quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

"Que todos sejam um"

A Igreja faz, em sexta-feira santa, uma oração pelos judeus. Antes de João XXIII, essa oração era feita pela "conversão dos pérfidos judeus". A partir dos anos 60, e segundo o rito de João XXIII, deixou de se dizer «oremos pela conversão dos judeus» e passou-se simplesmente a dizer, a partir de 1959, «oremos pelos judeus». Passos significativos foram dados, nomeadamente por João Paulo II, no sentido do diálogo com os judeus e, neste oitavário de oração pela unidade dos cristãos, a Conferência Episcopal Italiana (CEI) costumava dedicar um dia ao diálogo com o judaísmo. Depois de o papa ter autorizado a recuperação dessa oração em latim em 2008, os rabinos italianos decidiram não participar na iniciativa deste ano dos bispos italianos, em sinal de crítica e de protesto.
A este propósito, a agência Zenit, que evoca estes factos, cita o Pe. Michel Remaud, director do Instituto Cristão de Estudos Judeus e de Literatura Hebraica de Jerusalém, o qual esclarece que «todo o debate suscitado por esta decisão se concentrou em uma palavra que não aparece no texto, ‘conversão’», e que «pedir a Deus que ilumine os corações é uma coisa, e pressionar as pessoas para tentar convencê-las é outra. A diferença é mais que de matiz».

Por isso, adianta a agência, o Pe. Remaud propõe este questionamento «mais fundamental»: se o cristão considera Jesus como «o Salvador de todos os homens» e expressa esta convicção em sua liturgia, pode-se impedir seu diálogo com quem não compartilha sua fé?

A leitura que Zenit faz esquece que durante séculos os judeus foram considerados, nos meios católicos como "pérfidos", precisamente por lhes ser imputada a morte de Jesus. Este dado estava profundamente enraizado na cultura católica e não é por acaso que, entre outros, o Abade de Baçal, nas suas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, tenha sentido necessidade de dedicar perto de uma centena de páginas a desmontar os argumentos contra os judeus. A História de Portugal (e não só de Portugal) é, de resto, rica em factos, muitos deles tenebrosos, de perseguição e expulsão.

Contudo, os comentários do director do Instituto Cristão de Estudos Judeus e de Literatura Hebraica de Jerusalém suscitam reflexões várias, que podem ser consideradas relevantes para o diálogo inter-religioso, especialmente numa semana voltada para a unidade dos cristãos.

Se os cristãos consideram Cristo «o Salvador de todos os homens», isso significa que também salva os judeus, tal como os muçulmanos, os hindus, os ateus, os indiferentes às religiões... Porquê, então, direccionar a oração para os judeus? Não será ainda um vestígio do velho parti-pris?

«Pedir a Deus que ilumine os corações é uma coisa, e pressionar as pessoas para tentar convencê-las é outra. A diferença é mais que de matiz», observa o P. Remaud. Mas porque havemos de pedir a Deus que ilumine uns corações em especial? E os nossos próprios corações? E que dizer daqueles que têm o seu próprio «o Salvador de todos os homens» e que talvez também tenham o direito de pedir a Deus que nos ilumine?

Está visto que esta construção só se aguenta se considerarmos que a verdade está do nosso lado e que a única possibilidade de verdade do outro reside na convergência para a nossa verdade.

Quem acredita que Jesus é "o caminho, a verdade e a vida" deveria acreditar também que esse caminho vale por si, se manifesta num verdadeiro encontro que reconhece a alteridade do outro. É esse outro que, a partir da sua história, das suas buscas e dos seus encontros, haverá de descobrir o caminho que quer percorrer. O sinal de Deus que os cristãos são para ele pode ser um facto que venha a desabrochar e a adquirir significado na sua vida. E vice-versa. Essa é a riqueza dos filhos de Deus.

Não julgo que isto seja relativismo. Como pode sê-lo se radica numa atitude de escuta e de caminho com o outro?

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Obama: Invocação

A cerimónia de tomada de posse dos presidentes dos Estados Unidos da América incluem no programa uma "Invocation", que, no caso de Barack Obama, foi feita pelo pastor Rick Warren. Aqui fica o texto (o acesso ao vídeo está aqui ):


Let us pray.

Almighty God, our Father, everything we see and everything we can’t see exists because of you alone. It all comes from you. It all belongs to you. It all exists for your glory.

History is your story. The Scripture tells us, “Hear O Israel, the Lord is our God. The Lord is One.” And you are the compassionate and merciful one. And you are loving to everyone you have made.

Now, today, we rejoice not only in America’s peaceful transfer of power for the 44th time. We celebrate a hingepoint of history with the inauguration of our first African American president of the United States. We are so grateful to live in this land, a land of unequaled possibility, where the son of an African immigrant can rise to the highest level of our leadership. And we know today that Dr. King and a great cloud of witnesses are shouting in heaven.Give to our new President, Barack Obama, the wisdom to lead us with humility, the courage to lead us with integrity, the compassion to lead us with generosity. Bless and protect him, his family, Vice President Biden, the cabinet, and every one of our freely elected leaders.

