foram incorporados e podem ser recordados. Na experiência se fundem tanto a elaboração racional como os modos inconscientes do comportamento que não devem, ou não deveriam ainda estar presentes no saber”. A expectativa, por sua vez, “se efetua no hoje, é futuro feito presente, aponta ao [...] não experimentado, ao que só se pode descobrir. Esperança e temor, desejo e vontade, a inquietude, mas também a análise racional, a visão receptiva ou a curiosidade formam parte da expectativa e a constituem”.
Todas estas categorias tematizam uma “condição humana universal” que torna possível a existência da história real: a relação do homem com a temporalidade. A existência da história só é possível, para o autor, tanto no plano da realidade como no do conhecimento, na medida em que os homens são seres temporais, isto é, conformados, em grande medida, pelas experiências do passado, mas também capazes de planejar um futuro, atualizando-o no presente.
Koselleck salienta que as duas categorias não existem separadamente. É na tensão entre as duas dimensões que identifica algo como o “tempo histórico”. Atingimos então o ponto central de sua proposta historiográfica: entender o movimento da ação política e social (no nosso caso aqui, também eclesial) ao longo da história a partir da investigação acerca da maneira como os homens combinaram concretamente em seu presente a dimensão de sua experiência passada com suas expectativas de futuro. A história concreta pode ocorrer na medida em que os homens, que a fazem, combinam experiências e determinadas expectativas. A ciência histórica deve se referir ao problema da experiência histórica, com suas diferentes “ontologias sociais do tempo”, que indicam e informam “tensões existenciais” relativas à finitude humana (Heidegger). Atentando para esses elementos existenciais, a história pode chegar a entender os conflitos políticos e sociais que caracterizam os diversos períodos históricos.
O conflito de “projetos históricos” contidos nas diferentes hermenêuticas
Assim, tomando emprestado a representação de tempo histórico de Koselleck, podemos dizer que a hermenêutica da Escola de Bolonha, referente ao trabalho do falecido historiador italiano Giuseppe Alberigo (“leitura descontínua otimista”), e toda sua ênfase no “espírito” conciliar, procura controlar e rejeitar certo espaço da experiência delimitado (não só cronologicamente, mas mentalmente) pelo chamado “2º milênio” da história da Igreja onde se desenvolveram uma tradição e costumes vindos desde a Reforma Gregoriana e aprofundadas no Concílio de Trento (o modelo de Cristandade). Em síntese: defendem a “reformulação da tradição anterior”.
Por outro lado, revaloriza outro espaço da experiência, que é a do “1º milênio”, não na busca de uma idealizada ecclesiae primitivae forma, mas das práticas e do “espírito” daquela Igreja ainda indivisa pela ruptura de 1054 (cisma do Oriente), que, segundo o historiador Enrico Morini, estava “nutrida de comunhão recíproca entre as Igrejas”.
Mas, por sua vez, acentua o horizonte de expectativa que se abriu após o Concílio – procurando intensificar e acelerar esta expectativa – trabalhando por uma verdadeira “revolução cultural” da Igreja e sintonizada/atualizada com o mundo moderno. Isso fica bem evidente, em um número da Revista Internacional de Teologia Concilium sobre os 40 anos do Vaticano II, onde os articulistas demonstram seu desânimo atual perguntando: “Vaticano II: um futuro esquecido?”.
Já a “representação do tempo” da hermenêutica da “minoria pessimista” teme a aceleração do tempo da “maioria otimista”. Procura ampliar o espaço da experiência, dando a ela um prolongamento e densidade temporais ainda maiores para controlar e desacelerar o horizonte de espera dos “alberigonianos” através da restauração/implantação de disciplinas, catecismos, liturgias, ordens e congregações religiosas e movimentos eclesiais comprometidos com a comunhão com o Sumo Pontífice e, consequentemente, com a manutenção da identidade católica romana.
Mas, para isso, constrói outro horizonte de expectativa na forma de “antecipação messiânica”: projeta em um futuro, próximo e radicalmente transformado, um mundo novo no qual poderia ser plenamente restituída a plausibilidade da mensagem da Igreja. Isso só será possível por meio de uma forte mobilização católica no tempo presente visando realizar a “nova evangelização” (recristianização) do Ocidente. Por isso a necessidade de atrelar com firmeza Futuro-Passado e esta ideia fica clara na semântica de Bento XVI sobre a “única e mesma identidade da Igreja Católica Romana” ao longo do tempo.
* * *
É com esta visão da Tradição e de passado, que a Igreja da “minoria pessimista” (ainda é mesmo “minoria” e “pessimista”?) projeta seu futuro de plausibilidade na sociedade contemporânea com um “novo ardor evangelizador”. Já a “maioria otimista”, que há muito deixou de ser “maioria” e “otimista”, parece desanimada pela demora da “parusia” de seu projeto histórico.
