sábado, 5 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (3) - Francisco Xavier, um “material duro” convertido em missionário

Doíam-lhe braços e garganta quando baptizava em massa na Índia. No Japão, converteu-se ao diálogo inter-religioso e percebeu que, para evangelizar, era preciso ser “bom filósofo, treinado no diálogo”. Quis ser missionário na China, mas a morte, aos 46 anos, apanhou-o na ilha de Sanchoão, às portas do Império do Meio. O seu corpo foi levado para Goa, tornando-se objecto de romaria de católicos e hindus.

[Ilustração: Manuel Henriques, S.J. (1593-1654), Milagre de S. Francisco Xavier acalmando o mar, in São Francisco Xavier - A Sua Vida e o Seu Tempo, ed. Comissariado das Comemorações do V Centenário do Nascimento de S. Francisco Xavier]

“Embora livre em relação a todos, fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número. Fiz-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para dele me tornar participante.”
(Carta de S. Paulo aos Coríntios, 9, 19; 22-23)

Foi só depois de chegar ao Japão, após 500 quilómetros a pé, feito padre maltrapilho a querer ser recebido por um imperador inexistente, que Francisco Xavier percebeu o quão errada era a estratégia que usara na Índia: aqui, passava horas a baptizar e a ensinar as orações básicas. “Os braços cansavam-se-lhe e a voz enrouquecia com tanto repetir o Credo e os Mandamentos”, escreve o padre José Leite (Os Santos de Cada Dia, vol. III).

Francisco Xavier morreu a 3 de Dezembro de 1552. Por essa razão, o calendário católico dedica hoje o dia ao “apóstolo das Índias” ou “São Paulo do Oriente”, como já foi chamado, numa alusão às viagens de missionação empreendidas pelo jesuíta.

Dois anos antes de morrer, quando chega ao Japão, Xavier percebe que está perante uma cultura superior. Nela aprecia, como revelará numa carta de 1549, a cortesia e a sobriedade, o facto de muitos saberem ler e escrever, a racionalidade e a espiritualidade. É então que se dá a sua “segunda conversão”, como lhe chama o padre e historiador jesuíta António Lopes (De Javier a Sanchoão, em São Francisco Xavier – 450 anos da sua morte, ed. Apostolado da Oração).

O missionário, que deixara Lisboa em 1541 rumo ao Oriente, percebe que tem “de pôr fim ao espírito de cruzada que até aí alimentara muita da sua própria missionação”. O jesuíta aprende então a comer com pauzinhos, a sentar-se no chão e a falar japão, como então se designava a língua e os naturais do país. Veste uma túnica de seda em vez dos trapos andrajosos com que andava, enaltece o valor da ciência, recomenda que os novos missionários sejam “bons filósofos, bem treinados no diálogo”.

Uma profunda mudança. Na Índia, a sua acção ficara “marcada por uma estranha insensibilidade a esses mundo e a essas civilizações prodigiosas”, como refere António Lopes no texto citado. A sua estratégia era pregar sucessivamente e baptizar em massa. Conta-se que, num mês, na costa de Pescaria, baptizou mais de dez mil pessoas. E depois de morrer, houve quem relatasse perante o Papa Gregório XV que ele tinha ressuscitado vinte pessoas.

Filho de uma família nobre do então reino de Navarra (que perderia a independência em 1515), Francisco Jasso d’Azpilcueta y Javier nasce em 7 de Abril de 1506. Em 1534, depois de ter ido para Paris estudar, torna-se um dos primeiros companheiros de Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus. Mas a sua integração no grupo não tinha sido fácil: Inácio dirá mais tarde que Xavier era o “material mais duro que jamais manejara”.

Foi depois de um pedido do rei português, D. João III, que solicitara ao Papa missionários disponíveis para evangelizar no Extremo Oriente, que Xavier veio para Lisboa, onde esteve a preparar a sua viagem. Em resposta ao convite, Xavier responde prontamente: “Pues, sus! Heme aqui.”

Depois de sete anos na Índia e dois no Japão, a morte surpreende-o na ilha de Sanchoão, perto de Macau e à entrada da China, para onde queria ir evangelizar. Goa reclama o seu corpo, que é trasladado para a cidade um ano após a sua morte e onde 200 mil hindus e cristãos lhe prestam uma grande homenagem. A mesma que continuará nos séculos seguintes e o tornará objecto de grande devoção, mesmo entre os hindus. É proclamado santo em 1622 e declarado padroeiro das missões católicas em 1904.


Poema - À noite do Natal, de Diogo Bernardes

Oh noite sancta, e clara, inda q escura
Te vê quê mais naõ ergue a fantesia;
Noite, que mereceste, mais que o dia,
Ver nascido JESUS da Virgem pura:

Como se naõ tornou logo em brandura
Tua grande aspereza, noite fria,
Vendo teu Criador que padecia
Teu frio como humana creatura?

