Nesta sexta-feira, houve desenvolvimentos no trágico caso do bispo negacionista Richard Williamson. O Vaticano fez saber, através do seu porta-voz, que o suposto pedido de desculpas formulado pelo bispo não chega - podem ler-se aqui os pormenores. Ao fim do dia, o superior da Fraternidade Sacerdotal São Pio X era citado pela France Presse, afirmando que o grupo que dirige "não" está pronto a reconhecer o Concílio Vaticano II. A entrevista foi dada quinta-feira ao "Courrier" de Genebra e a pergunta era clara: "A Fraternidade está pronta a reconhecer o Vaticano II?" A resposta também: "Não."
Depois disto, continua sem se perceber o que faz correr o Papa. O desejo de unidade? Qual unidade? Com quem há mais de quatro décadas rejeita o essencial da herança do Vaticano II? A Santa Sé já cedeu à possibilidade de celebrar a missa em latim; cedeu depois no levantamento da excomunhão. A Fraternidade insiste em que não está pronta para reconhecer a herança conciliar. Tudo isto soa estranho. E mais ainda: se agora o movimento integrista viesse dizer que, afinal, aceita o pensamento do Vaticano II, que significaria isso? Que os seus membros andaram 40 anos enganados? Que aquela questão essencial que os levou a contestar as mudanças no catolicismo não passa, afinal, de um pormenor pouco importante? Que tudo vale em nome de um estranho conceito de unidade?
Tudo isto soa muito estranho.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Autocarros ateus e cristãos
Anselmo Borges refere-se, na sua crónica no DN deste sábado, à "guerra" de autocarros sobre Deus que tem chegado a várias cidades europeias.
O slogan "Deus provavelmente não existe. Deixe, pois, de se preocupar e goze a vida", que tinha começado por percorrer Londres, chegou à Espanha, nomeadamente a Barcelona e a Madrid, devendo alcançar outras cidades espanholas.
Como já aqui escrevi, trata-se, antes de mais, de um acto de liberdade de expressão. No quadro do respeito pela lei, todos têm direito a manifestar as suas opiniões e crenças. Este direito é, evidentemente, extensivo aos ateus.
Depois, é interessante que no "cartaz" se leia: "provavelmente". Não se diz que não há Deus, diz-se que "provavelmente" não há. Isto significa que os autores dos cartazes perceberam que não podem demonstrar a não existência de Deus. A afirmação da existência de Deus ou da sua não existência não é objecto de ciência, pois não pode haver verificação empírica. O ateu não pode dizer que "sabe" que não há Deus; ele apenas pode dizer que "crê" que não há Deus. Como o crente também não "sabe" que Deus existe; ele "crê" que Deus existe.
E entende-se todo este movimento ateu, que deve obrigar os crentes a pensar. Não foram frequentemente os crentes que deram uma imagem de Deus que obrigava ao ateísmo? Não se deve ser ateu face a um Deus mesquinho e ridículo - pense-se, por exemplo, no criacionismo americano, segundo o qual os primeiros capítulos do Génesis devem ser tomados à letra -, invejoso da alegria dos humanos e impedindo a sua realização e felicidade?
É precisamente o que se dá a entender na segunda parte do slogan: "Deixe de se preocupar e goze a vida." Deus aparece como impedindo a alegria de viver, de tal modo que a probabilidade da sua não existência seria o pressuposto para finalmente se viver de modo expansivamente humano.
Isso deve levar os crentes a reflectir, pois, embora seja fonte de vida, de salvação e realização plena da existência, de facto, muitas vezes foi pregado um Deus que amesquinha a vida, um Deus incompatível com a ciência, um Deus vingativo - ele até apanharia os ateus no inferno... -, um Deus desgraçadamente invocado para legitimar o que é contra Deus: a violência, o terrorismo, a guerra.
Mas também é preciso perguntar aos autores dos cartazes: que entendem por "deixe de preocupar-se e goze a vida"? Seja como for, crentes e não crentes têm de viver com responsabilidade e empenhar-se na luta por uma vida boa e justa para todos.
O lema do cartaz programado para a Itália pela União de Ateus e Agnósticos Racionalistas seria: "A má notícia é que Deus não existe. A boa é que não é preciso."
Parece que foi impedido pelas autoridades. Lamentavelmente, pois esta publicidade dos autocarros ateus obriga toda a gente a pensar e é bom e urgente pensar no mais importante. O pior é não pensar, não se interrogar. A pergunta por Deus, seja para afirmá-lo seja para negá-lo, é a pergunta maior e é mesmo o fundamento da dignidade humana. O ser humano é digno, porque pode perguntar pelo Infinito.
Mas, afinal, Deus não é preciso? Também o crente reconhece que Deus não pode ser um tapa-buracos, a compensação para a nossa ignorância e impotência, a legitimação ideológica da ordem social e política ou a chave de abóbada de um sistema.
De qualquer modo, Deus tem a ver com o sentido último e a salvação. Foi talvez neste quadro que Nietzsche, sete anos antes de enlouquecer, escreveu a Ida, mulher do amigo F. Overbeck, pedindo-lhe que não abandonasse a ideia de Deus: "Eu abandonei-a, não posso nem quero voltar atrás, desmorono-me continuamente, mas isso não me importa." Como escreveu Wittgenstein, "crer num Deus quer dizer compreender a questão do sentido da vida, ver que os factos do mundo não são, portanto, tudo. Crer em Deus quer dizer que a vida tem um sentido".
Nas ruas de Madrid, compareceram também autocarros cristãos: "Deus existe. Desfruta a vida em Cristo." Claro que há esse direito. Mas seria lamentável uma "guerra" de cartazes. Os crentes devem sobretudo testemunhar Deus pela vida, pelo combate a favor da justiça, pelo amor. E é também fundamental uma pastoral da inteligência, no diálogo entre a fé e a razão.
O slogan "Deus provavelmente não existe. Deixe, pois, de se preocupar e goze a vida", que tinha começado por percorrer Londres, chegou à Espanha, nomeadamente a Barcelona e a Madrid, devendo alcançar outras cidades espanholas.
Como já aqui escrevi, trata-se, antes de mais, de um acto de liberdade de expressão. No quadro do respeito pela lei, todos têm direito a manifestar as suas opiniões e crenças. Este direito é, evidentemente, extensivo aos ateus.
Depois, é interessante que no "cartaz" se leia: "provavelmente". Não se diz que não há Deus, diz-se que "provavelmente" não há. Isto significa que os autores dos cartazes perceberam que não podem demonstrar a não existência de Deus. A afirmação da existência de Deus ou da sua não existência não é objecto de ciência, pois não pode haver verificação empírica. O ateu não pode dizer que "sabe" que não há Deus; ele apenas pode dizer que "crê" que não há Deus. Como o crente também não "sabe" que Deus existe; ele "crê" que Deus existe.
E entende-se todo este movimento ateu, que deve obrigar os crentes a pensar. Não foram frequentemente os crentes que deram uma imagem de Deus que obrigava ao ateísmo? Não se deve ser ateu face a um Deus mesquinho e ridículo - pense-se, por exemplo, no criacionismo americano, segundo o qual os primeiros capítulos do Génesis devem ser tomados à letra -, invejoso da alegria dos humanos e impedindo a sua realização e felicidade?
É precisamente o que se dá a entender na segunda parte do slogan: "Deixe de se preocupar e goze a vida." Deus aparece como impedindo a alegria de viver, de tal modo que a probabilidade da sua não existência seria o pressuposto para finalmente se viver de modo expansivamente humano.
Isso deve levar os crentes a reflectir, pois, embora seja fonte de vida, de salvação e realização plena da existência, de facto, muitas vezes foi pregado um Deus que amesquinha a vida, um Deus incompatível com a ciência, um Deus vingativo - ele até apanharia os ateus no inferno... -, um Deus desgraçadamente invocado para legitimar o que é contra Deus: a violência, o terrorismo, a guerra.
Mas também é preciso perguntar aos autores dos cartazes: que entendem por "deixe de preocupar-se e goze a vida"? Seja como for, crentes e não crentes têm de viver com responsabilidade e empenhar-se na luta por uma vida boa e justa para todos.
O lema do cartaz programado para a Itália pela União de Ateus e Agnósticos Racionalistas seria: "A má notícia é que Deus não existe. A boa é que não é preciso."
Parece que foi impedido pelas autoridades. Lamentavelmente, pois esta publicidade dos autocarros ateus obriga toda a gente a pensar e é bom e urgente pensar no mais importante. O pior é não pensar, não se interrogar. A pergunta por Deus, seja para afirmá-lo seja para negá-lo, é a pergunta maior e é mesmo o fundamento da dignidade humana. O ser humano é digno, porque pode perguntar pelo Infinito.
Mas, afinal, Deus não é preciso? Também o crente reconhece que Deus não pode ser um tapa-buracos, a compensação para a nossa ignorância e impotência, a legitimação ideológica da ordem social e política ou a chave de abóbada de um sistema.
