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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Um jejum contra a violência e as fotos do purgatório dentro da igreja




(foto reproduzida daqui)

O Papa Francisco convocou para esta sexta-feira, dia 23, um jejum pela paz e, em especial, pelas populações da República Democrática do Congo e do Sudão do Sul, tendo em conta a “trágica continuação de situações de conflito em diversas partes do mundo”.
Ao convidar os crentes (incluindo “os irmãos e irmãs não católicos e não cristãos” com as “modalidades que considerarem mais oportunas”) para um dia de “oração e jejum”, o Papa acrescentou que cada pessoa se deve perguntar, na sua própria consciência: “O que posso eu fazer pela paz?” E acrescentou: “Certamente podemos rezar; mas não só. Cada um pode dizer concretamente ‘não’ à violência naquilo que depender dele ou dela. Porque as vitórias obtidas com a violência são falsas vitórias; enquanto trabalhar pela paz faz bem a todos!”
Na sua mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa explica precisamente o sentido do jejum, relacionando-o com o fim da violência: “o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.”
Como proposta de oração para este dia de jejum, a Cáritas Portuguesa convidou um conjunto de instituições e movimentos católicos a redigir uma Via-Sacra que servisse de meditação para este dia. “Esta iniciativa resultou, primeiro, num gesto simbólico de união entre aqueles que têm por missão a evangelização e a erradicar a pobreza; segundo, num texto com um alinhamento diversificado que vive da identidade de cada uma destas organizações.” O texto está disponível aqui.
 
A propósito da violência que não se limita às guerras declaradas, merece também referência a iniciativa da Igreja Católica que, nas Filipinas, juntou aos objectivos de uma tradicional Marcha pela Vida a luta contra os assassinatos suspeitos, a declaração da lei marcial no sul do país ou a ideia de restabelecer a pena de morte. Numa semana em que assistimos a um dos mais graves massacres na guerra da Síria e a um novo massacre de jovens numa escola dos Estados Unidos, vale a pena reparar na forma como os católicos de um país se mobilizam contra a instalação de uma “cultura de violência”, como referiu o bispo Broderick Pabillo.
Uma forma de alertar consciências contra outras violências que a Europa está a infligir a muitas pessoas que no continente buscam refúgio, é aquela que propõe a paróquia da Vera-Cruz, em Aveiro: até 4 de Março, dentro da igreja paroquial, os fiéis e muitos visitantes que ali entram serão surpreendidos pelas fotografias de Ricardo Lopes feitas em campos de refugiados.
Grécia: o Purgatório Europeu, pretende mostrar “rostos, a preto e branco, cenas do quotidiano do sofrimento de quem é esquecido”. E os objectivos, como explica o pároco, padre João Alves, são mesmo o de “incomodar quem ali está ou passa, ajudar à relação entre a Eucaristia e a caridade, porque este ano é dedicado à caridade, e percebermos que a paróquia tem uma fraca sensibilidade sócio-caritativa da comunidade celebrante”. Uma reflexão mais para este tempo, como se pode ler nesta notícia.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Dois caminhos para a Amoris Laetitia em Portugal

 (foto reproduzida daqui)