Como vos desatais, oh ventos, tanto?
Porque vos derreteis, nuves em agua?
Tempo, que te naõ tornas mais sereno?

Se naõ sentis do Filho o tenro pranto,
Senti a dôr da Mãi, senti a magoa
De o guardar de vós com palha, e feno.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)

Calendário de Advento (2) - Presépio: modelar a ternura de Deus

Só nas últimas décadas a recriação de artistas diferentes deu outras dimensões ao presépio. De comum a todas elas, o barro, a pedra ou a madeira modelam, como em Francisco, a ternura de Deus.

(Foto: Presépio das Irmãzinhas de Jesus)

Tu, Senhor, é que és o nosso pai. Nós somos a argila e Tu és o oleiro. Todos nós fomos modelados pelas tuas mãos.
(Isaías 64, 7)

Conta a história que o primeiro presépio foi um teatro, encenado por Francisco de Assis, em Greccio (Umbria, centro de Itália), na noite de Natal de 1223. Havia o ambiente de um monte, o povo, um boi e um jumento. E havia uma imagem de barro, a reconstituir o Menino. Conta a lenda que, quando Francisco pegou ao colo na imagem, esta sorriu.

Na Vida Primeira (in Fontes Franciscanas - I, ed. Franciscana), uma biografia do santo, Tomás de Celano escreve que Francisco “ficou radiante” com a representação da cena. “Lá estava a manjedoura com o feno e, junto dela, o boi e o jumento. Ali receberia honras a simplicidade, ali seria a vitória da pobreza, ali se aprenderia a lição melhor da humildade.”

O texto descreve o episódio num tom entre a realidade e o maravilhoso: “A noite resplandecia como o dia (...). A recriação do mistério dá a todos novos motivos para se rejubilarem. Erguem-se vozes na floresta e as rochas alcantiladas repercutem os hinos festivos. Os irmãos entoam os louvores do Senhor, e entre cânticos de júbilo fremente decorre toda a noite. O santo de Deus está de pé diante do presépio, desfeito em suspiros, trespassado de piedade, submerso em gozo inefável.”

Tomás de Celano explicava que Francisco “tinha tão vivas na memória a humildade da Encarnação e a caridade da Paixão que lhe era difícil pensar noutra coisa”. E o presépio “tornava mais visível a humildade do Filho de Deus e de sua Mãe, ‘a Virgem pobrezinha, que fez irmão nosso o Senhor de toda a majestade’”, como dizia o próprio Francisco de Assis.

Já existiam, antes, outras representações do nascimento de Jesus: frei Lopes Morgado, franciscano capuchinho, cita (Presépios em Barro, ed. Museu da Olaria de Barcelos) vários exemplos, só em Roma: um sarcófago de 343, que hoje se pode ver no museu da Basílica de São João de Latrão, no qual se reproduz o Menino deitado num berço de palha, com um boi e um jumento ao lado; representações da adoração dos magos em várias catacumbas; e um impressionante conjunto de mosaicos, na Basílica de Santa Maria Maior, retratando episódios ligados ao nascimento de Jesus.

Na noite de Natal de Greccio, o Poverello queria ligar o mistério da Natividade à vida quotidiana e, ao mesmo tempo, vincar a pobreza que envolveu o nascimento de Jesus. De tal modo o fez que o tornou ainda mais pobre. O evangelho segundo S. Lucas conta que a mãe “envolveu” o menino em panos, recostando-o “numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria”. No presépio de inspiração franciscana, o bebé está desagasalhado, quase desprotegido.

Esse modo de representar perdurou, quase em exclusivo, até há bem pouco tempo – inclusive nos grandes presépios barrocos portugueses. Só nas últimas décadas a recriação de artistas diferentes deu outras dimensões ao presépio. De comum a todas elas, o barro, a pedra ou a madeira modelam, como em Francisco, a ternura de Deus.

No livro de Isaías, um dos textos mais lidos durante o Advento, insiste-se várias vezes na ideia de Deus como um pai que conhece, ama e vai ao encontro dos seus filhos. “Volta-te para nós, por amor dos teus servos (…) Vais ao encontro daquele que pratica o bem com alegria e se recorda de ti seguindo os teus caminhos.” (Isaías 63, 17 e 64, 4)


Um presépio para a subsistência
Entre as novas representações do presépio, a recriação feita desde há quatro décadas pelas Irmãzinhas de Jesus destaca-se pela intencionalidade das figuras. O inspirador desta congregação tinha uma espiritualidade franciscana: Charles de Foucauld, que foi beatificado em 2005, viveu no início do século XX no deserto argelino, entre os tuaregues, acabando assassinado. Nas imagens do presépio, criado há quatro décadas por Jacqueline Suzanne, escultora que entretanto integrou a congregação, exprimem-se esses traços: o Menino, de mãos estendidas como quem se dá, mostra um sorriso aberto; José, ajoelhado, evidencia a confiança para lá da dúvida; Maria, também de joelhos, abre as mãos entregando o bebé. Os olhares, orientais, remetem para a Ásia onde Jesus nasceu. O presépio, hoje recriado a partir de moldes e feito em bairro, é um dos trabalhos artesanais que garante às Irmãzinhas de Jesus a sua subsistência.