Help us, O God, to remember that we are Americans, united not by race, or religion, or blood, but to our commitment to freedom and justice for all. When we focus on ourselves, when we fight each other, when we forget you, forgive us. When we presume that our greatness and our prosperity is ours alone, forgive us. When we fail to treat our fellow human beings and all the earth with the respect that they deserve, forgive us. And as we face these difficult days ahead, may we have a new birth of clarity in our aims, responsibility in our actions, humility in our approaches, and civility in our attitudes, even when we differ.

Help us to share, to serve and to seek the common good of all. May all people of good will today join together to work for a more just, a more healthy and a more prosperous nation and a peaceful planet. And may we never forget that one day all nations and all people will stand accountable before you. We now commit our new president and his wife, Michelle and his daughters, Malia and Sasha, into your loving care.

I humbly ask this in the name of the one who changed my life, Yeshua, Isa, Jesus [Spanish pronunciation], Jesus, who taught us to pray:

“Our Father, who art in heaven, hallowed be thy name. Thy kingdom come. Thy will be done on earth as it is in heaven. Give us this day our daily bread and forgive us our trespasses as we forgive those who trespass against us. And lead us not into temptation, but deliver us from evil. For thine is the kingdom and the power and the glory forever. Amen.”

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Santa Sé diz na ONU que vítimas civis não são um mero efeito colateral

As vítimas civis dos conflitos armados não podem ser consideradas como “um mero efeito colateral da guerra”, afirmou na ONU o arcebispo Celestino Migliore, observador permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas. Quinta-feira passada, o arcebispo falou, no Conselho de Segurança, sobre os critérios morais para a protecção de civis em conflitos armados.

O embaixador do Vaticano afirmou que, nos últimos tempos, “a segurança dos civis nos conflitos está-se fazendo cada vez mais crítica, por vezes mesmo dramática, como tem sucedido na Faixa de Gaza, no Iraque, Darfur e na República Democrática do Congo”. Migliore apelou por isso à garantia da “protecção de civis através de um maior respeito das normas do direito internacional”. O que exige três pilares fundamentais: “Acesso humanitário, protecção especial para as crianças e mulheres, assim como o desarmamento”.

“O terrível maltrato de civis em tantas partes do mundo não parece um mero efeito da guerra”, afirmou. “Vemos civis que são convertidos deliberadamente em meios para alcançar objectivos políticos ou militares.” E deu exemplos: “Quando as mulheres e as crianças são usadas como escudo de combatentes; quando se nega o acesso humanitário à Faixa de Gaza; quando no Darfur as pessoas são expulsas e as aldeias destruídas; quando vemos a violência sexual que destrói a vida de mulheres e crianças na República Democrática do Congo.

“A protecção dos civis exige não apenas um renovado compromisso para aplicar o direito humanitário, mas requer em primeiro lugar e sobretudo boa vontade política e acção”, acrescentou o arcebispo. Requer ainda “líderes que exerçam o direito de defender seus próprios cidadãos ou o direito à autodeterminação, recorrendo apenas aos meios legítimos”.

O representante da Santa Sé disse que o crescente aumento das vítimas civis na guerra se deve também “à produção massiva e contínua inovação e sofisticação de armamentos”. “A maior qualidade e distribuição de arma de pequenos calibre e de armas leves, assim como as minas terrestres e as bombas de fragmentação fazem com que seja muito mais fácil e eficaz o assassinato de seres humanos.”

Nessa medida, saudou como uma boa notícia a adopção da Convenção sobre as Bombas de Fragmentação e apelou a que os países ratifiquem este tratado “como uma prioridade e um sinal de compromisso para enfrentar o drama das vítimas civis”.

(Fonte: www.zenit.org)

domingo, 18 de janeiro de 2009

Desasossegos

Que o Patriarca tenha desassossegado a comunidade muçulmana, a propósito do casamento de jovens católicas com muçulmanos, por causa dos “sarilhos” em que se podem meter, é um aviso de pastor responsável. Não deveria, no entanto, esquecer o que se passa em sua casa. Seria bom que desassossegasse os seus colegas no episcopado, a começar pelo Bispo de Roma, acerca dos sarilhos em que envolveram as exigências da celebração do casamento católico – algumas delas dispensáveis – que leva muitos a ficar, apenas, pelo casamento civil. A relação com o divórcio, com um segundo casamento, com o impedimento do acesso à comunhão eucarística dos recasados, acaba por aumentar o número dos católicos não praticantes. Como os sacramentos são para ajudar e não para complicar, até o próprio Deus deve exclamar: ai o que estão a fazer da graça do matrimónio!

(Frei Bento Domingues, Público, 18.Janeiro.2009)

sábado, 17 de janeiro de 2009

Invertebrados?