Haveria possibilidade para algum “outro” projeto? Talvez tenhamos chegado ao momento, como disse Jesus, das “pedras falarem” ou, como D. Helder Camara , dos “galos cantarem”:
Tão escuro ainda!
E as horas se arrastando...
Não haverá perigo
De a Noite
Emendar com a Noite?
Galos todos,
Que despertais a Aurora,
Cantai!
Mais alto ainda!
É terrível!
Quando a própria Madrugada
Não desperta
E não nos desperta!
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Dores e contradições da renovação da Igreja
A coluna de Anselmo Borges no Diário de Notícias deste sábado toma os 50 anos do Concílio Vaticano II como motivo. O pretexto foi a realização de um Curso de Verão sobre o assunto, dirigido pelo teólogo Juan Jose Tamayo, na semana passada, em Santander, na UIMP (Universidade Internacional Menéndez Pelayo).
As mudanças desencadeadas na Igreja sumaria-as o autor, recorrendo ao diretor da iniciativa:
"De uma Igreja que se considerava uma sociedade perfeita passou-se à Igreja como comunidade de crentes. Do mundo como inimigo da alma ao mundo como lugar da vivência da fé. Da condenação da modernidade e das religiões não cristãs ao diálogo multilateral. Da condenação dos direitos humanos ao seu reconhecimento e proclamação. Da condenação da secularização à sua defesa, no sentido do reconhecimento da autonomia das realidades temporais. Da Igreja imutável e imóvel à Igreja que deve estar em constante reforma. Do integrismo católico ao respeito pelas outras crenças. Do autoritarismo centralizado em Roma à colegialidade episcopal. Da Cristandade ao cristianismo. Da pertença à Igreja como condição necessária para a salvação à liberdade religiosa como direito humano fundamental. De uma Igreja europeia a uma Igreja verdadeiramente universal".Limites e assuntos não tratados ou mesmo silenciados neste grande evento eclesial e internacional do século XX são mencionados no texto, bem como as contradições das últimas décadas , em especial, o avanço do restauracionismo.
Anselmo Borges alude ao desejo manifestado por alguns setores eclesiais de um Vaticano III. O fator económico é apontado como um óbice. Se fosse esse o principal motivo.... Seguramente que nos nossos dias seria possível pensar um modelo de concílio completamente diferente dos do passado. E mais eficiente, sem abdicar naturalmente de sessões deliberativas presenciais, mas combinadas com outros modelos de participação.
Não seria de espantar que enquanto for viva a geração dos que de algum modo fizeram o Vaticano II e permanecer na Cúria a memória do que então se passou, houvesse medo do que aconteceria, caso um (novo) Papa decidisse voltar a tal convocação.
Mas o mistério da Igreja passa pelo sopro da surpresa, quando ele menos se espera. Os historiadores do Vaticano II registam os olhares de espanto e de incredulidade dos cardeais da Cúria, quando João XXIII, que tinha sido escolhido na expetativa de nada de relevante vir a fazer, dada a sua avançada idade, lhes anunciou a disposição de convocar um concílio - que não era para terminar o Vaticano I, dramaticamente interrompido. E muitos alimentaram, nos meses subsequentes ao anúncio, a esperança de que a iniciativa não se chegasse a concretizar, por morte do Papa.
Mas a surpresa que pode vir é também resultado das - e resposta às - tensões e desafios que advêm da vivência do evangelho no quotidiano e nas diferentes partes do mundo. Dar rosto à mensagem de Jesus, hoje e aqui, é a via que preparará os dias que virão. É a vitalidade de uma fé solidária e esclarecida, traduzida em obras que sejam sinal do cuidado pelos que necessitam, que pode renovar e, em última análise, salvar a Igreja.
(Ler o texto integral de Anselmo Borges AQUI)
quinta-feira, 28 de junho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
Sobre o risco do "arquivo" do Concílio
O cardeal Mauro Piacenza, Prefeito da Congregação para o Clero deu esta sexta-feira uma entrevista à agência Zenit, em que se pronuncia sobre a atualidade do Concílio Vaticano II. As suas palavras não podem deixar de revestir significado, no atual contexto da vida eclesial.