Poema - Non tendes cama bom jesus não (autor anónimo)

Non tendes cama bom jesus não
non tendes cama senão no chão
sendo filho de deus eterno
non tendes cama senão de feno
sendo vos deus humanado
nas palhas estais lançado
[Non tendes cama bom jesus não
non tendes cama senão no chão]
(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

Calendário de Advento (1) - Advento, uma pedagogia do desejo


Advento? O que é isso? Jesus Cristo nasceu mesmo a 25 de Dezembro? O que celebram os católicos a 8 de Dezembro, que os protestantes rejeitam? E o nascimento é valorizado no islão ou no budismo, tal como o cristianismo fala do nascimento de Jesus? São a perguntas como estas a que aqui se tenta responder, repescando um calendário do Advento especial, já publicado no “Público” em 2005, e aqui actualizado em alguns pormenores: à semelhança dos tradicionais calendários da época que antecedem o Natal, cada dia será aberta uma janela sobre temas ligados ao Natal ou a este tempo do calendário cristão. Em cada dia inclui-se um poema também então publicado no jornal e, por vezes, pequenas notas à margem do tema.

(Ilustração: Loujaina Al-Assil, Síria: A criação de Alá, in "La Creazione, Seconda Rassegna Internazionale di Illustrazione per l'Infanzia, Ed. Messagero, Padova)


Durante as quatro semanas que antecedem o Natal e lhe servem de preparação, o espírito abre-se, progressivamente, à festa do primeiro mistério cristão. E é de esperança, de vigilância activa que se fala, quando se fala do Advento.

“Tenho acerca de vós desígnios de prosperidade e não de calamidade, de vos garantir um futuro de esperança.”
(Jeremias, 29, 11)

Advento é tempo novo, presente ainda por desembrulhar. Não por acaso, os cristãos iniciam o seu calendário litúrgico (que é como quem diz, um novo ano) com o primeiro domingo do Advento – que foi, este ano, no domingo passado. Durante as quatro semanas que antecedem o Natal e lhe servem de preparação, o espírito abre-se, progressivamente, à festa do primeiro mistério cristão: Deus nasce e vive no meio da humanidade.

De esperança, de vigilância activa se fala quando se fala do Advento. A um tempo novo, corresponde uma esperança renovada. Experiência profunda do quotidiano, essa vontade de recomeço perante tantas agruras da vida: tensões, sofrimentos, inimizades, anseios não concretizados, doenças, rupturas. E, no meio delas, sempre uma centelha. Tantas vezes chamada esperança. “Inúmeros são aqueles que aspiram hoje a um futuro de paz, a uma humanidade livre das sombras da violência”, escrevia há um ano o irmão Roger, de Taizé, na carta Um Futuro de Paz.

No interior dessa profunda experiência humana, os cristãos celebram uma dupla expectativa: a memória do nascimento de Jesus, para eles o próprio Deus que acampa no seio da humanidade; e a esperança – o desejo – da última vinda de Cristo no fim dos tempos, como senhor da história. Como escreve o salmista (Salmo 63, 2): “Ó Deus, Tu és o meu Deus! Anseio por ti! A minha alma tem sede de ti; todo o meu ser Te deseja, como terra árida, exausta e sem água.”

História e futuro conjugam-se para trazer ao Advento magia, gestos, símbolos. Velas e luzes, presentes que se trocarão, rostos que se abrem. Ou a coroa do Advento, costume iniciado no Norte da Europa e da América: quatro velas, colocadas numa coroa de ramos verdes, que se podem acender domingo após domingo. Sinais de esperança, justiça, alegria ou paz.

Memória e expectativa, sempre. Tal conjugação torna o Advento o tempo do desejo e da sua pedagogia, como escreve Domenico Pezzini (O Tesouro e o Barro, ed. Paulinas): durante estas quatro semanas, na liturgia (católica, no caso), há um verbo que “resume o grito em que se condensam todas as expectativas: ‘Vem!’ Grito que brota da solidão, da angústia, da fragilidade e do medo de todos aqueles sentimentos que marcam brutal e dolorosamente a nossa incompletude e a relativa necessidade de que alguém venha, precisamente, socorrer-nos.”

Um grito assim é atirado “em todas as direcções, não necessariamente e talvez só raramente em direcção a Deus”. Mas se o que cada um procura é um bem que espera alcançar, é Deus “que, no fundo, invoca[mos]”.