"Os casais "inter-religiosos" que pressurosamente protestaram contra as divagações do sr. D. José [acerca dos riscos ligados a eventuais casamentos de católicas com muçulmanos] são portugueses de Portugal, partilham da invertebrada cultura indígena, repetem a ortodoxia dominante da tolerância e do "diálogo" e muito presumivelmente não acham que têm a verdade "única" e a verdade "toda", como aqueles de quem o patriarca se queixa. Mas, para ir ao fundo da questão, o que é um católico ou um muçulmano que não tem a verdade "única" e a verdade "toda"?"
(Vasco Pulido Valente. Público, 17.Janeiro.2009)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O que é acolher

Posso compreender que a Igreja Católica se manifeste contra os casamentos entre pessoas do mesmo sexo e se oponha, como tem feito, às iniciativas de vários Estados de legislar sobre a matéria. Mas já não consigo compreender que altos responsáveis eclesiásticos façam juízos de condenação acerca da relação entre homossexuais.
Num esclarecimento sobre o discurso feito na abertura do Congresso de Teologia Pastoral do México, o cardeal Ennio Antonelli, presidente do Conselho Pontifício para a Família, profere afirmações como estas:
"O exercício da homossexualidade não reflecte a verdade da amizade. A amizade é inerente à condição humana, na qual se dão relações de proximidade, apoio e cooperação, num clima cortês e afável. A amizade deve ser vivida na castidade. "
"Toda a pessoa que tem dificuldade para viver rectamente a sexualidade está chamada a encontrar-se com Cristo e a viver, em consequência, de acordo com as exigências da liberdade e a responsabilidade da fé, da esperança e da caridade. Ao contrário, é contrário à verdade da identidade humana e ao desígnio de Deus viver uma experiência homossexual, uma relação deste tipo, e mais ainda pretender reivindicar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. São contrários aos verdadeiros interesses das pessoas e às necessidades da sociedade. Constituem uma transgressão do sentido do amor tal como Deus nos revelou através da mensagem de Cristo, da qual a Igreja é servidora, como expressão da caridade aos homens e mulheres do nosso tempo. "
Como é possível entrar-se neste terreno que consiste em decidir se "o exercício da homossexualidade" reflecte ou não a verdade da amizade? Eu julgo que não podem ser só aqueles que têm dificuldade para "viver rectamente a sexualidade" que são chamados a "encontrar-se com Cristo e a viver, em consequência, de acordo com as exigências da liberdade e a responsabilidade da fé, da esperança e da caridade". Todos são chamados. E gostava de saber quem não vive dificuldades nesta matéria.
A minha pergunta é ainda outra: que sentido pode ter para uma pessoa homossexual a Igreja dizer-lhe que a acolhe se não a reconhece na sua diferença e se acolhê-la significa fazer-lhe sentir que não vive rectamente, que a experiência de amor que eventualmente vive não é verdadeira?
Acolher, é verdade, não é aceitar tudo o que o outro é ou pensa. Mas tem de passar por ouvi-la, conhecê-la, dar e dispor-se a receber dela. Ora esta atitude de abertura e de caminho conjunto é algo que parece estar distante do tom do discurso do cardeal.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

«Todos te procuram»

É precisamente porque Ele mesmo sofreu e foi posto à prova, que pode socorrer os que são postos à prova.
Heb. 2,18

De madrugada, ainda escuro, levantou-se e saiu; foi para um lugar solitário e ali se pôs em oração.
Simão e os que estavam com Ele seguiram-no.
E, tendo-o encontrado, disseram-lhe: «Todos te procuram.»
Mc 1,29-39

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Uma campanha … fraca

Texto publicado na edição de hoje do 'Página 1' , da Rádio Renascença:

Um grupo de ateus entendeu lançar uma campanha publicitária através dos autocarros londrinos (a que “aderem”, pelos vistos, os “autobus” de Barcelona e, brevemente, os de Madrid e de Itália) para dizer que provavelmente Deus não existe e que é melhor gozar a vida, despreocupadamente. Reconhecendo que os ateus devem ter a mesma liberdade de expressão que os crentes (e vice-versa), dois motivos de reflexão me suscita a iniciativa.

Não deixa de ser interessante constatar a cautela com que aventa que Deus não existe. Se “provavelmente” Deus não existe, pela mesma lógica, provavelmente Deus existe. Por aqui, portanto, estamos conversados.

Por outro lado, nenhuma companhia de aviação ousaria lançar uma operação pública para seduzir os consumidores a utilizar os seus voos após uma catástrofe aérea. Ora, que sentido faz anunciar às pessoas que podem esquecer essa ‘coisa’ de Deus e gozar a vida, se o estrondo da crise ecoa e perpassa por todo o lado, deixando o comum dos mortais inquietos?

Entendo, por isso, que, pela substância e pelo contexto, a campanha não está famosa.

Mas ver estes ateus em acção e a ligar a crença ao desprazer e à tristeza de vida é matéria sumarenta para o jornalismo dominante que dá cartas nas nossas redacções. Como soe dizer-se, o assunto tem todos ou quase todos os ingredientes para ser noticiado e explorado até à exaustão. Dá imagens interessantes e títulos chamativos. Suscita ainda o gozo – não a fruição para que aponta a campanha, mas a chacota, que é o nível a que alguns meios jornalísticos conseguem chegar, em matéria de cultura religiosa.