Estão consagrados dois caminhos, entre as dioceses católicas portuguesas, para a aplicação da Amoris Laetitia (AL), no que respeita às orientações para a integração comunitária e sacramental dos crentes divorciados que voltaram a casar. Depois da publicação, há duas semanas, da carta Construir a Casa sobre a Rocha, do arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga
(que rapidamente fez polémica nos Estados Unidos, certamente induzida por portugueses), foi agora a vez de o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, publicar as orientações para a diocese de Lisboa sobre o mesmo tema.
Numa nota com data de anteontem, terça, dia 6, o patriarca começa por referir que, na Amoris Laetitia, o Papa fornece “o quadro geral da compreensão cristã do matrimónio e da família e oportunas indicações sobre a respetiva formação e acompanhamento”. No capítulo VIII da exortação – “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade” –, acrescenta a nota, Francisco “não esquece as situações de fragilidade, especialmente as assim chamadas ‘irregulares’, em que ao matrimónio sucedeu a rutura e um casamento civil”. Estas situações, diz ainda o patriarca de Lisboa citando o número 300 da AL, também “deverão ser acompanhadas”: “Os sacerdotes têm o dever de acompanhar as pessoas interessadas pelo caminho do discernimento segundo a doutrina da Igreja e as orientações do bispo.” 
O caminho proposto pelo patriarca diverge do de Braga (entretanto já seguido pelas dioceses de Aveiro e Viseu), precisamente e sobretudo nesta matéria: na diocese minhota, o arcebispo coloca o acento no casal e num processo de discernimento que este deve fazer. Um processo do qual o mínimo que se pode dizer é que se trata de um caminho exigente para quem decide nele entrar, pelo menos na forma como é apresentado (poderia mesmo afirmar-se que, se um caminho do género fosse seguido antes da ordenação de padres, alguns ficariam pelo caminho...).
Já em Lisboa, a responsabilidade maior é colocada no confessor ou director espiritual. Enquanto em Braga se admite que o processo pode levar o casal (com o acompanhamento de um padre ou director espiritual) a decidir-se por regressar aos sacramentos, em Lisboa acentua-se o carácter muito excepcional dessa opção e acentua-se a proposta de abstinência sexual. Em ambos os casos, sublinha-se a doutrina católica tradicional do matrimónio indissolúvel, mas admitem-se caminhos diferentes para resolver os problemas de quem acabou com o casamento desfeito. 
Pretendendo basear a sua nota em três documentos – a Amoris Laetitia, a correspondência entre os bispos da região de Buenos Aires e o Papa Francisco e as indicações dadas aos padres da diocese do Papa (Roma) pelo seu cardeal-vigário – e sugerindo a leitura desses textos na íntegra, D. Manuel Clemente acentua aquilo que, no seu entender, devem ser as “as necessárias condições de humildade, privacidade, amor à Igreja e à sua doutrina, na busca da vontade de Deus e no desejo de chegar a uma resposta mais perfeita à mesma”. (AL, 300).
Sempre citando o documento do Papa, o patriarca acrescenta que a consciência formada “pode reconhecer não só que uma situação não corresponde objetivamente à proposta geral do Evangelho, mas reconhecer também, com sinceridade e honestidade, aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus e descobrir com certa segurança moral que esta é a doação que o próprio Deus está a pedir no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo.”

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Aveiro: Silêncio no meio do barulho do "Enterro" – ou uma foto com o Papa Francisco



A tenda de oração do CUF no espaço do 
Enterro do Ano, em Aveiro

Trata-se de propor silêncio no meio de uma as festas mais barulhentas do ano, o Enterro do Ano, na Universidade de Aveiro (equivalente à queima das fitas, em outras universidades do país): o Centro Universitário Fé e Cultura (CUFC), estrutura da diocese que há 27 anos dinamiza atividades no meio universitário, propõe aos estudantes que, entre as 23h30 e as 3h30 da manhã, possam recolher-se, numa pequena “tenda de oração”, plantada em pleno recinto do Enterro. A iniciativa, que se iniciou na cidade da ria dia 24, prossegue ainda até à próxima quinta, dia 1 de Maio, quando termina a Semana.
Há ainda a possibilidade de poder tirar uma foto com o Papa Francisco. Na realidade, o Papa continua em Roma mas, quem o desejar, pode fazer-se fotografar junto de uma foto de Francisco. “É uma maneira de provocar o diálogo”, dizem os responsáveis do CUFC.
“No mundo de hoje, a construção da paz, do respeito, da verdade, da honestidade faz-se na rua, no mundo, nos lugares onde as pessoas estão. A religião é um dos bons veículos que religam estes valores de paz, de fé, de direitos humanos no mundo”, acrescenta o CUFC, que recorda que “não é nos espaços fechados que se manifesta a diversidade cultural e religiosa das pessoas”. E sendo a diversão “algo positivo, mas que implica escolhas”, o CUFC faz esta proposta com o sentido de ser a Igreja Católica a propor um espaço de tranquilidade para os jovens.
O mote para a iniciativa deste ano é “STOD –  Se Tens Olhos Dá...” Em cada dia, a proposta é dar um sorriso, um abraço ou outro gesto. Um grupo de estudantes envolveu-se na preparação do espaço e, em cada noite, vai distribuindo centenas de convites, desafiando os jovens a entrar na tenda.
A iniciativa da tenda de oração realizou-se pela primeira vez há dois anos, no Integr@te, a festa de acolhimento aos caloiros da Universidade de Aveiro. Foi repetida no Enterro do Ano de 2013, com o então bispo de Aveiro, D. António Francisco dos Santos (agora no Porto), presente numa das noites. Já neste ano lectivo, a iniciativa foi repetida no Integr@te, em Outubro.