A espera de Deus, o desejo de Deus, portanto: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei”, confessa Santo Agostinho (Confissões, Livro X, XXVII, 38). Mesmo se essa beleza, Deus, se manifesta, no final, como uma criança nascida entre pastores, os últimos do povo, os mais desprezados pelo sistema religioso da época em que Jesus nasce. “E eis que estavas dentro de mim e eu fora, e aí te procurava. (…) Chamaste, e clamaste, e rompeste a minha surdez; brilhaste, cintilaste, e afastaste a minha cegueira; exalaste o teu perfume, e eu aspirei e suspiro por ti.”


Poema - Breve Sumário da História de Deus, de Gil Vicente

Adorai, montanhas,
o Deus das alturas,
também das verduras.

Adorai, desertos
e serras floridas,
o Deus dos secretos,
o Senhor das vidas.
Ribeiras crescidas,
louvai nas alturas
Deus das criaturas.

Louvai, arvoredos
de fruto prezado,
digam os penedos:
Deus seja louvado!
E louve meu gado,
nestas verduras,
o Deus das alturas.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Nos 400 anos do Telescópio

do telescópio avistei os confins
no microscópio mirou-me o átomo.
entre a imensidão do espaço
e o infinitamente pequeno
surgirá o interiorscópio:
iluminará as caves de nós
desabitadas pelo excesso de luz
e ruído que à nossa volta
encandeia os olhos dos dias
onde germinam as esperas.

Emanuel do Souto

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Um "duro golpe contra a liberdade religiosa"

Os líderes religiosos coincidem: o resultado do referendo suíço [sobre a interdição da construção de minaretes] representa "um duro golpe contra a liberdade religiosa" e mina a convivência social. O arcebispo Antonio Maria Sveglio, presidente do Conselho Pontifício para os Migrantes, confirmou que o Vaticano pensa o mesmo que os bispos suíços.

(Ler mais na edição online do Público)

A este propósito pronuncia-se no mesmo jornal Paulo Mendes Pinto, Director da licenciatura em Ciências das Religiões na Univ. Lusófona. Um excerto:

" (...) Há poucos dias, apenas 37 por cento dos inquiridos dizia ir votar a favor da proposta. Neste fim-de-semana, foram bem mais os que o fizeram, quase 60 por cento. De interessante na análise dos votos, há que dizer que nos cantões de língua alemã se votou mais explicitamente a favor da proibição, enquanto nos francófonos optaram por ir contra a proposta. Significados? Talvez a dita herança de Calvino, quem sabe?

Um dos lados preocupantes desta situação encontra-se no apelo do Governo de Berna à população: não votar a favor da proposta, pois levantaria "incompreensão no estrangeiro e prejudicaria a imagem da Suíça". Tudo se pode resumir a imagem. Quando a ética chega a este ponto, mais vale recolhê-la e esquecer os três últimos séculos de criação daquilo a que efectivamente chamamos Europa: igualdade, liberdade e fraternidade, muito bem alimentados pelo ensino, a massa de união que fortalece estes valores únicos que trazemos do Iluminismo.

E é aqui que o meu espanto vai ainda mais longe. Como podemos olhar para a Democracia quando a vemos ser usada pela extrema-direita como forma de a subverter? Sim, esta proibição, que corta direitos fundamentais de cidadania, foi aprovada democraticamente! E o Governo apela através da imagem para o exterior...

No fim disto tudo, regressando ao ensino, o garante esclarecedor da cidadania, esse sai brutalmente mal desta situação surreal. O país de Pestalozzi, entre tantos outros pedagogos ainda hoje enaltecidos, demonstrou que a instrução pode muito bem nada ter a ver com o esclarecimento colectivo. Os medos, o receio pela diferença são formas muito mais eficazes de controlar as populações.

As portas que se abrem com este referendo são monstruosas. Grandes, bafientas, revelam, na penumbra que nos apresentam, o que de pior a Europa tem sido capaz de fazer. Onde estão as luzes? A não ser as dos bancos... parece que se apagaram..."

(Foto: Minarete El-Maiwya, Samarra, séc. IX)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Natal com presentes solidários

“Por um mundo mais justo e fraterno é o lema da campanha ‘Presentes Solidários’, que a Fundação Evangelização e Culturas promove pelo quarto ano consecutivo”, noticia a edição de hoje do Página 1.
Conta este jornal digital da Rádio Renascença que “nesta campanha, com o mesmo presente pode fazer sorrir um amigo e contribuir para melhorar a vida de alguém em Angola, na Guiné ou em Timor. São presentes diferentes, que não se encontram nas lojas, mas podem melhorar a vida dos mais desfavorecidos nos países de língua portuguesa. Há um ‘presente solidário’ por cada país, escolhido de acordo com as necessidades locais, segundo explica Emanuel Oliveira, acrescentando que ‘os parceiros no terreno, com os quais trabalhamos, identificam algumas dificuldades das comunidades locais e fazem-lhes chegar estes presentes solidários.’
Os presentes deste ano estão num catálogo que pode consultar na Internet devendo fazer também aí a sua encomenda. ‘Vai receber, depois, um postal comprovativo da compra e que pode oferecer a um amigo ou familiar por isso esta campanha se designa dar a duplicar’. Por exemplo, compro leite para uma criança na Guiné, recebe-se em troca um postal, que posso dar a um amigo ou a um familiar, para indicar que esse presente foi dado em seu nome’, diz Emanuel Oliveira”.
A campanha, recorda o Página 1, prolonga-se até ao Dia de Reis e a Fundação Evangelização e Culturas espera ultrapassar este ano os cerca de quatro mil presentes de 2008, ajudando pessoas, famílias ou comunidades desfavorecidas nos países de língua portuguesa.