De qualquer modo, Deus tem a ver com o sentido último e a salvação. Foi talvez neste quadro que Nietzsche, sete anos antes de enlouquecer, escreveu a Ida, mulher do amigo F. Overbeck, pedindo-lhe que não abandonasse a ideia de Deus: "Eu abandonei-a, não posso nem quero voltar atrás, desmorono-me continuamente, mas isso não me importa." Como escreveu Wittgenstein, "crer num Deus quer dizer compreender a questão do sentido da vida, ver que os factos do mundo não são, portanto, tudo. Crer em Deus quer dizer que a vida tem um sentido".
Nas ruas de Madrid, compareceram também autocarros cristãos: "Deus existe. Desfruta a vida em Cristo." Claro que há esse direito. Mas seria lamentável uma "guerra" de cartazes. Os crentes devem sobretudo testemunhar Deus pela vida, pelo combate a favor da justiça, pelo amor. E é também fundamental uma pastoral da inteligência, no diálogo entre a fé e a razão.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Tempo de mudança
"Num momento alinhado com o medo, o simbólico religioso surge como estímulo", escreve aqui Joaquim Franco. "Jejum, renúncia e conversão. Na urgência de rigor, moderação e mudança. Ecoa no simbólico religioso a lição da passagem - Pessah, Páscoa - que se faz no final de uma caminhada. Uma passagem que implica uma paragem. Um tempo para ver por dentro e de dentro. Parar e escutar não deve ser uma atitude exclusiva de um crente ou de uma religião. É acertar o tempo com o espaço. Regular a expectativa a partir da experiência adquirida. Deixar que se manifeste o poder do silêncio, quando o tempo intransmissível carece de espaço próprio. Quando a poluição do quotidiano impede a razão."
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Do não reconhecimento nas cidades
"(...) Talvez o mal-estar e a solidão das vidas que vivemos, talvez os nossos trajectos cambaleantes e meio sonâmbulos, o sem porquê de tamanhas colisões nasçam daqui: de não reconhecermos já, na topografia alterada e massificante das cidades, os traços do sítio onde nascemos. A própria arquitectura não só trabalha pouco a questão da memória, como parece muitas vezes um elogio ao esquecimento. Para não falar das habitabilidades pouco pensadas, da desolação das periferias e do próprio centro. Olhamos em redor e a própria cidade desmantela rapidamente o que até há pouco fomos. É pouco provável que ao cruzar a rua nos corra ao encontro a própria infância".José Tolentino Mendonça, Pagina 1, 26.2.2009
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Igreja deve dar à mulher protagonismo que até agora lhe negou
No Público de dia 23 de Fevereiro, o biblista e teólogo e antrópólogo Carlos Gil Arbiol fala sobre as primeiras comunidades cristãs e São Paulo, numa entrevista de António Marujo:
A Bíblia tem que ser lida com o contributo das ciências sociais, diz Carlos Gil Arbiol, biblista que recorre à antropologia cultural para entender o cristianismo da primeira geração. O que o leva a dizer que São Paulo se opunha ao culto ao imperador e que chegará o momento em que as mulheres recuperarão o papel de liderança que tiveram nas comunidades organizadas por Paulo.
Frade capuchinho, professor na Universidade de Deusto, no País Basco (Espanha), Carlos Gil Arbiol especializou-se na área da Bíblia e antropologia cultural dos primeiros tempos do cristianismo. Autor de vários livros e artigos em revistas da especialidade, Arbiol, de 37 anos, esteve na Universidade Católica, onde fez três conferências (Lisboa, Porto e Braga). No último número da revista da Faculdade de Teologia, Didaskalia, é possível ler um dos seus textos.
Tem olhado para as origens do cristianismo a partir da antropologia. A teologia precisa deste contributo?
CARLOS GIL ARBIOL - A teologia necessita das ciências sociais, porque elas permitem enraizar o evangelho na cultura em que ele nasceu. A fé cristã e a Igreja não são realidades etéreas, caídas do céu, são formuladas num lugar e numa cultura concreta. E devem ir-se adaptando a essas culturas, para expressar a originalidade do evangelho, para reformular e encontrar outros modos de expressar o mesmo.
A antropologia pode ajudar-nos a compreender a Bíblia de outro modo?
Claro. Por exemplo, as cartas de Paulo reformulam o evangelho de um determinado modo. As figuras literárias que Paulo utiliza, as metáforas, a forma de construir as comunidades - tudo está em função de uma cultura: a importância da honra e da vergonha, da pureza e da impureza, do patronato e da clientela... são elementos que condicionaram a formulação dos textos bíblicos.
Ecclesia era um conceito político quando Paulo o adaptou. A Igreja nasceu como realidade política?
Em torno de Jesus e de Paulo, quando nasce o movimento cristão, não há uma distinção entre o âmbito religioso e político. O culto ao imperador tem uma dimensão religiosa mas está indissoluvelmente unido à política. Do mesmo modo, as comunidades de Paulo tinham uma dimensão religiosa, mas também política. O religioso e o político estavam fundidos, tal como o religioso e o doméstico.
A diferença de hoje entre religioso e laico não existia, existia entre político e doméstico. A religião não tem uma dimensão exclusivamente doméstica. Não era uma religião para a casa, mas para transformar a sociedade.
O cristianismo começou por transformar os modelos que existiam - desde logo, os patriarcais.
Sim. O cristianismo primitivo foi assimilando certos modelos para ser relevante no seu contexto cultural. E um desses modelos foi o de família patriarcal. Onde melhor se percebe a assimilação desses modelos é nas cartas deutero-paulinas: morto Paulo, os seus discípulos continuaram desenvolvendo a sua tradição e assimilam definitivamente o modelo patriarcal.
É nessas cartas que aparecem as listas de comportamentos para cada membro da casa: maridos, esposas, filhos, amos e escravos. Isso aparece na segunda geração. A Igreja toma um cariz mais patriarcal depois da morte de Paulo.
O Paulo mais claramente oposto ao Império e mais igualitário, que tem sido redescoberto, começa a ser posto em causa nesse momento?
Em parte. Havia 13 cartas até agora atribuídas a Paulo. Actualmente, considera-se que sete são de Paulo e sobre as outras seis há muita discussão e tende-se a pensar que foram escritas por discípulos de segunda e terceira geração, no início do segundo século.
É isto que nos permite compreender que o pensamento de Paulo foi adaptado, depois dele, a diferentes circunstâncias. Isto evita que se projectem sobre o Paulo histórico modelos culturais assimilados muito mais tarde. E permite descobrir um Paulo muito mais carismático, que assumiu diferentes modelos que depois se foram perdendo pelo caminho.
O anúncio de um crucificado opunha-se ao culto do imperador. Esta é uma ruptura grande?
A proclamação do evangelho da cruz aparecia como ameaça e desafio ao único poderio, o do imperador. Proclamar um crucificado, humilhado pelo poder romano, tinha uma forte carga de desestabilização e ameaça.
O poder romano baseava-se na necessidade de dominar, controlar e submeter todos os povos à volta. A propaganda política sustentava que era a única maneira de manter a pax romana. A esperança que o imperador traria era que ele garantia a estabilidade do mundo, mas através do domínio dos povos à volta e dos cidadãos do império - ou seja, humilhavam-se os demais para o seu enaltecimento.
A cruz significa precisamente o contrário: Deus preferiu humilhar-se, desprender-se de toda a sua capacidade de controlo e domínio, para enaltecer os subjugados. Essa é uma estratégia de esperança radicalmente invertida. Quem recebe esta boa notícia não são os poderosos, mas as vítimas do império. Por isso, entre outras coisas, o evangelho de Paulo teve enorme êxito: encontrou um enorme eco em todos os que o império deixara à margem e não tinham possibilidade de futuro.
Tem sentido propor hoje esta religião do fracasso, da cruz, numa sociedade que acentua antropologicamente o sucesso, a riqueza, o poder?
Estamos demasiado acostumados à ideia de que todos alcancemos o maior bem-estar possível, sem ter em conta as consequências negativas dos nossos excessos de vida para outras pessoas.
Uma das actualizações que poderia ter este evangelho da cruz é fazer-nos descobrir os valores positivos que há nos excluídos da sociedade. Criámos uma sociedade fictícia de bem-estar à custa das oportunidades de futuro de outras pessoas. Se, em vez disso, orientarmos a vida para os que nos estão denunciando nos nossos próprios excessos, talvez sejamos capazes de construir uma sociedade que tenha algo para muitos mais.
Esta é uma leitura teológica. Paulo, como Jesus, descobriu que Deus olhava especialmente para aqueles que todos consideravam os últimos. O que ele percebe é que, se Deus é capaz de solidarizar-se até ao fim com os últimos, é capaz de solidarizar-se com todos. Essa seria a melhor tradução actual do evangelho da cruz.
A integração, nas primeiras comunidades, incluía também as mulheres. Esse discurso, já assumido por teólogos e biblistas, deveria ter consequências também para a Igreja?