Temas ligados com religião cabem pouco nos nossos media, como bem sabemos. A não ser que seja para fazer catequese ou endoutrinamento. Jornalismo sério e crítico sobre religião é coisa que não pega. E não é questão apenas dos media e dos jornalistas. Se o caso for conflituoso; se for multitudinário; se se caracterizar pelo exotismo; se der azo ao vedetismo; se meter dinheiro; ou se se proporcionar ao tema real ou putativo do obscurantismo – aí temos notícia pela certa, e porventura com destaque. No resto - e é muito o que resta - sobeja um tonitruante silêncio.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Sobre os meios para sair da crise

O número de Janeiro da revista 'Études' contém um editorial do seu chefe de Redacção, o jesuíta Pierre Charentenay, intitulado "La sortie de quelle crise ?". Respigo a parte final:

"(...) Chacun s'interroge sur les moyens de sortir de ces crises. Faut-il réformer le système de fond en comble ? Faut-il rénover ce qu’on appelle capitalisme ou libéralisme ? Les réponses à ces questions dépendent du diagnostic porté sur toutes ces crises. S'il y avait incompétence, les responsables doivent être sanctionnés et des mesures doivent être prises pour qu'une telle débâcle ne se reproduise pas.
Si le diagnostic est davantage d'ordre moral, les solutions se trouveront alors dans les orientations prises par les responsables économiques et financiers, comme dans les choix que chacun de nous peut faire en misant sur une solidarité forte avec la communauté humaine à laquelle nous appartenons (celle d’hier et celle de demain), plus que sur l’assurance de profits personnels.
Ce qui pose une fois encore le problème de notre démocratie, de nos capacités de vivre ensemble, de notre volonté de régler nos comportements sur les nécessités de la vie commune. Chacun se sent totalement libre de faire ce qu'il entend, de dépenser tant que la chose n'est pas illégale. Mais va-t-on légaliser la prudence, la tempérance et la maîtrise de son style de vie, qui apparaissent de plus en plus comme la vraie solution à beaucoup de nos problèmes actuels ?
Sur ce point, les évêques français avaient eu une intuition prémonitoire en proposant un texte de réflexion en 1982 intitulé, « Pour de nouveaux modes de vie ». Ils s’étaient fait fortement rabrouer sous l’accusation de ne pas favoriser la production et le dynamisme économique, mais seulement le partage. N’avaient-ils pas finalement raison d’en appeler à ce questionnement sur la manière de vivre ?
Nous avons vraiment créé un monde étrange, dont l’on ne cesse de dire qu’il va mal, qu’il est en crise, qu’il faut mettre des règles et poser des limites. Mais embarqués dans la course en avant du progrès, nous ne posons jamais la question des risques et des finalités. Nous cloisonnons les activités pour les rendre plus efficaces. Mais elles perdent leurs sens et leurs buts dans la complexité que nous avons organisée. Où sont passées les finalités du vivre ensemble ? De la finalité, viendrait une morale : il y a des actes immoraux en économie. Mais de l’économie, on a réussi à évacuer la morale pour s’en remettre à la compétence. Les professeurs d’économie nous disent doctement que la crise est le fruit de l’incompétence, pas d’un déficit de morale. Or c’est bien de cette absence de morale économique dont il faut commencer à sortir.
Sur tous ces sujets, l'Eglise n'a cessé de parler depuis bien longtemps déjà en invitant à réfléchir et à pratiquer cette maîtrise de l’économie. Dans ses encycliques sociales, notamment dans Sollicitudo rei socialis en 1986, Jean Paul II a « dénoncé l’existence de mécanismes économiques, financiers et sociaux, qui bien que menés par la volonté des hommes, fonctionnent souvent d’une manière quasi automatiques. » (n°16)
La sortie de crise passe par une reprise en main de nos systèmes économiques avec une réelle attention au bien commun. Et pourquoi ne pas refonder de nouveaux liens de solidarité, avec une attention aux plus fragiles et un peu plus de compassion pour tous ceux qui nous entourent et pour l'humanité, les ressources de la planète n’étant pas illimitées ? (...)"

O texto integral pode ser lido aqui.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Google católico !


Não, não se trata de uma conversão do principal motor de busca ao catolicismo. Nem mesmo mais uma frente de negócios daquela conhecida empresa norte-americana. CatholicGoogle é uma ferramenta de busca que recorre às capacidades e competências do Google, mas que funciona autonomamente.
Assume-se como uma via de "
pesquisa segura", valorizando particularmente websites católicos e eliminando conteúdo considerado contrário à doutrina católica (com excepção, para já, da publicidade - mas também nesta matéria os responsáveis desta iniciativa dizem estar a trabalhar com os engenheiros da Google para resolver o problema).

Actualização: Os autores da iniciativa do Catholic Google são, segundo o jornal
La Croix, dois comerciantes britâncos que vivem em França, perto de Lourdes. E o site que criaram limita-se, afinal, a recorrer a uma ferramenta - Safe Search - que o próprio Google criou,a fim de permitir contornar o acesso a conteúdos pornográficos.

Providência e Economicídio

Há um abismo cada vez maior entre a ostentação obscena da riqueza e a iniquidade cruel da pobreza, diz Anselmo Borges, na sua crónica semanal no DN deste sábado.

Antes, era a Providência divina. Deus, no seu saber, bondade e poder infinitos, governa o mundo, e a Humanidade está sob a sua protecção. Mesmo quando a dor, a desgraça e a morte se abatem sobre os seres humanos, deve-se confiar, pois Deus tudo dirige segundo o seu desígnio. Aliás, Leibniz escreveu a sua Teodiceia precisamente para, como diz a própria palavra, justificar Deus perante a razão, por causa do mal do mundo. A justificação é: sendo Deus omnisciente, omnipotente e infinitamente bom, este é o melhor dos mundos possíveis.