À pergunta: "Acha que o Concílio ainda não é suficientemente conhecido?", o cardeal responde:
"Eu acho que a Igreja é sempre guiada pelo Espírito Santo e que, portanto, os textos como os do Concílio mesmo passados 50 anos, podem e devem continuar a falar a todo o Corpo eclesial, e especialmente a todos os Sacerdotes, evitando com cuidado a tentação, sempre possível, do precoce e superficial 'arquivo'. O Concílio, como foi repetidamente enfatizado tanto pelo Beato João Paulo II, como pelo Santo Padre Bento XVI, é uma "bússola" para o terceiro milénio e, consequentemente, para toda obra de evangelização e de nova evangelização. A correta hermenêutica é condição, e não obstáculo, ao conhecimento do Concílio. Basta pensar, por exemplo, e lembro-me claramente, no impacto que teve a Encíclica Evangelii Nuntiandi, do Servo de Deus, o Papa Paulo VI, na qual já se interpretava, de modo profético para aqueles tempos, o impulso missionário do Concílio".
À pergunta: "Acha que o Concílio ainda não é suficientemente conhecido?", o cardeal responde:
"Eu acho que a Igreja é sempre guiada pelo Espírito Santo e que, portanto, os textos como os do Concílio mesmo passados 50 anos, podem e devem continuar a falar a todo o Corpo eclesial, e especialmente a todos os Sacerdotes, evitando com cuidado a tentação, sempre possível, do precoce e superficial 'arquivo'. O Concílio, como foi repetidamente enfatizado tanto pelo Beato João Paulo II, como pelo Santo Padre Bento XVI, é uma "bússola" para o terceiro milénio e, consequentemente, para toda obra de evangelização e de nova evangelização. A correta hermenêutica é condição, e não obstáculo, ao conhecimento do Concílio. Basta pensar, por exemplo, e lembro-me claramente, no impacto que teve a Encíclica Evangelii Nuntiandi, do Servo de Deus, o Papa Paulo VI, na qual já se interpretava, de modo profético para aqueles tempos, o impulso missionário do Concílio".
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Ventos que sopram de Roma
Chamei aqui a atenção para o que se tem vindo a passar nas negociações entre Roma e a Fraternidade Sacerdotal S. Pio X, seguidora do cismático bispo Marcel Lefebvre. Hoje o Vaticano confirmou ter proposto a este grupo a plena integração eclesial sob a forma canónica de uma prelatura pessoal, a exemplo do que se verificou e verifica com o Opus Dei. Aparentemente, há ainda dificuldades internas à Fraternidade que, na gíria, 'está a procurar vender cara' a abertura do Papa Bento XVI.
As fontes católicas que acompanham esta matéria revelam, por estes dias, grandes cautelas no modo de noticiar este assunto. Algumas ainda chegam a sugerir que o gesto papel é "generoso", deixando sugerido que a mesma atitude não existe (ou se espera agora) do outro lado.
Veremos no que tudo isto dá.
A verdade é que não existem praticamente análises de contextualização e leitura crítica e menos ainda debate sobre uma matéria desta magnitude.
Não há muito tempo, contrariando a sugestão dos que reivindicam um novo concílio - o Vaticano III - gradas figuras da Igreja respondiam que essa pretensão era inoportuna, visto que faltava cumprir o Vaticano II. Pois agora, numa altura em que seria oportuno relançar a aplicação do espírito e da letra conciliares, vemos uma atitude geral de retração e de tolerância doutrinal que não tem existido noutras situações e noutros contextos. O bispo Bernard Fellay é claro: "Não estamos de acordo doutrinalmente, no entanto, o Papa quer reconhecer-nos". Como é sabido, as duas matérias relevantes que os seguidores de Lefebvre repudiam do Vaticano II são a liberdade religiosa e o ecumenismo, duas matérias cruciais no modo de estar da Igreja no mundo contemporâneo. A mudança de atitude, que atribuem ao atual Papa, leva-os já a considerar que estes são "problemas secundários", em face daqueles que, esses sim, seriam "tremendamente importantes na Igreja de hoje". Resta saber quais serão eles.
[À margem:
É precisamente a liberdade religiosa - que seria "problema secundário" na orientação que lhe foi dada pelo Concílio, mas que é sentida como grave problema hoje, em várias partes do mundo - que vai levar o Episcopado dos Estados Unidos, com o apoio expresso que lhe acaba de chegar de Roma, via núncio apostólico, a lançar a partir da próxima semana e até 4 de Julho, dia da independência dos EUA, uma vigorosa campanha contra a administração de Obama. Campanha que não pode escapar a uma leitura político-partidária, por decorrer em plena corrida eleitoral à presidência do país.
De resto, um sinal diverso mas de sentido globalmente convergente, pode observar-se em Itália, onde está na forja um partido católico de centro direita, com o aparente beneplácito da Conferência Episcopal Italiana. Mostra-o claramente o jornalista e vaticanólogo Paolo Rodari, num artigo hoje publicado no seu blog Palazzio Apostolico).