Tem que ter consequências. Talvez a situação da Igreja no Ocidente, de minoria perante um contexto cada vez mais secularizado, leve a uma atitude defensiva. Isto favorece a proliferação de atitudes do passado, de modelos de cristandade em que a Igreja ocupava todos os âmbitos da sociedade. Isso hoje é impensável e, quanto mais tardarmos a renunciar a essa ideia de cristandade, mais tardaremos em tornar relevante o evangelho na nossa sociedade.
Essa é uma das consequências que deverá ter: nos textos do Novo Testamento, nas primeiras comunidades, as mulheres tiveram um protagonismo que não tiveram em nenhum outro grupo. Era a aplicação do princípio teológico de que em Cristo, como diz Paulo na Carta aos Gálatas, não há homem nem mulher, nem escravo nem livre, nem judeu nem pagão.
E quando se fala de protagonismo, falamos também de liderança das comunidades?
Sem dúvida. O próprio Paulo afirma, na Primeira Carta aos Coríntios, que as mulheres, como os homens, podiam orar e profetizar - ou seja, dirigir a palavra à comunidade, ter um papel de liderança - tal como o de acolher a comunidade em sua casa.
Ou seja, temos testemunhos suficientes para reformular hoje o ministério [sacerdotal], profundamente enraizado nas origens do cristianismo e dando um protagonismo maior às mulheres. Isso acabará acontecendo.
Não significa também compreender e assumir os textos de Paulo, por exemplo, uma vez que há pessoas que ainda procuram ignorar o que eles dizem?
Sim, os textos sobre este tema e outros, no Novo Testamento, são de difícil interpretação, ambíguos e por vezes contraditórios. Há textos nos quais as mulheres têm um protagonismo indiscutível e claro, outros em que esse protagonismo está marginalizado. Ambas as realidades, e outras mais, existiram no cristianismo primitivo. Só que nem uma nem outra era exclusiva.
Uma comunidade como a Igreja actual tem autoridade suficiente para dizer qual desses modelos do cristianismo primitivo é o mais actual, mais relevante para a situação que vivemos e que mais justiça hoje faz ao evangelho.
Para voltar à questão antropológica: é pouco credível manter o actual modelo perante a antropologia contemporânea, que entende homem e mulher iguais em dignidade e em direitos?
A Igreja tem capacidade e autoridade suficientes para fazer um discernimento sobre a sua própria história e saber encontrar em textos das suas origens, do Novo Testamento, a base para dar à mulher o protagonismo que até agora se lhe negou.
A Bíblia tem que ser lida com o contributo das ciências sociais, diz Carlos Gil Arbiol, biblista que recorre à antropologia cultural para entender o cristianismo da primeira geração. O que o leva a dizer que São Paulo se opunha ao culto ao imperador e que chegará o momento em que as mulheres recuperarão o papel de liderança que tiveram nas comunidades organizadas por Paulo.
Frade capuchinho, professor na Universidade de Deusto, no País Basco (Espanha), Carlos Gil Arbiol especializou-se na área da Bíblia e antropologia cultural dos primeiros tempos do cristianismo. Autor de vários livros e artigos em revistas da especialidade, Arbiol, de 37 anos, esteve na Universidade Católica, onde fez três conferências (Lisboa, Porto e Braga). No último número da revista da Faculdade de Teologia, Didaskalia, é possível ler um dos seus textos.
Tem olhado para as origens do cristianismo a partir da antropologia. A teologia precisa deste contributo?
CARLOS GIL ARBIOL - A teologia necessita das ciências sociais, porque elas permitem enraizar o evangelho na cultura em que ele nasceu. A fé cristã e a Igreja não são realidades etéreas, caídas do céu, são formuladas num lugar e numa cultura concreta. E devem ir-se adaptando a essas culturas, para expressar a originalidade do evangelho, para reformular e encontrar outros modos de expressar o mesmo.
A antropologia pode ajudar-nos a compreender a Bíblia de outro modo?
Claro. Por exemplo, as cartas de Paulo reformulam o evangelho de um determinado modo. As figuras literárias que Paulo utiliza, as metáforas, a forma de construir as comunidades - tudo está em função de uma cultura: a importância da honra e da vergonha, da pureza e da impureza, do patronato e da clientela... são elementos que condicionaram a formulação dos textos bíblicos.
Ecclesia era um conceito político quando Paulo o adaptou. A Igreja nasceu como realidade política?
Em torno de Jesus e de Paulo, quando nasce o movimento cristão, não há uma distinção entre o âmbito religioso e político. O culto ao imperador tem uma dimensão religiosa mas está indissoluvelmente unido à política. Do mesmo modo, as comunidades de Paulo tinham uma dimensão religiosa, mas também política. O religioso e o político estavam fundidos, tal como o religioso e o doméstico.
A diferença de hoje entre religioso e laico não existia, existia entre político e doméstico. A religião não tem uma dimensão exclusivamente doméstica. Não era uma religião para a casa, mas para transformar a sociedade.
O cristianismo começou por transformar os modelos que existiam - desde logo, os patriarcais.
Sim. O cristianismo primitivo foi assimilando certos modelos para ser relevante no seu contexto cultural. E um desses modelos foi o de família patriarcal. Onde melhor se percebe a assimilação desses modelos é nas cartas deutero-paulinas: morto Paulo, os seus discípulos continuaram desenvolvendo a sua tradição e assimilam definitivamente o modelo patriarcal.
É nessas cartas que aparecem as listas de comportamentos para cada membro da casa: maridos, esposas, filhos, amos e escravos. Isso aparece na segunda geração. A Igreja toma um cariz mais patriarcal depois da morte de Paulo.
O Paulo mais claramente oposto ao Império e mais igualitário, que tem sido redescoberto, começa a ser posto em causa nesse momento?
Em parte. Havia 13 cartas até agora atribuídas a Paulo. Actualmente, considera-se que sete são de Paulo e sobre as outras seis há muita discussão e tende-se a pensar que foram escritas por discípulos de segunda e terceira geração, no início do segundo século.
É isto que nos permite compreender que o pensamento de Paulo foi adaptado, depois dele, a diferentes circunstâncias. Isto evita que se projectem sobre o Paulo histórico modelos culturais assimilados muito mais tarde. E permite descobrir um Paulo muito mais carismático, que assumiu diferentes modelos que depois se foram perdendo pelo caminho.
O anúncio de um crucificado opunha-se ao culto do imperador. Esta é uma ruptura grande?
A proclamação do evangelho da cruz aparecia como ameaça e desafio ao único poderio, o do imperador. Proclamar um crucificado, humilhado pelo poder romano, tinha uma forte carga de desestabilização e ameaça.
O poder romano baseava-se na necessidade de dominar, controlar e submeter todos os povos à volta. A propaganda política sustentava que era a única maneira de manter a pax romana. A esperança que o imperador traria era que ele garantia a estabilidade do mundo, mas através do domínio dos povos à volta e dos cidadãos do império - ou seja, humilhavam-se os demais para o seu enaltecimento.
A cruz significa precisamente o contrário: Deus preferiu humilhar-se, desprender-se de toda a sua capacidade de controlo e domínio, para enaltecer os subjugados. Essa é uma estratégia de esperança radicalmente invertida. Quem recebe esta boa notícia não são os poderosos, mas as vítimas do império. Por isso, entre outras coisas, o evangelho de Paulo teve enorme êxito: encontrou um enorme eco em todos os que o império deixara à margem e não tinham possibilidade de futuro.
Tem sentido propor hoje esta religião do fracasso, da cruz, numa sociedade que acentua antropologicamente o sucesso, a riqueza, o poder?
Estamos demasiado acostumados à ideia de que todos alcancemos o maior bem-estar possível, sem ter em conta as consequências negativas dos nossos excessos de vida para outras pessoas.
Uma das actualizações que poderia ter este evangelho da cruz é fazer-nos descobrir os valores positivos que há nos excluídos da sociedade. Criámos uma sociedade fictícia de bem-estar à custa das oportunidades de futuro de outras pessoas. Se, em vez disso, orientarmos a vida para os que nos estão denunciando nos nossos próprios excessos, talvez sejamos capazes de construir uma sociedade que tenha algo para muitos mais.
Esta é uma leitura teológica. Paulo, como Jesus, descobriu que Deus olhava especialmente para aqueles que todos consideravam os últimos. O que ele percebe é que, se Deus é capaz de solidarizar-se até ao fim com os últimos, é capaz de solidarizar-se com todos. Essa seria a melhor tradução actual do evangelho da cruz.
A integração, nas primeiras comunidades, incluía também as mulheres. Esse discurso, já assumido por teólogos e biblistas, deveria ter consequências também para a Igreja?
Tem que ter consequências. Talvez a situação da Igreja no Ocidente, de minoria perante um contexto cada vez mais secularizado, leve a uma atitude defensiva. Isto favorece a proliferação de atitudes do passado, de modelos de cristandade em que a Igreja ocupava todos os âmbitos da sociedade. Isso hoje é impensável e, quanto mais tardarmos a renunciar a essa ideia de cristandade, mais tardaremos em tornar relevante o evangelho na nossa sociedade.