Hegel de algum modo secularizou a teodiceia, substituindo-a pela historiodiceia: a História autojustifica-se, pois ela é a manifestação e realização do Espírito Absoluto no seu autodesenvolvimento dialéctico, a caminho da plena autoconsciência. A negatividade é momento do processo e a "astúcia da Razão" consiste em colocar mesmo o particular e negativo ao seu serviço. Se a historiodiceia toma o lugar da teodiceia, a Razão na sua astúcia substitui a Providência.

Na economia, a teodiceia e a historiodiceia são substituídas pela mercadodiceia - o mercado justifica-se a si mesmo. Entregue livremente a si próprio, o mercado fará com que, apesar de cada um procurar o seu interesse, tudo convirja para o maior bem de todos. Nele, habita a Providência, agora com o nome de "mão invisível", como disse Adam Smith.

Mas Kant chamou a atenção para o "falhanço" da teodiceia: como pode a razão finita justificar Deus? A "astúcia da Razão" não é suficientemente forte para assumir as negatividades improdutivas. Quanto à "mão invisível", deixou mesmo de se ver. Quem tinha dúvidas esbarrou agora com a evidência. O antigo presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos Alan Greenspan recuou na fé de 40 anos: "Cometi um erro ao confiar que o mercado livre pode regular-se a si próprio sem a supervisão da Administração."

A crise está aí, imensa, imprevisível. Começou com o sistema financeiro e está a chegar, à maneira de tsunami, à economia real, e teme-se um economicídio.

Agora que o mundo do negócio se afunda, é tempo de parar no ócio - quantos se lembram que a palavra escola vem do grego scholê, que significa ócio, não no sentido de preguiça, mas de liberdade para pensar? -, precisamente para pensar.

Quando se pensa, percebe-se que afinal não há alternativa à economia de mercado, mas ela tem de ser economia social e ecológica de mercado, acentuando os dois adjectivos: social e ecológica. Economia quer dizer etimologicamente lei da casa; ora, a casa tem de ser a casa de todos e para todos e a casa é o planeta Terra, que é obrigatório preservar.

Quando se pensa, vê-se claramente a urgência de apelar para a necessidade da regulação e da ética no universo da finança e da economia. Ética - mais uma vez, segundo o étimo grego - tem a ver com o comportamento que se deve ter para habitar a casa comum.

Quando se pensa, espera-se que a justiça funcione. De facto, houve incompetência, aventuras especulativas irresponsáveis e também se fala em corrupção e crimes vários. Sem justiça, como repor crédito e confiança no sistema? Problema maior: quantos acreditam e confiam real e verdadeiramente na justiça em Portugal?

Pensando bem, precisamos de distribuição mais justa da riqueza - não se lia há dias no DN que "os rendimentos dos presidentes executivos das 50 maiores empresas europeias equivalem a 441 salários mínimos da Zona Euro"? Não continua também entre nós a cavar-se cada vez mais fundo o abismo entre a ostentação obscena da riqueza e a iniquidade cruel da pobreza?

Quando se pensa a fundo, talvez se conclua que é tempo de pôr mais o acento na cultura do ser do que na cultura do ter. E não será urgente viver com mais moderação - de mederi, donde vem também meditação e medicina?

E torna-se absolutamente claro que está aí o tempo da solidariedade. Se não for por humanidade, ao menos por egoísmo esclarecido. De facto, a acumulação sucessiva de frustração, impotência, fome, degradação, injustiça, pode levar a confrontos sociais de consequências imprevisíveis.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Ano Novo - O tempo, nas pequenas como nas grandes coisas



Ouvi dizer a um certo homem douto que o tempo não é senão os movimentos do sol, da lua e das estrelas, e eu não concordei. Porque não serão antes os tempos os movimentos de todos os corpos? Será que, se as luzes do céu parassem e continuasse a mover-se a roda do oleiro, deixaria de haver tempo com que medíssemos as suas voltas e disséssemos, ou que se move durante instantes iguais, ou que umas voltas são mais longas e outras menos, se a roda se movesse umas vezes mais vagarosamente e outras mais velozmente? Ou, dizendo isso, não falaríamos também nós no tempo, ou não haveria nas nossas palavras umas sílabas longas, outras breves, a não ser porque aquelas ressoam durante um tempo mais longo e estas durante um tempo mais breve? Ó Deus, concede aos homens a possibilidade de observarem nas coisas pequenas as noções comuns às pequenas e às grandes coisas.

(Santo Agostinho, Confissões, Livro XI, XXIII, 29; ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda/Centro de Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira; trad. Arnaldo Espírito Santo, João Beato e Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel)

domingo, 28 de dezembro de 2008

Taizé em Bruxelas - A promessa do Natal, fonte de perseverança



Nesta segunda-feira, 29 de Dezembro, inicia-se em Bruxelas mais um encontro anual de jovens da Peregrinação de Confiança sobre a Terra, animada pela comunidade de Taizé. No Público de hoje, a notícia que escrevi (abaixo reproduzida) chama a atenção para a carta por uma Europa Aberta e Solidária, dirigida aos responsáveis da União Europeia. No site de Taizé o encontro pode ser acompanhado, com fotos, textos e várias outras propostas. Na meditação que escreveu para o Dia de Natal, o prior da comunidade, irmão Aloïs, escreve: “O Evangelho conta a maneira inacreditável como Deus age com a humanidade. Em Jesus, ele vem pedir a cada uma e cada um, geração após geração, para participar na sua obra de reconciliação. Então, mesmo nas horas sombrias, a promessa do Natal é fonte de perseverança para os que procuram construir a paz onde ela é ameaçada.