As fontes católicas que acompanham esta matéria revelam, por estes dias, grandes cautelas no modo de noticiar este assunto. Algumas ainda chegam a sugerir que o gesto papel é "generoso", deixando sugerido que a mesma atitude não existe (ou se espera agora) do outro lado.
Veremos no que tudo isto dá.
A verdade é que não existem praticamente análises de contextualização e leitura crítica e menos ainda debate sobre uma matéria desta magnitude.
Não há muito tempo, contrariando a sugestão dos que reivindicam um novo concílio - o Vaticano III - gradas figuras da Igreja respondiam que essa pretensão era inoportuna, visto que faltava cumprir o Vaticano II. Pois agora, numa altura em que seria oportuno relançar a aplicação do espírito e da letra conciliares, vemos uma atitude geral de retração e de tolerância doutrinal que não tem existido noutras situações e noutros contextos. O bispo Bernard Fellay é claro: "Não estamos de acordo doutrinalmente, no entanto, o Papa quer reconhecer-nos". Como é sabido, as duas matérias relevantes que os seguidores de Lefebvre repudiam do Vaticano II são a liberdade religiosa e o ecumenismo, duas matérias cruciais no modo de estar da Igreja no mundo contemporâneo. A mudança de atitude, que atribuem ao atual Papa, leva-os já a considerar que estes são "problemas secundários", em face daqueles que, esses sim, seriam "tremendamente importantes na Igreja de hoje". Resta saber quais serão eles.
[À margem:
É precisamente a liberdade religiosa - que seria "problema secundário" na orientação que lhe foi dada pelo Concílio, mas que é sentida como grave problema hoje, em várias partes do mundo - que vai levar o Episcopado dos Estados Unidos, com o apoio expresso que lhe acaba de chegar de Roma, via núncio apostólico, a lançar a partir da próxima semana e até 4 de Julho, dia da independência dos EUA, uma vigorosa campanha contra a administração de Obama. Campanha que não pode escapar a uma leitura político-partidária, por decorrer em plena corrida eleitoral à presidência do país.
De resto, um sinal diverso mas de sentido globalmente convergente, pode observar-se em Itália, onde está na forja um partido católico de centro direita, com o aparente beneplácito da Conferência Episcopal Italiana. Mostra-o claramente o jornalista e vaticanólogo Paolo Rodari, num artigo hoje publicado no seu blog Palazzio Apostolico).
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quarta-feira, 13 de junho de 2012
sábado, 9 de junho de 2012
Seguidores de Lefebvre: «Foi a atitude da Igreja oficial que mudou, não nós»
Em entrevista ao site oficial DICI (Documentation, Information Catholiques Internationales), do movimento tradicionalista Sociedade S. Pio X, o respetivo superior, o bispo Bernard Fellay, faz afirmações a propósito das negociações que tem mantido com o Vaticano como estas:
Manda a prudência que se atente na posição que Roma vai tomar. Ao que tudo indica, não deverá tardar. O lamentável secretismo que tem caraterizado este processo faz com que os cristãos de base que seguem com atenção o que se passa na Igreja se tenham de limitar aos sinais exteriores - gestos, notícias de encontros, comunicados relativamente anódinos desses encontros. Como se as matérias que estão em jogo não devessem ser debatidas de forma muito mais alargada, independentemente dos passos das conversações que têm ocorrido.
Sem entrar agora na questão do entendimento que esta Sociedade S. Pio X faz da Tradição e, a partir desse entendimento, se posiciona face a questões e decisões fundamentais do Concilio Vaticano II (precisamente no ano em que se comemora o cinquentenário deste acontecimento eclesial), há problemas delicadíssimos e graves que o processo contém, e que se referem ao modo como estão a ser acautelados princípios de equilíbrio e de equidade de diferentes modos de ser e de estar em Igreja.
Mais concretamente: configura-se, nas movimentações em curso, uma cada vez mais nítida assunção da linha conservadora que, em nome de (e inspirada por) uma hermenêutica da continuidade, acaba por fazer a rutura com o lado mais corajoso e criativo do Concílio e promovendo um catolicismo "descafeinizado".
A história mostra que a vida da Igreja nunca coube numa orientação estratégica determinada e que o Espírito não é domesticável por ninguém, por mais alto que se situe na estrutura hierárquica. Uma coisa é certa: não é tranquilizador o espírito que se deteta na entrevista do bispo Bernard Fellay.
(O texto da entrevista encontra-se traduzido em várias línguas. Ver ao fundo da versão em inglês).