Essa é uma das consequências que deverá ter: nos textos do Novo Testamento, nas primeiras comunidades, as mulheres tiveram um protagonismo que não tiveram em nenhum outro grupo. Era a aplicação do princípio teológico de que em Cristo, como diz Paulo na Carta aos Gálatas, não há homem nem mulher, nem escravo nem livre, nem judeu nem pagão.
E quando se fala de protagonismo, falamos também de liderança das comunidades?
Sem dúvida. O próprio Paulo afirma, na Primeira Carta aos Coríntios, que as mulheres, como os homens, podiam orar e profetizar - ou seja, dirigir a palavra à comunidade, ter um papel de liderança - tal como o de acolher a comunidade em sua casa.
Ou seja, temos testemunhos suficientes para reformular hoje o ministério [sacerdotal], profundamente enraizado nas origens do cristianismo e dando um protagonismo maior às mulheres. Isso acabará acontecendo.
Não significa também compreender e assumir os textos de Paulo, por exemplo, uma vez que há pessoas que ainda procuram ignorar o que eles dizem?
Sim, os textos sobre este tema e outros, no Novo Testamento, são de difícil interpretação, ambíguos e por vezes contraditórios. Há textos nos quais as mulheres têm um protagonismo indiscutível e claro, outros em que esse protagonismo está marginalizado. Ambas as realidades, e outras mais, existiram no cristianismo primitivo. Só que nem uma nem outra era exclusiva.
Uma comunidade como a Igreja actual tem autoridade suficiente para dizer qual desses modelos do cristianismo primitivo é o mais actual, mais relevante para a situação que vivemos e que mais justiça hoje faz ao evangelho.
Para voltar à questão antropológica: é pouco credível manter o actual modelo perante a antropologia contemporânea, que entende homem e mulher iguais em dignidade e em direitos?
A Igreja tem capacidade e autoridade suficientes para fazer um discernimento sobre a sua própria história e saber encontrar em textos das suas origens, do Novo Testamento, a base para dar à mulher o protagonismo que até agora se lhe negou.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Quaresma: um novo sentido para a esmola, o jejum e a oração
O bispo do Porto, D. Manuel Clemente, tem no aqui no YouTube uma mensagem para esta Quaresma, na qual explica o novo sentido que podem ganhar a oração, o jejum e a esmola, de acordo com as expressões tradicionais que se usavam neste tempo litúrgico dos cristãos. O bispo Clemente sugere que a oração pode significar a busca de "como se traduz a vontade de Deus, bíblica e solidariamente". O jejum traduz a privação de alguns bens, "mesmo legítimos" e a procura de "uma vida mais austera, uma vida de menos gastos, uma atitude mais frugal, mais disponível para a solidariedade". A esmola pode ser, no actual contexto português e internacional, "fazer tudo o possível para que mais gente veja o seu trabalho garantido".
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Vejam bem. Zeca Afonso, 22 anos depois

Vejam bem
Que não há
Só gaivotas
Em terra
Quando um homem
Se põe
A pensar
Quem lá vem
Dorme à noite
Ao relento
Na areia
Dorme à noite
Ao relento
Do mar
E se houver
Uma praça
De gente
Madura
E uma estátua
De febre
A arder
Anda alguém
Pela noite
À procura
E não há
Quem lhe queira
Valer
"Dançando com a diferença"
Um sinal de que o jornalismo pode tocar a vida das pessoas e das comunidades.
Um sinal de que a televisão pode tornar-se um revelador de sentido e de horizonte.
Um sinal de que as barreiras podem ser vencidas, mesmo aquelas que pareceriam intransponíveis.
Assim é o trabalho da Associação dos Amigos "Dançando com a diferença", da Madeira.
Assim mostra a reportagem especial da SIC emitida em 19 de Maio de 2008.
Assim testemunha o trabalho de Sara Antunes de Oliveira (com a repórter de imagem Cristina Almeida e o Editor de imagem Miguel Castro)que acaba de receber o prémio Dignitas, da Associação Portuguesa de Deficientes.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Como reconhecer Deus?
No DN deste sábado, Anselmo Borges faz a sua reflexão a partir da pergunta "Como reconhecer Deus?", para terminar a referir também a crise da Igreja. Este é o texto:
Há relativamente pouco tempo, coloquei esta pergunta a um grupo de crentes: "Se Deus lhe aparecesse, dizendo 'aqui estou, sou eu o Deus', como o reconheceria?"
As respostas, no meio de imensa perplexidade, foram muito interessantes. Que Deus não pode aparecer directamente. Que ninguém, como diz a Bíblia, pode ver Deus. Que Deus é inobjectivável. Que se manifesta indirectamente: nas pessoas, nos acontecimentos, no esplendor da beleza - aqui, recordei a exclamação de uma sobrinha minha com 11 anos, nos Alpes, numa tarde irradiante de Sol sobre a neve e as montanhas todas à volta: "Parece Deus!" Que, para os cristãos, Jesus é a revelação de Deus. Que a experiência de Deus se dá nas experiências-cume de plenitude. Que lhe pediriam um milagre claro, que se visse e o credenciasse. Ele devia manifestar o seu poder.
Quando se fala de Deus, a questão nuclear é saber de que Deus é que se fala. Que se quer dizer quando se diz Deus?
O mais comum é associar Deus ao poder. Deus deve ser, antes de mais, a omnipotência. Deus deve ser infinitamente bom e poderoso, mas sobretudo poderoso. No entanto, a mística Simone Weil, cujo centenário do nascimento se celebra este ano, preveniu: "A Verdade essencial é que Deus é o Bem. Ele só é a omnipotência por acréscimo." Por isso, "é falsa toda a concepção de Deus incompatível com um movimento de caridade pura". Afinal, a revelação de Cristo é essa: Deus é puro amor. O escândalo: "Eu não vim para ser servido, mas para servir."
Não se nega a omnipotência divina. O Poder de Deus, porém, não é Dominação e Espectáculo, mas Força infinita criadora. O Deus de Jesus é o Deus- amor, o Deus-origem-infinita-pessoal-criadora.
A modernidade, pela secularização, quis herdar a omnipotência divina, postergando a bondade. A crise que está aí hoje visível no universo económico-financeiro é mais funda, pois é uma crise de civilização, cuja raiz é esta herança religiosa.
Neste contexto, referindo-se à Igreja, o teólogo X. Pikaza recria de modo alegórico o passo evangélico da cura da sogra de Pedro. Na alegoria, a sogra de Pedro é a Cúria Romana. Jesus chega e cura-a. E depois, alegoricamente?
A Cúria (sogra), que significa casa, corte do Kyrios ou Senhor, estava doente. A casa de Pedro é o Vaticano, um Estado, e quem manda é a Cúria, como ainda recentemente se mostrou no caso dos lefebreveanos. Não protege o Papa, mas impõe-se a ele. Ela "sofre de inércia, de poder".
Jesus cura a Cúria para que, como a sogra de Pedro, se ponha a servir os outros. Que consequências teria a cura da Cúria Romana, que funciona há dez séculos enquanto os Pedros (Papas) vão mudando?
Como Jesus, que, segundo o Evangelho, cura as pessoas diante da casa de Pedro, a Cúria curada veria gente que viria para curar-se. Sobretudo gente mais pobre e perdida (os "endemoninhados", os doentes). Agora também lá vão muitos, mas "vão curar-se ou em busca de prebendas?"
Ainda segundo o Evangelho, Jesus saiu de noite, para rezar e ir ao encontro das pessoas também noutros lugares. Na alegoria, Jesus parte porque não quer ficar fechado na casa de Pedro. Jesus não tem "Cúria". Também Pedro e os funcionários da Cúria têm de sair da sua casa, da Cúria, para ir à procura de Jesus, conhecer o mundo e cuidar dele.
A Igreja está em crise e precisa de conversão. Neste sentido, há 15 dias, a propósito da "falta de vocações", o director do DN, num texto subordinado ao título "Os erros da Igreja", exemplificados nos escândalos dos padres pedófilos, a intransigência quanto aos métodos de planeamento familiar, "declarações absolutamente estúpidas" como as do bispo Williamson a negar o Holocausto, alguns investimentos dúbios no plano dos negócios, escrevia que o resultado é que "a religião vai desconfiando dos seus missionários e o ambiente não aconselha a 'vocação'".
E João Marcelino concluía: "Um dia pagaremos bem caro a crescente desagregação desse factor de união ocidental, bem patente sobretudo na Igreja Católica mas que também afecta todo os ramos do cristianismo."
Há relativamente pouco tempo, coloquei esta pergunta a um grupo de crentes: "Se Deus lhe aparecesse, dizendo 'aqui estou, sou eu o Deus', como o reconheceria?"