“Natal de outro modo”

O grupo cristão ecuménico, constituído por 24 movimentos, que, desde há cinco anos, em França, anima as campanhas “Natal de outro modo” escolheu como tema deste ano o aquecimento do planeta.
Pedindo que “Não confundamos a Terra com um peru” e que, “No Natal, aqueçamos os corações”, a campanha, conta o semanário La Vie, quer propor a cada pessoa uma reflexão sobre a sua própria responsabilidade em, simultaneamente, salvaguardar o planeta e agir solidariamente. Os movimentos signatários da campanha aproveitam o tempo de Natal para promover uma reflexão sobre o significado profundo desta quadra. “O essencial desta festa está no consumo forçado ou na solidariedade e na responsabilidade?” Cada um é, portanto, convidado a colocar em causa os comportamentos que concorrem para o aquecimento climático (desperdício de energia, excesso de prendas e de comida…) e a privilegiar os laços que unem os habitantes do planeta. O site da campanha tem interessantes pistas de reflexão e inúmeros conselhos para agir. Em França ou em Portugal.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A arte precisa de espiritualidade, o espiritual precisa da arte



Sábado passado, o Papa encontrou-se com 260 artistas de todo o mundo (predominância para os italianos). De Portugal, foi convidado o poeta José Tolentino Mendonça. O encontro decorreu na Capela Sistina (a foto é do tecto), com a envolvênca dos frescos de Miguel Ângelo. No sítio da Pastoral da Cultura pode agora ser lida uma tradução oficiosa do discurso de Bento XVI.

Uma proposta para este fim de tarde

Hoje, a partir das 18h30, a Fundação Mário Soares (Rua São Bento, em Lisboa), será o local de apresentação do livro "Dança dos Demónios - Intolerância em Portugal". Esta obra, coordenada pelo historiador José Eduardo Franco e por mim, inclui dez textos de grande qualidade sobre a oposição violenta a determinados grupos (seja essa violência física, dutrinal ou psicológica).

A lista de temas, pela ordem dos nomes que aparecem no convite ao lado, é a seguinte: Antifeminismo, Antiliberalismo, Anti-semitismo, Anti-islamismo, Antiprotestantismo, Antijesuitismo, Antclericalismo, Anticomunismo, Antimaçonismo e Antiamericanismo.

Para que se possa ter uma ideia do conteúdo do livro, fica aqui um texto adaptado da introdução do mesmo:

"O inferno são os outros"? Organizado em dez temas, este livro pretende mostrar que há movimentos e atitudes culturais que constroem uma história de que não se fala e permanecem como atavismos que só a consciência democrática e culturalmente fundada poderá vencer.

Os temas aqui reunidos falam de mitos de complô, estruturam-se na suspeita e na diabolização, no medo e na fobia, conduzem ora ao desejo de exclusão, ora à tentativa de absorção e apagamento da cultura do outro, ou ainda ao desenvolvimento de mecanismos sociais e culturais de limitação de direitos e liberdades.

Há uma forma mentis maniqueísta e intolerante, comum a todos estes fenómenos, que vê o Outro como inimigo a abater, como uma negação extrema do Nós. Seja qual for o grupo de que se fala – judeus ou muçulmanos, feministas, jesuítas, liberais ou maçons – ele é sempre tomado como secreto. Por vezes, as vítimas de uma determinada época histórica passam a carrascos no momento seguinte. E vice-versa. Outras vezes, o inimigo muda de rosto ou vários inimigos passam a alvo do mesmo preconceito.

Em todos os casos, esta demonização do outro ignora que a humanidade se construiu e continuará a construir precisamente na base de intersecções sucessivas. Contando com a colaboração de dez investigadores reconhecidos, cada texto perscruta a génese e evolução do fenómeno em causa, apresenta a sua doutrina ou traços ideológicos e estuda a sua recepção cultural, literária ou mental.

Este projecto constitui, assim, um contributo para a análise e compreensão histórica, cultural e ideológica das imagens construídas, em forma de abominação, em torno das diferentes mundividências, modos de estar, pensar e agir que se afirmaram em Portugal.

sábado, 21 de novembro de 2009

Qual choque de civilizações?

Não são as religiões a causa principal dos males da humanidade. É nos seus intérpretes que encontramos, absolutismos, lutas de poder, bipolarização entre bem e mal, "verdades" e "pecados", dominantes e dominados.