«Foi a atitude da Igreja oficial que mudou, não nós. Não fomos nós que pedimos um acordo, é o Papa que quer reconhecer-nos».Na entrevista percebem-se dois factos: o processo é tido como pouco provavelmente reversível, dada a fase a que chegou; e o próprio Papa Bento XVI surge na entrevista como empenhado neste processo, criadas que foram as condições - ou pelo menos o clima - para o acordo entre os seguidores de Lefebvre e Roma.
«O que mudou, fez questão de acrescentar Fellay, é que Roma não faz da aceitação total do Concílio Vaticano II uma condição para a solução canónica. Actualmente há em Roma alguns que consideram que uma compreensão diferente do Concilio não é determinante para o futuro de la Igreja, dado que a Igreja é mais do que o Concílio».
Manda a prudência que se atente na posição que Roma vai tomar. Ao que tudo indica, não deverá tardar. O lamentável secretismo que tem caraterizado este processo faz com que os cristãos de base que seguem com atenção o que se passa na Igreja se tenham de limitar aos sinais exteriores - gestos, notícias de encontros, comunicados relativamente anódinos desses encontros. Como se as matérias que estão em jogo não devessem ser debatidas de forma muito mais alargada, independentemente dos passos das conversações que têm ocorrido.
Sem entrar agora na questão do entendimento que esta Sociedade S. Pio X faz da Tradição e, a partir desse entendimento, se posiciona face a questões e decisões fundamentais do Concilio Vaticano II (precisamente no ano em que se comemora o cinquentenário deste acontecimento eclesial), há problemas delicadíssimos e graves que o processo contém, e que se referem ao modo como estão a ser acautelados princípios de equilíbrio e de equidade de diferentes modos de ser e de estar em Igreja.
Mais concretamente: configura-se, nas movimentações em curso, uma cada vez mais nítida assunção da linha conservadora que, em nome de (e inspirada por) uma hermenêutica da continuidade, acaba por fazer a rutura com o lado mais corajoso e criativo do Concílio e promovendo um catolicismo "descafeinizado".
A história mostra que a vida da Igreja nunca coube numa orientação estratégica determinada e que o Espírito não é domesticável por ninguém, por mais alto que se situe na estrutura hierárquica. Uma coisa é certa: não é tranquilizador o espírito que se deteta na entrevista do bispo Bernard Fellay.
(O texto da entrevista encontra-se traduzido em várias línguas. Ver ao fundo da versão em inglês).
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Três reformas que se impõem na Igreja Católica
A propósito do chamado Vatileaks (desvio e publicação de documentos secretos da Casa Pontifícia) e de outros casos estranhos recentes no Vaticano, o historiador da Igreja italiano Alberto Melloni publicou nesta segunda-feira, dia 4, no jornal Corriere della Sera um texto importante que, entretanto, a newsletter do Instituto Humanitas Unisinos publicou (tradução de Moisés Sbardelotto):
"E, assim, não acabou. Depois da demissão de Gotti Tedeschi e da prisão de um empregado do papa,
Os problemas que florescem dizem respeito à formação, à seleção, à cultura da classe dirigente do catolicismo do século XXI.
A medíocre encenação das indiscrições diz que existem agitadores, agentes, organizações, com livros de pagamento, lobbies de carreira e o calendário do campeonato da luta livre entre movimentos. Um mundo diversificado nos objetivos: mas unido pela convicção de que a Igreja precisa deles no poder mais do que do evangelho, e permeado por uma lógica de violência à qual nos adaptamos apenas se formos treinados por mestres competentes.
Nessa catástrofe formativa – que contagiou sem aparentes distinções o clero secular, o clero regular e o clero dos movimentos –, desencadeia-se o fato de que muitos dos piores fizeram carreira na Cúria. Um fenômeno que leva a nos perguntarmos com ainda mais angústia por que aqueles anticorpos de sabedoria que devem existir também aí correm o risco de parecer áfonos e invisíveis.
Até esse desequilíbrio, no entanto, seria remediável se, no episcopado, nas Igrejas, nos movimentos, fosse preservada uma cultura de diálogo. A abertura sincera ao exame atento das questões, a capacidade de tratar com seriedade dos problemas difíceis e de cultivar a pluralidade de sabedorias foram sacrificadas pela obsessão de uma teologia que glosa o catecismo, murmura a missa em latim errando os acentos e louva enfaticamente a última encíclica, na certeza de que esse excesso de zelo não induzirá à suspeição, mas será considerado um mérito.
Esses fatos, sem a orientação de insiders infiéis, podem ser explicados dentro de três cenários possíveis.