As respostas, no meio de imensa perplexidade, foram muito interessantes. Que Deus não pode aparecer directamente. Que ninguém, como diz a Bíblia, pode ver Deus. Que Deus é inobjectivável. Que se manifesta indirectamente: nas pessoas, nos acontecimentos, no esplendor da beleza - aqui, recordei a exclamação de uma sobrinha minha com 11 anos, nos Alpes, numa tarde irradiante de Sol sobre a neve e as montanhas todas à volta: "Parece Deus!" Que, para os cristãos, Jesus é a revelação de Deus. Que a experiência de Deus se dá nas experiências-cume de plenitude. Que lhe pediriam um milagre claro, que se visse e o credenciasse. Ele devia manifestar o seu poder.
Quando se fala de Deus, a questão nuclear é saber de que Deus é que se fala. Que se quer dizer quando se diz Deus?
O mais comum é associar Deus ao poder. Deus deve ser, antes de mais, a omnipotência. Deus deve ser infinitamente bom e poderoso, mas sobretudo poderoso. No entanto, a mística Simone Weil, cujo centenário do nascimento se celebra este ano, preveniu: "A Verdade essencial é que Deus é o Bem. Ele só é a omnipotência por acréscimo." Por isso, "é falsa toda a concepção de Deus incompatível com um movimento de caridade pura". Afinal, a revelação de Cristo é essa: Deus é puro amor. O escândalo: "Eu não vim para ser servido, mas para servir."
Não se nega a omnipotência divina. O Poder de Deus, porém, não é Dominação e Espectáculo, mas Força infinita criadora. O Deus de Jesus é o Deus- amor, o Deus-origem-infinita-pessoal-criadora.
A modernidade, pela secularização, quis herdar a omnipotência divina, postergando a bondade. A crise que está aí hoje visível no universo económico-financeiro é mais funda, pois é uma crise de civilização, cuja raiz é esta herança religiosa.
Neste contexto, referindo-se à Igreja, o teólogo X. Pikaza recria de modo alegórico o passo evangélico da cura da sogra de Pedro. Na alegoria, a sogra de Pedro é a Cúria Romana. Jesus chega e cura-a. E depois, alegoricamente?
A Cúria (sogra), que significa casa, corte do Kyrios ou Senhor, estava doente. A casa de Pedro é o Vaticano, um Estado, e quem manda é a Cúria, como ainda recentemente se mostrou no caso dos lefebreveanos. Não protege o Papa, mas impõe-se a ele. Ela "sofre de inércia, de poder".
Jesus cura a Cúria para que, como a sogra de Pedro, se ponha a servir os outros. Que consequências teria a cura da Cúria Romana, que funciona há dez séculos enquanto os Pedros (Papas) vão mudando?
Como Jesus, que, segundo o Evangelho, cura as pessoas diante da casa de Pedro, a Cúria curada veria gente que viria para curar-se. Sobretudo gente mais pobre e perdida (os "endemoninhados", os doentes). Agora também lá vão muitos, mas "vão curar-se ou em busca de prebendas?"
Ainda segundo o Evangelho, Jesus saiu de noite, para rezar e ir ao encontro das pessoas também noutros lugares. Na alegoria, Jesus parte porque não quer ficar fechado na casa de Pedro. Jesus não tem "Cúria". Também Pedro e os funcionários da Cúria têm de sair da sua casa, da Cúria, para ir à procura de Jesus, conhecer o mundo e cuidar dele.
A Igreja está em crise e precisa de conversão. Neste sentido, há 15 dias, a propósito da "falta de vocações", o director do DN, num texto subordinado ao título "Os erros da Igreja", exemplificados nos escândalos dos padres pedófilos, a intransigência quanto aos métodos de planeamento familiar, "declarações absolutamente estúpidas" como as do bispo Williamson a negar o Holocausto, alguns investimentos dúbios no plano dos negócios, escrevia que o resultado é que "a religião vai desconfiando dos seus missionários e o ambiente não aconselha a 'vocação'".
E João Marcelino concluía: "Um dia pagaremos bem caro a crescente desagregação desse factor de união ocidental, bem patente sobretudo na Igreja Católica mas que também afecta todo os ramos do cristianismo."
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Bispos afirmam que homossexualidade denota “problemas de identidade pessoal”
No Público online, está a notícia sobre a nota pastoral dos bispos acerca do casamento entre homossexuais. O texto da nota pode ser lido na íntegra na Ecclesia.
O conselho permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) publicou ontem a nota pastoral em que contesta a possibilidade de o casamento entre homossexuais ser equiparado ao heterossexual. Os bispos dizem que o prolongamento da homossexualidade “pela idade jovem e adulta denota a existência de problemas de identidade pessoal”. Ao mesmo tempo, rejeitam “todas as formas de discriminação ou marginalização das pessoas homossexuais”.
Não, não há nenhuma recomendação sobre o voto contra os partidos que votem pela legalização de casamentos homossexuais, como se interpretou a partir das palavras do porta-voz do episcopado, na semana passada. Mas a expressão “problemas de identidade pessoal” diz o que o Catecismo da Igreja Católica não se atreveu a dizer: “A génese [da homossexualidade] continua em grande parte por explicar. (...) Esta propensão, objectivamente desordenada, constitui, para a maior parte [dos homossexuais], uma provação.”
O texto, intitulado “Em favor do verdadeiro casamento”, lamenta a “tentativa de desestruturar a sociedade portuguesa” com a equiparação das uniões homossexuais aos casamentos heterossexuais. A proposta foi apresentada na moção de José Sócrates ao congresso do PS, que decorre no próximo fim-de-semana, para fazer parte do programa eleitoral do partido às próximas legislativas.
Tal lei, consideram os bispos, longe de contribuir para o “progresso e unidade” da sociedade portuguesa, manifesta “uma concepção desfocada dos valores que se encontram na base do nosso modo de viver, entre os quais o casamento e a família têm um lugar privilegiado”.
O conselho permanente da CEP diz que a vida humana “assenta na complementaridade do homem e da mulher”, por princípio aberta “à geração de novas vidas” e que é a “base antropológica da família”. Uma verdade assumida por “diferentes culturas e civilizações” e reconhecido “implicitamente” na “Constituição da República e explicitamente [no] Código Civil Português”.
Os bispos assumem que a Igreja se dispõe a acolher “fraternalmente” os homossexuais, ajudando-os “a superar as dificuldades que, em não poucos casos, acarretam grande sofrimento”. Rejeitam também a adopção de crianças por homossexuais: “Tal constituiria uma alteração grave das bases antropológicas da família e com ela de toda a sociedade, colocando em causa o seu equilíbrio.”
A nota termina chamando a atenção para a “necessidade de iniciativas que ajudem as famílias estavelmente constituídas a superar os problemas económicos que muitas atravessam, que as valorizem como lugar primordial de educação dos filhos e que favoreçam a sua importância”.
Num comentário divulgado após a publicação da nota, o Rumos Novos – Grupo de Homossexuais Católicos reagiu, dizendo que a linguagem dos bispos “contribui para adensar a ferida existente no âmago de muitos homossexuais católicos, que se debatem de forma atroz contra eles próprios”.
O conselho permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) publicou ontem a nota pastoral em que contesta a possibilidade de o casamento entre homossexuais ser equiparado ao heterossexual. Os bispos dizem que o prolongamento da homossexualidade “pela idade jovem e adulta denota a existência de problemas de identidade pessoal”. Ao mesmo tempo, rejeitam “todas as formas de discriminação ou marginalização das pessoas homossexuais”.
Não, não há nenhuma recomendação sobre o voto contra os partidos que votem pela legalização de casamentos homossexuais, como se interpretou a partir das palavras do porta-voz do episcopado, na semana passada. Mas a expressão “problemas de identidade pessoal” diz o que o Catecismo da Igreja Católica não se atreveu a dizer: “A génese [da homossexualidade] continua em grande parte por explicar. (...) Esta propensão, objectivamente desordenada, constitui, para a maior parte [dos homossexuais], uma provação.”
O texto, intitulado “Em favor do verdadeiro casamento”, lamenta a “tentativa de desestruturar a sociedade portuguesa” com a equiparação das uniões homossexuais aos casamentos heterossexuais. A proposta foi apresentada na moção de José Sócrates ao congresso do PS, que decorre no próximo fim-de-semana, para fazer parte do programa eleitoral do partido às próximas legislativas.
Tal lei, consideram os bispos, longe de contribuir para o “progresso e unidade” da sociedade portuguesa, manifesta “uma concepção desfocada dos valores que se encontram na base do nosso modo de viver, entre os quais o casamento e a família têm um lugar privilegiado”.
O conselho permanente da CEP diz que a vida humana “assenta na complementaridade do homem e da mulher”, por princípio aberta “à geração de novas vidas” e que é a “base antropológica da família”. Uma verdade assumida por “diferentes culturas e civilizações” e reconhecido “implicitamente” na “Constituição da República e explicitamente [no] Código Civil Português”.