Encontro com 40 mil jovens de toda a Europa inicia-se hoje em Bruxelas; o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, enviou mensagem


A Comunidade de Taizé (França), que integra monges católicos e protestantes, propõe um serviço cívico europeu no âmbito das iniciativas de solidariedade entre povos. A sugestão consta de uma mensagem à União Europeia, que há dias foi entregue ao presidente da Comissão Europeia e hoje mesmo começa a ser distribuída aos 40 mil jovens (pelo menos uns 600 portugueses) que participam, em Bruxelas, no encontro europeu anual que a comunidade promove numa cidade europeia - em 2004, foi em Lisboa.
No texto Por Uma
Europa Aberta e Solidária, os monges de Taizé acrescentam que a actual situação de crise económica exige a adaptação das instituições e dos mecanismos europeus de auxílio para apoiar países mais pobres. E caracterizam o processo de construção europeia como "uma aventura sem precedentes".
"A Europa conseguiu abrir um período de paz sem precedentes na sua história. O caminho percorrido desperta uma enorme esperança noutras regiões do mundo. Depois de tantas fracturas, a paz é um bem inestimável", mas não adquirido "de uma vez para sempre: cada geração precisa de a construir".
Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, gravou, em pouco mais de quatro minutos, uma mensagem para os participantes (pode ser vista em https://webmail.publico.pt/OWA/redir.aspx?C=796a783395f349f19e95a6979dbecf01&URL=http%3a%2f%2fjornal.publico.clix.pt%2f%253Ca%2520target%3d/pt_article7914.html">https://webmail.publico.pt/OWA/redir.aspx?C=796a783395f349f19e95a6979dbecf01&URL=http%3a%2f%2fwww.taize.fr%2f/pt_article7914.html). Nela repete também: o projecto europeu "constitui um passo em frente sem precedentes na história humana"; a paz, democracia e liberdade que hoje fazem "parte da ordem natural das coisas" não devem ser vistos como "garantidos para o futuro". "Preservar a liberdade e a democracia onde elas existem, combater por elas onde ainda não existem, continua a ser o nosso objectivo comum", diz.
Na mensagem entregue a Barroso pelo irmão Aloïs, prior da comunidade, diz-se que a construção europeia encontra o seu sentido integral se a Europa "se mostrar solidária" com "os povos mais pobres".
Solidariedade global
"Muitos jovens pedem que à mundialização da economia se associe uma mundialização da solidariedade", escrevem os monges de Taizé - o nome designa a aldeia da Borgonha onde a comunidade foi fundada, em 1940, pelo irmão Roger Schutz.
Sobre a crise financeira actual, o documento entregue a Barroso diz ainda que ela "mostra que, sem seguir normas éticas, a economia não se pode desenvolver sustentavelmente". O tema será, aliás, objecto de um dos vários workshops que decorrem nos pavilhões da Brussels Expo, até ao próximo dia 1 de Janeiro, quando termina o encontro. Europa, uma comunidade de valores, uma comunidade acolhedora será tema de outro dos debates, neste caso com a participação do vice-presidente da Comissão Jacques Barrot.
Mais generosidade dos países ricos, acolhimento "digno" dos imigrantes de países em vias de desenvolvimento e "partilha de dons" e da "diversidade" europeia são os âmbitos que levam os monges a propor "iniciativas como um serviço cívico europeu".
Na carta, os monges afirmam que as instituições europeias são por vezes vistas "com incompreensão e com um certo desalento". Mas cabe também aos líderes nacionais "apoiar um novo impulso, renunciando a designar injustamente, na hora das decisões difíceis, as instituições europeias como o 'bode expiatório'".
Num outro texto, destinado aos debates entre os jovens, a Carta do Quénia (escrita a pretexto de um encontro que, em Novembro, reuniu 7000 jovens em Nairobi), o irmão Aloïs apela a ultrapassar "as compartimentações das nossas sociedades". E recorda os que sofrem, os que são maltratados e os imigrantes.
O encontro prevê tempos de oração nos pavilhões da Brussels Expo, sendo os jovens acolhidos por famílias de 180 paróquias católicas, protestantes e ortodoxas de Bruxelas e cidades vizinhas.
Os jovens que participam nesta etapa da Peregrinação de Confiança, como Taizé designa a iniciativa, receberam ainda mensagens do secretário-geral da ONU, do Papa Bento XVI, do arcebispo anglicano de Cantuária e de outros líderes cristãos. Em todas elas (disponíveis em https://webmail.publico.pt/OWA/redir.aspx?C=796a783395f349f19e95a6979dbecf01&URL=http%3a%2f%2fwww.taize.fr%2f), os responsáveis falam dos principais problemas do mundo e do papel das gerações mais novas.