Foi num contexto parecido que o Profeta Muhammad [Maomé] se cruzou e conversou com os cristãos excluídos que escolheram outros caminhos de amor e fé, fugindo de alguma ortodoxia cristã. Com eles organizou tertúlias, procurou a fé, a razão, a saída da ignorância. Os ensinamentos de Jesus transmitidos por estes cristãos arabizados moldaram o pensamento e a espiritualidade árabe e muçulmana de formas profundas e desconhecidas.

Mawlana Rumi (séc XIII), por exemplo, um poeta sufi mundialmente conhecido, escreveu vários poemas sobre Jesus. Dizem que numa igreja cristã em Shiraz, no Irão, um verso de Rumi cravado em pedra, sobre a porta de entrada, diz o seguinte:

Onde Jesus vive, as pessoas de grande coração congregam.
Somos uma porta que nunca se tranca
Se sofres de qualquer tipo de dor,
Fica perto desta porta. Abre-a.

(Faranaz Keshavjee, em Crónicas de Uma Muçulmana
- excerto de um texto que pode ser lido na íntegra aqui.)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Peça de Gil Vicente e conferências sobre Deus

O Teatro Nacional São João (TNSJ - Porto) apresenta, a partir de hoje, a peça de Gil Vicente “Breve Sumário da História de Deus”. No Porto, pode ser vista até 20 de Dezembro, de terça a sábado às 21h30 e ao domingo às 16h. De 8 a 31 de Janeiro de 2010, estará no Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa).

Em paralelo com o espectáculo, acontece o ciclo de conferências “O que resta de Deus”. A primeira é no dia 26 de Novembro, às 18h30, no Salão Nobre do TNSJ, com José Tolentino Mendonça e Armando Silva Carvalho. Moderação de Jacinto Lucas Pires.

TNSJ

O que resta de Deus

Manual de Leitura de "Breve Sumário da História de Deus"

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Interrogar a beleza

Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar amplo e difuso;
interroga a beleza do céu, interroga a ordem das estrelas;
interroga o sol, que com o seu esplendor ilumina o dia;
interroga a lua, que com sua claridade modera as trevas da noite;
interroga as feras que se movem na água, que caminham sobre a terra, que voam no ar: almas que se escondem, corpos que se mostram; visível que se deixa guiar, invisível que guia. Interroga-os!
Todos te responderão: Vê-nos: somos belos! Sua própria beleza se dá a conhecer. Esta beleza imutável, quem a criou, senão a Beleza imutável?”

Santo Agostinho, Sermão CCXLI, 2: PL 38, 1134, texto evocado ontem, em Roma, por Bento XVI, numa catequese sobre a beleza das catedrais românicas e góticas.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Isto é uma igreja?

Há uma nova igreja cuja construção foi iniciada na zona do Restelo (Lisboa). Feia, a avaliar pela maquete, que se pode ver aqui. Com uma linguagem arquitectónica fora de tempo, no que a este tipo de construção diz respeito. Mesmo admitindo que, depois da discreção a que os templos católicos se remeteram na década de 60, as igrejas devem ter uma arquitectura que as diferencie do tecido urbano, esta é uma linguagem de imposição e não de diálogo, como diz o arquitecto Diogo Lino Pimentel na mesma notícia. Também a conjugação dos diversos corpos não funciona: um minarete de mesquita, um barco cortado a meio, um edifício de serviços a surgir do corte... Não vale tudo, mesmo quando um projecto é oferecido. Não há por aí outro arquitecto que ofereça outro projecto?

Já agora: usar o argumento de que a Igreja de São Vicente de Fora está fechada e precisa de obras (como se dizia aqui, citando o Fórum Cidadania Lisboa, pelo qual tenho grande respeito), é despropositado... As igrejas que precisam de obras devem ser recuperadas. Mas uma coisa tem que impedir outra, ainda por cima em locais diferentes da cidade? O projecto e a linguagem são outra discussão - e é essa que vale a pena.


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Papa condena especulação no preço dos alimentos na abertura da cimeira da FAO

O Papa Bento XVI esteve esta manhã na cimeira da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), manifestando-se vigorosamente contra a "especulação" na produção de alimentos. Quando o pão quotidiano ainda é uma miragem para tantos milhões de pessoas, o Papa alertou para o risco de que a fome se torne "como algo estrutural, parte integrante da realidade sócio-política dos países mais débeis, objecto de resignada amargura, senão de indiferença".
A intervenção do Papa está resumida aqui e aqui. O texto integral do discurso de Bento XVI pode ser lido aqui (em espanhol; a alternativa é o italiano, também no sítio do Vaticano).