Os bispos assumem que a Igreja se dispõe a acolher “fraternalmente” os homossexuais, ajudando-os “a superar as dificuldades que, em não poucos casos, acarretam grande sofrimento”. Rejeitam também a adopção de crianças por homossexuais: “Tal constituiria uma alteração grave das bases antropológicas da família e com ela de toda a sociedade, colocando em causa o seu equilíbrio.”
A nota termina chamando a atenção para a “necessidade de iniciativas que ajudem as famílias estavelmente constituídas a superar os problemas económicos que muitas atravessam, que as valorizem como lugar primordial de educação dos filhos e que favoreçam a sua importância”.
Num comentário divulgado após a publicação da nota, o Rumos Novos – Grupo de Homossexuais Católicos reagiu, dizendo que a linguagem dos bispos “contribui para adensar a ferida existente no âmago de muitos homossexuais católicos, que se debatem de forma atroz contra eles próprios”.
Armas ligeiras de fácil acesso para jovens
Muitos jovens que integram bandos violentos ou de assaltantes envolvem-se com esses grupos a partir de idades precoces – 12, 13 anos. Uma das razões é o fácil acesso a armas ligeiras. Esta é uma das tendências verificadas num estudo que está a ser feito pelo Núcleo de Estudos para a Paz, do Centro de Estudos Sociais (NEP/CES) da Universidade de Coimbra. Ainda sem conclusões – estará pronto dentro de um ano, está precisamente a meio –, o estudo procura medir factores como a oferta e a procura de armas ligeiras, e os custos que lhes estão associados.
O Observatório sobre a Produção, Comércio e Proliferação das Armas Ligeiras da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), da Igreja Católica, promoveu ontem, em Lisboa, uma audição pública de balanço dos dois anos de aplicação da lei das armas – que está em revisão no Parlamento. José Manuel Pureza, do NEP/CES, afirmou que há um grande desconhecimento sobre as armas que existem em Portugal, o que “alimenta o alarmismo, o racismo e a xenofobia”.
Mais informações sobre o debate aqui.
O Observatório sobre a Produção, Comércio e Proliferação das Armas Ligeiras da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), da Igreja Católica, promoveu ontem, em Lisboa, uma audição pública de balanço dos dois anos de aplicação da lei das armas – que está em revisão no Parlamento. José Manuel Pureza, do NEP/CES, afirmou que há um grande desconhecimento sobre as armas que existem em Portugal, o que “alimenta o alarmismo, o racismo e a xenofobia”.
Mais informações sobre o debate aqui.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Petróleo na fogueira
A opinião é livre. E se é livre para os homossexuais que, pelos vistos, querem casar, também o deve ser para o cardeal Saraiva Martins, que coloca a homossexualidade no terreno da (a)normalidade. Fê-lo, pelos vistos, no Casino da Figueira da Foz, que se tornou recentemente um inesperado sítio para a polémica envolvendo cardeais da Igreja Católica.
Parece que D. Saraiva Martins entende que ser homossexual é ser anormal. Está no seu direito. É, no entanto, um terreno pantanoso esse em que se mete. E seria de desejar que o debate não fosse por esse lado.
Mas há aqui algo que é difícil de entender: um dos argumentos do porta-voz da Conferência Episcopal acerca da proposta que se desenha no PS de aprovar uma lei que preveja a possibilidade de casamento para os homossexuais, há dias expresso, era o de que este assunto distrai as pessoas de coisas mais importantes. Ora, o cardeal ou não concorda com este argumento ou pretende deitar, com o que disse, petróleo para a fogueira que se está a atear.
Parece que D. Saraiva Martins entende que ser homossexual é ser anormal. Está no seu direito. É, no entanto, um terreno pantanoso esse em que se mete. E seria de desejar que o debate não fosse por esse lado.
Mas há aqui algo que é difícil de entender: um dos argumentos do porta-voz da Conferência Episcopal acerca da proposta que se desenha no PS de aprovar uma lei que preveja a possibilidade de casamento para os homossexuais, há dias expresso, era o de que este assunto distrai as pessoas de coisas mais importantes. Ora, o cardeal ou não concorda com este argumento ou pretende deitar, com o que disse, petróleo para a fogueira que se está a atear.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Proliferação de armas ligeiras em Portugal - audição pública
O Observatório sobre a Produção, Comércio e Proliferação das Armas Ligeiras, da Comissão Nacional Justiça e Paz, organiza amanhã uma Audição Pública sobre o tema "Armas e violência: um retrato português", coincidindo com o terceiro aniversário da publicação da Nova Lei das Armas.Esta iniciativa decorrerá a partir das 17 horas, no Centro Nacional de Cultura, Rua António Maria Cardoso, 68, ou Largo do Picadeiro, 10, ao Chiado, em Lisboa. Intervirão o Prof. Doutor José Manuel Pureza, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (apresentação de enquadramento), o secretário de Estado da Administração Interna, Dr. Rui de Sá Gomes, a Dr.ª Rosário Farmhouse, Alta Comissária para a Integração e Diálogo Intercultural, D. Januário Torgal Ferreira, Bispo das Forças Armadas e de Segurança e Vogal da Comissão Episcopal da Pastoral Social, e Cândida Pinto, Jornalista da SIC e da Revista Visão.
Esta Audição surge na sequência dos sinais surgidos no Verão passado, que, para a Comissão Nacional Justiça e Paz, proporcionaram "aviso claro de muita insegurança e violência latente em algumas zonas críticas da periferia de grandes cidades".
Mais informações AQUI.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Os padres e os bispos não são a Igreja
Na sua coluna deste domingo no Público, frei Bento Domingues escreve a propósito da alegada "crise de vocações" e dos modos de a resolver:
1.Qualquer padre católico ou bispo subscreve este título. São os meios de comunicação social que tendem a tomar a parte pelo todo. A Igreja Católica não pode falar sempre a uma só voz porque é uma unidade plural. Poder-se-á, no entanto, perguntar, a que propósito vem este título?
Reuniu-se, em Fátima (6-7/02/2009), o X Colóquio Nacional de Paróquias com o tema: “Porquê transmitir a fé – seduzidos por Deus – fascinados pelo Evangelho?” Desta interrogação não transitou muito para a opinião pública. A atenção fixou-se em números: a Igreja Católica tem, em Portugal, 4 400 paróquias. Destas, 1 100 não têm pároco residente. Segundo as previsões mais coerentes – se não houver mudanças radicais de orientação –, estes números só podem piorar.
É evidente que a deslocação dos padres para acudir às paróquias está mais facilitada. Mas o carro, o telemóvel e o correio electrónico não resolvem tudo. A questão de fundo pode ser formulada da seguinte maneira: a hierarquia católica dá grande importância à celebração dominical da Eucaristia e à qual os fiéis têm direito. Não toma, porém, as medidas necessárias para dispor de pessoas habilitadas a presidir à assembleia eucarística com tudo o que esta supõe e implica. Ao não permitir a ordenação de homens casados nem de mulheres – sejam elas solteiras ou casadas –, o futuro é preocupante.
2. Segundo o Direito Canónico, a paróquia é uma certa comunidade de fiéis, constituída estavelmente na Igreja particular, cuja cura pastoral, sob a autoridade do bispo diocesano, está confiada ao pároco, como a seu pastor próprio (Cân. 515 § 1º). A paróquia, em regra geral, seja territorial e englobe todos os fiéis de um território certo; onde porém for conveniente, constituam-se paróquias pessoais, determinadas por razão do rito, da língua, da nação dos fiéis de algum território, ou até por outra razão (Cân. 518). No magistério de João Paulo II, a comunhão eclesial, embora possua sempre uma dimensão universal, encontra a sua expressão mais imediata e visível na paróquia: esta é a última localização da Igreja; é, em certo sentido, a própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas (Christifideles Laici, 26).
Não são as normas do Direito Canónico que podem, só por si, responder à pergunta do citado colóquio. O padre João Castelhano, um dos seus impulsionadores e pároco de S. José, em Coimbra, insiste em não privilegiar o “como” da transmissão da fé, embora destaque as potencialidades do bom uso dos novos meios de comunicação. A presença das paróquias portuguesas na Internet mostra que os responsáveis estão abertos e atentos a novas formas de evangelização. Mas a pergunta fundamental é outra: porquê evangelizar? Que pode isso significar e exigir, hoje?
A sociedade portuguesa mudou e a população já não está organizada em torno do campanário. O que antigamente era uma diocese cabe, agora, em metade de uma paróquia urbana. No entanto, é sempre uma aventura arriscada mexer nos serviços médicos, jurídicos ou religiosos. A eliminação ou criação de paróquias exige uma reestruturação que nem sempre é pacífica. Por outro lado, como sublinhou o pároco de Santa Cruz, importa respeitar a liberdade de os católicos escolherem o local onde cultivam a fé e onde melhor se sentem, seja na sua área de residência, num movimento ou na sua paróquia afectiva. As preocupações com o papel da paróquia levam certos párocos e serviços paroquiais a proceder como se fossem donos da prática religiosa dos católicos.