Islão e estereótipos

"En el imaginario social y religioso de Occidente ha calado la idea de Samuel Huntington de que el islam es "la civilización menos tolerante de las religiones monoteístas". Estamos ante un estereotipo que constituye uno de los obstáculos más serios para el diálogo interreligioso, junto con el desconocimiento que unas religiones tienen de las otras, incluso entre sectores cultos. Las descalificaciones son tanto más gruesas y viscerales cuanto mayor es el desconocimiento mutuo. Los prejuicios sustituyen a las descripciones objetivas. Las opiniones, muchas veces infundadas, se elevan a la categoría de axiomas. Las certezas se refuerzan cuanto más crasa es la ignorancia. A la hora de juzgar y valorar a las otras religiones no se suele partir de análisis y estudios rigorosos, sino de estereotipos o versiones interesadas que terminan por deformar el sentido profundo de la religión o por ofrecer una caricatura de la misma".

Assim começa o artigo que o teólogo Juan José Tamayo publica hoje no diário El País. A Parte mais significativa do texto ocupa-se, precisamente, em analisar esses "esterótipos ou versões interessadas" que, segundo ele, "dificultam um acesso sereno ao mesmo e impedem uma relação despreconceituosa com os crentes desse religião".

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O texto da polémica

A polémica do discurso que Bento XVI dirigiu dia 22 aos membros da Cúria Romana e do governo da Cidade do Vaticano, no tradicional encontro de Natal foi motivada pela seguinte passagem:

Antes de tudo está a afirmação que nos apresenta o início da narração da criação: nela se fala do Espírito criador que voa por cima das águas, cria o mundo e o renova continuamente. A fé no Espírito criador é um conteúdo essencial do Criador cristão. O fato de que a matéria leva em si uma estrutura matemática, está cheia de espírito, é o fundamento sobre o qual se baseiam as modernas ciências da natureza. Só porque a matéria está estruturada de maneira inteligente, nosso espírito é capaz de compreendê-la e de remodelá-la ativamente. O fato de que esta estrutura inteligente proceda do mesmo Espírito criador que também nos doou o espírito, implica ao mesmo tempo uma tarefa e uma responsabilidade. Na fé sobre a criação está o fundamento último de nossa responsabilidade com a terra. Não é simplesmente uma propriedade nossa, da qual nos podemos aproveitar segundo nossos interesses e desejos. É mais dom do Criador, que desenhou os ordenamentos intrínsecos e deste modo nos deu sinais de orientação que devemos respeitar como administradores de sua criação. O fato de que a terra, o cosmos, refletem o Espírito criador, significa também que suas estruturas racionais – que muito além da ordem matemática, no experimento, se tornam quase palpáveis – levam em si uma orientação ética. O Espírito que as plasmou é mais que matemática, é o Bem em pessoa que, através da linguagem da criação, nos indica o caminho para o reto caminho.

Dado que a fé no Criador é uma parte essencial do credo cristão, a Igreja não pode e não deve limitar-se a transmitir a seus fiéis só a mensagem da salvação. Também tem uma responsabilidade com a criação e tem de cumprir esta responsabilidade em público. E, ao fazê-lo, não só tem de defender a terra, a água, o ar, como dons da criação que pertencem a todos. Tem de proteger também o homem contra sua própria destruição. É necessário que haja algo como uma ecologia do homem, entendida no sentido justo. Quando a Igreja fala da natureza do ser humano como homem e mulher e pede que se respeite esta ordem da criação, não está expondo uma metafísica superada. Aqui se trata, de fato, da fé no Criador e da escuta da linguagem da criação, cujo desprezo significaria uma auto-destruição do homem e, portanto, uma destruição da própria ordem de Deus.

O que com frequência se expressa e entende com o termo «gender», se sintetiza em definitivo na auto-emancipação do homem da criação do Criador. O homem quer fazer-se por sua conta, e decidir sempre e exclusivamente sozinho sobre o que lhe afeta. Mas deste modo vive contra a verdade, vive contra o Espírito criador. Os bosques tropicais merecem, certamente, nossa proteção, mas não menos a merece o homem como criatura, no qual está inscrita uma mensagem que não contradiz a nossa liberdade, mas que é sua condição. Grandes teólogos da Escolástica qualificaram o matrimônio, ou seja, o laço para a vida toda entre o homem e a mulher, como sacramento da criação, instituído pelo Criador, e que Cristo – sem modificar a mensagem da criação – acolheu depois na história de sua aliança com os homens. Faz parte do anúncio que a Igreja deve oferecer o testemunho a favor do Espírito criador presente na natureza em seu conjunto e de maneira especial na natureza do homem criado à imagem de Deus. A partir desta perspectiva, seria preciso ler a encíclica Humanae Vitae: a intenção do Papa Paulo VI era a de defender o amor contra a sexualidade como consumo, o futuro contra a pretendida exclusividade do presente, e a natureza do homem contra a sua manipulação.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Bispo do Porto envia mensagem de Natal pelo YouTube

Um feminismo disfarçado?