A primeira é que eles estão na presença de uma luta de poder digna das malebolge [vales do inferno] de Dante. O cardeal Bertone – o confidente de uma vida que, independentemente dos dotes e dos limites do seu governo, é o escudo humano de Bento XVI – é um alvo não inerte, mas transitório. Quem desencadeia tal desordem não quer o posto do número dois. A soma desse projeto de luta entre semipoderosos, em que entram por escolha ou por acaso o secretário particular, os aspirantes a secretários de Estado (certamente não quem foi secretário de Estado) faz o resto. E assim, entre aqueles que se passam por "ajudantes" de uma suposta purificação ratzingeriana e os porta-estandartes de uma radicalização ultraconservadora do douto conservadorismo de Bento XVI, teria se gerado uma reação fora de controle, com muito fogo amigo e ações de cobertura.
A outra possibilidade é que essa confusão seja toda e somente italiana, em sentido estrito: isto é, que projete sobre a Igreja aquele desastre político-moral que vai muito além dos spread e do tratamento Monti. O populismo inescrupuloso (que nestas horas vimos em ação até contra o sentido do Estado de Giorgio Napolitano), misturado com uma relação desprotegida com as finanças e com a direita italiana, enfim, teria emprestado à Igreja métodos e brutalidade que só nós, italianos, sabemos ler sobre a filigrana da eleição do prefeito de Roma ou dos equilíbrios de qualquer holding.
A terceira possibilidade é que um marasmo aparentemente padresco faça parte do jogo da grande política. Se as agências que se fazem chamar de "mercado" apontaram para o fato de que os alemães (a chanceler alemã, o papa alemão) não sentirão pesar sobre a sua consciência o pesadelo de reabrir, com o fim do euro e da Europa, a porta para a guerra pela terceira vez em 100 anos –, então, manter ocupada a Igreja sobre indecências menores teria um sentido maior.
As três reformas institucionais – que sempre foram a pinça com a qual a Igreja de Roma aferra as questões espirituais – referem-se à Cúria, à diplomacia e ao episcopado.
Por mais de um século, a Secretaria de Estado não funciona, e o sonho montiniano de dar ao papa um primeiro-ministro fracassou. Se o papa coloca na Segunda Loggia alguém grande, ele se submete à sua sombra: e pode chegar a deixar vago o posto como fez Pio XII. Se o Papa escolhe um homem mais evasivo, a lamentação é forte, e a desordem, também. O nó, portanto, deve ser abordado em um quadro eclesiológico de conjunto, como aquele proposto por canonistas do porte de Eugenio Corecco e Francesco M. Pompedda entre os anos 1980 e 1990.
A segunda reforma diz respeito à diplomacia pontifícia: a pelotão dos núncios papais é o primeiro a sofrer de uma marginalidade que se reflete no silêncio eclesial sobre os grandes nós geopolíticos do presente, primeiros dentre todos o europeu e o chinês. Mas 150 diplomatas não são geríveis. Portanto, é preciso um pequeníssimo número de supernunciaturas continentais, confiadas a diplomatas purpurados, ouvidos regularmente em Roma e capazes de fazer pesar sobre as grandes mesas globais a voz da única família do mundo onde todos contam igualmente.
A terceira reforma é uma palavra esquecida do Vaticano II: colegialidade. O papa – viu-se em Milão – precisa se confrontar com aqueles que, por causa da consagração episcopal, recebem um poder sobre a Igreja universal: dessa comunhão, o vigário de Pedro tira a vantagem no plano humano e teológico, sem fazer sombra sobre as suas prerrogativas. Um órgão colegial permanente é esperado desde 1964 e não é o Sínodo dos Bispos convocado com funções consultivas: demorar para se perguntar sobre como dar vazão a esse aspecto da comunhão significa fazer com que o papa se torne um alvo para quem "o ajuda" e tornar a Igreja o motivo de deboche da mídia.
Que é exatamente o que está acontecendo."
segunda-feira, 28 de maio de 2012
O mordomo do Papa e as fraquezas do Vaticano
Nem complô nem golpe de Estado: os últimos episódios da história
plurissecular do Vaticano colocam simplesmente em evidência, na coincidência da
demissão forçada do banqueiro do Papa e da prisão do seu mordomo, uma dupla
fraqueza, escreve Frédéric Mounier, no La Croix, a propósito dos acontecimentos
dos últimos dias.
No final da semana passada, soube-se que o mordomo do Papa foi detido, acusado
de ter em sua posse documentos confidenciais. Esse facto sucedeu à publicaçãode um livro com vários documentos que traduzem pequenas questiúnculas e
supostas guerras de poder no interior da estrutura do Vaticano. E acontece
também na sequência da demissão forçada do presidente do banco do Vaticano, o
Instituto das Obras da Religião. Mas tudo isto acontece também num contexto em que se pressentem pequenos jogos de antecipação da sucessão de um Papa que,
supostamente, já não controla a máquina governativa da Igreja.