3. Para sossegar a consciência, destaca-se que a falta crescente de padres pode ser uma boa oportunidade para vencer o clericalismo e promover o papel dos leigos no apostolado e nos serviços paroquiais: muito daquilo que ocupa os padres pode e deve ser realizado por leigos. Que Deus possa escrever direito por linhas tortas é uma sabedoria portuguesa que Bernanos descobriu no Brasil. Não devemos, no entanto, exigir ao Espírito Santo esforços suplementares para aquilo que compete aos seres humanos.
Repete-se que há falta de vocações. Não acredito. Se a vocação é dom de Deus, não se esgota facilmente. Deveríamos olhar mais para o tabu que impede caminhos de solução. Por que não reintegrar aqueles padres que tiveram de abandonar o ministério presbiteral e que estão em condições de prestarem serviços relevantes para os quais foram preparados? Por que razão não chamar, ao presbiterado, homens casados que manifestam grande capacidade de serviço na Igreja? E as mulheres? Será que, por serem mulheres, Cristo não as quer ver a presidir à Eucaristia? Precisamente Ele que, segundo os Evangelhos, lhes deu com amizade o papel de comunicar, aos apóstolos, o Evangelho da Ressurreição? Se Deus criou o ser humano à Sua imagem, homem e mulher, seria ridículo atribuir a Deus uma mentalidade patriarcal. Criar um deus à imagem do masculino é criar um ídolo. O sujeito masculino não tem mais aptidão para ser chamado à presidência da Eucaristia do que o sujeito feminino.
Ninguém, na Igreja, homem ou mulher, tem direito a ser padre ou bispo. Uma pessoa baptizada pode ser chamada a servir a comunidade através do ministério ordenado.
1.Qualquer padre católico ou bispo subscreve este título. São os meios de comunicação social que tendem a tomar a parte pelo todo. A Igreja Católica não pode falar sempre a uma só voz porque é uma unidade plural. Poder-se-á, no entanto, perguntar, a que propósito vem este título?
Reuniu-se, em Fátima (6-7/02/2009), o X Colóquio Nacional de Paróquias com o tema: “Porquê transmitir a fé – seduzidos por Deus – fascinados pelo Evangelho?” Desta interrogação não transitou muito para a opinião pública. A atenção fixou-se em números: a Igreja Católica tem, em Portugal, 4 400 paróquias. Destas, 1 100 não têm pároco residente. Segundo as previsões mais coerentes – se não houver mudanças radicais de orientação –, estes números só podem piorar.
É evidente que a deslocação dos padres para acudir às paróquias está mais facilitada. Mas o carro, o telemóvel e o correio electrónico não resolvem tudo. A questão de fundo pode ser formulada da seguinte maneira: a hierarquia católica dá grande importância à celebração dominical da Eucaristia e à qual os fiéis têm direito. Não toma, porém, as medidas necessárias para dispor de pessoas habilitadas a presidir à assembleia eucarística com tudo o que esta supõe e implica. Ao não permitir a ordenação de homens casados nem de mulheres – sejam elas solteiras ou casadas –, o futuro é preocupante.
2. Segundo o Direito Canónico, a paróquia é uma certa comunidade de fiéis, constituída estavelmente na Igreja particular, cuja cura pastoral, sob a autoridade do bispo diocesano, está confiada ao pároco, como a seu pastor próprio (Cân. 515 § 1º). A paróquia, em regra geral, seja territorial e englobe todos os fiéis de um território certo; onde porém for conveniente, constituam-se paróquias pessoais, determinadas por razão do rito, da língua, da nação dos fiéis de algum território, ou até por outra razão (Cân. 518). No magistério de João Paulo II, a comunhão eclesial, embora possua sempre uma dimensão universal, encontra a sua expressão mais imediata e visível na paróquia: esta é a última localização da Igreja; é, em certo sentido, a própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas (Christifideles Laici, 26).
Não são as normas do Direito Canónico que podem, só por si, responder à pergunta do citado colóquio. O padre João Castelhano, um dos seus impulsionadores e pároco de S. José, em Coimbra, insiste em não privilegiar o “como” da transmissão da fé, embora destaque as potencialidades do bom uso dos novos meios de comunicação. A presença das paróquias portuguesas na Internet mostra que os responsáveis estão abertos e atentos a novas formas de evangelização. Mas a pergunta fundamental é outra: porquê evangelizar? Que pode isso significar e exigir, hoje?
A sociedade portuguesa mudou e a população já não está organizada em torno do campanário. O que antigamente era uma diocese cabe, agora, em metade de uma paróquia urbana. No entanto, é sempre uma aventura arriscada mexer nos serviços médicos, jurídicos ou religiosos. A eliminação ou criação de paróquias exige uma reestruturação que nem sempre é pacífica. Por outro lado, como sublinhou o pároco de Santa Cruz, importa respeitar a liberdade de os católicos escolherem o local onde cultivam a fé e onde melhor se sentem, seja na sua área de residência, num movimento ou na sua paróquia afectiva. As preocupações com o papel da paróquia levam certos párocos e serviços paroquiais a proceder como se fossem donos da prática religiosa dos católicos.
3. Para sossegar a consciência, destaca-se que a falta crescente de padres pode ser uma boa oportunidade para vencer o clericalismo e promover o papel dos leigos no apostolado e nos serviços paroquiais: muito daquilo que ocupa os padres pode e deve ser realizado por leigos. Que Deus possa escrever direito por linhas tortas é uma sabedoria portuguesa que Bernanos descobriu no Brasil. Não devemos, no entanto, exigir ao Espírito Santo esforços suplementares para aquilo que compete aos seres humanos.
Repete-se que há falta de vocações. Não acredito. Se a vocação é dom de Deus, não se esgota facilmente. Deveríamos olhar mais para o tabu que impede caminhos de solução. Por que não reintegrar aqueles padres que tiveram de abandonar o ministério presbiteral e que estão em condições de prestarem serviços relevantes para os quais foram preparados? Por que razão não chamar, ao presbiterado, homens casados que manifestam grande capacidade de serviço na Igreja? E as mulheres? Será que, por serem mulheres, Cristo não as quer ver a presidir à Eucaristia? Precisamente Ele que, segundo os Evangelhos, lhes deu com amizade o papel de comunicar, aos apóstolos, o Evangelho da Ressurreição? Se Deus criou o ser humano à Sua imagem, homem e mulher, seria ridículo atribuir a Deus uma mentalidade patriarcal. Criar um deus à imagem do masculino é criar um ídolo. O sujeito masculino não tem mais aptidão para ser chamado à presidência da Eucaristia do que o sujeito feminino.
Ninguém, na Igreja, homem ou mulher, tem direito a ser padre ou bispo. Uma pessoa baptizada pode ser chamada a servir a comunidade através do ministério ordenado.
Mística tem Universidade em Ávila

Num edifício em forma de estrela, arrancou formalmente ontem, em Ávila, Espanha, a Universidade da Mística, uma iniciativa da fundação CITeS (Centro Internacional Teresiano Sanjuanista). Centrada nas figuras dos místicos Santa Teresa e S. Juan da Cruz, a Universidade conferirá doutoramento, cursos de verão, formações especialidzadas, espaços para investigação a interessados da mística oriundos de Espanha e de outras partes do mundo.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
ilumino-a
Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em enxame
Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome
Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela
E ilumino-a
Daniel Faria
homens que são como lugares mal situados
Para a memória de um encontro (2)

José Manuel Vidal, jornalista que trata a informação religiosa no "El Mundo" e dirige o site www.religiondigital.com, esteve no encontro sobre as religiões nos media, em Lisboa. De regresso a Madrid, deixou as suas impressões num dos blogues do site. O texto pode ler-se aqui, em bom galego. Na foto, José Manuel Vidal e Manuel Vilas Boas, que moderou o debate da tarde.
Bento XVI e Obama
No seu texto deste sábado no DN, Anselmo Borges retoma a polémica provocada pelo bispo negacionista Richard Williamson. Aqui, num post de 30 de Janeiro, está a tradução para português do texto de Hans Küng a que se refere Anselmo Borges. Já agora, sobre o texto de Hans Küng, sempre acrescento que não acredito tanto num Papa que tomasse sozinho e instantaneamente todas as decisões de reforma disciplinar e moral; acredito mais em processos de consciência; por isso me parece que Anselmo Borges tem mais razão ao acentuar a ideia de um Concílio Ecuménico. A seguir, o texto de Anselmo Borges:
Já uma vez aqui referi que há anos, na Suíça, fui a Ecône visitar o Seminário da Fraternidade S. Pio X, fundado pelo arcebispo dissidente Marcel Lefebvre. Após uma longa conversa com um padre, aliás simpático, da Fraternidade, tornou-se claro para mim que o problema era muito mais complicado do que propriamente a Missa em latim. O núcleo da questão era o Concílio Vaticano II e a revolução operada em problemáticas fundamentais, como a liberdade religiosa, os direitos humanos, o ecumenismo, o diálogo inter-religioso. Os recentes acontecimentos vieram confirmar essa minha convicção.