Ao longo dos anos, fui construindo a ideia de que, na cultura católica dominante, existe um desequilíbrio doutrinal em favor do culto da "Virgem Mãe".
O celebrante da missa de hoje foi de uma eloquência notável, neste ponto. Enaltecendo a maternidade, como uma das maiores belezas e feitos da humanidade, e Maria por ter dado à luz o Salvador, discorreu sobre a actualidade desta tarefa (que para aqui não vem, agora , ao caso). O que inquieta, nesta visão das coisas, que muito clérigo partilha, é que o homem e o seu papel como que se eclipsa, ficando a Mulher-Mãe no centro e no altar da veneração (quando não da adoração).
Ora, se esta hipótese for consistente, não deixa de ser curiosa, porque parece conduzir a um modelo de maternidade e de família que está nos antípodas daquele que a Igreja defende: um modelo binário Mãe-Filho/a, em lugar de um modelo trinitário Mãe-Pai-Filho/a.
Se a hipótese for consistente, ela configuraria um feminismo encapotado, que não precisa da figura masculina, naquilo que, neste contexto, é relevante.
Tenho consciência de que o assunto é denso e vasto. Mas poderia, eventualmente, abrigar a chave para alguns problemas e controvérsias da actualidade eclesial. Não sou um expert na matéria, muito longe disso, mas deixo a reflexão. Pode ser que alguém contribua para fazer luz sobre o assunto.
(Crédito da imagem: Maia e o Menino, de Albert Dürer)

sábado, 20 de dezembro de 2008

"There's probably no God (...)"

Um movimento que se confessa ateu pretende lançar proximamente, na cidade de Londres, uma campanha pública de afirmação, que tem o seguinte mote: There's probably no God. Now stop worring and enjoy your life" (Provavelmente Deus não existe. Então, deixe de preocupar-se e desfrute a vida).
Anselmo Borges comenta, no DN, o sentido e alcance desta iniciativa, que ele - tal como vários dirigentes religiosos britânicos - considera "interessante", visto que "obrigaria as pessoas a pensar nas questões essenciais, e Deus é uma dessas questões decisivas". E acrescenta estes complementos:
"É significativo aquele 'provavelmente'. Dawkins [biólogo darwinista e professor da Universidade de Oxford, envolvido na campanha] não sabe que Deus não existe e, por isso, escreve: 'Provavelmente.' A existência de Deus não é objecto de saber de ciência, à maneira das matemáticas ou das ciências verificáveis experimentalmente. Nisso, Kant viu bem: ninguém pode gloriar-se de saber que Deus existe e que haverá uma vida futura; se alguém o souber, "esse é o homem que há muito procuro, porque todo o saber é comunicável e eu poderia participar nele". Afinal, também há razões para não crer, mas, quando se pensa na contingência do mundo, no dinamismo da esperança em conexão com a moral e na exigência de sentido último, não se pode negar que é razoável acreditar no Deus pessoal, criador e salvador, que dá sentido final a todas as coisas. Numa e noutra posição - crente e não crente -, entra sempre também algo de opcional."
"Mas, nos cartazes - escreve Anselmo Borges - o mais impressionante é a segunda parte: 'Deixe de preocupar-se e desfrute a vida.' É claro que o que está subjacente a esta conclusão é a ideia de um Deus invejoso da vida e da alegria dos homens e das mulheres. Se a primeira parte obriga os crentes a pensar, retirando da fé tudo o que de ridículo - pense-se em todas as superstições - lhe tem andado colado, a segunda tem de levá-los a "evangelizar" Deus. É preciso, de facto, reconhecer que houve e há muitos a quem "Deus" tolheu a vida, de tal modo que teria sido preferível nunca terem ouvido falar no seu nome - pense-se no horror do inferno, nas guerras e ódios em seu nome, no envenenamento da sexualidade, na estreiteza e humilhação a que ficaram sujeitos. Agora que está aí o Natal, é ocasião para meditar no Deus que manifesta a sua benevolência e magnanimidade criadoras no rosto de uma criança.(...)".
(Texto completo AQUI)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A ex-centricidade do Messias

(...) O que mais ameaça o natal é o próprio natal, isto é, a sua representação diminuída, estagnada culturalmente entre a quinquilharia dos símbolos e a oportunidade comercial, domesticada pela pieguice das frases feitas e das boas-maneiras.
«Toda a repetição é anti-espiritual», dizia Óscar Wilde, não para acusar a acessibilidade permanente do mistério, mas para pôr-nos em guarda quanto ao uso sonâmbulo e aos melíferos tiques de freguês avezado.
E, contudo, bastaria considerar como o Messias Jesus é ex-cêntrico ou é outro, desde o seu nascimento: por um lado cumpre as expectativas messiânicas linha a linha, mas depois também as despista, revolve e transcende. Jesus de Nazareth constitui aquela “infinita diferença qualitativa”, como explicaram Kierkegaard e Karl Barth nos últimos dois séculos. Um cristianismo
cultural não basta. (...)

Tolentino Mendonça, Página 1 /RR, 18.12.2008

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Leituras do dia

É, por vezes, tão surpreendente e retemperante, a Palavra que cada dia nos é dada:
"O que acham disto? Certo homem tinha dois filhos. Foi ter com o mais velho e disse: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha'.
O filho respondeu: 'Não quero'. Mas depois arrependeu-se, e foi.
O pai dirigiu-se ao outro filho e disse-lhe a mesma coisa. Esse respondeu: 'Sim, senhor, eu vou'. Mas não foi.
Qual dos dois fez a vontade do pai?" Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: "O filho mais velho." Então Jesus disse-lhes: "Pois eu garanto: os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino do Céu.
Porque João veio até vocês para mostrar o caminho da justiça, e vocês não acreditaram nele. Os cobradores de impostos e as prostitutas acreditaram nele. Vocês, porém, mesmo vendo isso, não se arrependeram para acreditar nele."
Mt.21,28-32
Javé está perto dos corações feridos, e salva os que estão desanimados.
Sal.34, 19