Vale a pena atentar nas duas fraquezas apontadas por Mounier no La Croix:
Antes de mais, uma fraqueza estrutural. Para lá das aparências enganosas do
poder imperial do Vaticano, a realidade quotidiana do mais pequeno Estado do
mundo é constituída por um pessoal pouco numeroso, raramente coordenado,
trabalhando com frequência numa espantosa improvisação duplicada por pesos
burocráticos.
Mas também uma fraqueza italiana. Estes jogos de poder permanentes, estes
clãs, estes pequenos arranjos entre amigos ou entre famílias, de que o
presidente do conselho Mario Monti quer fazer tábua rasa na península, são os
mesmos que aprisionam em engodos a missão evangélica da Santa Sé.
Pode acrescentar-se ainda a fraqueza de qualquer instituição humana, onde vêm ao de cima os pequenos jogos de poder, as questiúnculas. Há vinte séculos, já Jesus perguntava: Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?
Pode acrescentar-se ainda a fraqueza de qualquer instituição humana, onde vêm ao de cima os pequenos jogos de poder, as questiúnculas. Há vinte séculos, já Jesus perguntava: Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?
O artigo de Mounier pode ser lido na íntegra aqui.
Bento Domingues: Pasmados, não!
Bento Domingues no "Público" de ontem. "A criatividade de todos é o novo sonho. Mas não basta sonhar ou ficar pasmados a olhar para o céu. Em todas as épocas, será preciso repetir a pergunta feita a S. Pedro: que fazer?"
A ciberteologia das redes
O padre jesuíta Antonio Spadaro é diretor da revista La Civiltà Cattolica. Mas talvez seja mais conhecido como teólogo estudioso e praticante das redes sociais e do ciberespaço. Recentemente publicou um livro intitulado precisamente 'Cyberteologia', que ainda não está traduzido em português. Enquanto isso não acontece, Spadaro disponibilizou em português, e em regime de acesso livre, um e-book com uma série de textos, mais breves uns do que outros, em boa parte publicados no seu blog, e de que destacamos estes:
- Em busca de Deus em tempos de Google
- A ciberteologia das redes
- Entrevista sobre Cyberteologia com Padre Antonio Spadaro SJ
- A internet é um ambiente, parte integrante da nossa própria vida
- Espiritualidade e elementos para uma teologia da comunicação em rede
- O que faria Jesus se fosse um hacker?
- Habitar a Rede: como vencer o risco de viver em uma bolha filtrada?
- Limitar o acesso à web? ”É como tirar um pedaço de território”
- Como encontrar Deus nos «blogs»
- O fenômeno do Blog: I-II-III-IV
- Steve Jobs e Inácio de Loyola
- Deus procurado e achado em todas as coisas
- Uma Civiltà de escritores, poetas e navegadores da Web
- ”Somos chamados a estar nas fronteiras, encruzilhadas e trincheiras”
- ”A fé nos ajuda a entender a Internet”.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Tempo para o gratuito
"Com vícios de soberba e rédea solta, secundarizando a ética e o "bem comum", construímos uma sociedade com menos tempo para o gratuito, ou seja, menos tempo para dar, gratuitamente, à dimensão do que é mais sublime numa Existência que não se questiona porque simplesmente… É, gratuitamente.
Será esta tendência para a redução do tempo para o gratuito um caminho seguro? E como entender esta tendência quando, ao mesmo tempo, se defende uma revolução de paradigmas? Quando se quer que o tempo novo seja de reencontro de afetos, de aprofundamento das relações, de partilha e disponibilidade para o(s) outro(s)? (...)
O tempo para o gratuito é tanto para o ócio como para o aprofundamento das relações. Mas o que se tem verificado é uma tendência para o encurtamento do tempo para o gratuito… com impacto na família, na simbiose obrigatória com a natureza e o meio, no salto do eu solitário para o nós solidário.
Podemos apostar na qualidade do pouco tempo que nos é permitido para o gratuito porque, na verdade, tempo em quantidade não significa necessariamente tempo de qualidade. Este é um princípio básico nas relações humanas, nos casais, entre pais e filhos, amigos… Mas o tempo disponível para o gratuito, no jogo da interdependência, é um bem demasiado precioso. "Ninguém é uma ilha".
É no tempo que se expressa o gratuitus, o sentido maior do Ser humano. O tempo conhece todos os sistemas e todos os sistemas vivem e morrem no tempo. No movimento da história, o tempo recuperará a razão contra todos os aparentes e circunstanciais pragmatismos políticos. Nem que seja para nos dizer... é tarde demais!"