Mais informações no sítio do CUFC na net (aqui) e na página do Facebook (aqui). 



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Padres de Aveiro tentaram evitar saída de D. António Francisco para o Porto

Novo bispo substitui D. Manuel Clemente após nove meses de espera; 
processo levantou muitas críticas em Aveiro, Porto e Lamego


D. António Francisco dos Santos, novo bispo do Porto (foto reproduzida daqui)

Um grupo de quatro padres da diocese de Aveiro tentou ontem, numa iniciativa de última hora, evitar a saída do actual bispo da diocese para o Porto. Sem sucesso: D. António Francisco foi nomeado esta manhã como sucessor de D. Manuel Clemente, nove meses depois da saída deste último para patriarca de Lisboa.
A informação, confirmada por RELIGIONLINE junto de várias fontes, não mereceu, até agora, qualquer comentário da Nunciatura do Vaticano em Lisboa, apesar do pedido de esclarecimentos feito ao final da manhã de hoje.
A reunião de ontem decorreu de forma cordata, tanto quanto foi possível apurar. Mas o núncio, o arcebispo italiano Rino Passigato, terá insistido com os quatro padres na irreversibilidade da decisão. O argumento invocado foi o da obediência ao Papa – embora a decisão seja, essencialmente, tomada pelo próprio representante diplomático da Santa Sé no país.
O padre João Gonçalves, da diocese de Aveiro, disse ao RELIGIONLINE que o sentimento de “mágoa” da diocese é “muito profundo”: D. António Francisco “está cá há muito pouco tempo [desde 2006] e, em poucos meses, temos uma segunda perda, depois da morte de D. António Marcelino”, em Outubro, lamenta.
João Gonçalves, responsável nacional pelas capelanias prisionais, acrescenta que, quando alguém é nomeado como bispo residencial de uma diocese, “há quase um matrimónio”. Por isso, ir buscar o bispo residencial de Aveiro para o Porto “começa por ser algo de estranho”. Mas o pior é que, entre o clero da diocese, o sentimento de perda, diz, “é indescritível: é a transferência de um pai”, conhecidas que são as qualidades humanas de D. António Francisco, na relação com as pessoas.
“A diocese de Aveiro não foi ouvida. E, se é verdade ter sido invocado o argumento da obediência, esse devia ser o último recurso, porque se deveria privilegiar o diálogo com a pessoa”, acrescenta.

“O que há de pior na Igreja”

O processo de escolha de um bispo começa normalmente por pedir a membros do clero que apresentem sugestões de nomes. Dessas sugestões (e das próprias ideias do núncio ou de outros bispos), são retirados três nomes – a terna –, que depois são enviados para Roma, já com as indicações do núncio do respectivo país. Pode haver casos em que há necessidade de uma segunda ou mesmo terceira lista, mas tudo é feito no maior secretismo, com juramentos das pessoas auscultadas, que podem ser excomungadas caso violem o segredo.
Este longo processo para a nomeação do novo bispo do Porto deixa, entretanto, marcas negativas em três dioceses: Aveiro, que fica sem o seu bispo; o Porto que, apesar de ser a mais populosa diocese do país, já desesperava pela nomeação; e Lamego, pois o nome que corria com mais insistência como provável para o Porto era o de D. António Couto, actual titular de Lamego.