[Foto: © Maria Duarte Marujo]

Os «Vencidos do Catolicismo» - Militância e atitudes críticas (1958-1974)

Os «Vencidos do Catolicismo» - Militância e atitudes críticas (1958-1974) é o título de um livro de Jorge Revez que o Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa acaba de editar. Aborda "uma linha de pensamento e acção que conduziu um conjunto de pessoas à desilusão e não poucas vezes à ruptura com a própria Igreja".
O ponto de partida - que, de resto, contém o título do livro - é um poema de Ruy Belo que começa assim:

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana


"Partindo deste poema e do seu contexto - escreve o autor - procurámos compreender as atitudes críticas de um conjunto de católicos, face à instituição eclesial, desde a década de 50, quando o projecto de recristianização da sociedade portuguesa conheceu um período de abrandamento que culminaria com a campanha para a Presidência da República do General Humberto Delgado, em 1958, até ao 25 de Abril de 1974, data da Revolução dos Cravos, que poria fim ao Estado Novo, iniciando um processo de transição no qual os católicos participam activamente".
Um excerto da introdução pode ser lido no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

domingo, 15 de novembro de 2009

Bento Domingues: "A laicidade não é inocente"

"Crucifixos e laicidade" é o título da coluna dominical de Bento Domingues, no Público. reflecte o alcance da recente decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos relativa à queixa contra a presença de um crucifixo numa escola, concluindo que a escola pública não tem religião nem pode usar símbolos religiosos. Eis o texto:

1.Segundo os meios de comunicação, perante a queixa de uma mãe, Soile Lautsi, que, em 2002, exigiu a retirada dos crucifixos na escola pública de Vittorino da Feltre (Pádua), onde os seus filhos estudavam, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, em Estrasburgo, acaba de lhe dar razão - a escola pública não tem religião nem pode usar símbolos religiosos - e condena o Estado italiano a pagar-lhe uma multa de cinco mil euros por danos morais.

Esta decisão é considerada, por uns, como lamentável, por outros, como uma decisão histórica na afirmação da laicidade do ensino público e na defesa da liberdade individual em matéria religiosa na Europa. Na Itália, a sua rejeição parece bastante generalizada, o Governo italiano vai recorrer da decisão e o Vaticano está de acordo.

Em Portugal, em 2005, este tema prometia um balão de polémicas. Pela voz de D. Carlos Azevedo, então porta-voz da CEP, foi esvaziado com declarações muito descontraídas, cheias de bom senso, que não davam para alimentar a ira dos laicistas. Da parte do Governo também não houve nenhuma vontade de precipitação e, em várias instâncias, foi-se abrindo caminho para soluções que respeitem a laicidade, a liberdade de crer e não crer e a presença das religiões na escola pública, para aqueles que não as consideram fonte de alucinação.

2.Continuaremos, no entanto, confrontados com vários aspectos das problemáticas em torno desta questão, pois, nem o mundo nem a Europa esgotaram as suas surpresas nos séculos XIX e XX. Felizmente, dispomos, entre nós, de algumas referências que podem ajudar a não ser simplistas com soluções abstractas que não tenham em conta a complexidade do devir histórico das sociedades e mentalidades. Destaco uma obra incontornável, de perspectiva histórica, de Fernando Catroga, com prefácio de Anselmo Borges (1), e um texto indispensável de Eduardo Lourenço, elaborado nas fronteiras da história cultural, da filosofia e da teologia, lembrando que a laicidade não é inocente se não comporta distância em relação à tentação de se fechar sobre si como "discurso de verdade" (2).

A laicidade pode ser vista, antes de mais, como um processo histórico desencadeado como efeito da secularização, isto é, da perda de influência social da religião e da sua capacidade configuradora da história, manifestada na autonomia da ciência, da política, da filosofia, da economia e da própria moral. A partir do Vaticano lI, redescobriu-se oficialmente que a própria autocompreensão do cristianismo exige a autonomia das realidades temporais. Por outro lado, a essência da laicidade não está na separação entre o Estado e a Igreja ou a religião e a política e nem se limita, sequer, à questão religiosa. Como observa o historiador Émile Poulat, o que está em jogo na laicidade é, antes de mais, uma concepção do ser humano e o papel da consciência individual. O facto da separação da esfera civil e política da esfera religiosa e eclesiástica só atinge o seu verdadeiro sentido quando essa separação é posta ao serviço da primazia da consciência e da defesa da liberdade humana.

3.Não basta, por isso, considerar a laicidade como um valor e um património histórico, cultural e político comum à Europa e à cultura ocidental, ignorando a sua raiz e origem profundamente religiosas e, concretamente, cristãs. Foi nesse contexto que nasceu e se desenvolveu. É difícil compreender a sua génesis e sentido fora da matriz que o cristianismo lhe proporcionou.