Em 1988, Lefebvre tinha sido objecto de excomunhão pelo Papa João Paulo II por ter ordenado, sem autorização da Santa Sé, quatro bispos, também eles automaticamente excomungados.
Numa estratégia de cedências, o Papa Bento XVI foi dando passos de aproximação à Fraternidade. Assim, logo em 2005, recebeu o líder, bispo Bernard Fellay. Em 2007, autorizou a celebração da Missa em latim segundo o rito tridentino. Tudo culminou com a assinatura do decreto de reintegração dos quatro bispos na Igreja, divulgado no essencial no dia 21 de Janeiro e publicado no dia 24.
Quando se pensava que se chegaria ao termo do cisma, rebentou a bomba. As declarações do bispo Richard Williamson em entrevista à televisão pública sueca, negando o Holocausto, provocaram, como não podia deixar de ser, um terramoto: "Creio que não houve câmaras de gás. Penso que 200 a 300 mil judeus pereceram nos campos de concentração, mas nem um só nas câmaras de gás", que serviriam apenas para desinfecção.
Ergueram-se protestos veementes de bispos e cardeais, de judeus também e ao mais alto nível, podendo ficar em causa a própria visita anunciada de Bento XVI a Israel. A chanceler alemã, Angela Merkel, interveio, exigindo explicações. O próprio Papa, por desejo expresso da chanceler, telefonou-lhe, pronunciando-se com toda a clareza contra o negacionismo.
Mas os estragos estavam feitos. Só a título de exemplo: segundo uma sondagem do Emnid, 67% dos católicos alemães pensam que o Papa alemão causou danos à imagem da Igreja, pedindo 56%, entre eles o presidente da Conferência Episcopal, R. Zöllitsch, que Williamson, que ainda se não retractou, volte a ser excomungado. Teme-se que muitos católicos na Alemanha abandonem a Igreja Católica. Perante o escândalo, há quem ponha em dúvida a autoridade moral do Papa para a continuação na direcção da Igreja.
Afinal, para lá dos erros de gestão na condução do processo, reconhecidos pelo Vaticano, o nervo da questão foi a atitude tíbia e dúbia na exigência aos integristas do reconhecimento pleno do Concílio Vaticano II. Note-se a coincidência de datas, quando se pensa que precisamente no dia 25 de Janeiro se celebrava o cinquentenário do anúncio por João XXIII da convocação de um Concílio ecuménico, precisamente o Vaticano II. Afinal, qual é o lugar primeiro da comunhão na Igreja: a obediência formal ao Papa ou o respeito real pela História e a memória das vítimas, pelos direitos humanos, pela liberdade religiosa, pelo diálogo inter-religioso?
Talvez mal aconselhado ou porque a Cúria lhe sonegou informação, Bento XVI acabou, de qualquer forma, por provocar um incêndio que contribui para maior descredibilização da Igreja.
Neste contexto, o teólogo Hans Küng, pensando em Obama que, após Bush, abriu os Estados Unidos e o mundo a uma nova esperança, reconhece que na Igreja Católica as coisas são diferentes, "vendo muitos o Papa Bento XVI como outro Bush".
Ora, o que faria um Papa, se agisse com o espírito de Obama, pergunta Küng? Afirmaria que a Igreja se encontra numa "crise profunda". Avançaria com uma nova esperança para uma Igreja renovada, com um ecumenismo revitalizado, diálogo com as religiões mundiais, uma avaliação positiva da ciência moderna. Rodear-se-ia dos mais competentes, mentes independentes, e não de yes-men. Iniciaria imediatamente por decreto as medidas reformadoras mais importantes e "convocaria um Concílio Ecuménico para promover uma mudança de rumo".
Já uma vez aqui referi que há anos, na Suíça, fui a Ecône visitar o Seminário da Fraternidade S. Pio X, fundado pelo arcebispo dissidente Marcel Lefebvre. Após uma longa conversa com um padre, aliás simpático, da Fraternidade, tornou-se claro para mim que o problema era muito mais complicado do que propriamente a Missa em latim. O núcleo da questão era o Concílio Vaticano II e a revolução operada em problemáticas fundamentais, como a liberdade religiosa, os direitos humanos, o ecumenismo, o diálogo inter-religioso. Os recentes acontecimentos vieram confirmar essa minha convicção.
Em 1988, Lefebvre tinha sido objecto de excomunhão pelo Papa João Paulo II por ter ordenado, sem autorização da Santa Sé, quatro bispos, também eles automaticamente excomungados.
Numa estratégia de cedências, o Papa Bento XVI foi dando passos de aproximação à Fraternidade. Assim, logo em 2005, recebeu o líder, bispo Bernard Fellay. Em 2007, autorizou a celebração da Missa em latim segundo o rito tridentino. Tudo culminou com a assinatura do decreto de reintegração dos quatro bispos na Igreja, divulgado no essencial no dia 21 de Janeiro e publicado no dia 24.
Quando se pensava que se chegaria ao termo do cisma, rebentou a bomba. As declarações do bispo Richard Williamson em entrevista à televisão pública sueca, negando o Holocausto, provocaram, como não podia deixar de ser, um terramoto: "Creio que não houve câmaras de gás. Penso que 200 a 300 mil judeus pereceram nos campos de concentração, mas nem um só nas câmaras de gás", que serviriam apenas para desinfecção.
Ergueram-se protestos veementes de bispos e cardeais, de judeus também e ao mais alto nível, podendo ficar em causa a própria visita anunciada de Bento XVI a Israel. A chanceler alemã, Angela Merkel, interveio, exigindo explicações. O próprio Papa, por desejo expresso da chanceler, telefonou-lhe, pronunciando-se com toda a clareza contra o negacionismo.
Mas os estragos estavam feitos. Só a título de exemplo: segundo uma sondagem do Emnid, 67% dos católicos alemães pensam que o Papa alemão causou danos à imagem da Igreja, pedindo 56%, entre eles o presidente da Conferência Episcopal, R. Zöllitsch, que Williamson, que ainda se não retractou, volte a ser excomungado. Teme-se que muitos católicos na Alemanha abandonem a Igreja Católica. Perante o escândalo, há quem ponha em dúvida a autoridade moral do Papa para a continuação na direcção da Igreja.
Afinal, para lá dos erros de gestão na condução do processo, reconhecidos pelo Vaticano, o nervo da questão foi a atitude tíbia e dúbia na exigência aos integristas do reconhecimento pleno do Concílio Vaticano II. Note-se a coincidência de datas, quando se pensa que precisamente no dia 25 de Janeiro se celebrava o cinquentenário do anúncio por João XXIII da convocação de um Concílio ecuménico, precisamente o Vaticano II. Afinal, qual é o lugar primeiro da comunhão na Igreja: a obediência formal ao Papa ou o respeito real pela História e a memória das vítimas, pelos direitos humanos, pela liberdade religiosa, pelo diálogo inter-religioso?
Talvez mal aconselhado ou porque a Cúria lhe sonegou informação, Bento XVI acabou, de qualquer forma, por provocar um incêndio que contribui para maior descredibilização da Igreja.
Neste contexto, o teólogo Hans Küng, pensando em Obama que, após Bush, abriu os Estados Unidos e o mundo a uma nova esperança, reconhece que na Igreja Católica as coisas são diferentes, "vendo muitos o Papa Bento XVI como outro Bush".
Ora, o que faria um Papa, se agisse com o espírito de Obama, pergunta Küng? Afirmaria que a Igreja se encontra numa "crise profunda". Avançaria com uma nova esperança para uma Igreja renovada, com um ecumenismo revitalizado, diálogo com as religiões mundiais, uma avaliação positiva da ciência moderna. Rodear-se-ia dos mais competentes, mentes independentes, e não de yes-men. Iniciaria imediatamente por decreto as medidas reformadoras mais importantes e "convocaria um Concílio Ecuménico para promover uma mudança de rumo".
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Para a memória de um encontro
Duas fotos que registam diferentes momentos do debate sobre as religiões nos media: na na de cima (painel da tarde), vêem-se José Manuel Vidal (El Mundo), Manuel Vilas Boas (TSF, a moderar), Raquel Abecasis (Rádio Renascença), Miguel Gaspar (Público) e António José Teixeira). Em baixo (painel da manhã), estão António Marujo (Público, no papel de moderador), José António Santos (Lusa), Manuel Pinto (Universidade do Minho) e Jorge Wemans (RTP 2); As fotos são da autoria de Tony Neves.
Evocação de Lucien Deiss no Estoril
Uma evocação do compositor Lucien Deiss decorre no próximo dia 15, domingo, no Estoril. Alfredo Teixeira traça aqui o retrato de um compositor que marcou a música litúrgica e religiosa da segunda metade do século XX e que morreu em 2007. O programa inclui a peça Anunciação, de José Tolentino Mendonça e Alfredo Teixeira. Aqui, podem ler-se outras notas biográficas e, no final, está a ligação para alguns excertos da obra daquele que definia o trabalho de compositor como o daquele que quer "vestir as palavras de Deus com a beleza da terra".
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