(in SIC Online a 23.01.2012. Ler tudo aqui)
Será esta tendência para a redução do tempo para o gratuito um caminho seguro? E como entender esta tendência quando, ao mesmo tempo, se defende uma revolução de paradigmas? Quando se quer que o tempo novo seja de reencontro de afetos, de aprofundamento das relações, de partilha e disponibilidade para o(s) outro(s)? (...)
O tempo para o gratuito é tanto para o ócio como para o aprofundamento das relações. Mas o que se tem verificado é uma tendência para o encurtamento do tempo para o gratuito… com impacto na família, na simbiose obrigatória com a natureza e o meio, no salto do eu solitário para o nós solidário.
Podemos apostar na qualidade do pouco tempo que nos é permitido para o gratuito porque, na verdade, tempo em quantidade não significa necessariamente tempo de qualidade. Este é um princípio básico nas relações humanas, nos casais, entre pais e filhos, amigos… Mas o tempo disponível para o gratuito, no jogo da interdependência, é um bem demasiado precioso. "Ninguém é uma ilha".
É no tempo que se expressa o gratuitus, o sentido maior do Ser humano. O tempo conhece todos os sistemas e todos os sistemas vivem e morrem no tempo. No movimento da história, o tempo recuperará a razão contra todos os aparentes e circunstanciais pragmatismos políticos. Nem que seja para nos dizer... é tarde demais!"
(in SIC Online a 23.01.2012. Ler tudo aqui)
"A aceleração do tempo e a sua falta"
Anselmo Borges escreve na última crónica do DN (19 Maio 2012) sobre... o tempo: "A vida boa é definida pela riqueza das experiências que podemos ter. Multiplicar por dois a velocidade permite multiplicar por dois as experiências. É isso que de modo difuso procuramos no prazer que pomos em multiplicar as nossas actividades". Pergunta-se: e somos mais felizes?" Ler tudo aqui
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domingo, 20 de maio de 2012
Sem silêncio não há comunicação, mas com silêncio pode também não haver
Convido o leitor a adivinhar quem poderá ser o autor das seguintes afirmações:
“[D]esejo partilhar convosco algumas reflexões sobre um aspecto do processo humano da comunicação que, apesar de ser muito importante, às vezes fica esquecido, sendo hoje particularmente necessário lembrá-lo. Trata-se da relação entre silêncio e palavra: dois momentos da comunicação que se devem equilibrar, alternar e integrar entre si para se obter um diálogo autêntico e uma união profunda entre as pessoas. Quando palavra e silêncio se excluem mutuamente, a comunicação deteriora-se, porque provoca um certo aturdimento ou, no caso contrário, cria um clima de indiferença; quando, porém se integram reciprocamente, a comunicação ganha valor e significado. O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo”.
O autor destas reflexões não é conhecido por ser um grande pensador dos processos da comunicação humana, mas isso não significa que o que diz não mereça figurar nos tratados sobre a comunicação e não venha, de facto, de um grande pensador. O excerto é, na verdade, do Papa Bento XVI e faz parte da mensagem que propôs para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se celebra no próximo domingo.
Vale a pena ler o texto na íntegra, visto que apresenta uma dimensão dos processos comunicativos absolutamente crucial para os tempos que vivemos. Depois de, na mensagem de 2011, o Papa ter chamado a atenção para outra vertente essencial – «quando as pessoas trocam informações, estão já a partilhar-se a si mesmas, a sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais» - desta vez, convoca o silêncio. Não o silêncio dos pusilânimes, mas o silêncio ativo dos que buscam a verdade, se interrogam , meditam e, por essa via, se colocam à escuta, procuram discernir o que faz sentido e vale a pena, dão espaço e tempo aos outros, aos que verdadeiramente nos questionam.
“Aprender a comunicar é aprender a escutar, a contemplar, para além de falar”, diz ainda o Papa.
Mas, se é verdade que sem silêncio não há comunicação, não é menos verdade que, com silêncio também pode não haver. Depende do sentido em que o silêncio é experimentado. E muitas pessoas, inclusive na Igreja, vivem o silêncio não como experiência desejada e como atitude de escuta do outro, mas como resultado de atos de silenciamento. E não se trata sequer de inimigos, mas de pessoas que pensam de modo diferente.
Sempre que o silêncio é unilateral - ou seja, exigido a outros para que nos escutem - é falso e nega a comunicação. Mais: tenho para mim que é sinal de fraqueza de quem o procura impor.
Que revolução se faz necessária para dar, hoje, nas nossas circunstâncias, substância a estes desafiosos!
(Uma versão mais reduzida deste texto foi publicada no diário digital Página 1 de 14.05.2012)
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