É certo que os processos de laicidade e sua implantação se desenvolveram em confrontações abertas com a religião e com a Igreja, rompendo com a sua abusiva tutela. Apesar dessa beligerância, não se pode esquecer que as noções de pessoa e humanismo, de autonomia e liberdade e direitos humanos ou da própria noção de separação do poder político e religioso só se tornam compreensíveis a partir da tradição cristã e judaico-cristã. Para Marcel Gauchet, como para vários outros analistas, a concepção laica da realidade do mundo, da natureza e do vínculo social constituiu-se, essencialmente, no interior do campo religioso, alimentou-se da sua substância e encontrou, aí, o meio para desabrochar como expressão das suas virtualidades fundamentais.

O quadro dualista, em que se tem movido a confrontação entre Igreja e Estado, religião e política, tornou-se insuficiente para entender as novas formas de expressão religiosa, a visibilidade pública da fé e as manifestações públicas do religioso no mundo actual. Como nota o já citado Émile Poulat, "a Igreja e a religião perderam o estatuto público de que gozavam no espaço público e, com ele, deixaram de ser um poder, mas encontraram um lugar legítimo na sociedade civil - essa grande família de corpos intermédios entre o Estado e os cidadãos - a partir do qual podem continuar a ser uma autoridade. Serão referências, tanto mais autorizadas e desejadas, quanto mais afastarem qualquer tentação de dominação política, social, cultural, económica ou religiosa".

O seu reino não é o das querelas de imagens, mas o seguimento do Crucificado no serviço dos excluídos.

(1) Entre Deuses e Césares, Coimbra, Almedina, 2006.

(2) Religião - Religiões - Laicidade, in Europa e Cultura, Gulbenkian, 1998, pp. 71-78.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Músicas que falam com Deus (3) - Istambul, de Jordi Savall


Istambul (ou Constantinopla) foi, durante séculos, lugar de encruzilhadas geográficas, culturais, religiosas e políticas. Tal como outras cidades – Tessalónica ou Jerusalém, por exemplo –, atraiu a si pessoas idas de diferentes latitudes, culturas ou credos.


Um dos notáveis que viveram na cidade foi Dimitrie Cantemir (1673-1723), príncipe da Moldávia, que chegou a Istambul em 1693, com 20 anos. Ali viveu cerca de duas décadas, primeiro como penhor da fidelidade do seu pai ao sultão, depois como representante diplomático do pai e do irmão enquanto governadores da Moldávia.

Interessado por história, pelo estudo das religiões e da filosofia, artes e música, ficou conhecido como intérprete de tanbur, uma espécie de alaúde, no qual seria exímio: “Nenhum constantinopolitano podia tocar melhor que ele”, escrevia o cronista Ion Neculce, citado por Jordi Savall no livro que acompanha o disco. Cantemir reuniu na antologia “Livro da Ciência da Música” 355 composições (nove das quais compostas por ele próprio) naquela que é a mais importante colecção de música instrumental otomana dos séculos XVI
 e XVII conhecida.

No disco, Jordi Savall coloca em diálogo a música do “Livro da Ciência da Música”, da corte otomana do século XVII, com a música tradicional sefardita (dos judeus oriundos de Espanha e Portugal) e arménia, populações acolhidas no império da Sublime Porta e representadas nos músicos da corte. O disco recria esse ambiente reunindo músicos da Turquia, Arménia, Israel, Marrocos e Grécia, além dos do Hespèrion XXI. Como nota Savall, sabemos muito pouco do Império Otomano. Por isso este disco é também uma revelação do gosto pela música numa nação com reputação de bárbara no Ocidente.

(Istanbul, de Dimitrie Cantemir, interpretado por Hespèrion XXI com direcção de Jordi Savall; Alia Vox, 2009; info: vgm@plurimega.com)

[Texto publicado na revista Além-Mar, de Novembro de 2009]

Sobre o futuro da Igreja Católica

De John L. Allen Jr., correspondente em Roma da revista National Catholic Reporter, acaba de ser publicado The Future Church: How Ten Trends Are Revolutionizing the Catholic Church (Doubleday, 2009).
Não tendo ainda tido acesso ao livro, deixo aqui a indicação de uma recensão ("A new Catholic horizon") e do blog criado pelo autor para comentar e acompanhar o percurso da obra agora lançada.
Foi igualmente disponibilizado um extracto do qual transcrevo:
"Um catolicismo horizontal autêntico não poderá existir por um fiat hierárquico. Terá que vir ao de cima a partir da base, como expressão de uma vontade das pessoas de que algo seja feito. Esperar que o Vaticano ou os bispos actuem ou acusá-los de agir de maneira errada, não vai alterar muito as coisas. Não passa de clericalismo acreditar que tudo na igreja depende do clero, ou que nada de útil pode ser feito enquanto Roma não virar uma nova página. Uma tal posição interpreta mal tanto a teoria como a prática de como a mudança opera na igreja".

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

"Esqueçamos a hora de Inverno"

Não será chegado o tempo de nos emanciparmos do constrangimento imposto pelo Estado de todos vivermos à mesma hora? A pergunta é de Eduardo Jorge Madureira, parafraseando Elie Arié. A ler.